terça-feira, 4 de junho de 2019

A fortuna do bruto (Fábula), de Ana de Castro Osório



A fortuna do bruto

Eram dois irmãos muito diferentes. O mais velho, inteligente e empreendedor, foi trabalhar para longe. O outro que era muito bruto, ficou em casa.

Passados tempos, voltou aquele para a sua aldeia. Logo à entrada encontrou o mais novo, a quem abraçou e perguntou: — Então que novidades há por cá? 

O brutinho, com muito sossego, respondeu:

— Pouca coisa há de novo. O nosso pai caiu nas favas, espetou um olho, e cegou, mas o pior é que as favas ficaram todas pisadas. O nosso cavalo branco (Deus lhe fale na alma!) morreu, coitadinho! Aquilo corria pelas ladeiras que parecia o caminho de ferro. Tenho pena! À casa caiu-lhe um raio, e ardeu toda. Na vinha caiu também tanta chuva de pedra que uns poucos de anos não haverá vinho. Os bois comeram não sei o quê, e arrebentaram. E a nossa mãe, lá me esquecia esta, morreu! Também o pai não quis cá ficar sozinho por muito tempo. Lá está com ela, no cemitério, bem descansado. São fortunas que nos chegam.


Em vistas destas grandes fortunas, o irmão mais velho partiu outra vez para longe, e não quis mais saber do brutinho, a quem deixou a herança que tanto o contentava.


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Fonte:
Ana de Castro Osório: “Contos, fábulas, facécias e exemplos da tradição popular portuguesa” (editado a partir da edição da Bibliotrônica Portuguesa)

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