terça-feira, 4 de junho de 2019

Aromas campesinos (Conto), de Conde de Arnoso



Aromas campesinos

Ao João do Eido, o jornaleiro viúvo da Engrácia, conhecido em toda a freguesia, morrera-lhe o seu único filho, uma criança de cinco anos. O pobre homem estalava de dor. O pequenito, já deitado no caixão forrado de paninho vermelho, com os olhos mal cerrados, parecia olhar para o pai, que, sentado ao lado, sobre um banco tosco de castanho, o ameigava com as mãos sujas e calosas, passando-as ao de leve, para o não magoar, por cima da cara fria do anjinho, que as moscas mordiam desapiedadamente. Vizinhas entravam com abadas de flores do campo, que lançavam no estreito caixão. Ao verem a dor muda do pai, represavam as lágrimas, que em grita vinham dispostas a verter, e, benzendo-se, saíam desconfiadas. Fora iam comentando, acompanhando de glorias os propósitos que aventavam.

– Ele, no fim, dizia uma, até é capaz de estimar. Para um homem só, um pequeno daquela idade era até um empecilho!

– Cruzes, Santo Deus! resmungava uma velha, a mim é que nunca me enganou. Ainda ninguém o viu chorar! É de pedra, o homem!

A Rita da Cancela, que vinha chegando, ao ouvi-las, ralhou:

– Também era melhor que vocês tratassem de acender o lume ao Sr. João, que há três dias não come coisa nenhuma.

E entrando:

– Guarde-o Deus. O seu filho está no céu, ao colo da mãe, a pedir por vossemecê. Vamos, é tratar da vida; vou acender o lume e fazer-lhe um caldo de azeite.

Da porta chamou a Joana, que lhe trouxesse umas folhas secas, e fosse pedir à tia Rosa um braçado de couves.

Curvada defronte da lareira, com as saias entaladas entre as pernas, esgaravatava com um pau, que encontrara ali, ao lado, as cinzas frias e apagadas.

– É o que eu digo, há três dias que se não faz lume nesta casa! Deita aí essas folhas, rapariga; dá-me um molho de cavacos.

– Aqui não há.

– Pois vai buscá-los lá fora.

Acendendo um fósforo por debaixo das folhas, a casa encheu-se de fumo. Aproximou as pedras denegridas, que serviam de trempe, e, como a Joana não chegasse, partiu o pau que tinha na mão em pedaços, cruzando-os sobre as folhas, entre as pedras. A chama principiou a morder neles, crepitando, e como fossem verdes, a seiva refluía nas extremidades em gotas, como lágrimas. O fumo escapava-se lentamente por entre as telhas vãs.

João do Eido, olhando para a lareira, exclamou:

– Ai, Sra. Rita, que me queimou a vara do meu rapaz!

– Olhe que lhe devia ser agora muito precisa; deixe lá.

E às voltas, remexendo tudo como se estivesse na sua própria casa, principiou a fazer o caldo.

Era uma excelente mulher a Rita!

Da porta o mulherio anunciava:

– Aí vem o Joaquim do Portelo com os quatro rapazolas que hão de levar o anjinho.

Minutos depois entrava Joaquim do Portelo, um homem alto, desempenado, dos seus trinta e alguns anos, forte, espadaúdo, de suíças ruivas, cortadas rentes; atrás os pequenos, descalços, de calças de cotim arregaçadas, em mangas de camisa, de cabeças rapadas, segurando nas mãos as carapuças; com os olhos esbugalhados, medrosos, desconfiados, arreceando-se de entrar. As mulheres empurravam-os aos encontrões para dentro da casa.

– Pois compadre, disse o Joaquim limpando com as costas da mão as bagas de suor, que da testa lhe escorriam pela cara abaixo, tenho uma má noticia a dar-lhe. Quando ainda agora fui lá cima à residência buscar estes rapazes e prevenir o Sr. abade que dentro em pouco lá estaríamos com o anjinho, soube que o meu afilhado não podia ser enterrado dentro da igreja!

As mulheres, que de bruços espetavam no corpo inanimado da criancinha morta alfinetes para que uma vez no céu pedisse a Deus por elas, ergueram aterradas as cabeças e até a própria Rita,

que nesse momento, segurando o testo da panela onde fervia o caldo, deitava para dentro uma mancheia de sal, se voltou espavorida. E todas à uma protestaram contra semelhante sacrilégio! Só o pai se conservava calado. Joaquim, vendo naquele silencio um sinal de assentimento, ele que vinha farto de discutir em vão com o abade, aproveitou o ensejo, acrescentando:

– Calem-se para aí, mulheres. É como lhes digo. Pelos modos, por essas Europas, anda uma doença má que mata tudo, e foi o Acipreste por mandado do Sr. arcebispo, mais o regedor, que deram a ordem. Por agora toda a gente que morrer enterra-se no adro, enquanto a junta da paróquia não faz um cemitério como o da Vila. Rapazes! agarrem nessas azelhas e vamos, que se está fazendo tarde. Deixe lá, compadre, e, tomando o caixão trouxe-o para fora da porta, onde os rapazes lhe pegaram.

As mulheres saíram atrás praguejando entre dentes. A Rita rezando continuou a sua tarefa. O pobre pai, como se estivesse pregado no banco de castanho, continuou a enxotar com a mão as moscas, do cepo, sobre o qual, momentos antes, descansava o filho estremecido! Lá fora os sinos da igreja principiaram a repicar alegremente. João, ao ouvir o repicar festivo, levantou-se cambaleando e foi-se à porta onde se quedou arrimado à ombreira. Alvejava, no cimo do monte, por entre as árvores copadas, o esguio campanário. O sol, um sol de agosto, enchia de claridades a encosta, e, numa volta do caminho, João do Eido pôde seguir com a vista, até ao momento de transpor o portelo da bouça do fidalgo, o triste cortejo que lhe levava o melhor do seu coração! A vista pregada no portelo, ali se ficou até que os sinos se calaram. Então voltou-se para dentro da casa, onde nunca mais brincaria o seu Manuel a cavalo, às correrias, na vara com que a tia Rita tinha acendido o lume daquele dia! Sobre a banca, dentro duma enorme malga de barro vidrado enfeitada de arabescos amarelos, fumegava o caldo apetitosamente ao lado dum enorme naco de broa.

Vorazmente, como um selvagem, pegou na broa, esfarelou-a dentro do caldo, e, agarrando na tigela com ambas as mãos principiou a beber como um glutão, a largos tragos. A Sra. Rita triunfante advertia:

– Repare homem, olhe que se escalda!

***

Passado um mês, dobravam a finados os sinos da freguesia. Morrera o do Casilho, o pai do regedor. Na aldeia perguntava-se com curiosidade se também seria enterrado no adro como o filho do João do Eido. Era em fins de setembro, estava à porta o São Miguel. Andava tudo numa grande faina; cortara-se o milho das terras altas, onde agora os gados pastavam nos restolhos; nas eiras, as raparigas esfolhavam, cantando alegremente ao desafio; limpavam-se, pintando-se de novo, as grades dos espigueiros vermelhos; os troncos dos altos choupos esguios vestiam-se de medas com a palha seca dos milharais; começara-se a vindima; à porta das adegas concertavam-se e lavavam-se as vasilhas; dependurados nos galhos das árvores, homens, mulheres e crianças colhiam as uvas deitando-as para dentro dos estreitos cestos vindimos; os velhos lagares de pedra enchiam-se pouco a pouco. A natureza e os homens despiam os campos. Só o milho das terras fundas, das terras lentas, já muito doirado, se conservava ainda de pé, aproveitando os últimos dias de sol. Ia um rico S. Miguel.

João do Eido, que naquele dia trabalhava na Juncosa, apenas ouviu tocar a defunto e soube quem era o morto, largou o trabalho e apressadamente dirigiu-se à igreja, uma légua bem puxada, a indagar o que havia. Chegado ao cruzeiro viu que da janela da residência o abade falava para baixo com o próprio regedor, o Sr. Josezinho do Casilho, montado na égua rabona em que costumava ir às feiras, à vila. Para não ser visto, coseu-se com o muro do passal e caminhando vagarosamente foi postar-se, à escuta, no angulo da meia laranja que defronta com os degraus do adro. O abade, com os cotovelos fincados no peitoril, dizia para baixo, sorvendo uma pitada:

– É que não vejo outra volta a dar-lhe. Siga o meu conselho, que não vai mal. Vossemecê vai daqui à vila falar com o Arcipreste e com o administrador. Com ordem deles e com a licença da fidalga, cá se arranja o resto. As eleições estão

À porta, todos sabem que temos a freguesia na mão; é que nem sequer lhe põem uma duvida.

– Veremos. Então diga lá, Sr. abade, no fim de contas o que é que eu hei de dizer?

– Homem, primeiro que tudo, que morreu seu pai, que lhe mandou fazer um caixão de chumbo, que vai pedir à fidalga licença para o enterrar na sepultura da casa, é uma sepultura particular, o povo não tem nada que dizer, e em estando feito o cemitério que faz a transladação. Depois vai à fidalga, volta a falar no caixão, explica que os ossos do seu pai se não misturam lá com os dos fidalgos, e está a coisa arrumada. Vá-se com Deus.

O regedor esporeou a égua e partiu a galope na direção da vila, repetindo como uma criança o sermão que o abade lhe ensinara.

João do Eido era a primeira vez que ali vinha depois da morte do filho. Sabia pelo compadre, que o seu anjinho se enterrara à porta da igreja, do lado direito. Quis ver a sepultura, mas faltou-lhe o animo para subir os degraus do adro.

Trepou acima do banco de pedra que cingia a meia laranja e espreitou por cima do parapeito. Lá estava. A terra remexida abaulada, cobrira-se de fresca relva, viçosa.

Fitando com ternura aqueles poucos palmos de terra, o seu coração descobria, através do pequeno tapete esmeraldino, o querido filho da sua alma, sorrindo meigamente como no dia em que o compadre Joaquim lho fora buscar a casa para nunca mais voltar! E parecia-lhe que de dentro da igreja, fechada àquela hora, saía a voz de Inácia, que em choro, suplicante, lhe pedia que lhe levasse lá para dentro o filho tão amado! Alucinado, saltou abaixo do banco e a correr encaminhou-se para casa da fidalga, que foi encontrar no jardim, rodeada de criadas, a encher de flores as jarras da capela. Confusamente explicou-lhe o que ali o trazia.

Vinha pedir-lhe licença para que o do Casilho, a quem tinham feito um caixão de chumbo, e insistia nesta particularidade, fosse enterrado na sepultura da casa.

– Então, perguntou a fidalga, é do mando do regedor que cá vieste?!

Confessou que não; mas que, sabendo que o regedor lhe vinha fazer aquele pedido ele viera primeiro e lhe pedia muito, e erguia as mãos em ar de suplica, que a fidalga consentisse.

– Olha, João, disse a velha fidalga suspirando, hoje a lei é igual para todos; e quando eu morrer, de nada me servirá ter lá em cima a sepultura onde estão os fidalgos desta casa, Deus lhe fale n'alma.

– Mas o Sr. abade... e, como se sentisse no pátio o tropear dum cavalo acompanhado dos latidos dos cães, concluiu: há de ser o Sr. Josezinho; ele explicará melhor do que eu.

– Vai dizer-lhe que estou aqui.

O José de Castilho explicou tanto e tão bem a sua petição, que a boa da fidalga acedeu facilmente ao pedido, pensando talvez que um dia, apesar da dureza das leis, lhe consentiriam que o seu frio corpo gelado fosse descansar ao lado daqueles que mais amara na vida!

***

O dia seguinte amanheceu sombrio e carregado. O sol subia no horizonte, escondido por densas nuvens pesadas, que se acastelavam na atmosfera. O galo da torre andava num rodopio sem saber para que lado se havia de voltar. As folhas secas, desprendendo-se das árvores, subiam em espirais envoltas em poeira. Para as bandas do sul desenrolava-se uma comprida fita escura. Os tons verdes dos pinheiros, dos castanheiros, sobreiros e choupos, sem sol que os fizesse ressaltar, confundiam-se tristemente esbatendo-se nas encostas cobertas de giestas. Somente a flor amarela dos matos quebrava nas bouças a melancolia da paisagem.

O ofício tinha sido demorado. Juntaram-se os padres de todas as freguesias em redor. João do Eido, ao entrar na igreja, pousara a enxada ao lado do desengonçado guarda-vento e encostando-se à pia assistiu impassível à longa cerimônia. Findo o enterro os padres conversando, tiravam as suas vestes, na sacristia. Pouco a pouco vinham saindo, com as batinas embrulhadas em trouxas, em grandes lenços vermelhos, metidas debaixo dos braços, e segurando na mão os pesados guarda-chuvas e as velas de cera que além da meia coroa, cada um acabava de ganhar com o seu fanhoso latim. João contava-os um a um. Quando o último saiu, dirigiu-se à sacristia, onde o abade, debruçado ainda sobre o arcaz, com os óculos acavalados no nariz, lançava no livro dos óbitos o nome de Francisco do Casilho. A igreja despejara-se; apenas o sacristão levantava de cima da eça o velho pano preto muito pingado de cera. O abade, acabando de escrever e limpando a pena às abas da batina, perguntou:
– Que há de novo?

– Há, Sr. abade, gaguejou o João muito pálido, que eu venho pedir a vossa senhoria, que mande enterrar o meu filho dentro da igreja.

– Endoideceste! há mais dum mês que ele se enterrou! Perdeste a cabeça!

– Oh! Sr. abade, pois o meu filho, um anjinho, sem pecados, há de ficar como um cão fora da igreja, e o do Casilho, Deus lhe perdoe, um pecador como todos nós, há de ser mais que um inocente?

– Homem, vai com Deus, decididamente não estás em teu juízo. O teu filho a esta hora está podre, comido dos bichos, percebes? Se lhe mexesse era uma peste que aí se levantava. Podre, ouviste? E, levando o lenço ao nariz, como se já lhe cheirasse mal, saiu da sacristia. Ao meio da igreja, voltou-se para o altar do Santíssimo e ajoelhou um momento. Da porta recomendou ao sacristão:

– Que, depois de arrumar tudo muito bem, fechasse a igreja e lhe levasse com as chaves os livros que tinha deixado em cima do arcaz.

Fora, caia a chuva em grossas gotas. A porta da residência estrondeou com força; era o abade que entrava. João, resolutamente, foi-se ao guarda-vento, pegou na enxada, e, muito serenamente, como se fosse fazer a coisa mais simples deste mundo, participou ao sacristão que ia enterrar o filho na igreja.

– Cruzes, canhoto! Não que eu ouvi o Sr. abade. Vou já dizer-lho.

João recuou um passo, passou a enxada para o lado direito, estendendo-a a todo o comprimento do cabo, que segurava com ambas as mãos, e ameaçador, com a cara completamente transformada, os olhos pregados no sacrário, defronte do qual ardia escassamente a luz da lâmpada de cobre, mordida pelo verdete, bramiu como uma fera:

– Tão certo como estar ali nosso Pai, se dás um passo, escacho-te de meio a meio! E muito tranquilo, debruçou-se sobre uma sepultura, arrancou-lhe a tampa, e depois, de pé, com a sua enxada, principiou a abrir a cova. O sacristão, tremendo como varas verdes, olhava aterrado para ele. Sabia que era homem decidido; e, naquele momento, lembrava-se de o ter visto um dia, havia muito tempo, quando conversava a Engrácia, varrer a feira na vila, com o seu varapau ferrado, só porque uns estúrdios lhe tinham dirigido umas graçolas pesadas. João do Eido, todo entregue à sua faina, nem sequer reparava nele. Feita a cova, endireitou-se, e no cabo da enxada, encostado à perna, marcou um palmo acima do joelho, a altura do seu Manuel!

Curvando-se de novo, ajustou a medida. Estava exata. Ao dirigir-se para fora, reparando no sacristão, repetiu-lhe:

– Se tentas sair, estendo-te à porta como um tordo.

Deixara de chover; o sol iluminava alegremente o vale; as gotas da chuva faiscavam nas folhas das árvores; os melros esvoaçando nos silvados, assobiavam contentes, e lá do fundo das eiras, subiam repetindo-se num eco distante, as cantigas afinadas das raparigas do campo. Com muito cuidado, como se descobrisse um tesouro encantado, João do Eido desenterrava o filho. Descoberto o caixão esfarrapado, lançou-se de gatas, tirando com as mãos a terra que o prendia dos lados. Quis abri-lo; mas não teve animo. Pegou no caixão, que se desconjuntava, achegando-o contra o peito, e entrou na igreja muito curvado, com a cabeça quase encostada a ele. Ajoelhando-se à beira da sepultura que abrira, depositou nela o seu tesouro. Com as mãos encheu a sepultura de terra, depois puxou a tampa assentando-a levemente com meiguice e ali se deixou ficar de rastos a chorar!

O sacristão, que ao vê-lo entrar sufocara um grito de pavor, encontrava agora animo de ir avisar o Sr. abade. De vagar, pé ante pé, saiu da igreja recuando. Instantes depois entrava o abade. Vinha apoplético, raivoso, disposto a fazer ir tudo pelo ar; mas ao ver aquele homem rude, soluçando sentidamente, de rojo sobre a campa do filho que ele próprio enterrara, sentiu um grande abalo e pareceu-lhe que do altar a imagem de Nossa Senhora das Dores, traspassada de espadas, chorava realmente com os olhos fitos em tão desventurado pai! Acercou-se dele; e, pousando-lhe amoravelmente a mão sobre o ombro, disse comovido:

– Então, Sr. João, então!

João do Eido, agarrando-se-lhe às pernas, como quem implora perdão, exclamou:

– Ai! Sr. abade! até cheirava bem!



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Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2019)

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