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6/30/2019

Chiara Lilian (Conto), de Henrique de Vasconcelos




(A Vicente de Aarnoso)


Barcelona e o seu porto com incendiados espelhamentos de sol nas águas que se agitam em pequenas ondas, águas-fortes de mastros a distância, toda a geometria do horizonte cinzento cortado pelos perfis dos vapores! Há dorsos vermelhos de navios, nodoas negras das barcaças de carvão, até a florescência de um yacht que emerge entre a poeira negra da fumaraça, e os fardos, e as pipas, como uma delgada flor de prata...
Para além da cinta da doca, ao rês do mar, o céu toma tons brancos que se esbatem e degradam na ascensão, acentuando-se na cúpula um azul fino. E os vapores passam, pequeninos, carregados de vagas multidões para Barcelonete.
Para além da formidável estátua de Colombo, as Ramblas sacodem os ramos verdes dos plátanos e o Tibidabo recorta-se, escalvado.
— É amanhã o vapor para Malorca, informam-me.
Volto para trás, deixando o ruído dos guindastes e das sereias, a bulha dos catraieiros e descarregadores, para entrar noutro bulício tão grande, o zumbido dos milhares de bocas que cruzam a Rambla, as campainhadas dos transvias, a buzina dos automóveis, com gritos diversos, pragas, pregões, injúrias guturais dos catalães furiosos.
Sentira desejos de ver Palma de Malorca em que me falara Teixeira Gomes, as suas igrejas caladas, os seus palácios antigos. Por ele sabia que a cidade conservara-se imóvel, típica, como no princípio do século XIX. E a sua conversa luminosa e pitoresca acirrara-me o desejo de visitar uma terra que, na convulsa marcha do século industrial, imobilizara-se nos seus antigos sonhos de pedra.
Aborrecera-me já Barcelona, comercial, trabalhadora, respirando pelas mil bocas das suas chaminés; parecia que a alma da cidade andava triturada pelos poderosos engenhos das suas fabricas. Vira os seus teatros, os seus museus, Santa Maria de la Mar perdida entre o casario; mas em toda a parte o comercio abria ruas, estendia fazendas, cruzavam-se os camions.
Ah! Salamanca parada e quieta, a morrer numa agonia de ouro! As saudades que tive da paz das suas ruas bordadas de igrejas e de palácios, das catedrais suntuosas e desertas, das pequeninas paróquias, onde se descobrem ainda, através dos vandalismos, curvas de arcos românicos, flores de capitéis graciosos; de Santo Estevão e o seu claustro que a hera invadiu, do balneário, antigo claustro de convento e do Monterrey maravilhoso, da Universidade quase sem estudantes!
Aborrecia-me Barcelona, toda entre árvores, Barcelona e o soturno Monjuich com a lenda dos suplícios dos anarquistas.
Ainda um dia! Era preciso depois de jantar subir à Gran Via e ir ao tumultuoso café ouvir a gritaria ensurdecedora, passear pelas Ramblas entre uma multidão compacta que espairece, ver as caras angustiosas dos operários, sempre na véspera de uma revolta, e os pobres que nos perseguem pela esmola, e as raparigas sujas, enrugadas, que se oferecem, num xale roto.
Ao entrar no "Paseo de la Aduana" para esperar um transvia que me levasse ao Parque, vi passar numa carruagem, fresca, toda vestida de branco, como um ramo de goivos brancos, Chiara Lilian, a cantora italiana que meses antes conhecera em Genebra, no Kursaal, e com quem passeara no Leman, pelas tardes quietas de agosto e pelas noites de luar, ouvindo-a cantar, não as operas transcendentes com que regalava os suíços e ingleses, mas ligeiras canções napolitanas, que tomavam na sua boca uma voluptuosidade mais fina e adormeciam, envenenando-as, as nossas Almas.
Ah! Chiara Lilian! As tardes límpidas e serenas em que vimos a paisagem doce, fecunda, do cantão de Genebra, no vapor da carreira, alheados das inglesas de Cook, de dentes monumentais e canotiers ridículos! E as noites frias, em que deixávamos o Kursaal e os petits chevaux e íamos, costeando o cais iluminado, num pequeno bote que o ruivo barqueiro conduzia serenamente, respirar a delicia do luar pastoso, que parecia ter em si um pouco da neve do Monte Branco!
Lord Carnehan, o seu amante, acompanhava-nos. A tristeza da sua face, de todo o seu corpo cansado! Parecia ter sentido, aquele rapaz de trinta anos, todo o travo da vida, visto desfolhar-se, uma a uma, todas as ilusões, as ambições murchar, como quem assistisse ao incêndio de todos os seus haveres e dos próprios castelos no ar que a sua mente criara.
Nem alcoólico, nem eterômano, abominando a morfina e a cocaína, tomando uma leve taça de café, apenas, resignara-se na vida, "deixava-se morrer", dizia.
Andava com Chiara, porque era preciso ter uma amante, como uma ecurie, um palácio em Londres, um castelo na Escócia e uma vila na Riviera, decorada por Burne Jones.
Chiara Lilian era a sua vontade. Ia para onde ela quisesse, para fazer alguma coisa e não ficar, no hall do Metrópole Hotel, de olhos pasmados para os decotes largos das ladies, que liam jornais.
Mas nenhum amor, nem mesmo sabia, talvez, se era macia a pele da cantora. E assim viviam, ela feliz pela liberdade, risonha como um galho d'eglantines, ele, com uma razão de viver: acompanhar Chiara.
Chiara, que viu o meu cumprimento, mandou-me subir para o trem.
— Venha comigo ao parque... se não tem melhor...
— Ia justamente para lá aborrecer-me...
— Então venho a propósito...
Perguntei-lhe por lord Carnehan.
— Ó meu Deus! Lord Carnehan tornou-se para mim uma obsessão. Era como um vidro negro que me punham nos olhos para eu ver a vida. Nada me parecia claro, luminoso, florido. Julgava olhar sempre para dentro de um poço seco. Essa criatura estragou-me alguns meses de existência. A princípio ainda eu ria, pelo movimento adquirido. Mais tarde, porém, o riso desapareceu. Sempre aquele sonolento homem que só abria a boca para perguntar pelas horas, como se tivesse pressa de alguma coisa, ele que não fazia nada, ou para dizer alguma sentença, um aforismo de Schopenhauer ou de alguns dos fulminantes católicos, à maneira espanhola, sombrios, repulsivos. Comecei a olhar para o espelho, a ver se sabia rir. Não sabia. Vinha uma careta ao contrair a boca; parecia-me de pedra os lábios, ao querer abri-los num sorriso. Quis mortificá-lo, fazer com que, atrás de mim, os amorosos corressem; empreguei, ante os seus olhos pardos, o requinte do coquetismo; mostrei todo o artifício de mulher e de atriz. Nada. Sempre lord Carnehan indiferente, a cabeça sobre o peito, as mãos pendidas, a perguntar-me periodicamente: — Que horas são? De quando em quando, sem lhe dizer aonde ia, deixava-o todo o dia; às vezes, aborrecida, nem ia à rua. Ficava no meu quarto, as lágrimas nos olhos, a ver o movimento dos bateaux-mouches a atravessar o Leman; os raros automóveis que passavam pela rua e alguns ranchos de forasteiros arregimentados pelas agências. Arrastava-se o tempo; defronte de mim, o lago que à esquerda se curva, límpido, transparente. Na outra margem, o parque Jean Jacques, alinhado e limpo, como um desenho do concurso. E era ali, à direita, a árvore que dera sombra, na tarde criminosa, em que o anarquista matara a Imperatriz Isabel. Pensava no fim trágico que ali procurara, sob um pequeno plátano viçoso, a alma aventureira e poética, a dama de todas as viagens, que vira tantos céus ensolados e tantos mares em procela... Quando voltava, de propósito despenteada, com muito rouge na face, a fingir corada, lord Carnehan levantava com esforço os olhos para mim e perguntava-me, na voz pausada, sem um estremecimento:
— Que horas são?
Eu era o relógio, para ele! Nessa terra fria, geométrica, regular no andamento como uma máquina — a alma de Genebra é um relógio — eu não era nada mais do que um cronômetro em que se tem confiança. Um dia, furiosa, comprei um relógio e ofereci-lho. Imagina que acabou a história? Não. Comecei a fazer-lhe cenas, a dizer-lhe impropérios em calão dos bairros ínfimos de Londres — uma artista conhece tudo e o resto — frases de marujo; ele ouvia, ouvia, e depois tirava o relógio da algibeira e dizia-me:
— Por força que este relógio atrasa! Que horas são?
Quis matá-lo. Uma noite entrei no seu quarto. A lamparina envolvia tudo em penumbra. Até a dormir tinha o ar cansado. Levava uma máscara de clorofórmio... Conhece o conto de Lorrain sobre as máscaras de Londres? foi nele que me inspirei... Ia para lha por na cara e acabar com ele. Tropecei numa cadeira. Carnehan acordou sem sobressalto. Olhou para mim:
— O quê? já manhã? Que horas são?
Não! Não era possível! Pensei em atirar-me da janela abaixo. Não podia mais com a vida. O diabo é que estragava o penteado! Resolvi fugir. Fiz as malas, guardei joias e dinheiro, rompi a escritura com o empresário, perguntei por minha vez que horas eram a Carnehan — a cara que ele fez! — e meti-me num comboio e vim para a Espanha, onde há sol, há muito sol e não quero nunca saber que horas são!"
A sua face parecia uma flor de perola, e na boca fortemente pintada um sorriso brilhou...


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Pesquisa, transcrição e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

A Rainha de Sabá (Conto), de Henrique de Vasconcelos




(A Eugênio de Castro)


Balkis esperava. Entre as suntuosidades do seu palácio de Mareb, a Rainha vivia, solitária, escondida, só com a sua beleza.
Em vão os povos e os senhores, ouvindo falar da imaculada formosura acorriam dos remotos reinos onde a sua lei governava, Sabá, Marebe e Iêmen, e, defronte do palácio imenso e fechado, pediam para ver a deslumbrante adolescente. Em vão os sacerdotes quiseram ver os olhos puros. Ninguém o conseguiu.
Apenas uma velha ama a vira nua, quando menina. Era como um lírio o seu corpo.
Sete aposentos eram os da Rainha. E cada uma das sete portas uma chave de ouro fechava. E no último, a rainha vivia. Grandes espelhos de cobre mandavam-se uns aos outros, como ecos, a imagem quase divina. E Balkis, apenas vestida de joias, passava os dias na contemplação dos intactos esplendores da sua adolescência.
Entravam pela janela que abria sobre o jardim fechado e calado, os pavões brancos e os pavões policromos. Aqueles formavam, estendendo as caudas, pequenas luas macias; estes faziam fulgir constelações, doçuras de veludos, coruscantes gemas. E Balkis era mais branca do que os pavões brancos, mais brilhavam as suas cinturas e manilhas pesadas do que as caudas cintilantes.
Nas noites escuras saia ao jardim. Deixava cair entre as moitas de flores, a cintura, as manilhas, os anéis e o diadema. Soltavam-se-lhe os cabelos de ouro, que eram, no ar azul escuro, como um cometa pálido; e nua, como uma flor graciosa, dirigia-se para o tanque de mármore onde adormecera a água perfumada. Os seus pés, ao entrar no tanque, eram como um raio de lua...
Deitada no tanque, os braços abertos, as mãos à tona d'água, como dois lotos brancos, Balkis espreitava o céu onde se movia o dourado formigueiro de astros. As estrelas vinham reproduzir-se na água, como molhadas flores de ouro, em indecisos contornos; uma lhe brincava no seio, quase à flor d'água. Era como uma joia a correr, com o movimento do corpo. Às vezes, num gesto mais largo, a gema caía, para outra vez voltar, numa festa, a percorrer todo o corpo branco, que era, na água escura, polvilhado de brilhos, como um nenúfar enorme, em que se agitassem grandes abelhas fulgentes.
Depois, quieta, ouvindo somente, de quando em quando, o ruído ligeiro das flores que tombavam, murchas, na areia discreta do jardim, os braços a apoiar a cabeça, como um diadema feito de duas hastes de açucenas, a Rainha pensava.
E esperava...
Balkis esperava o noivo que havia de vir.
De todas as partes, chamados pela fama da sua beleza, dos seus tesouros ou dos seus exércitos, tinham acorrido os príncipes da Ásia. Poetas uns, avaros outros, na maior parte guerreiros, todos vinham em cavalgadas surpreendentes, cobertos de ouro e de joias. No seu trono altíssimo de ouro e prata, invisível, mas a todos vendo, a Rainha ouvia as imagens aladas que fulgem e perfumam, a descrição dos poços profundos, abarrotados de barras de ouro, de vasos de cobre, de moedas de todos os feitios, de pedrarias de todos os brilhos; diziam-lhe histórias compridas de cruentas façanhas, batalhas mortíferas em que as flechas e as espadas, a bater contra os escudos, produziam chispas de incêndio, contra os corpos, rios de sangue. Os guerreiros, com o desejo de aumentar os exércitos belicosos, aprendiam uma eloquência calorosa. Eram os que mais falavam, regozijando-se com a recordação das chacinas. Mas a um sinal da Rainha iam-se, despedidos, os poetas com as lágrimas nos olhos, as cabeças curvadas, como sobre o peso das mitras, os avaros e os guerreiros batendo com força, nos ladrilhos policromos, as sandálias ligeiras.
E Balkis voltava para o recuado aposento do seu palácio populoso. Ali, só, admirava nos espelhos a gracilidade do seu corpo esbelto e firme. Deixava cair sobre o corpo branco, como uma flor inundada de sol, o cabelo louro.
Depois de admirar toda a sua beleza, Balkis dizia-se:
— Aquele que eu amar possuir-me-á intacta, como uma flor que vive no meio de uma floresta guardada pelos Medos. Ninguém lhe aspirou o perfume, ninguém viu a cor deslumbrante, ninguém a maculou. Nesta terra cheia de sol, em que as cores não brilham, ardem, e as caçoletas não perfumam, estonteiam, eu sou branca, o sol nunca me viu. Entre os muros dourados dos meus sete aposentos, a vida é quieta e fácil!
Balkis esperava.
Os meses passavam ligeiros. No jardim fechado, as rosas desabrochavam, perfumavam e morriam. Outras vinham com igual brilho e igual frescura, enormes rosas escarlates, como bocas em que os beijos deixam feridas, do desejo intenso. Balkis conservava, no seu corpo núbil, intactos, os esplendores de uma adolescência eterna. Untava-se com óleos, alisava com pentes de ouro os seus cabelos de ouro. Vestia-se apenas com joias, joia ela mesma. E nos seus olhos azuis, largos e serenos, brilhava a mocidade.
Não a viam olhos humanos. Nenhum desejo maculou o seu corpo.
E quando Salomão, filho de Davi, que no seu palácio de Jerusalém tinha mais concubinas que de estrelas há no céu numa noite de lua, quando Salomão a veio buscar, ela entregou-se-lhe, pura, radiosa e imaculada, como uma flor crescida numa floresta insondável, cujo perfume ninguém aspirou.
Virgens, guardai para o desconhecido Amado, o vosso corpo e a vossa alma, como, se é verdade a lenda árabe, para Salomão, filho de Davi, guardou Balkis, Rainha de Sabá!


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Pesquisa, transcrição e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019

Má-língua (Conto), de Henrique de Vasconcelos



Má-língua

(A José Leite Nogueira Pinto)

Naquela mesa de bluf, era feroz a debinage... Apenas o Barros, que ganhava com uma veine espantosa, sorria beatificamente, cheio de indulgência, e para as arrojadas arremetidas dos parceiros, tinha sempre a mesma frase:
— Mais caridade, meus senhores...
Eram sempre ocasiões em que o Leite mostrava "quatro cartas" ou "street flesh."
O baile, na sala próxima, corria animado. As valsas, o pas-de-quatre e as quadrilhas marteladas ao piano, tinham concorrência. E uma ou outra que fugia do calor, para as salas de jogo, era apanhada na passagem, amarfanhada, esmiuçavam-lhe a crônica, apimentada de notas inéditas, calunias talvez.
— A Gracinda Fortes!
O conde de Marvilla teve um sobressalto. Voltou-se para trás. A Gracinda vinha com um vestido de tonkin cinzento que mostrava toda a graça frágil do seu corpo magro. O conde comentou, eriçando mais o bigode louro, cortado à inglesa:
— Um cabide para vestidos!...
— Mais caridade!...
— Ah, já sei: tem pelo menos um flash na mão... Passo!
Depois, olhando ainda a figura esbelta que saía...
— Mas ela não é uma mulher — é uma boneca de Nuremberg!... Vejam o andar articulado, mecânico... Tudo aquilo se mexe por molas! E aquela cabeça de arara a dar a dar, como se estivesse preza às espáduas por um parafuso lasso? E depois, meus amigos, ela é toda postiça... O cabelo louro pertenceu já a três cabeças... É uma mulher feita de colaboração por um cabeleireiro, um droguista e uma costureira. Tudo aquilo é sustentado por baleias e faixas, senão desabava, de lasso... Imaginam que o marido está arruinado por causa dos vestidos? Não: pelos cosméticos... À quantidade de drogas que anda por aquela pele é inconcebível. Já repararam em como se não decota nunca, completamente, que o colo é sempre coberto por uma gaze ou uma renda? É que a pele, estragada por uma ftiríases qualquer, esfarela-se. Todas as manhãs a criada de quarto tira-lhe quilos de farelos da cama. E já não pode com o serviço de maquilagem — tapar buracos, concertar rugas, pés-de-galinha, disfarçar sardas e sinais de varíola — manda chamar um trolha...
— Seu amante?
— Talvez... Para a rebocar. Para que ande, é preciso dar-lhe corda. Anda sempre da mesma maneira, às continências, cabeça para cima e para baixo, como um desses bonecos movidos por relojoarias. Imagina que aquilo é o andar rítmico das parisienses, esse andar leve e airoso como o de um pássaro... É parisiense, é: também são parisienses as macacas que nascem no Jardin des Plantes... Ainda por cima, velha. Não tem frescura nem mesmo nos olhos parados, conçados do espelho. A pele despega-se da carne e na cara faz papeiras em feitio de bambinelas. E toda aquela pintura, às chapadas, faz sombras, aumenta-lhe as papeiras...
— Tens-lhe ódio!...
— Não, tenho olhos. Não é preciso mais. Por causa dela lá me fez você um bluf sem eu dar por isso... — Conheço-a muito. Veio da província e por aí andou a mostrar ao Chiado e à Avenida as suas toilettes, como um manequim de loja de modas em furor de reclame. Ninguém a recebia, senão as casas em delírio de festas, onde a ida de um conde, dos feitos ultimamente às canastradas, enche de jubilo os amáveis donos da casa, como se diz nos jornais. Mas a sua ambição era do podre-de-chique, e não podendo supor-se com sangue azul— a mercearia do pai, ainda lá está a falsificar — imaginava-se com o chá das cinco horas nas veias... Um chá requentado como o espírito dela, estudado em velhos almanaques.
Enquanto não entrou na sociedade, vestia-se seis vezes ao dia, e nos intervalos injuriava o idiota do marido, essa bola de sebo com suíças brancas, que, atolambado, não lhe respondia que não tinha culpa de não convidarem uma amostra de cocote do Maxim para casas de famílias honestas. E era uma vida dura, atroz, naquela casa, ela de mau humor, acre, dizendo horrores na voz impertinente, sem inflexões, monocorda, e ele angustiado, sempre em cálculos diabólicos para saldar as contas monstruosas que lhe mandava o Goodefroy, dos cosméticos e postiches com que se engalanava a mulher.
A vida naquela casa! Vocês não calculam a expressão dura, injuriosa, que se estampava naquela cara agora risonha, quando recolhia, à tarde, cansada de fazer a Avenida, quase sem um chapéu a cumprimentá-la, sem meios para ter uma carruagem, olhando, gulosa, as pessoas chiques que passavam, sorrindo às saudações. E na mesa de jantar, silenciosa, apenas se ouvia o tilintar dos talheres e uma ou outra frase grosseira ao Fortes, que abanava a cabeça, todo ele se agachava, no receio, talvez, de um prato ou de um copo arremessado na fúria.
Depois das refeições, separavam-se, ele para a rua tomar ar, fugindo da perigosa vizinhança, ela a arrastar-se nos quartos, a enfeitar-se de joias, punha-as todas, enchia as mãos de anéis, rodeava a garganta magra com todos os colares, enchia os braços de pulseiras quase até o cotovelo e via-se ao espelho estudando sorrisos, gestos de comprimento para os grandes bailes a que havia de ser convidada um dia.
— Para falar desse modo é preciso ter sido éconduit...
O conde corou, encolheu os ombros:
— Às vezes não se levantava da cama em dias de chuva em que se tornava impossível fazer a parada nas ruas, troteuse à cata de olhares: vestia uma camisa de noite de que caíam valencienes e cobria a cabeça com pentes e travessas de ouro com pedras finas, e as mãos floriam-se de toda a coleção de anéis. Era ouro por toda a parte, sem falar nos dentes em que se combinavam todos os metais e todas as massas. Ouvi que se lhe podia dirigir o epigrama de Marcial: Não te rias porque só tens três dentes e esses mesmos são de buxo.
— Conheces tão intimamente?
— Pela criada do quarto... Agora, saracoteia-se, esqueleto feito manequim, arrebanhando os rapazolas inexperientes para flirts — ó só flirts! não por virtude ou amor conjugal, mas porque a ftiríases não permite o desnudamento — flirts que acabavam logo que um mais afoito falasse em beijar a pele perfumada.
— Schiu! Lá vem ela!
O conde olhou para a porta, por onde entrara, fina e flexível como haste florida, a Gracinda Fortes. A boca pequena, que o cosmético fazia sangrar, abria-se num sorriso fresco, que mostrava os dentes brancos. E de todo esse corpo magro exalava-se, como um perfume que entontece, um encanto perturbante.
E seguiu-a com os olhos, comovidamente, até que desapareceu, como um sonho...


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Pesquisa, transcrição e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

A Bizantina (Conto), de Henrique de Vasconcelos



A Bizantina
(A Luiz Ferreira de Castro)

No café, diante do cocktail vulgar, eu esperava um amigo. Fora mais cedo para a entrevista, de maneira que antes da hora lera os jornais, folheara as revistas, olhara para o relógio, consultara até o barômetro, interessado. Iam saindo os clientes, aos poucos. Conforme se levantavam das mesas, o criado, num crac apagava a lâmpada elétrica. Eu ficara já, num canto, quase na meia luz. No fundo da sala as lâmpadas faiscavam nos espelhos, tilintavam os pratos, as discussões cruzavam-se.
Esperava em vão... Comecei a cear.
Daí a pouco um rapaz veio sentar-se ao pé de mim. Conhecia-o de o ver nos cafés noturnos, quase sempre em companhia de mulheres fáceis, estardalhando, contando façanhas de orgias nas vadrouiles de Montmartre; de quando em quando, como numa expansão, falava de um quadro que entrevira num museu, alguma luminosa festa da Renascença, um nu veneziano, ou preciosas figurinhas dos primitivos, simples e mal desenhadas, entre brocados de ouro.
Mas nunca me ligara, correndo a minha vida noutra direção. Nessa noite, admirei-me de ele deixar a bulhenta sociedade que sabrait le champagne, para se acolher ao silêncio, à quase obscuridade.
A princípio bebeu a pequenos goles o Bucelas que mandou buscar. Tinha o ar de quem hesita em praticar um ato, o recolhimento súbito de um gesto esboçado, ensimesmava-se, enchia novamente o copo, lia atentamente o rótulo da garrafa.
Por fim debruçou-se para a minha mesa:
— O senhor gosta de coisas exóticas, das mulheres finamente perversas, do brilho das podridões...
— Ó, não! Apenas do faisandé!...
— É uma questão de palavras... Tudo o que é ambíguo, perturbante, insexual, tenta-o; compraz-se no esmiuçamento das taras, é o cronista do irregular, do à coté. Prefere as monstruosas orquídeas às rosas, o enigma dos Vincis, à beleza forte dos Rubens. Deixa-me contar-lhe uma história?
Por certo que a minha fisionomia traiu o receio da maçada eminente. Toda a gente imagina que a sua vida é um "motivo" interessante para um livro. E eu tenho deixado cair, como folhas secas, tantos casos que me contam, compridamente, com meandros de detalhes!
— O senhor tem o dever de me ouvir e não se arrependerá! O senhor é um psicólogo...
— Não faço profissão...
— Não importa. Tem obrigação.
— Nesse caso...
Resignei-me.
O noctâmbulo começou a contar. Tinha a linguagem pitoresca, imageada, parecia comprazer-se com a sua frase. Notei-lhe grande copia de estrangeirismos. Mas o caso pareceu-me interessante. Aqui o deixo registrado.
— Compreende que eu, fetard cansado, que tenho visto museus entre duas ceias no Maxim ou no Carlton, que aprecio mais o tea-room do Grand Hotel, de Roma, que o Salon Carré do Louvre ou a sala de Velásquez, no Prado, só lhe poderei falar da mulher ou do amor. E das mulheres que tenho conhecido, um pouco por todo o mundo, daquelas que têm ficado com um pouco da minha mocidade entre os dentes brancos ou os dedos esguios, só me recordo da última, que é a melhor e a pio, a que faz rir e soluçar, curva-nos numa sonolência em que nos aparece muito mais bela do que é realmente, cingida com todas as joias com que a nossa fantasia a enfeita, mais cruel também, porque o amor torna mais cruciante as dores, intensifica o desespero, cria a alucinação da mágoa, inventa a quimera da tortura, essa quimera de afiadas garras que nos retalham... Estou muito eloquente. Faça-me sinal, quando lhe parecer Cícero...
Imagine que conheci, numa pequena cidade italiana onde me fora curar de uma paixoneta recente, uma criatura singular, cujo encanto me prendeu quase de súbito. Era uma figura de bizantina, atavismo talvez, influência das pinturas de Ravena, onde passara a mocidade. E, artista, cultivava essa feição, arranjava penteados hieráticos, sem complicadas e rutilantes gemas, que o cofre do pai, mediscatro qualquer, não era abundante, mas com flores, essas rosas vermelhas de Pæstum, que ela própria cultivava, amorosamente, no pequeno jardim de sua casa. O que tinha de bizantina realmente, era a boca fresca, a boca inocente que sorria apenas, numa candura de primeira comungante, uma boca que deixava em nós a impressão de que era um serafim a sorrir. E não apetecia beijá-la: apenas quedar-se a gente diante dela à espera que nascesse a claridade auroral do sorriso, em que mostrava levemente o traço branco dos pequeninos dentes. Mas os olhos escuros desmentiam toda a infantilidade da boca, o aspecto angelical do seu corpo magro de adolescente, o colo branco e puríssimo. Os olhos brilhavam como num assalto, a ferir, sem ternura, no fundo uma repulsão ou um escárnio...
Essa mulher tentou-me. Largos meses fui todos os dias à sua casa onde me recebeu com palavras dulcíssimas. Estendia-me a mão deliciosa para beijar, dizia-me frases que entonteciam como um vinho áspero, fazia passar por mim o perfume forte que punha nos longos cabelos, que às vezes caíam pesadamente da cabeça, estendiam-se pelas costas, como uma rosa que se desfolha, de uma vez, da haste. Às vezes furtivamente, apertava-me a mão com força. E sorria-se ingenuamente a face de perola, eu via a inocência de toda aquela figura, porque ela fechava os olhos, como se todo o seu ser adormecesse num espasmo.
Ao sair, tinha remorsos de não ter beijado a boca fresquíssima, de não ter, sob a pressão dos meus lábios, magoado os olhos maus.
E toda a noite soluçava, enraivecido a desejá-la, até que de tarde ia visitá-la, encontrava-a estendida, numa atitude de imperatriz, bizantina, em sedas moirées, toda a gama do verde e do lilás, a garganta descoberta. E num gesto estudado, estendia-me a mão, que eu beijava longamente, essa mão em que as gemas não brilhavam: escuras, opacas, pedras finas, opalas, como gotas de água de um lago envenenado.
E a cena repetia-se. Eram perturbadores oaristos, que deixavam os nervos tensos e vibrantes. Na voz amortecida e doce, dizia as palavras mágicas que acendem fogachos. E quando ela via toda a minha Alma arremessada para ela, tinha o fechar de olhos, abria o sorriso celeste, e eu fugia com medo de mim e com medo dela. Como? Uma criança ingênua! Era preciso fugir!
Um dia tive que partir.
Tinha, na pequena cidade, perdido largos meses. Fui a uma última entrevista, chorei como uma criança ao dizer-lhe a mágoa imensa de a deixar. Contei-lhe toda a tortura daquele tempo de infinita delicia e infinita tortura; pela primeira vez disse-lhe claramente, entre lágrimas tristes, quanto amara todo o seu ser, todo o seu corpo flexível, todo o seu espírito cansado, mas mesmo assim brilhante. Que me dissesse uma palavra de esperança, que me deixasse levar uma harmonia divina, uma palavra de amor!
Teve uma frase, apenas, com uma expressão de imenso sentimento:
— E não trouxe um fonógrafo!


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Pesquisa, transcrição e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

Romântico (Conto), de Henrique de Vasconcelos



Romântico
— Ajude-me a servir o chá, primo...
Levantou-se. Na quase obscuridade da sala, que tinha uma luz violácea — coada pelos vitrais onde se curvam lírios roxos — Clara parecia nascer dos tapetes, como uma graciosa e alta flor de espuma. "Toilette" branca e ligeira, como penas de ave, toda em musselinas, apenas indicando a elegância do seu corpo fino, ia morrer no tapete branco...
Ia por entre os moveis, oferecendo as chávenas onde fumegava o chá perfumado, que da China trazem lentas caravanas, por tortuosos caminhos. O seu corpo ágil descrevia carinhosas curvas. O ruído das conversas continuava... Um "flirt" a um canto murmurava, como se as palavras ficassem nos lábios. Paulo, de grupo em grupo, uma chávena na mão, contente por ser alguma coisa, junto dela, tinha na boca um sorriso beato.
Naquela tarde nem conversava. Entravam e saíam as visitas, umas apressadas, — "apenas para saber de ti, Clara"— outras morosas, dando "rendez-vous" no salão elegante e discreto, onde na meia luz quase se não conheciam as pessoas, podia-se estar sem ser visto. E Paulo, calado, num fauteuil a um canto, sorria para si próprio, olhando a figura indecisa de Clara, os cabelos louros, na sala como enevoada onde apenas o fogão, por baixo do paraféu, tinha um brilho vermelho.
Lembrava-se de todo o comprido caminho percorrido desde aquela noite em Cascais, em que o impressionara a graciosidade de Clara, o seu aspecto de flor fresca, sempre em toilettes leves, abundantes em gazas, crepons tênues. Certamente que, companheiro e parente, admirara sempre a beleza da prima, mas seguira outros caminhos, nunca reparara bem para o enigma perturbante dos olhos verdes, para a elegância moderna, feita de graça, a gentil figurinha de Boldini, princesa de cera e de seda, cujas mãos eram dignas de ver florir entre os dedos os anéis mais preciosos que Vever e Lalique inventam, em combinações de moribundas gemas. Nunca olhara bem para ela com olhos de ver. Habituara-se desde a puberdade a vê-la. E seus cobiçosos olhares procuravam outras mais distantes, que julgava conhecer menos, pelo encanto do imprevisto.
Mas essa noite! Como lhe aparecia ainda, depois de tantos meses, nitidamente, essa noite de um céu leitoso, com uma lua enevoada, que se espalhava sobre o mar, sem brilho. Na varanda do Cassino, quase deserta, os Auers incidiam fortemente sobre Clara. No mar, embaixo, fogachos prateados tremiam. E além, as raras luzes da Cidadela; na Esplanada os focos esverdeados tiravam da sombra manchas de palmeiras e listravam de luz a água inquieta, gemebunda e misteriosa.
Paulo, recostado numa cadeira, olhava a mancha mais negra do yacht real, apagado, apesar das suas lanternas que tremeluziam no mar. O charuto caíra-lhe da boca. Foi uma frase preciosa de Clara que o acordou:
— Quem me dirá um dia a cantilena do mar? Como ela embala! Como seria bom dormir a ouvir junto de nós a suave cantilena!
Paulo olhou para ela surpreendido. Pois quê? Clara, a última florescência dos raouts e dos teas, teria frases de heroína de Rosseti, seria leitora de Ruskin? Foi então que reparou nos olhos cheios de sonhos e de mistério, na boca dolorosa, a vermelha e fina boca, no seu colo de infanta apenas núbil, em toda a adolescência que se conservava intacta no corpo precioso, como um fruto no gelo.
Começou então a segui-la. Dura lhe foi a vida em teatros, jantares e bailes. Não faltava a uma sauterie, a uma party, que dantes o deixavam indiferente, ficando nas intermináveis partidas de bluf. A dolorosa expressão que na boca se vincara naquela noite do Cassino desaparecera; um grande contentamento da vida parecia boiar à flor dos olhos garços e os movimentos rítmicos, que ela fazia, como se fosse ao som de uma música, eram livres, felizes, sem promessas.
Não voltar o abandono daquela noite! Paulo desejava que Clara outra vez abrisse a sua alma, para ele sentir a carícia deliciosa.
Mas a mulher amada conservava-se indiferente, risonha, um pouco coquette.
Para os seus madrigais escolhidos, preparados com antecedência, buscados em livros de autores novos, frases perturbantes de Lorrain, perfumados dísticos de Henri de Regnier, licenciosas palavras de Lionel des Rieux, com um sabor antigo, até o próprio d'Anunzio servira para a pilhagem, — para todos esses períodos carinhosos ela tinha o mesmo riso, que abria a boca fina, descorada, que o traço de carmim violentaria a macerada palidez da sua face:
— Ah! Paulo! Ah! Paulo! Apaixonado por mim! Tenho-lhe conhecido tantas paixões? Só na semana passada, três!
— Se não penso senão em si!
— Quando está comigo? Nem isso!
— Clara! Clara! Se me conhecesse bem, veria como a minha alma se fez para si um fresco bordão de açucenas...
E outro riso claro cantava na boca exangue, a troçar da frase pretensiosa.
Uma tarde, num garden party, enquanto no court de tênis as palavras inglesas cruzavam-se e os jogadores corriam, a raquete no ar, eles um pouco afastados, juntos a um maciço de jasmineiros que floria, cobrindo-se de uma renda fina e branca de pequeninos jasmins, Paulo, esquecendo-se das frases decoradas nos romances, deixou sair da boca, livremente, toda a força e toda a ansiedade do amor que parecia abrir-lhe uma chaga no peito, teve palavras em que fulgiam desejos, os olhos brilhavam, enternecidos, agarrou-lhe nas mãos, encheu de beijos as palmas róseas, puxou-a para si, e pode dar-lhe, de surpresa, um grande beijo na boca, sôfrego, que Clara não pode evitar.
Voltada a si do pasmo, espantada pelo insólito atrevimento que a sua ligeira coquetterie não permitira, quis zangar-se; mas voltou a rir-se, como se esse beijo, que lhe deixara na boca um calor de chama, tivesse sido apenas uma frase, das grandes frases de Anunzio, tão cheias de volúpia que entontecem, como os largos cálices das magnólias num pequeno jardim fechado. E sempre a sentir na boca a impressão ardente desse beijo, Clara correu para o tênis, a querer jogar também para esquecer-se.
Era desse beijo que Paulo vivia, tomado de assalto, como numa pilhagem de igreja.
E, apesar de Clara continuar a ser indiferente e risonha para ele, lembrava-se da perturbação que levara à alma ligeira da preciosa bonequinha de Nuremberg; olhos abertos, continuava a sonhar que esmagava os lábios exangues sobre a pressão da sua boca ávida.
Paulo era um romântico. Paulo vivia de pouco, como as aves do céu.

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Pesquisa, transcrição e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

Flirts (Conto), de Henrique de Vasconcelos




(A Antônio Bandeira)
Maria do Carmo, curvada sobre a mesa, folheia os últimos envois de Paquin e Redfern. Um candeeiro com um largo quebra-luz de seda e rendas lança-lhe sobre o cabelo uma aureola de ouro. O corpo está mergulhado na penumbra. Na sala, os moveis tomam aspectos fantásticos. Os espelhos têm um brilho pálido. Gonçalo, ao entrar, beija a mão que Maria do Carmo lhe estende, sem levantar os olhos dos papeis.
MARIA DO CARMO — trinta anos, com dez de casamento. Sem filhos. A vida passa-se-lhe em visitas, raouts, recepções e bailes. Alguns livros da moda, recomendados por Marcel Ballot, no Fígaro, e Jean Lorrain, por curiosidade. Interessante como um enigma, às vezes perversa. Não se lhe conhece um amante, mas indicam-se muitos. Não toca piano.
GONÇALO — não tem uma branca, mas no meio da animação, fictícia, vê-se um grande cansaço de viver, como se tivesse experimentado tudo. Procura por toda a parte, como um gourmet, o manjar fino. Epicurista, delicadamente depravado, como um roué da Restauração, ou um elegante do fim da república romana.
***
— Ainda bem que veio!... Preciso do seu bom conselho...
— Como sempre, depois de ter feito alguma tolice?...
— Impertinente!
— É sempre assim. Pede-me o conselho depois de não precisar dele! De resto, dá na mesma: ninguém segue conselhos.
— Não. Tenho aqui estes dois álbuns. De Paquin... De Redfern... São as últimas criações. Estou tentada a escolher quase tudo e a não escolher nenhum... Quer acreditar que tenho dias vazios na minha vida? Dias sem vontade, de uma grande lassidão, em que nem sequer tenho forças para fingir que sorriu!...
— Ame um pouco...
— É coisa que se encomende? Acordo um dia, com a resolução de amar. É logo. O primeiro que me aparece na Avenida, aquele que melhor dorme em São Carlos, o caixeiro que me vende as fitas no Martins! Vê-se bem que nunca amou!
— Não amei! Mas eu não sou, eu amo. É a minha maneira de existir. Um nasce cego; nasci amoroso...
— Cale-se! Diga lá, qual destes vestidos prefere?
— Sabe que é muito difícil escolher um vestido pelos desenhos feitos d'après os manequins? O mesmo vestido toma aspectos diferentes conforme as pessoas...
— Não faça filosofia. Olhe este de Paquin: ligeiro, todo em rendas, em coisas leves, parece feito com flores; o Redfern é mais hierático; mesmo nos vestidos de baile conserva a raideur dos cortes tailleur. São vestidos para a Bouro, que parece ameaçar-nos constantemente com a sua coroa de marquesa. Este?
— Não lhe irá bem, talvez... O talhe da saia engrossa a sua figura, a que não vão bem...
— O senhor treslê... Tudo me vai bem... Deixe lá os figurinos... Não sabe nada de vestidos... É como do coração. Aconselha-me a que ame...
— E dou-lhe um bom conselho. Nem parece que sou seu amigo.
— Trouxe hoje a alma de cínico?
— Era a que tinha mais à mão. Estava ao cimo da gaveta...
— Continuo a dizer: não percebe nada dos negócios do coração...
— Não há negócios do coração. O coração dá-se...
— Não; troca-se...
— Para quê? Não é preciso, no amor, ser-se correspondido. Basta amar. É possível que para a felicidade seja necessária a permuta...
— O amor é o choque...
— Muitas vezes o cheque.
— Que jeu de mots tão velho! É o choque de duas almas. É preciso que girem bem, no encontro. São duas eletricidades que se combinam. Conhece a teoria das duas metades da maçã?
— Conheço: é uma figura de retórica...
— Não é. Andam duas criaturas por esse mundo, ignorando o seu futuro, achando a vida sem razão, idiota...
— Escolhe uma mentira vital, como diz Ibsen. Conheço-lhe o charabia...
— Deixe-me acabar. Corre mundos, faz tolices, fecha-se dias em casa, até vai ao circo ver as focas... E nada! Um dia, sem saber como nem porquê, uns olhos encontram-se com os seus, numa multidão. Há a faísca... Pode ser um santo ou um bandido, lindo como o Rubempré, estúpido como um tenor, candidato à grilheta ou fútil como um janota. Fica-se presa; somos dele para toda a vida, ficamos amarradas a ele, como uma sombra... É assim o Amor, é feito de imprevistos... Não tem razão alguma de ser, mas é.
— Uma coisa fatal? Tem que ser?
— Sim.
— Permite-me que discorde?
— É teimoso.
— Sou. Já viu alguma discussão dar resultado? O amor é sempre criado por nós. Não amamos senão a pessoa que queremos amar. É, como tudo, um ato voluntario. Há escolha. Vemos uma mulher, vinte, trinta vezes, sem nos fazer impressão alguma. Um dia ela repara em nós. Se é bonita, elegante, calça no Chapelle e veste na Lipman, pelo menos, a nossa vaidade sente-se satisfeita e começamos a descobrir-lhe encantos, a criar alguns, a afeiçoá-la ao nosso jeito. Ao conversar com ela, pomos intenção nas frases ocas que diz, vemos mistério no seu sorriso... Estamos presos. — Um belo dia, porém, por qualquer motivo, torna-se útil acabar com o pesadelo da mulher que aparece em toda a parte: sai das brasas do fogão, a que nos aquecemos, da pagina que lemos, do fumo do cigarro, do papel em branco em que vamos escrever ao nosso procurador. Repara-se um pouco nela. Descobre-se o primeiro defeito. Exageramo-lo para o grotesco. E da deusa perfeita também as flores e fica uma caração que faz rir.
— Uma teoria...
— Não é, creia. Acontece-me isso duas ou três vezes por ano. Sabe que ando sempre com uma paixoneta... ou mais. Levo oito dias a fazê-las cair do peito.
— E vive feliz?
— Inteiramente feliz. Saber contentar-se não é a suprema sabedoria? Para que se inventou o flirt?
— O flirt? Que horrível coisa? É a "sombra chinesa" do Amor...
— É melhor. É o perfume. Os delicados contentam-se. É preciso comer uma flor? Não, basta respirar-lhe o aroma. Ora essas conversas, meio sentimentais, a um canto, ditas em voz baixa, sublinhadas pelos olhos que toda a alma ilumina, são como o roçar de asas que fossem flores. Há o ligeiro premir dos dedos, sob os leques, certos tremores de lábios, como se os beijos neles esvoaçassem, uma concentração de todo o ser, que parece boiar no éter, leve... As frases não se arrastam, num espasmo. Têm palpitações, lançam-se numa curva larga, até desaparecer em estrela. Não conhece o flirt. Todo o ser é livre e vai entregar-se, rendido... Cada palavra toma um sentido misterioso... Vou-lhe contar um flirt... Estava na Suíça.
— Internacional?
— Cosmopolita. Num desses cantos, que ultimamente o Cook estraga, na Engadine. Paisagem de gelo, hotel de gente podre...
— De chique?
— De chique. Conheci uma americana, deliciosa como um fruto acre, que vivia fora da coterie swell. O americano vai-se tornando terrivelmente rasta. Trinta anos? Talvez... Mas trinta anos frescos, sem rugas, viúva depois de dois meses de escasso matrimonio com um formidável brasseur d'affaires de Nova York, cérebro em ebulição permanente que acabou numa neurastenia aguda. Íamos passear sós, pelo gelo. Sentávamo-nos nos pontos de vista que o Bœdeker não indica, paisagens tristes de tanta brancura, sem uma mancha. Fugíamos dos five-ó-clock, das parties bulhentas em complicada companhia. Comecei a amá-la. Tínhamos lido os mesmos livros, sobre eles falávamos: gostávamos das mesmas músicas, desse Schuman cheio de cor, dolente e envenenado; preferíamos aos flamengos gordurosos e aos espanhóis sombrios, o delicado mistério dos Vinci, a graça fina e brilhante de Rafael.
A falar de quadros e de romances, as nossas almas tocavam-se, porque um sentido novo brilhava em cada palavra; e parecia que cada frase terminava num beijo. Às vezes, levemente, as nossas mãos tocavam-se. Era rápido e delicioso. Desse contacto ficava uma lembrança, como de um perfume. Amor platônico? Não. Um flirt. Sem arroubamentos. Sempre a Alma livre, sempre o beijo a tremer na boca, sem cair... Uma ou outra vez, compreende, por esquecimento...
— Compreendo. Sem malícia...
— Essa mulher tinha realizado todo o meu sonho! De resto acontece-me isto muitas vezes. O sonho varia com as mulheres que nos interessam. Mas essa parecia realizar tudo. No seu corpo ambíguo, de egípcia, parecia conservar-se, como um fruto no gelo, uma adolescência eterna. As suas mãos finas, pesadas de tantos anéis em que Vever pusera todo o seu gênio estranho, floriam gestos de uma carícia delicada e terna. A sua alma, que parecia ter visto tudo, ainda sentia a vida com frescura. As horas que passei junto dela! O perfume, uma mistura sábia d'Houbigants, então dernier bateau, perturbava... Longe dela, não pensava noutra coisa. Recordava-me dos gestos, os pequenos detalhes da toilette e da conversa, um rosar de pele sob as rendas, uma palavra, um grain de beauté, que tinha na nuca. Sabe como acabou? Ela propôs-me casar. Fechei me no quarto, horrorizado. Casar, eu? Uma mulher que me julgava capaz disso! Era preciso abater esse amor orgulhoso, que crescia no meu peito. Que defeito tinha ela? A princípio não vi nenhum... Fui procurando. Tinha, às vezes, quando falávamos em francês, erros de gramática deliciosos. Comecei a achar ridículo essa ignorância. Daí passou para os vestidos, para o corpo, o peito chato, sem ancas... Tudo caiu. Essa mulher pareceu-me horrorosa... Comecei a troçar dela, do seu bas-bleuismo... Por fim ela resolveu partir. Lembro-me perfeitamente. O gerente do hotel levou-lhe um enorme ramo de bluets, os raros amigos também lhe levaram flores. Todo o carro estava cheio de flores. Sentou-se entre elas, afagava-as, cortara algumas para cheirar. Chorara. Ainda me deitou um molho, que tinha beijado. O carro partiu, como se fosse um açafate. E a sua face branca era como uma flor triste... Não tive pena. O amor já caíra. A gente ou gosta ou não gosta, conforme quer. — Vamos fazer um flirt para experimentar?

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Pesquisa, transcrição e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)