domingo, 16 de junho de 2019

Antes e Depois (Conto), de Alfredo Bastos


Antes e Depois

Foram decididamente as fadas que, por espírito de sexo, ensinaram os caprichos e modas à mais bela metade do gênero humano.

Verdade é que bem podem ser sinônimos — fada — mulher — capricho — moda, à fora honrosas exceções.

A leitora é uma delas.

Foi, pois, por um desses caprichos, que certa fada amanheceu, um dia, impaciente, nervosa, epiléptica.

Traçou no espaço três sinais cabalísticos com mágica varinha, acompanhados com outras tantas palavras enigmáticas e esperou um segundo.

Os zéfiros, obedientes ao menor aceno, chegaram pressurosos, trazendo-lhe os aromas das rosas e jasmins; levantaram os louros e esplêndidos cabelos que caíam pelos ombros de alabastro, deram-lhe um movimento que Lespés invejaria, e fugiram alegremente.

A fada olhou-se em um próximo regato; seus lábios traduziram com matador sorriso a íntima satisfação; a natureza deu-lhe as mais belas e luxuosas vestes, engrinaldou-lhe a fronte com a coroa da beleza e mocidade.

— Estou vestida e penteada, disse ela.

Dona Fada não saltou, saltitou sobre as florezinhas que lhe beijavam na passagem os pés mimosos; passou por campinas, bosques, vales e parou junto a uma gruta.

Um velho guardião, cujo nome nos esquecemos de indagar, levantou-se, traçou sobre o ombro esquerdo a capa que lhe cobria o corpo maltratado pelos anos.

— Às ordens de vossa excelência, minha senhora.

— Meu bom velho, disse a fada, quero visitar o século das luzes.

— A sua graça, minha senhora?

— Eu sou o Demimonde.

— Tenha vossa excelência a paciência de entrar e esperar um só momento. Meu amo ainda almoça. Aqui deste salão poderá vossa excelência observar os países mais civilizados, prediletos de meu ilustre amo.

O Século não se fez esperar; herdara de seus antepassados o requinte da delicadeza para com o sexo amável. Imagine-se um solteirão, no mais lato sentido da palavra, bem trajado, moustache siré, um dândi enfim.

Os séculos têm a mesma natureza do caracol, quanto à reprodução da espécie!

A fada, que sabia disso perfeitamente, desembuchou sem a menor reserva.

Novo sorriso, excelente carta de apresentação. O Século é homem sério.

— O que me traz aqui é bem simples. Quero nova transformação nos teus filhos, na mocidade.

— Vejamos, minha senhora. Vossa excelência não se tem portado bem. Aluguei-lhe a minha casa — Paris — dei-lhe beleza e poder. Não se satisfez, passou a Mancha, o Atlântico, as fronteiras, sem ao menos me prevenir, e vai revolucionar os pobres brasileiros, que eram gente tão pacata!

— É verdade: mas estou farta dessa gente chorona, que me leva a gritar aos ouvidos — amor e mais amor. Não quero saber de sonetos, nem de madrigais, quero risos, delírios e retratos, em ouro, da Rainha Vitória. Meu pai assim me educou, não quero saber de outros preceitos.

— Seu pai? julguei-a filha de pais...

— Incógnitos? não senhor. Meu pai é Dumas Filho, não sabia? Quero que transforme...

— Mas bem vê, vossa excelência, que isso é querer desmoralizar-me. Já não é pouco o que se diz de meu pai, do meu avô.

— Ah! é teimoso? pois bem, eu o ensino, deixe estar, fica debaixo de minha proteção.

A fada deu uma estrepitosa gargalhada nas bochechas do Século, e se bem o disse, melhor o fez. Atravessou o Atlântico, desembarcou no Pharoux e com o primeiro pobre diabo com quem deparou, agarrou-se.

A varinha traçou no espaço um círculo, e eis o amigo transformado em um Adônis.

A olhos vistos diminuiu a fada de estatura, passou ao raquitismo, fez-se um átomo, entrou e tomou posse do coração da vítima.

Não era debalde que esta passava mal as noites; sentia palpitações contínuas, atirava-se nos braços dos Esculápios — a gente mais feliz da nossa corte. Nada! tudo caía por terra, as tentativas burlavam-se continuamente. O átomo, que lhe invadira o órgão da vida, era o átomo da discórdia. Era estudante; perdeu o ano e foi curar-se na Europa. Note se o rapaz, o átomo não.

À paternidade, sempre cega, jurava que estava bom e estudava...

No fim de alguns meses voltou aos pátrios lares com uma cartinha, recibo de uns cobres que depositou na agencia comercial de doutorandos.

Fazia ontem madrigais a uns olhos pretos, acordou hoje fazendo calembourgs.

Ele bem sentia em si uma mudança; já não era o mesmo; amava um anjinho de seus sonhos, lindo como os amores; agora via que nada mais o impelia para junto desse ente. Como lhe sobrava vida, alegria e uns magros cum quibus, lá ia seguindo na vanguarda dos pagodes.

Daí a um, três, seis meses, um ano, não era ele só; um batalhão dos da sua tempera constituía o reino da loucura; a Roma era esta corte, o capitólio o Alcazar.

A fada, acostumada ao clima da outra zona, sofreu o efeito do calor de fevereiro e adormeceu indolente no coração do doutorzinho.

As estrelas filantes brilhavam no céu parisiense; obedecendo à lei da gravitação, passaram pelo céu fluminense e fixaram-se. Kepler não prévio a negativa à lei que descobrira: tenha paciência.

Os tabeliães, eternos proprietários da Rua do Rosário, abriram e colocaram sobre a mesa os inventários; a mocidade com o poderoso microscópio da ganância, analisou, comparou a habilidade dos pais em ganhar e a dos filhos em gastar, fez a estatística geral das fortunas dos avós do sempre amável belo sexo.

O rapaz, em certos dias, dava um pulo à casa do parente que festejava o aniversário, envolvia-se no turbilhão valsante com a priminha predileta.

Que gente abençoada é essa!

Ela sorria, suspirava; inexperiente, abandonava o flexível corpo aos caprichosos movimentos do par; entregava-se aos devaneios das danças, pendia no ombro — também primo — a fronte, onde a moda estendera um véu de Veloutine e lá se ia mergulhar nesses mares tempestuosos de ilusões da vida feminil.

Mares que têm sereias, e as sereias cantam...

Ele para ela era uma admiração; ela para ele um todo interrogativo.

Nunca se entendiam positivamente. Ela volteava em torno de um coração que era de fada; ele em sua rotação continua adorava... adorava a alma de sua alma, uma herança da priminha.

Grande-chaine!

As mãozinhas abraçavam-se. O termômetro da alma é um aperto de mão; é por isso que certas moças, que marcam sempre zero. estendem-nos uns celebres longos dedos, estoques enluvados.

A desordem dos trastes da sala indicava que a soirée chegara ao seu auge. Os pares cruzavam-se, os espelhos reproduziam com fidelidade os sorrisos de ocasião; o frou-frou da seda casava-se ao sussurro das vozes de todos os timbres.

Os baixos, os tiples, tenores e sopranos combinam-se, permutam-se com mais facilidade do que faria um hábil calculista. Um velhinho, apreciador do belo, abotoa o croisé, como um centurião a toga.

— Agora é que está bom, diz ele esfregando as mãos, com velhaco risinho.

As mais recuam até à parede, e fazem campo: os recém-casados com os mais antigos e proverbiais ares de santarrões, exprimem urbi et orbi a sinceridade um pouco livre de seus corações.

Batem palmas.

Acordes, recitativo e uma voz tenta debalde entoar: — Gran Dio, morir si giovane!

— Quem canta? mãe de Deus!

— D. Mafalda. Que amolação!

— Eu antes queria um beijo da filha do que dela, palavra.

— Pois olha que ela está dizendo que vai morrer bem jovem.

— Já deu o que pôde, meu caro.

— A filha, não te digo nada.

— É bonitinha como o diabo!

Esta última frase é acompanhada de um movimento de atrito entre o polegar e o índex, o que todos sabemos perfeitamente o que significa.

D. Mafalda termina entre aplausos. Risadinhas abafadas, chuva de epigramas.

— Muito bem, D. Mafalda. Vossa excelência parece estar ainda nos seus dezoito. É verdade!

Ela não responde e faz muito bem; tem consciência de si, para quanto serve. O coração não morre!

— Uma quadrilha, meus senhores. Dois elegantes dirigem-se ao mesmo ponto. Atravessam-se com os olhares do ciúme endiabrado.

As medalhas dos relógios giram nos dedos. Oh! essas medalhas são verdadeiros pesadelos!

Terão retratos? cabelos?...

Um ai! dois, logo vinte. Uma imprudente barata atravessa de passagem a sala, beijando o rosto de um jovem.

É incompreensível, inexplicável a sensibilidade do sistema nervoso no belo sexo ante um inseto pacífico, tão americano, tão patrício nosso!

Uma afonsista exclamou no auge do entusiasmo — que vengan! cá estoi yo — e terminou desmaiando ao ver o bichinho que emigrara para lá.

Os namorados voam a desvanecer os sustos, cabendo a primazia aos primos.

O doutorzinho progrediu, mentiu, adulou os velhos; saem os proclamas em um dia, em outro passam os pombinhos ao rol da gente séria.

O dote está na mão.

A lua de mel completou o mês, seguindo a órbita, formou os eclipses — arrufos — e derrete-se por fim.

O ditoso par, por uma deliciosa noite de maio, ao luar, idealiza ainda mergulhando a vista por entre as nebulosas. A natureza veste-se de galas; os noivos, quais náufragos atirados às praias de um paraíso maometano, adormecem à sombra dos amores.

Os pais não cabem em si de contentamento.

— Que casamentão, oh Bárbara!

— De truz, meu velho. A Marocas é uma mocetona de truz!

— E o rapaz? gostava dela?

— Se gostava! Aquilo é querer casar, aquilo sim. Tu nunca soubeste me dizer dessas coisinhas. que eu ouvi ao doutor.

— Já te esqueceste? fiz-te versos.

— Ele os faz melhores. Ora espera, ainda me lembro de um dito dele.

A Marocas estava com uma cara de tolinha, mas ouvia...

— E tu, onde estavas?

— Atrás da porta.

— Hum! o mesmo que fazia tua mãe! O que dizia o doutor?

— Dizia assim — quando os laços do himeneu ligarem os nossos corações, eu te levarei nas azas de meu amor às plagas do infinito.

— Não entendo, e tu?

— E quem entende a linguagem dos doutores? A Marocas casou bem, não há dúvida.

— Ele também não fica atrás. A rapariga levou cinquenta contos e eu sou comendador.

O barômetro matrimonial marca bom tempo; a árvore do amor cria flores e dá o primeiro fruto. A imagem ó velha, mas serve para o caso.

Os avós agarram-se ao badalo do entusiasmo e tocam a rebate.

— Ó D. Quitéria, ora veja só, é tão engraçadinha; eu nunca vi!

— Como se chama, D. Bárbara?

— Ha de ser Marocas, como a mãe.

— Alice, é mais bonito, está na moda: parece dizer — ali se...

— Menina! quem é você, hein?

A criança dá um grito selvagem.

— Sim, senhora, já entende, não é?

— É um azougue, Santo Deus!

— Diz adeus a D. Quitéria, nenê.

E passa a criança a fazer a pantomima — que todos nós fizemos — de abrir o fechar os dedos.

— Isto ha de ser uma esperta!

A vovó agarra na criança que olha um tanto desconfiada para aquela gente.

— Vou comer a barriguinha dela.

— Quem sou eu? você quer casar com o Quincas?

O Quincas é o filho da Quitéria.

— Não imagina, é tão caladinha, não me incomoda um só instante.

Para confirmar a baby canta.

— Ela hoje está aborrecidinha...

— Há de ser dos dentes...

Uma rajada fustiga o céu ainda sem nuvens, o barômetro marca variável.

Que tens hoje, Artur?

— Uma indisposição, Marocas.

— Estás doente? dize.

— Qual! Imagina que este diabo de emprego exige-me agora um sacrifício; já não basta o trabalho, é preciso ir até ás dez horas da noite. Estou maçadíssimo; peço a demissão.

— Mas para que, Artur?

— Estas malditas conferências diplomáticas, minha filha. Não ouviste, falar nelas?

— Sabes que não entendo disso.

— Pois ficas sabendo então, Marocas. O Japão mandou um diplomata, e a coisa não está muito bonita.

Se o Brasil não se quiser sujeitar à sua imposição é bem possível que tenhamos por aí guerra.

— E o Jornal o que diz?

— Cala-se; é segredo tudo ainda.

— Ah! e por quantos dias haverá conferências?...

— Poucos, creio eu.

— Ainda bem, eu tenho medo!

O relógio bate sete horas.

— Pois eu vou até lá...

— Volta cedo, sim?

— Sim; eu estou maçado crê!

O dândi abraça, beija a mulher e lá vai cantarolando:

Cest donc toi, madame Barras,
Toi qui fais tant dembarras?

O Japão mandou, com efeito, um diplomata chamado Offenbach e o salão das conferências é na Rua do Espírito Santo — que tem um espírito de pouca santidade: — As Variedades para variar.

Ah! se se pudesse agarrar nesses diplomatas ad hoc, fazer-lhes o mesmo que se está fazendo aos cães! Apanhá-los em redes, levá-los à polícia para as caras metades os irem reclamar, garanto que o Estado auferiria um lucro fabuloso, exigindo um vintém, um só vintém por cada bípede.

E não se lembrou disso o Sr. de Cotegipe!! Não peço privilégio, para nada vale, dou grátis a lembrança.

A Marocas que é a pérola das noivas, salvo uns certos caprichozinhos, senta-se ao piano e canta um — Adeus.

O Aragão marca a hora fatal para a flor da gente, a esposa fecha o livro, observa o filhinho adormecido, espera o diplomata. Entra este, corre a Marocas e pendura-se ao pescoço da boa peça, seu marido, a vítima da fada.

— Tardaste!....

— Se te parece.... Quando eu digo! Estes diabos de estrangeiros faliam, berram, ninguém os entende.

— E continuam as conferências?

— Sabe Deus quando acabarão!

Agora vem a China com as suas.

— Mas eu perguntei ao vizinho, e queres saber o que me disse?

— Foste dizer? Não se pôde confiar nada a mulheres, já viram? Um segredo de Estado! Ora, ora.... E o que te disse ele?

— Pôs-se a rir.

— Naturalmente... algum tolo...

— Disso não tem ele nada. É formado em direito, advogado....

— Ah! e como sabes disso?

— Foi ele mesmo quem mo disse. Brinca muito com a menina, dá-lhe balas.

— Está bom; pois eu acho que é prudente não lhe falares.

O mundo tem boca, e coitado daquele que cai nela.

— Então não falo mais.

Passam-se os dias, e nada de findarem-se as conferências. O barômetro passa a marcar chuva. A Marocas espera a noite inteira, e o diplomata, para não se expor ao tempo, não volta à casa. Então chegou o supremo instante; rasga-se o véu que a mulher — ainda tola — traz nos olhos, e a realidade desenrola o quadro das misérias domesticas.

É um dize tu, direi eu interminável. Lá fora, na rua do Ouvidor o marido é um pândego, espirituoso, um discípulo da escola de Francisco I; em casa o espectro do aborrecimento, cuja fronte vive sempre anuviada pelo enfado, um continuo mal estar.

Entra — apressa o jantar e volta às conferências, às lutas do tapis vert.

As economias domesticas substituem pelo clássico Virgem o Chambertin, e o Tokai faz as delícias do Provençaux.

As dívidas ao alfaiate, ao sapateiro não lhe dão abalo; as contraídas com a dama de copas e o valete de espadas são coisas delicadas que afetam a honra que a fada evaporou.

A Marocas, a ingenuidade em pessoa, fica admirada, chora, corre ao espelho, — o conselheiro das damas —, mira-se e diz:

— Ainda sou bela!

O doutor, vizinho, diz-lho quando pôde; ela mais acredita ainda.

Um dia percorre as colunas do Jornal e depara com um anuncio:— Creme da rainha de Sabá, Pérolas celestes, Leite de Firnéia. — Um pulo e está tudo em casa. Põe-se diante do confidente e começa a operação do lápis mágico e do creme; mete-se em um banho de opoponax. O marido nada vê, desgosta-se do perfume, o doutor, advogado, tudo vê e acha o perfume embriagador, celeste até...

A mucama ajuda-a admiravelmente na transformação, ensina mesmo. Maravilhoso! As madeixas vão perdendo a cor do ébano, e um louro pálido a vai gradualmente substituindo. O melhor remédio para amaciar a pele é vadiar; ela sabe disto, estica-se no sofá e devora (com licença) romances e mais romances.

Começou por Stael e descrendo delia, conheceu a literatura da moda. O vizinho faz-lhe ver a diplomacia a que ponto é diplomata; ela é idealista, o primo realista. O Japão complica os negócios por um lado; por outro o dote de Marocas tendo sido submetido a temperaturas elevadas, evapora-se rapidamente; o vizinho aplaina as dificuldades todas. Em sonhos aparece-lhe um espectro, um verdadeiro Janos.

Uma das faces encarquilhada, feia, o amor do seu priminho; a outra bela e risonha — o amor do advogado.

O barômetro sobe — tempestade — mas a Marocas que conhece a questão a fundo bate o pé.

— Seu Artur, você me engana, eu sou livre de fazer o que quiser.

— Em minha casa quem manda sou eu, ouviu?

— Eu também. Vá esperando.

— Você está doida, mulher?

— Meu caro, chegou a época da emancipação. Sou livre!

— Quem lhe ensinou essas coisas?

— Aprendi durante as suas conferências. O senhor matou o meu santo amor.

— Amanhã levo-a para a casa de seus pais, menina. Oh! o meu futuro! Que escândalo, Jesus!

A cabeça é um vulcão, a alma é uma geleira.

O vizinho recita melancolicamente:

O Tejo era sereno, a riba silenciosa, a viração sutil!

— Olha, meu caro, cá está uma carta que, por engano abri. É da Aimée, ouviste? Uma conta de um vestido de veludo para o papel da Grande-Duchesse, isto com certeza não é para mim.

O marido abaixa a cabeça e cala-se; a consciência grita-lhe: toma! és o culpado.

No dia seguinte, novas cenas, novas complicações; as nuvens acastelam-se tempestuosas naquela atmosfera conjugai. Aí tendes, se não sabeis por vós mesmos, o verdadeiro inferno em casa; podeis enfeitar o vosso domicílio com milhares e milhões de cruzes, porque o demônio uma vez dentro, é difícil enxotá-lo.

A nuvem, verdadeiro nimbus aterrador, está a arrebentar; a fada, escondida no coração do diplomata, acorda, escapa-se dos aurículos e ventrículos, atravessa o tórax, a epiderme, volta às antigas fôrmas e apresenta-se. Uma princesa de cabelos de ouro!

Fura com a mágica varinha a nuvem que arrebenta, alaga, arrastando amores, juramentos, a bagagem dos protestos todos.

O filho — se algum há — precoce, como os filhos cá da terra, estende os braços até o cofre do vovô, e, um pé aqui, outro ali, vai subir, como o pai, ao Capitólio. Marocas, à vista do escândalo, inverte o papel de Eneias, põe a filha ás costas, corre, foge e desmaia ao sair de casa.

O vizinho — formarum spectator elegans — socorre-a; ela cobra ânimo e ajuda-o por sua vez.

O marido espreguiça-se, boceja para esquecer os últimos escrúpulos da consciência.

A fada, que tem a habilidade de todas as fadas, faz uma careta ao século das luzes, e, envolvendo nos braços a vítima, diz-lhe ao ouvido: me voilá, mon cher.

---
Alfredo Bastos (Fantasias, 1879)
Pesquisa e adequação ortográfica:  Iba Mendes (2019)

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Sugestão, críticas e outras coisas...