segunda-feira, 3 de junho de 2019

O gato e o ratinho (Fábula), de Ana de Castro Osório


O gato e o ratinho

A senhora Ratazana teve uma ninhada de filhos.

Criou-os com todo o mimo e cuidado, e não se esquecia de lhes dar conselho e ensiná-los como boa e previdente mãe.

— Temos inimigos terríveis, inimigos que não têm piedade para a nossa raça! É preciso acautelarem-se, e, enquanto não conhecerem o mundo, não saírem senão debaixo da minha direção.

Ora um dos ratinhos, que já se considerava um valentão lá porque aprendera a roer um pedaço de madeira, saiu às escondidas do ninho e foi espairecer até ao jardim.

Gostou muito de ver o sol, as plantas, as flores, e os passarinhos atravessando os ares ou saltitando de ramo em ramo. Mas o que mais bonito lhe pareceu foi um gatarrão gordo e luzidio, que estava a dormir à sombra de uma árvore. Esteve a contemplá-lo com admiração e, por fim, sentindo ruído de passos, assustou-se e voltou a correr para o seu buraquinho, enquanto o gato abria os olhos e o fitava com má catadura.

Voltando ao ninho, o ratito curioso contou à mãe o que vira e perguntou-lhe que animal seria aquele, de lindo pelo macio e brilhante, que estava no jardim estendido à sombra de uma árvore?...

A mãe, para poder responder, seguiu-o ao jardim; mas, quando deu com os olhos no gatarrão que ressonava satisfeito, deitou os dentes ao cachaço do pequenino e a correr como doida levou-o para casa.

Por pouco não teve um desmaio de aflição.

Quando voltou a si e se viu rodeada dos seus pequenos, disse-lhes:

— Meus filhos, aquele animal é o nosso pior inimigo! É o gato! Sob a aparência de mansidão e bondade, abriga uma grande fereza. Tu achaste-o muito bonito, meu inocente filho, mas se te chegasses ao pé dele, num instante te cravava as unhas e te despedaçava sem dó. Aprendam, meninos, a nunca se fiarem nas aparências. Às vezes os que mais bondosos parecem e melhor nos tratam são os que mais nos odeiam e mais depressa nos despedaçariam, se lhes caíssemos nas unhas.

Os ratinhos ficaram a tremer de medo e nunca mais se levaram pelas aparências, por mais belas que fossem.

E assim devemos fazer todos.


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Fonte:Ana De Castro Osório: “Contos, fábulas, facécias e exemplos da tradição popular portuguesa” (editado a partir da edição da Bibliotrônica Portuguesa)

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