domingo, 30 de junho de 2019

A Bizantina (Conto), de Henrique de Vasconcelos



A Bizantina
(A Luiz Ferreira de Castro)

No café, diante do cocktail vulgar, eu esperava um amigo. Fora mais cedo para a entrevista, de maneira que antes da hora lera os jornais, folheara as revistas, olhara para o relógio, consultara até o barômetro, interessado. Iam saindo os clientes, aos poucos. Conforme se levantavam das mesas, o criado, num crac apagava a lâmpada elétrica. Eu ficara já, num canto, quase na meia luz. No fundo da sala as lâmpadas faiscavam nos espelhos, tilintavam os pratos, as discussões cruzavam-se.
Esperava em vão... Comecei a cear.
Daí a pouco um rapaz veio sentar-se ao pé de mim. Conhecia-o de o ver nos cafés noturnos, quase sempre em companhia de mulheres fáceis, estardalhando, contando façanhas de orgias nas vadrouiles de Montmartre; de quando em quando, como numa expansão, falava de um quadro que entrevira num museu, alguma luminosa festa da Renascença, um nu veneziano, ou preciosas figurinhas dos primitivos, simples e mal desenhadas, entre brocados de ouro.
Mas nunca me ligara, correndo a minha vida noutra direção. Nessa noite, admirei-me de ele deixar a bulhenta sociedade que sabrait le champagne, para se acolher ao silêncio, à quase obscuridade.
A princípio bebeu a pequenos goles o Bucelas que mandou buscar. Tinha o ar de quem hesita em praticar um ato, o recolhimento súbito de um gesto esboçado, ensimesmava-se, enchia novamente o copo, lia atentamente o rótulo da garrafa.
Por fim debruçou-se para a minha mesa:
— O senhor gosta de coisas exóticas, das mulheres finamente perversas, do brilho das podridões...
— Ó, não! Apenas do faisandé!...
— É uma questão de palavras... Tudo o que é ambíguo, perturbante, insexual, tenta-o; compraz-se no esmiuçamento das taras, é o cronista do irregular, do à coté. Prefere as monstruosas orquídeas às rosas, o enigma dos Vincis, à beleza forte dos Rubens. Deixa-me contar-lhe uma história?
Por certo que a minha fisionomia traiu o receio da maçada eminente. Toda a gente imagina que a sua vida é um "motivo" interessante para um livro. E eu tenho deixado cair, como folhas secas, tantos casos que me contam, compridamente, com meandros de detalhes!
— O senhor tem o dever de me ouvir e não se arrependerá! O senhor é um psicólogo...
— Não faço profissão...
— Não importa. Tem obrigação.
— Nesse caso...
Resignei-me.
O noctâmbulo começou a contar. Tinha a linguagem pitoresca, imageada, parecia comprazer-se com a sua frase. Notei-lhe grande copia de estrangeirismos. Mas o caso pareceu-me interessante. Aqui o deixo registrado.
— Compreende que eu, fetard cansado, que tenho visto museus entre duas ceias no Maxim ou no Carlton, que aprecio mais o tea-room do Grand Hotel, de Roma, que o Salon Carré do Louvre ou a sala de Velásquez, no Prado, só lhe poderei falar da mulher ou do amor. E das mulheres que tenho conhecido, um pouco por todo o mundo, daquelas que têm ficado com um pouco da minha mocidade entre os dentes brancos ou os dedos esguios, só me recordo da última, que é a melhor e a pio, a que faz rir e soluçar, curva-nos numa sonolência em que nos aparece muito mais bela do que é realmente, cingida com todas as joias com que a nossa fantasia a enfeita, mais cruel também, porque o amor torna mais cruciante as dores, intensifica o desespero, cria a alucinação da mágoa, inventa a quimera da tortura, essa quimera de afiadas garras que nos retalham... Estou muito eloquente. Faça-me sinal, quando lhe parecer Cícero...
Imagine que conheci, numa pequena cidade italiana onde me fora curar de uma paixoneta recente, uma criatura singular, cujo encanto me prendeu quase de súbito. Era uma figura de bizantina, atavismo talvez, influência das pinturas de Ravena, onde passara a mocidade. E, artista, cultivava essa feição, arranjava penteados hieráticos, sem complicadas e rutilantes gemas, que o cofre do pai, mediscatro qualquer, não era abundante, mas com flores, essas rosas vermelhas de Pæstum, que ela própria cultivava, amorosamente, no pequeno jardim de sua casa. O que tinha de bizantina realmente, era a boca fresca, a boca inocente que sorria apenas, numa candura de primeira comungante, uma boca que deixava em nós a impressão de que era um serafim a sorrir. E não apetecia beijá-la: apenas quedar-se a gente diante dela à espera que nascesse a claridade auroral do sorriso, em que mostrava levemente o traço branco dos pequeninos dentes. Mas os olhos escuros desmentiam toda a infantilidade da boca, o aspecto angelical do seu corpo magro de adolescente, o colo branco e puríssimo. Os olhos brilhavam como num assalto, a ferir, sem ternura, no fundo uma repulsão ou um escárnio...
Essa mulher tentou-me. Largos meses fui todos os dias à sua casa onde me recebeu com palavras dulcíssimas. Estendia-me a mão deliciosa para beijar, dizia-me frases que entonteciam como um vinho áspero, fazia passar por mim o perfume forte que punha nos longos cabelos, que às vezes caíam pesadamente da cabeça, estendiam-se pelas costas, como uma rosa que se desfolha, de uma vez, da haste. Às vezes furtivamente, apertava-me a mão com força. E sorria-se ingenuamente a face de perola, eu via a inocência de toda aquela figura, porque ela fechava os olhos, como se todo o seu ser adormecesse num espasmo.
Ao sair, tinha remorsos de não ter beijado a boca fresquíssima, de não ter, sob a pressão dos meus lábios, magoado os olhos maus.
E toda a noite soluçava, enraivecido a desejá-la, até que de tarde ia visitá-la, encontrava-a estendida, numa atitude de imperatriz, bizantina, em sedas moirées, toda a gama do verde e do lilás, a garganta descoberta. E num gesto estudado, estendia-me a mão, que eu beijava longamente, essa mão em que as gemas não brilhavam: escuras, opacas, pedras finas, opalas, como gotas de água de um lago envenenado.
E a cena repetia-se. Eram perturbadores oaristos, que deixavam os nervos tensos e vibrantes. Na voz amortecida e doce, dizia as palavras mágicas que acendem fogachos. E quando ela via toda a minha Alma arremessada para ela, tinha o fechar de olhos, abria o sorriso celeste, e eu fugia com medo de mim e com medo dela. Como? Uma criança ingênua! Era preciso fugir!
Um dia tive que partir.
Tinha, na pequena cidade, perdido largos meses. Fui a uma última entrevista, chorei como uma criança ao dizer-lhe a mágoa imensa de a deixar. Contei-lhe toda a tortura daquele tempo de infinita delicia e infinita tortura; pela primeira vez disse-lhe claramente, entre lágrimas tristes, quanto amara todo o seu ser, todo o seu corpo flexível, todo o seu espírito cansado, mas mesmo assim brilhante. Que me dissesse uma palavra de esperança, que me deixasse levar uma harmonia divina, uma palavra de amor!
Teve uma frase, apenas, com uma expressão de imenso sentimento:
— E não trouxe um fonógrafo!


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Pesquisa, transcrição e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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