domingo, 16 de junho de 2019

Os porcos e os lobos (Conto), de Brito de Barros



Os porcos e os lobos
(Apólogo)

Era uma vez um javali e dois porcos. Juntara-os as afinidades de instintos, de interesses e de porcarias.

Tratavam de assegurar a exploração privativa de um pequeno chiqueiro com seu lamaçal adjunto, pertencentes a muitos indivíduos um tanto descuidosos do direito de propriedade.

Chama-se "chiqueiro" a um chão coberto de azinheiras e sobreiros onde pasta o gado suíno que se quer engordar; e denomina-se "lamaçal" um charco de água pútrida, misturada com terra e outras substâncias orgânicas, onde o mesmo gado se refocila para gozar o doce farniente da vida suja que lhe é própria.

Incapaz de produção apreciável pela sua constante esterilidade ou má cultura, o terreno achava-se quase abandonado pelos seus numerosos e descrentes possuidores. Convinha pois aos cevados garantir o usufruto do chiqueiro e atoleiro, tanto mais preciso à expansão dos seus hábitos, e à satisfação das suas necessidades, quanto no lugar eram escassos os recursos para viver.

Sendo porém indispensável assentar nos meios concernentes ao conseguimento do fim que se propunham, reuniram-se os três em conselho resolutivo.

Todos sabem que os porcos, propriamente ditos, são animais domésticos (sus domesticus), e que os javalis são os mesmos porcos, porém bravos ou monteses (sus agrius). De natureza maus, ingratos e estúpidos, pois não conhecem nem amam a quem lhes faz bem, sucedendo muitas vezes morderem a mão protetora, estes brutos, refratários aos bons sentimentos, alimentam-se não só de lande e bolota, mas de toda a qualidade de resíduos, lavagens e detritos, e comprazem-se, por bossa ou por gosto, de fossar no lodo mais espesso e de atascar-se nos vastos tremedais.

O primeiro bácoro da sociedade constituída era nédio, nutrido e pelado. Se fora homem dava, incontestavelmente, um cônego excelente.

O segundo, pelo contrário, era magro, velho e peludo. Se houvesse de pertencer à nossa espécie tínhamos nele o tipo nítido, característico, do antigo boticário de aldeia. Quanto ao porco montês, esse, como o nome está indicando, era animal do monte e das brenhas: esquálido, feroz, brutal, mas poltrão ante o perigo ou o inimigo. Se pela metamorfose pudesse tornar-se em indivíduo do gênero humano, obtinha-se apenas um falante descarado, ou um salteador de encruzilhadas, traiçoeiro e cobarde.

Discutida largamente a matéria, que servirá de pretexto à união e reunião, opinaram os animais que o meio eficaz, completo, decisivo, consistia em desgostar os proprietários do montado, lançando sobre este o descrédito para que o abandonassem de todo e de vez. Havia porém um, entre eles, de quem os bichos em verdade mais se arreceavam, não só porque plantara e atalaiava de perto a propriedade, e se opunha a conúbios, mas porque tinha a generosidade ou quiçá a imbecilidade de entreter-se lançando pérolas aos porcos. E este feixe de circunstâncias, esfuziadas e roncadas, de algum modo lhes entibiava o ânimo e os impulsos, importando por isso um estorvo aos seus desígnios.

— Precisamos de desfazer-nos do importuno — disse o javali aos companheiros na plenitude dos instintos e da índole de besta fera.

— Necessário é, com efeito; mas como, se ele nos tem amparado? — perguntou um porco manso, o peludo.

— Perfeitamente!— respondeu de pronto o montês. — Surpreendo-o com uma investida, apareço-lhe armado, iracundo, bordeleiro; ele assusta-se, cambaleia e estende-se. Aproveito a situação para destituí-lo do direito de intervir, adquiro o seu quinhão e...

— E quê? — interroga ansioso o mesmo bácoro, com os olhos lampejantes de alegria e malvadez.

— Mata-se! — conclui o bruto selvagem, de focinho levantado, com as cerdas hirsutas e num rugido grosso de leão triunfante.

— Isso é muito... — observa o outro porco, o pelado, em tom moderado e hipócrita.

— Mata-se moralmente, é o que eu queria dizer — explica o javali, radiante do sinistro e perverso pensamento, que lhe intumescerá o encéfalo. — Se der cavaco... atacamos-lhe a honra e com certeza derrotamo-lo, e ou se resigna, ou dá sorte: no primeiro caso amua, retira-se e mete-se nas encóspias; no segundo caso levamo-lo de cambalhota em cambalhota até o estatelarmos em nosso lodaçal. Uma vez aí imerso está seguro, não mais se levantará; mas, se porventura o conseguir, nunca em dias de sua vida poderá limpar-se inteiramente da lama viscosa com que nós o inundarmos.

— Apoiado! muito bem! — roncaram entusiasmados, satisfeitos, os dois cevados domésticos, o manso e o hipócrita, o peludo e o pelado.

Mas... quão falíveis, ilusórios e fátuos são os cálculos dos brutos! Terminaram os concertos; começam os desenganos, o conhecimento e a evidência do erro e da maldade.

Quando os bácoros, contentes de si, lidavam azafamados na execução imediata do fantasioso plano, empregando auxiliares que reputavam benignos, amigos e dóceis, eis que estes lhes saem lobos vorazes, em cujas fauces profundas porcamente caíram.

E assim, o javali e os porcos, abortada a ideia de longo tempo concebida e carinhosamente acalentada, foram vítimas voluntárias, necessárias, fatais, da sua própria perversidade, da sua natural estupidez e da sua desmedida e suína ingratidão!

Pobre humanidade! aliás, triste porcaria!


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Bento José de Souza Brito de Barros
 (Farpões, 1885)
Pesquisa e adequação ortográfica:  Iba Mendes (2019)

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