domingo, 2 de junho de 2019

Quem tudo quer, tudo perde (Fábula), de Ana de Castro Osório


Quem tudo quer, tudo perde

Um pescador vivia muito pobremente, com a sua mulher e filhos, numa barraca ao pé do mar.

Todos os dias lançava as redes, mas a sorte não o ajudava, porque as redes lhe vinham rotas pelas pedras, e enquanto a peixe nem um!

Desanimado, dizia mal à sua vida, mas ia teimando sempre no trabalho. Até que um dia, ao puxar a rede, sentiu-a tão pesada que a alegria lhe entrou no coração com uma boa esperança.

Mas, ao levantar a rede, com grande mágoa viu que só um peixe vinha preso nela, e tão pequeno que mal chegaria para dar de cear à sua família quanto mais para encher o mercado, como pelo peso julgara.

Nisto, ergue o Peixe a cabeça e diz-lhe:

— Ó pescador, não me mates. Bem vês que sou pequeno e pouco poderás aproveitar com a minha morte. Em compensação, se me deres a vida que te peço, tudo o que desejares será feito, por meu grande poder mágico.

— Pois bem (respondeu o pescador), concedo-te a vida, mas com a condição de fazeres com que as minhas redes venham sempre cheias de bom peixe.

— É justo esse pedido e hoje mesmo o verás satisfeito.

— Veremos (respondeu o pescador, desconfiado como todos os infelizes)...

— Não duvides, que eu sou o Gênio dos Peixes, que só por um mau feitiço aqui estou encarcerado. Quando precisares de mim, vem aqui e chama-me.

O pescador deitou o Peixe ao mar, e em seguida lançou as redes, que retirou cheias a mais não poderem.

A alegria do pobre e da família foi tão grande que nem queriam crer no que viam.

Correram ao mercado e fizeram uma venda magnífica, trazendo em troca tudo de quanto necessitavam.

E assim foi todos os dias até que o pescador já era considerado dos mais ricos daquela terra.

Esqueceram os dias maus, porque a felicidade numa só hora faz esquecer anos de martírio, e até já lhes parecia pouco o que tinham. Já se envergonhavam de trabalhar, eles que havia pouco viviam na maior miséria.

Convencido de que tinha pouco e merecia mais, pelo imenso favor que tinha prestado ao Gênio dos Peixes, foi o pescador à praia e chamou-o. Imediatamente ele apareceu e perguntou-lhe o que desejava.

— Poderoso Gênio, é verdade que eu estou remediado e a minha família vive desafogadamente, devido à vossa grande proteção. Mas o que é certo, meu nobre Gênio, é que eu trabalho muito e já estou aborrecido de trabalhar. Bem sabeis, poderoso Gênio, que o favor que vos prestei não se paga com qualquer coisa.

— Está bem, o que queres, pois?

— O que desejo, Senhor, é uma casa que seja minha para vivermos bem à vontade, eu e os meus; e uma fortuna para gozarmos segundo o nosso gosto.

— Serás satisfeito. Vai para casa e alguma novidade encontrarás.

O pescador dirigiu-se para casa e ficou surpreendido ao deparar com um magnífico palácio rodeado duma bela quinta com jardins e mata, e tendo tudo quanto é julgado indispensável na moradia dum homem opulento.

A família do pescador estava deslumbrada, não se cansando de descobrir maravilhas na sua nova habitação, e desfazia-se em bênçãos ao Gênio dos Peixes.

Começou para aqueles felizes uma vida de gozo e alegria. Não pensavam senão em divertimentos e festas, e mal tinham tempo de dormir e descansar, pois os passeios, os bailes, os jantares, os teatros, sucediam-se sem interrupção.

Mas isto, que a princípio os divertia, começou a enfastiá-los e, cheios de orgulho e ambição, resolveram que o antigo pescador voltasse ao Gênio dos Peixes para que os fizesse grandes no poder e no mando, pois já consideravam mesquinha a inútil vida de ricos que levavam.

Chegou à praia, chamou o seu amigo e queixou-se da sua infelicidade.

— Que te falta?... Ou tens algum dos teus, doente?

— Em minha casa todos padecemos, ou mais ou menos, Senhor. Mas isso já não nos importa porque há bastante dinheiro para procurarmos médicos e percorrermos águas e banhos. O que desejávamos era ter uma grande posição no mundo, sermos senhores da política, governarmos os nossos conhecidos, e mostrarmos-lhes quanto mais valemos do que eles, e não só por termos dinheiro.

Se os peixes pudessem rir, o bom do Gênio não poderia suster uma gargalhada. Mas felizmente são peixes, mesmo quando Gênios. Assim apenas pôde manifestar a sua hilaridade estendendo as barbatanas e mudando de cor.

Ainda desta vez escutou o pedido do seu protegido, que na volta de casa encontrou um mensageiro do Rei que o chamava aos conselhos da Coroa. Em breve, filhos e genros, parentes próximos e arredados, amigos e conhecidos, tinham os melhores empregos na pública governança. Pesava nos destinos do País, aquele grande homem!

No entanto, "quem torto nasce, tarde ou nunca se endireita". O homem que na sua mocidade fora pescador e pouco ou nada sabia afora a sua arte, que depois passara uma parte da vida a ganhar dinheiro sem conta e que outra parte a passara em divertimentos e festas, nada sabia. E era motivo de troça de todos os que, tendo estudado, compreendiam a completa ignorância do grande influente e de todos os seus.

Mas a toleima não era tanta que não visse bem o quanto era desprezado por aqueles mesmos que na sua frente o elogiavam.

Cheio dum mortal desgosto, foi um dia até à praia e clamou:

— Valha-me aqui o Gênio dos Peixes, meu amigo e protetor!...

— Que queres?... (respondeu, aparecendo imediatamente, o Peixe).

— É que não sou feliz, Senhor!

— Não és ainda feliz? Que desejas mais?

— Que desejo? Ser um homem ilustrado, de quem ninguém se possa rir. Que me importa ser rico e poderoso se ninguém me toma a sério e todos me troçam?!

— Pois, meu amigo, quem tudo quer tudo perde. Eram um miserável pescador que morria de fome, dei-te trabalho com fartura. Pareceu-te pouco a dádiva, e quiseste mais. Fiz-te rico e a todos os teus; não te contentaste com isso e desejaste ser poderoso na sociedade. Fiz-te ainda essa insignificante vontade. Agora queres ser sábio e julgas-te infeliz porque não és um homem considerado pela inteligência. Eis a única coisa que não te posso fazer. A inteligência, meu amigo, é um dom que não se compra por dinheiro e não se desenvolve sem trabalhar muito e estudar sempre. Mas como pediste uma coisa impossível, todo o meu poder acabou e tens que voltar a ser o que eras.

— Mas como poderei eu voltar a trabalhar, se já não estou acostumado a isso?

— Dá-te por muito feliz se tiveres sempre trabalho, e consola-te com ele, aprendendo a ser feliz na pobreza honrada e alegre. Já vês que a felicidade não se compra com dinheiro, nem com as vaidades do mundo, porque aos ambiciosos nada os satisfaz e quanto mais têm mais querem.

Desapareceu o Peixe, e o homenzinho embasbacado ali ficou, até que a noite veio. Então voltou a casa e com grande espanto seu não encontrou o palácio e as suas riquezas. Muitas pessoas que encontrou não o conheceram e quando lhes ia a falar voltavam-lhe as costas. Dali foi à sua barraca à beira-mar, onde encontrou a família possuída da mais funda mágoa.

Contou o que se passara e todos se arrependeram da tolice que os tinha lançado na miséria, de que só por feliz acaso tinham saído. Mas foi tardio, como sempre, o arrependimento, e de nada lhes serviu, a não ser para ensinamento do futuro.


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Fonte:
Ana de Castro Osório: Contos, fábulas, facécias e exemplos da tradição popular portuguesa (Editado a partir da edição da Bibliotrônica Portuguesa)

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