terça-feira, 4 de junho de 2019

As três tatibitates (Fábula), de Ana de Castro Osório



As três tatibitates

Uma viúva tinha três filhas já mulheres e desejava casá-las.

Como não eram muito feias e tinham alguma coisa de seu, facilmente achariam noivos — se não tivessem um grande defeito que afugentava todos os pretendentes.

Caladas, podiam ver-se por gosto, mas quando falavam — que desconsolação! Eram tatibitates. E ouvi-las era o bastante para começar toda a gente à gargalhada.

Depois, não conheciam o seu defeito e estavam sempre a parolar, sempre a meterem-se nas conversas, por mais que a mãe as advertisse de que mais ganhavam em só falar quando absolutamente fosse necessário. Não sabiam, as tagarelas, que se a palavra é de prata, o silêncio é de ouro...

Assim, toda a gente da terra as conhecia, e causavam tanto riso que não havia rapaz que se atrevesse a ir buscar para companheira uma criatura que caía no ridículo, mal abrisse a boca para falar.

Então a mãe, já desanimada porque via correr o tempo sem que lhe aparecesse sequer um noivo para alguma das filhas, resolveu-se a convidar um estrangeiro e levá-lo a casa para ver se ele se agradava de alguma das três raparigas.

Mas, logo por infelicidade, teve que sair para um negócio de muita urgência, deixando-as em casa para tratarem do jantar, olharem pelo arranjo da festa que queria dar ao estrangeiro, e receberem-no quando viesse. Recomendou-lhes muito que não falassem diante dele; que, vissem o que vissem, não dissessem palavra, pois mais valia que passassem por mudas do que darem a conhecer logo à primeira vista o seu tão desagradável defeito.

Na sua ausência veio o hóspede, que era um rapaz todo janota e bem apessoado. As raparigas levaram-no para a sala, serviram-lhe bolos e vinho, e sentaram-se as três, muito caladas, respondendo apenas por gestos ao que ele lhes perguntava.

Nisto sentem a panela que estava no fogão começar a ferver e a chiar, entornando-se o caldo pelo lume. A mais velha das raparigas gritou:

— Lá se entona a tutalinha! — queria dizer que se entornava a pucarinha.

— Tira-le o teto e mete-le a tolé — respondeu a segunda, muito atormentada, querendo dizer — tira-lhe o testo e mete-lhe a colher.

A terceira, vendo o hóspede a rir-se a bandeiras despregadas, e zangada por as irmãs não seguirem a recomendação da mãe, gritou-lhes:

— A mãe não disse que não talássemos?! Bem fiz eu que não telei, pois assim me tasalei.

O que significa: — a mãe não disse que não falássemos? Bem fiz eu que não falei, pois assim me casarei.

Mas, assim, menos ainda se casou, pois foi falando mais do que as outras e portanto dizendo mais disparates.

O rapaz, em vista disto, fugiu pela porta fora à gargalhada e nunca mais quis saber de tais noivas — nem com dote, nem sem dote.

Imagine-se a desconsolação da mãe que as queria casar!


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Fonte:
Ana de Castro Osório: “Contos, fábulas, facécias e exemplos da tradição popular portuguesa” (editado a partir da edição da Bibliotrônica Portuguesa)

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