domingo, 30 de junho de 2019

Má-língua (Conto), de Henrique de Vasconcelos



Má-língua

(A José Leite Nogueira Pinto)

Naquela mesa de bluf, era feroz a debinage... Apenas o Barros, que ganhava com uma veine espantosa, sorria beatificamente, cheio de indulgência, e para as arrojadas arremetidas dos parceiros, tinha sempre a mesma frase:
— Mais caridade, meus senhores...
Eram sempre ocasiões em que o Leite mostrava "quatro cartas" ou "street flesh."
O baile, na sala próxima, corria animado. As valsas, o pas-de-quatre e as quadrilhas marteladas ao piano, tinham concorrência. E uma ou outra que fugia do calor, para as salas de jogo, era apanhada na passagem, amarfanhada, esmiuçavam-lhe a crônica, apimentada de notas inéditas, calunias talvez.
— A Gracinda Fortes!
O conde de Marvilla teve um sobressalto. Voltou-se para trás. A Gracinda vinha com um vestido de tonkin cinzento que mostrava toda a graça frágil do seu corpo magro. O conde comentou, eriçando mais o bigode louro, cortado à inglesa:
— Um cabide para vestidos!...
— Mais caridade!...
— Ah, já sei: tem pelo menos um flash na mão... Passo!
Depois, olhando ainda a figura esbelta que saía...
— Mas ela não é uma mulher — é uma boneca de Nuremberg!... Vejam o andar articulado, mecânico... Tudo aquilo se mexe por molas! E aquela cabeça de arara a dar a dar, como se estivesse preza às espáduas por um parafuso lasso? E depois, meus amigos, ela é toda postiça... O cabelo louro pertenceu já a três cabeças... É uma mulher feita de colaboração por um cabeleireiro, um droguista e uma costureira. Tudo aquilo é sustentado por baleias e faixas, senão desabava, de lasso... Imaginam que o marido está arruinado por causa dos vestidos? Não: pelos cosméticos... À quantidade de drogas que anda por aquela pele é inconcebível. Já repararam em como se não decota nunca, completamente, que o colo é sempre coberto por uma gaze ou uma renda? É que a pele, estragada por uma ftiríases qualquer, esfarela-se. Todas as manhãs a criada de quarto tira-lhe quilos de farelos da cama. E já não pode com o serviço de maquilagem — tapar buracos, concertar rugas, pés-de-galinha, disfarçar sardas e sinais de varíola — manda chamar um trolha...
— Seu amante?
— Talvez... Para a rebocar. Para que ande, é preciso dar-lhe corda. Anda sempre da mesma maneira, às continências, cabeça para cima e para baixo, como um desses bonecos movidos por relojoarias. Imagina que aquilo é o andar rítmico das parisienses, esse andar leve e airoso como o de um pássaro... É parisiense, é: também são parisienses as macacas que nascem no Jardin des Plantes... Ainda por cima, velha. Não tem frescura nem mesmo nos olhos parados, conçados do espelho. A pele despega-se da carne e na cara faz papeiras em feitio de bambinelas. E toda aquela pintura, às chapadas, faz sombras, aumenta-lhe as papeiras...
— Tens-lhe ódio!...
— Não, tenho olhos. Não é preciso mais. Por causa dela lá me fez você um bluf sem eu dar por isso... — Conheço-a muito. Veio da província e por aí andou a mostrar ao Chiado e à Avenida as suas toilettes, como um manequim de loja de modas em furor de reclame. Ninguém a recebia, senão as casas em delírio de festas, onde a ida de um conde, dos feitos ultimamente às canastradas, enche de jubilo os amáveis donos da casa, como se diz nos jornais. Mas a sua ambição era do podre-de-chique, e não podendo supor-se com sangue azul— a mercearia do pai, ainda lá está a falsificar — imaginava-se com o chá das cinco horas nas veias... Um chá requentado como o espírito dela, estudado em velhos almanaques.
Enquanto não entrou na sociedade, vestia-se seis vezes ao dia, e nos intervalos injuriava o idiota do marido, essa bola de sebo com suíças brancas, que, atolambado, não lhe respondia que não tinha culpa de não convidarem uma amostra de cocote do Maxim para casas de famílias honestas. E era uma vida dura, atroz, naquela casa, ela de mau humor, acre, dizendo horrores na voz impertinente, sem inflexões, monocorda, e ele angustiado, sempre em cálculos diabólicos para saldar as contas monstruosas que lhe mandava o Goodefroy, dos cosméticos e postiches com que se engalanava a mulher.
A vida naquela casa! Vocês não calculam a expressão dura, injuriosa, que se estampava naquela cara agora risonha, quando recolhia, à tarde, cansada de fazer a Avenida, quase sem um chapéu a cumprimentá-la, sem meios para ter uma carruagem, olhando, gulosa, as pessoas chiques que passavam, sorrindo às saudações. E na mesa de jantar, silenciosa, apenas se ouvia o tilintar dos talheres e uma ou outra frase grosseira ao Fortes, que abanava a cabeça, todo ele se agachava, no receio, talvez, de um prato ou de um copo arremessado na fúria.
Depois das refeições, separavam-se, ele para a rua tomar ar, fugindo da perigosa vizinhança, ela a arrastar-se nos quartos, a enfeitar-se de joias, punha-as todas, enchia as mãos de anéis, rodeava a garganta magra com todos os colares, enchia os braços de pulseiras quase até o cotovelo e via-se ao espelho estudando sorrisos, gestos de comprimento para os grandes bailes a que havia de ser convidada um dia.
— Para falar desse modo é preciso ter sido éconduit...
O conde corou, encolheu os ombros:
— Às vezes não se levantava da cama em dias de chuva em que se tornava impossível fazer a parada nas ruas, troteuse à cata de olhares: vestia uma camisa de noite de que caíam valencienes e cobria a cabeça com pentes e travessas de ouro com pedras finas, e as mãos floriam-se de toda a coleção de anéis. Era ouro por toda a parte, sem falar nos dentes em que se combinavam todos os metais e todas as massas. Ouvi que se lhe podia dirigir o epigrama de Marcial: Não te rias porque só tens três dentes e esses mesmos são de buxo.
— Conheces tão intimamente?
— Pela criada do quarto... Agora, saracoteia-se, esqueleto feito manequim, arrebanhando os rapazolas inexperientes para flirts — ó só flirts! não por virtude ou amor conjugal, mas porque a ftiríases não permite o desnudamento — flirts que acabavam logo que um mais afoito falasse em beijar a pele perfumada.
— Schiu! Lá vem ela!
O conde olhou para a porta, por onde entrara, fina e flexível como haste florida, a Gracinda Fortes. A boca pequena, que o cosmético fazia sangrar, abria-se num sorriso fresco, que mostrava os dentes brancos. E de todo esse corpo magro exalava-se, como um perfume que entontece, um encanto perturbante.
E seguiu-a com os olhos, comovidamente, até que desapareceu, como um sonho...


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Pesquisa, transcrição e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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