domingo, 5 de maio de 2019

Temas Poéticos: MÃE - XVIII




A MÃE E O FILHO MORTO

BULHÃO PATO

A pobre da mãe cuidava
Que o filhinho inda vivia,
E nos braços o apertava!
O coração que batia
Era o dela, e não do filho
Que lá do sono da morte
Havia instante dormia.

Olhei e fiquei absorto
Na dor daquela mulher
Que tinha, sem o saber,
Nos braços o filho morto!
Rezava, e do fundo d'alma!
E enquanto a infeliz rezava
O pobre infante esfriava!

Quando gelado o sentira,
O grito que ela soltou,
Meu Deus! —que dor expressou!

Pensei então: — A mulher
Para alcançar o perdão
De quantos crimes tiver,
Na fervorosa oração
Basta que possa dizer:
— Tive um filhinho. Senhor.
E o filho do meu amor
Nos braços o vi morrer!?

 ***

MEU FILHO

ANNA AMÉLIA CARNEIRO
(1932)

Tomo entre as minhas mãos tua cabeça,
filho querido, e esqueço tudo mais.
Quem há que não esqueça
a vida, as coisas vãs, convencionais,
tendo entre as duas mãos a cabeça querida
de um filho que nasceu da nossa vida?
Corro os olhos, e penso na grandeza
que esse pequeno cérebro resume:
espírito em botão, que hoje presume
ser o centro de toda a vida humana,
de toda ã natureza.
Que para lhe sorrir de flores se engalana,
uma cabeça de criança,
que encontra a providência
como um deus tutelar no carinho dos pais,
e cuja enorme ciência
é contar até dez e dizer as vogais.
Dentro em pouco, porém, esta cabeça frágil,
que começa a reter as imagens e as cores,
será como um vulcão de pensamentos vário,
vibrará no esplendor de auroras interiores,
conhecerá sonho e dores,
abrangerá, sutil, indefinível, ágil,
todas as sensações em surtos tumultuários.
............................................................................
Só quem é mãe pode saber esta emoção
íntima e original,
de sentir entre as mãos, no ser que acaricia
o fruto do seu ser, hoje aurora e poesia,
que há de ser algum dia,
vida em plena eclosão,
uma força a vibrar na vida universal.
............................................................................
E eu sonho, e acaricio o teu cabelo fino.
Em êxtase profundo,
sentindo ter nas mãos, num globo pequeno,
a síntese do mundo.

 ***

MINHA MÃE

GUILHERME DE ALMEIDA
(Tradução)

Se eu fosse enforcado no mais alto morro,
eu sei que um amor me viria em socorro;

se eu fosse afogado no mar mais profundo,
eu sei que uma lágrima iria até o fundo;

se eu fosse maldito de corpo e alma, um dia,
eu sei que uma prece me redimiria.

Tu,minha mãe! Ó tu, minha mãe!

***

O AMOR DE MÃE É DIFERENTE DE OUTRO AMOR

ALZIRA BITTENCOURT
(1958)

Como é humilde e manso o amor de mãe!
E como é diferente de outro amor.
Senti-lo é aspirar eternamente,
O suavíssimo perfume de uma flor!

Há tal ternura e tal delicadeza,
É todo feito de clemência e de perdão,
Um misto de inocência e de pureza,
Amor-angelical! Amor-beleza!
Amor que é perfeição.

É um amor silencioso e concentrado!
Tem mais doçuras que outros amores não tem,
Tem a magia desses sons velados
Dos divinais Noturnos de Chopin...

 ***

MINHA MÃE

ADEMAR TAVARES
(1958)

Era Maria, minha mãe, e tinha
A santidade que esse nome encerra.
Viveu, — nada pesando sobre a terra
Morreu, — como num voo de andorinha.

Quando a sombra da noite se avizinha
E o mistério dos seres descerra,
Fica um resto de poente sobre a serra,
Tal como a tênue vida que a sustinha...

Minha mãe foi um sonho de inocência,
Foi a bondade que se fez essência,
E o sofrimento que se fez perdão.

E Deus quando a levou ao seio amigo,
Vi uma estrela abrir no seu jazigo.
E asas brancas cobrirem eu caixão...

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