segunda-feira, 3 de junho de 2019

A formiga e a neve (Fábula), de Ana de Castro Osório


A formiga e a neve

 A formiga, que é o animal mais trabalhador de quantos há (não entrando os homens na conta), levanta-se sempre muito cedinho para tratar da vida. No Verão não descansa nem para, a enceleirar o mantimento para o rigoroso Inverno. E até por isso teve questão com a cigarra, que na boa época do ano canta sem cuidados, e nos rigores da invernia morre de penúria e fome. Muita gente diz mal da formiga e critica o seu egoísmo e dureza. Mas no fundo todos lhe reconhecem virtudes. E era bom que a imitassem na atividade e poupança.


Ora um dia apareceu o campo todo branco de neve; o frio era de arrepiar, e o céu, encoberto pelas nuvens, não dava esperança de melhor tempo.

Apesar disto, a formiga que não se poupa a canseiras, saiu da sua casa e foi, campos fora, tratar dos negócios que a preocupavam.

Andou, andou, escolhendo os melhores caminhos e tendo todo o cuidado em se desviar dos precipícios, até que chegou a um ribeirinho. Como não encontrasse ponte e a água estivesse gelada, deu um pulo para o outro lado, mas caiu e ficou com uma das pernas presa.

A pobre formiga, quase morta de aflição, levantou a voz, e começou a clamar:

— Ó neve, tu é que és forte,
Que meu pé prendes!

— Mais forte é o sol,
Que me derrete.

— Ó sol, tu é que és forte
Que derretes a neve,
Que meu pé prende!

— Mais forte é a nuvem
Que me encobre.

— Ó nuvem, tu é que és forte,
Que encobres o sol,

Que derrete a neve,
Que meu pé prende!

— Mais forte é o vento,
Que me espalha.

— Ó vento, tu é que és forte,

Que espalhas a nuvem,
Que encobre o sol,
Que derrete a neve,
Que meu pé prende!

— Mais forte é a parede,
Que me quebra.

— Ó parede, tu é que és forte,
Que quebras o vento,
Que espalha a nuvem,
Que encobre o sol,
Que derrete a neve,
Que meu pé prende!

— Mais forte é o rato,
Que me fura.

— Ó rato, tu é que és forte,
Que furas a parede,
Que quebra o vento,
Que espalha a nuvem,
Que encobre o sol,
Que derrete a neve,
Que meu pé prende!

— Mais forte é o gato,
Que me come.

— Ó gato, tu é que és forte,
Que comes o rato,
Que fura a parede,
Que quebra o vento,
Que espalha a nuvem,
Que encobre o sol,
Que derrete a neve,
Que meu pé prende!


— Mais forte é o cão,
Que me espanta.

— Ó cão, tu é que és forte,
Que espantas o gato,
Que mata o rato,

Que fura a parede,
Que quebra o vento,
Que espalha a nuvem,
Que encobre o sol,
Que derrete a neve,
Que meu pé prende!

— Mais forte é o pau,
Que me bate.

— Ó pau, tu é que és forte,
Que bates no cão,

Que espanta o gato,
Que mata o rato,
Que fura a parede,
Que quebra o vento,
Que espalha a nuvem,
Que encobre o sol,
Que derrete a neve,
Que meu pé prende!

— Mais forte é o lume,
Que me queima.

— Ó lume, tu é que és forte,
Que queimas o pau,
Que bate no cão,

Que espanta o gato,
Que mata o rato,
Que fura a parede,
Que quebra o vento,
Que espalha a nuvem,
Que encobre o sol,
Que derrete a neve,
Que meu pé prende!

— Mais forte é a água,
Que me apaga.

— Ó água, tu é que és forte,
Que apagas o lume,
Que queima o pau,
Que bate no cão,

Que espanta o gato,
Que come o rato,
Que fura a parede,
Que quebra o vento,
Que espalha a nuvem,
Que encobre o sol,
Que derrete a neve,
Que meu pé prende!

— Mais forte é o homem,
Que me bebe.

— Ó homem, tu é que és forte,
Que bebes a água,

Que apaga o lume,
Que queima o pau,
Que bate no cão,
Que espanta o gato,
Que come o rato,
Que fura a parede,
Que quebra o vento,
Que espalha a nuvem,
Que encobre o sol,
Que derrete a neve,
Que meu pé prende!

— Mais forte é a morte,
Que me leva!

— Ó morte, tu é que és forte,
Que levas o homem,
Que bebe a água,
Que apaga o lume,
Que queima o pau,
Que bate no cão,
Que espanta o gato,
Que come o rato,
Que fura a parede,
Que quebra o vento,
Que espalha a nuvem,
Que encobre o sol,
Que derrete a neve,
Que meu pé prende!

No fim destes queixumes todos, o céu apiedou-se da pobre formiga, por ser muito trabalhadora e industriosa, e as nuvens, espalhando-se por um pouco, deixaram que um raio de sol derretesse a neve, e ela pudesse soltar o pé e continuar o seu caminho, levando para o formigueiro a lembrança daquela imensa desgraça, em que por pouco não morria.

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Fonte:
Ana De Castro Osório: “Contos, fábulas, facécias e exemplos da tradição popular portuguesa” (editado a partir da edição da Bibliotrônica Portuguesa)

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