sexta-feira, 7 de junho de 2019

As ironias do amor (Conto), de João Grave



As ironias do amor

Antônio, tinha-a amado muito, outrora, quando as ilusões da sua mocidade davam flor, com a timidez, o recolhimento, a doçura íntima com que se amam as almas puras. Florinda entrava então nos dezoito anos, saía dos encantados jardins da adolescência, trazia os olhos namorados de beleza, deixava a paz da juventude para entrar nas sobressaltadas ilusões do amor e todas as manhãs, quando Antônio passava na rua em que ela vivia, encontrava sempre à janela a sua vaporosa cabeça loira a que a poeirada fulgente do sol da primavera dava um brilho de joia rara e animada. A princípio olhou-a com acanhamento, no receio de ser escarnecido: depois, o hábito foi-lhe comunicando coragem e fitava-a com mais insistência.

Uma vez, pareceu-lhe mesmo vê-la sorrir com simpatia, e esta grata, suave suspeita encheu-lhe o peito de luz, sob a alegria sem névoas duns olhos tão azuis e tão cândidos que dir-se-iam tocados de uma gota da tinta do céu.

A partir desse momento, a sua muda adoração ganhou mais confiança e tranquilidade. Constantemente pensava na radiosa visão matinal que vinha espreitá-lo da alta varanda, entre os vasos com pelargônios que, sob a claridade benéfica, se cobriam de florações novas, e de quem ele idealizava, em repousadas, meigas horas de enlevo, a castidade sem mácula, a ingenuidade, a ternura, e monologava:

— Ela já reparou!... Ela gosta de mim...

Prendera-se com tanta devoção do espírito e dos sentidos a esta aparição romântica que era uma rosa desabrochando na aridez da sua existência, que se ela um dia não lhe aparecesse, sentiria uma dor profunda: mas, como Florinda constantemente se mostrava e lhe sorria, a pouco e pouco a dolorosa suposição da sua ausência se dissipou na sensibilidade de Antônio, como um tênue fumo. No romance desta paixão, começaram a vicejar as flores divinas da felicidade — oh! uma felicidade toda imaginária, porque nunca entre os dois se havia trocado uma só palavra de cumprimento e de afeto! Mas tão seguro estava Antônio do amor de Florinda, que ia já construindo docemente uma vida futura de placidez e de veneração perpétua, em companhia dela, junto do seu regaço, dos seus pequeninos pés, com as mãos da noiva, que eram magras, brancas e de dedos afusados, presas nas suas, balbuciando as confissões que um exaltado romantismo lhe inspirava. Havia de perguntar-lhe, com a voz débil com que se fala aos convalescentes:

— Não és tu feliz?...

E pensando assim, com a imaginação povoada de esperanças, reconstituindo na fantasia ardente a fronte cândida de Florinda, que era melancólica e sonhadora, julgava que ela lhe sorriria com brandura e reconhecimento por toda aquela ventura que ele lhe oferecia e por toda a graça terna de que a rodeava.

Em momentos de maior intensidade de sentir, surpreendia-se a compor o seu lar. Seria numa aldeia de cavadores simples e crentes, entre árvores de boa sombra. Escolheria uma casa pequenina, com latadas de glicínias e limoeiros correndo ao longo das paredes — porque para duas criaturas que muito se querem, uma concha basta. Os dias, nesta solitude propícia, deslizariam com asas de seda e de luz, tão rapidamente que não chegariam a aperceber-lhes o tédio e a fadiga. Estes devaneios formavam-lhe na alma cristalizações de saudade "e mergulhavam-no ao mesmo tempo em gozo interior e em
beatitude...

Decerto que nunca tivera a audácia de se demorar sob a janela de Florinda, de oferecer-lhe uma carta em que lhe contasse todas as ansiedades, todas as inquietações, todos os cuidados do seu amor. No entanto, considerava que Florinda devia conhecer já esse amor forte e confiante, pelo olhar triste e implorativo com que a contemplava e pela súbita palidez do seu rosto, quando em certos domingos a encontrava na cidade, com a mãe:

— As mulheres são subtis — dizia ele para sossegar as suas dúvidas — e adivinham por instinto, os segredos que os homens que amam não ousam revelar-lhes.

Ora, quando este sonho feliz se cobria de rosas, Antônio recebeu inesperadamente a notícia cruel de que Florinda ia casar-se, viver talvez contente e adulada, com um homem entrado no outono da existência, rico certamente, mas que não trazia a refletir-se no olhar fulgor de inteligência, de bondade, de superioridade espiritual. Ao amigo, que lhe levara a nova perturbante, quis Antônio iludir com um riso cortante e seco e a zombaria amarga dos sarcasmos: mas ele facilmente compreendeu quanta dor havia nas ironias e numa ácida gargalhada, que afloravam à boca antes que as lágrimas aflorassem aos olhos.

— Homem, para que hás de representar, ser comediante, se eu leio no teu espírito, e perfeitamente entendo o teu despeito? — atalhou, de súbito, o amigo.

— Despeito? Ora essa!... Eu conheço a sociedade do meu tempo. A ambição não poupa mesmo estes lindos anjos femininos, que nós andamos constantemente a engrinaldar de flores e de virtudes! Em que é que eu posso julgar-me ofendido?

— Não é bem uma ofensa, o caso de que se trata. Muito pior, talvez: — é uma humilhação... E as humilhações sempre doem, não é verdade?

Antônio acendeu um cigarro, ficou-se um instante a seguir as espirais do fumo azulado que se torciam no ar, e exclamou bruscamente:

— Deixa-me só! Tenho necessidade da solidão para fazer uma romagem piedosa ao passado.

— Da melhor vontade! — acudiu o amigo, despedindo-se.

Deu alguns passos à volta da sala, espreitou durante algum tempo a rua através da vidraça e com um profundo desalento no coração começou a meditar sobre o singular desfecho do idílio que durante alguns meses fora o seu enlevo. Florinda ia casar-se! Toda a ventura que idealizara em horas de placidez e de confiança se esfumava como um fugidio nevoeiro. Tinha na alma a sua luarosa imagem e sentia invadi-lo uma impetuosa cólera contra essa doce rapariga que lhe parecera tão resplandecente de candidez e de gracilidade, tão inocente, e que afinal era fútil como todas as mulheres, entregando-se a um homem com dinheiro para satisfazer todos os seus caprichos femininos, todas as suas absorventes aspirações de luxo. Então, enfurecia-se contra si próprio, porque ainda a amava apesar de desdenhado e de traído, numa grande abdicação de personalidade, de dignidade, de orgulho. Experimentou uma enérgica revolta contra a sua fraqueza, e sentando-se, apertando a cabeça nas mãos, murmurou:

— Acabou-se! Caiu-me uma flor a uma pocilga... Para que hei de interessar- me por ela?

Recuperando, porém, a sua placidez, acalmada a sua tempestade interior, considerou:

— Terei eu, no entanto, o direito de acusá-la? A sua vontade é livre. Não posso impor a ninguém uma simpatia pela minha pessoa. De resto, nem sequer lhe falei uma só vez! Amei-a em segredo, com pudor, com recato, como um colegial!

Nunca lhe tinha falado, com efeito! Mas costumara-se à muda saudação de Florinda, que todas as manhãs o esperava à janela, sorridente, com a auréola dos cabelos de ouro novo esplendendo à volta da sua testa, que era ebúrnea e alta, inteligente e pensativa, e imaginava que só por isto ela lhe devia constância, fidelidade, gratidão! Ah! o acanhamento, o medo infantil, que lhe afogava a voz na garganta, sempre que tinha de revelar o seu amor a uma mulher! Relembrava a sua mocidade, que se ia fanando, correndo continuamente atrás de quimeras nunca alcançadas! Tinha o coração cheio de imagens mortas — e cada uma dessas imagens o fizera sofrer amargamente. A de Florinda, então, mais venerada do que todas as outras, causar-lhe-ia angústias! Resignar-se-ia... Ela ia casar, ter filhos, um braço dedicado que a amparasse. Não lhe queria mal por isso, com certeza! Mas, na sua amargura, pensava que uma mulher assim, se fosse boa e leal, seria o encanto da sua vida, faria reflorir rosas na sua melancolia, iluminaria as suas incertezas com uma fé resplandecente e purificada. E Antônio havia de ser o seu escravo mais dócil, um crente de todos os instantes. Levaria a sua abnegação a um tal ponto, que se ela precisasse do sofrimento e das lágrimas de alguém para a sua perfeita felicidade, choraria e sofreria só para que ela se não lamentasse!

— Mas, a que conduzirá este devanear absurdo? — preguntava Antônio. Ela vai casar!... E eu, desiludido, hei de esquecê-la, certamente...

Vagarosos e lentos anos se passaram, e Antônio não a esqueceu. Sabia-a venturosa e como no seu coração se tinham apagado todos os maus sentimentos por essa mulher, a ventura que a envolvia refletia-se também em Antônio, que trazia ainda a alma dorida, cheia da sua graça, da sua beleza, da poesia de uma adoração malograda e longínqua. Às vezes, passava à porta de Florinda, para melhor ressuscitar a paixão dos dias findos, e surpreendia-a a cantar à varanda, entre dois filhos louros e tendo os olhos azuis como os dela. Esta cena enternecia-o e levava-o a ruminar no que, com Florinda, perdera para sempre. Afastava-se a passos apressados, para que ninguém notasse a sua perturbação, perto daquela casa em que se refugiara uma parte do seu próprio ser. De resto, Florinda nem sequer reparava nele, como outrora, nas límpidas manhãs em que o mundo tinha, para os seus olhos, uma formosura nova. Parecia tão contente, tão satisfeita, tão sossegada!...

Antônio experimentou a necessidade imperiosa de aproximar-se mais da mulher que, em certo momento da sua vida psíquica e moral, resumira as suas supremas ambições — e procurou uma apresentação, facilmente encontrada, certa noite em que, em casa duma família das suas relações, havia uma reunião mundana a que Florinda assistia também. E como a sua beleza de flor nova radiava, entre os nevoeiros das rendas, o brilho das sedas, a faiscação das joias irizando-se à luz! Estava então em pleno esplendor da formosura: e, como não ignorava a fascinação que exercia, pela sua graça, entre os homens, expunha-se voluntariamente às admirações envolventes, para dominar os que a cortejavam.

Antônio seguia-a insistentemente como olhar, espiava os seus mais vagos gestos e expressiva mobilidade dos suas linhas fisionômicas, no secreto intuito de lhe surpreender no rosto o cuidado duma lembrança mais grata por ele, que tão puramente lhe quisera; mas, se Florinda recordava o episódio sentimental doutras épocas volvidas, nada, em todo o caso, deixava transparecer. Parecia por tal modo desinteressada que, fitando-o, nem sequer mostrou que o conhecia.

— Ah! as mulheres! Que enigmas!... — monologava. Chamamos-lhes seres de devoção e de sacrifício e, afinal, o que as caracteriza é uma pontinha de perversidade e de ingratidão pelos mais nobres afetos.

Quando um homem da intimidade da casa de Florinda lhe apresentou Antônio, que tremia e torcia nervosamente as luvas, foi com gentileza que ela lhe estendeu a mão — uma linda, magra e branca mão fulgurante de anéis — dizendo banalmente:

— Muito prazer em conhecê-lo!

Antônio, ao dirigir-se-lhe, ingenuamente pensava que ela empalideceria um pouco, que não conseguiria esconder o seu espanto por aquela audácia, que o repreendesse com um olhar mais severo — ou que o acolhesse então francamente, com uma alegria sem disfarces. Eis, porém, que o encontro há tanto esperado fora duma naturalidade que o despeitava.

— Eu conhecia vossa excelência a há muito — tartamudeou, ao ficar só com Florinda. Não se recorda também de mim?...

— Não!... — acudiu com um sorriso indefinível.

E acentuando as palavras intencionalmente:

— De resto, como vivemos numa cidade muito pequena, todos nos conhecemos uns aos outros, pelo menos de vista...

Esta zombaria desconcertou Antônio, que atalhou bruscamente:

— Eu imaginava!...

Florinda deteve-se um minuto a observá-lo, brincando com o leque indolentemente, e exclamou:

— Não!... Não me recordo, com efeito. Poderia dizer o contrário, por amabilidade, mas eu não sei mentir...

Antônio, que começava a sentir-se grotesco, ergueu-se, cumprimentou-a e retirou-se da sala... Já na rua, ia meditando na singularidade dos sores femininos que parecem trazer a verdade na boca, que mentem com tanta arte, tanta candura e tanta convicção, e que se vingam cruelmente.

— Será esta mentira de Florinda, porventura, a prova dum amor que não quer revelar-se? — preguntava ele, para lisonjear a sua vaidade melindrada.

Mas, como na sua agitação se julgava incapaz de análises profundas e de sagazes psicologias, concluiu que o amor era uma estopada, um absurdo, uma doença de sentimento.

— Por mim, considero -me curado! — afirmou.

E foi esperar, sob a frialdade da noite, que Florinda reentrasse na sua vivenda, contente, desdenhosa e feliz, pelo braço do marido, só para vê-la mais uma vez ainda.


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Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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