segunda-feira, 3 de junho de 2019

A raposa e o sapo (Fábula), de Ana de Castro Osório



A raposa e o sapo

Um dia a Raposa foi ter com o Sapo, e disse-lhe:

— Ó compadre, vamos nós a semear uma seara de trigo, a meias?

— Pois vamos (respondeu ele), mas como eu sou muito esquecido, em sendo tempo de fazer a sementeira, venha a comadre prevenir-me para tratarmos disso.

Quando veio a ocasião própria de fazer a sementeira, a Raposa foi ter com o compadre Sapo, e semearam uma porção de terra.

Chegou o tempo da monda, e foram os dois para o campo trabalhar. Depois veio o tempo de meter a foice no trigo já maduro, e a comadre disse para o Sapo:

— Olhe, compadre, arranje quem o ajude na tarefa, porque eu sou mais desembaraçada, e não estou para ceifar tudo. Em compensação, eu trarei para a merenda um rico manjar, uma panela de manteiga deliciosa.

O guloso do Sapo todo se alegrou só com a ideia da lambarice, e foi pedir ao compadre Texugo para o ajudar na ceifa.

A Raposa não faltou com a manteiga, e os três puseram-se ao trabalho com tanto afinco que, à hora do almoço, já estava uma grande porção de campo ceifado. Disse então o Sapo:

— Comadre, vá buscar a manteiga e vamos ao nosso almoço!

— Ora! Estamos tão cansados que nem nos pode saber bem. É melhor dormirmos primeiro a sesta, e depois almoçaremos. Agora já os previno: aquele que estiver suado é porque foi comer a manteiga enquanto os outros dormiam.

Deitaram-se à sombra de uma árvore e não tardou nada que o Texugo e o Sapo pegassem no sono, como quem muito se tinha cansado de manhã. A Raposa, como esperta que é, deixou-os estar bem adormecidos, levantou-se, comeu a manteiga toda, e depois, com uma pouca de água, regou à vontade os dois dorminhocos, para depois dizer que tinham suado e portanto comido a merenda.

Deitou-se e adormeceu também como pessoa sem cuidados. Quando o Sapo e o Texugo acordaram e viram a panela vazia, começaram a gritar. A grande manhosa fingiu-se muito espantada, e ainda ralhou com eles e os chamou ladrões da sua manteiga, pois eles é que estavam suados, sinal de a terem comido. Quis bater-lhes, e obrigou-os a trabalhar todo o dia sem comerem nada.

Passados dias foi outra vez ter com o compadre e disse-lhe:

— É tempo de carregarmos o trigo para a eira e fazermos a debulha.

Assim que viu o grão limpo e bem arneirado na eira, disse-lhe ainda:

— Compadre Sapo, vamos a fazer uma combinação?

— Pois vamos. Diga lá a comadre o que é.

— Para não termos o trabalho de dividir a nossa colheita, vamos pôr-nos os dois no campo e corrermos ao desafio até à eira. O que chegar lá primeiro ficará sendo o dono de tudo.

O Sapo disse que sim, mas como já estava muito farto de ser enganado, foi a uma ribeira chamar os seus irmãos, e pediu-lhes que uns fossem para a eira carregar o trigo para casa dele e outros se fossem pondo pela estrada fora, seguindo o caminho que a Raposa havia de levar. Quando ela gritasse por ele: — "Compadre Sapo!", eles responderiam: — "Cá vou, cá vou". Isto para que a Raposa supusesse que iam sempre correndo a par.

Os dois foram para o campo onde tinham a seara, e a finória, fiada nas suas pernas, estava satisfeitíssima. Desataram a correr, e o compadre Sapo ficou logo para trás, mas a comadre Raposa não o imaginava, porque todo o caminho o ia chamando:

— Compadre Sapo!...

E os outros, pela estrada fora, iam-lhe respondendo sempre:

— Cá vou, cá vou!

Muito intrigada, chegou à eira, e ficou surpreendida e desesperada, não encontrando nem um grão de trigo, que todos os Sapos tinham carregado para casa do senhor compadre.

A Raposa, cheia de vergonha, fugiu para a sua toca. E desta forma, o Sapo enganou aquela vaidosa e desleal companheira, que se julgava muito esperta.

Assim, muitas vezes, os que querem enganar são enganados, só causando regozijo a quem lhes conhece as traças e as pode evitar.


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Fonte:
Ana De Castro Osório: “Contos, fábulas, facécias e exemplos da tradição popular portuguesa” (editado a partir da edição da Bibliôtronica Portuguesa)

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