terça-feira, 4 de junho de 2019

O tolo e as moscas (Fábula), de Ana de Castro Osório



O tolo e as moscas

Um maluquinho, que trazia a cabeça rapada, não podia suportar as moscas que lhe pousavam em cima e lhe davam constante desassossego.

Lembrou-se — sabem de quê? — de ir a juízo apresentar uma queixa contra as moscas que tanto o incomodavam.

O Juiz, que bem o conhecia e estava para se rir um bocado, atendeu-o com toda a seriedade e no fim deu por sentença: — que onde quer que ele visse uma mosca podia usar do seu direito e dar-lhe uma paulada.

O maluquinho, que isto ouviu, olha para a cabeça do Juiz, vê uma mosca pousada, e zás! Ferra-lhe uma tão grande pancada que o deixou como morto.

Prenderam-no e queriam julgá-lo, mas ele defendeu-se com a sentença que lhe mandava dar uma paulada nas moscas onde quer que as visse. Não tiveram remédio senão deixá-lo em liberdade.

Bem certo é que com tolos nem para o céu.


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Fonte:
Ana de Castro Osório: “Contos, fábulas, facécias e exemplos da tradição popular portuguesa” (editado a partir da edição da Bibliotrônica Portuguesa)

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