segunda-feira, 3 de junho de 2019

O franganito (Fábula), de Ana de Castro Osório


O franganito

Era uma vez um Franganito muito esperto e engraçado, que, andando a esgravatar num monturo, achou uma guedelhinha de lã.

Foi a correr, a correr, levá-la a um alfaiate para que lhe fizesse uns calçotes, uns mangotes e uns corpitotes. Assim vestido como uma grande personagem, pôs-se a caminho do Palácio real, para ver o senhor Rei.

No meio da jornada encontrou um Texugo, que lhe disse:

— Ai, Franganito, que te como agora!

— Não me comas, que eu vou ver o senhor Rei, e em vindo te contarei.

— Ah, sim?! Pois também eu quero ir.

— Então mete-te aqui no meu papinho.

Continuou a andar, a andar, e mais adiante encontrou duas pedras a baterem uma na outra, que lhe disseram:

— Ai, Franganito, que te esmagamos!

— Não me esmaguem, que eu vou ver o senhor Rei, e em vindo vos contarei.

— Ah, sim?! Pois também nós queremos ir.

— Então saltem para o meu papinho.

As pedras lá se encaixaram, ao pé do Texugo, e o Franganito continuou a andar até que esbarrou com um ribeiro, que lhe disse:

— Ai, Franganito, que te afogo!

— Não me afogues, que eu vou ver o senhor Rei, e em vindo te contarei.

— Pois também eu quero ir.

— Então mete-te aqui no meu papinho. O ribeiro meteu-se no papinho do

Franganito, que muito lépido se dirigia ao Palácio real.

Mais adiante encontrou um mestre lobo,
que lhe disse, arreganhando os dentes:

— Ai, Franganito, agora te engulo eu!

— Não me engulas que eu vou ver o senhor Rei, e em vindo te contarei.

— Ah, sim?! Pois também eu quero ir.

— Então mete-te aqui no meu papinho. O lobo saltou para o papo do Franganito, e ele continuou alegremente a sua viagem. Chegando ao Paço dirigiu-se aos guardas com um ar muito importante, dizendo que fossem anunciá-lo a Sua Majestade, pois certamente seria logo recebido.

Eles desataram a rir e agarraram-no sem cerimônia, indo apresentá-lo ao Rei. Este achou-lhe graça e, depois de lhe fazer muita festa, mandou-o meter na capoeira.

Ora o Franganito não gostou da sem-cerimônia, pois esperava ficar como cortesão, e logo que se viu na capoeira, como qualquer vulgar pessoa da sua classe, disse ao texugo que lhe saísse do papo e comesse a criação toda. O texugo, se bem lho mandaram melhor o fez. Não deixou senão o amigo Franganito, que saltava de poleiro em poleiro, como único senhor da casa.

Ao outro dia, quando os cozinheiros vinham buscar galinhas para o almoço, não encontraram nada e foram a correr dizer ao Rei que o Franganito tinha comido tudo.

O Rei ficou muito zangado, e mandou-o meter na adega onde guardavam o vinho em grandes talhas de barro.

O Franganito, mal se viu fechado, mandou sair as pedras que tinha guardado no buxo, e quebrou as talhas todas, de modo que o vinho corria pelo chão como se fosse um rio.

Os criados que foram buscar vinho para a mesa, viram o desastre e foram a correr dizer ao Rei do desatino do Franganito.

O Rei, já muito enfadado, disse que o metessem na cavalariça a ver se algum  cavalo o pisava durante a noite.

Mal se viu entre aqueles animais tão pouco da sua igualha, disse o Franganito para o lobo que lhe saísse do papo e os matasse a todos. Ora, foi o que o lobo quis ouvir. De manhã não vivia um para contar o que se passara.

Quando os criados, no dia seguinte, vieram buscar os cavalos que costumavam levar o Rei a passeio, deram com a mortandade, e foram fazer queixa do pinto calçudo ao seu Real Amo.

Desta vez, desesperado, o Rei deu ordem para que metessem o atrevido no forno que estava aceso para cozer o pão.

Ora o Franganito, logo que sentiu o calor nos pezinhos, disse ao ribeiro que saísse e apagasse o lume. O ribeiro assim fez e, começando a correr, em breve alagou tudo.

Quando os criados vieram para cozer o pão, viram o forno encharcado e o Franganito sacudindo as asas e cantando:

— Qui-que-ri-qui!!... Qui-que-ri-qui!...

Os criados foram a correr contar o caso ao Rei que, temendo que fosse feitiçaria, deu dinheiro ao Franganito para lhe abandonar a porta.

O espertalhão pegou no dinheiro, foi para o campo, comprou uma casa, e ali viveu com a sua família até morrer, já galo velho, com inúmeros netos que o prantearam sinceramente.


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Fonte:
Ana De Castro Osório: “Contos, fábulas, facécias e exemplos da tradição popular portuguesa” (editado a partir da edição da Bibliotrônica Portuguesa)

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