sexta-feira, 7 de junho de 2019

Amor que morre (Conto), de João Grave




Amor que morre

Na doçura da tarde expirante, como uma flor de ouro e de luz que desfalece, Henrique foi sentar-se no jardim, sob uma frondosa magnólia que das suas folhagens e das suas corolas deixava cair brandamente a frescura, o silêncio e o aroma. A paz ambiente era profunda e consoladora e o azul dos altos céus desmaiava, colorindo-se de tons de fogo e de pérola para as bandas do poente.

Estava então na aldeia, onde queria passar saborosas, despreocupadas semanas de sossego para descansar da agitação nervosa e violenta da vida citadina: e os seus olhos encontravam um indizível encanto nas formas e nas cores da natureza envolvente, na poesia e na beleza das paisagens resplandecendo à claridade, nos costumes simples da boa e ingênua gente de campo. Nesse fim de tarde romântica, sob a magnólia que a brisa cobria de murmúrio, Henrique folheava indolentemente um romance francês, História de urna paixão, que o último correio lhe trouxera, e a sua imaginação perdia-se na saudosa lembrança de amores antigos que à sua vida emotiva tinham dado alguma ventura. Por entre as grades do jardim via passar as fartas manadas de bois de pelo fulvo, que voltavam dos pastos, tangidos pela aguilhada de zagais descalços.

Ao longe, entre os trigais, cantavam as ceifeiras e o crepúsculo baixava lentamente mergulhando a terra num íntimo recolhimento. Henrique experimentava, pela primeira vez, o enlevo inspirador, o afago da hora rústica que o apaziguava e afinava a sua faculdade de sentir e de compreender. Inesperadamente, porém, a voz de Batista, um criado fiel que trouxera da cidade, chamou-o:

— Menino, está aqui o homem do telégrafo...

— Ele o que quer, Batista? — interrogou Henrique, erguendo-se surpreendido.

— Diz que traz um telegrama.

— Um telegrama?

— Sim!... E urgente!

— Ó diabo, então o caso é sério...

Pousando o livro, Henrique dirigiu-se ao portão do jardim, abrindo-o, e impacientemente pegou no telegrama que o distribuidor, de boné na mão, lhe estendia.

— Batista, dá um copo de vinho a este senhor...

— Muito obrigado!...

Quando novamente ficou só, Henrique rasgou o envelope e, temendo que o despacho inesperado lhe anunciasse más novas acerca da mamã, piedosa senhora devota que não quisera deixar a sua vivenda urbana e que vagueava pelos longos corredores, embrulhada num xale de lã, como uma sombra que se diluía, foi logo ver a assinatura.

Suspirou de alívio. O telegrama não era da mãe, mas de Pedro de Brito, um jovial camarada de estúrdias.

— Que me quer este excelente Pedro e com tanta pressa? — monologou Henrique.

Mais sossegado e com o papel entre os dedos trêmulos, leu estas palavras: — “Vem já. Maria da Luz está a morrer. Antes de fechar os olhos para sempre, deseja ver-te e falar-te”. Tomou a ler, comovidamente, o telegrama que lhe anunciava um acontecimento nem doloroso para a sua alma e, por instantes, abateu-se sobre o banco de pedra, escondendo a face nas mãos e reavivando penosas recordações longínquas.

— Pobre rapariga, coitada!... — exclamou. Recuperando a energia que aquelas tristes

linhas amoleceram no seu organismo, Henrique levantou-se, entrou no seu quarto onde Batista acendia o candeeiro, ordenando:

— Vai dizer ao José que aparelhe o meu cavalo...

— O menino sai?

— Decerto... E olha, talvez não volte hoje. Tenho muito que fazer...

— O telegrama é bom ou é mau?... Vejo-o tão pálido.

— É mau, homem! Mas não te demores, não fiques aqui a tagarelar... Vai, enquanto eu mudo de fato...

Pouco depois, Henrique galopava pela estrada fora, que uma lua redonda e branca de balada iluminava. As árvores projetavam no chão sombras alongadas e movediças e as herdades, aninhadas pelos vales, adormeciam sob a bênção pura do luar. A solidão era apenas quebrada de onde a onde pelo referver das águas nos açudes ou pelo ruído monótono das azenhas.

Durante o caminho, Henrique ia relembrando melancolicamente essa Maria da Luz que estava agonizante e que ele tinha conhecido em plena mocidade e em plena beleza, em anos ditosos. Tinha uns cabelos ondulantes e negros, um rosto muito branco e uns olhos dum preto líquido, langorosos, tentadores, em que refloriam promessas. O seu perfeito corpo era de estátua e parecia haver sido modelado por um escultor que nada ignorasse das plásticas harmoniosas.

Maria da Luz fora a sua tortura, a sonhadora ilusão da sua adolescência, o terno cuidado do seu amor antigo: e os rapazes da sua geração atiravam-lhe inconsideradamente ao regaço, por um simples beijo, a dignidade e a fortuna, comprometendo-se e infamando-se. Era fria, insensível, desdenhosa; tinha um modo cínico de interromper, com gargalhadas ácidas e cortantes, as confidências dos que o seu poder de sedução escravizava, e Henrique sempre pensara que aquela mulher se mantivera refratária ao lume de todas as adorações sinceras. Vendia-se por dinheiro, mas a sua sensibilidade não intervinha nesse comércio vil.

Apesar disso, também ele a tinha amado com veneração, com febre, até ao dia em que ocorreu um drama sanguinolento que ainda agora o fazia estremecer de horror e de angústia. Esse drama fora o suicídio de Jorge, que partira o crânio com a bala dum revólver, quando Maria da Luz, sabendo-o arruinado, o repelira zombeteiramente. E, contudo, jamais pudera esquecer a sua graça estranha, o mistério dos seus olhos enigmáticos que dir-se-ia perscrutarem o mais oculto segredo dos corações. Ela era uma esplêndida floração da carne, uma das mais belas obras de arte humanas e animadas de quantas tinha contemplado, possuía o indizível encanto dos anjos despenhados que vão sobre a lama de todas as misérias gritando as fatalidades dum destino inexplicável e que conservam, apesar disso, alguma coisa de muito venerável, de muito casto e de muito cândido na sua alma... E estava a morrer, essa linda criatura que fizera a iluminura maravilhosa da gracilidade feminina no seu tempo! Que poderia ela dizer-lhe que o levasse a absolvê-la e a perdoar-lhe o mal que fizera a Jorge e a ele próprio? Suspeitava de qualquer revelação terrível, guardada obstinadamente durante tempos sombrios de tormentos morais e que fosse a explicação da sua frieza e do seu doentio cinismo...

Ah! essa frieza, esse desdém, tinha-os Henrique sofrido amargamente, porque Maria da Luz, que se entregava a todos os homens que a procuravam, nunca quisera entregar-se a ele! Henrique relembrava agora, claramente, o que Maria da Luz lhe dissera, na derradeira vez em que se encontraram. Curvando-se, sorridente, sobre a sua fronte abrasada, perguntou-lhe:

— Que é que o senhor vê em mim? Responda com franqueza!...

— Uma adorável mulher por quem eu seria capaz de praticar loucuras.

— E não vê mais nada?

Maria da Luz interrogava-o muito séria, com um brilho de fogo no olhar, esperando ansiosamente a resposta.

— Que quer que eu veja mais? Pois, não lhe basta a minha confissão? A sua vaidade não estará ainda satisfeita?

— Decerto que não...

Seguiu-se um curto momento de pausa, que oprimia Henrique. Maria da Luz, brincando com o leque, murmurara numa voz que parecia vir de muito longe:

— Afinal, os homens, mesmo aqueles que nós, pobres mulheres, julgamos mais inteligentes, não veem nada... Oh! são duma miopia, duma cegueira, duma falta de sutileza!...

Rindo sarcasticamente, Maria da Luz bateu com o leque, de leve, no ombro de Henrique, dizendo:

— Sabe uma coisa? A sua presença fatiga-me. Deixe-me só e não torne a procurar-me. É a maior fineza que pode fazer-me...

Então, ainda Jorge estava vivo, gastando com Maria da Luz os últimos contos de réis: e ela, como se quisesse exacerbar mais a sua crueldade, ameaçou:

— Se continua a perseguir-me, contarei ao seu amigo esta traição...

Tudo isso já lá ia muito longe: e Henrique, revolvendo na memória estes velhos episódios, durante a jornada, monologava:

— Que quererá ela, a dois passos da morte, a um adorador que outrora desprezou com tanta teimosia?...

A estrada rompia agora através de uma vasta planície polvilhada pela neve resplandecente do luar. Os arvoredos, na solitude, tinham atitudes singulares de quem escuta. O silêncio era profundo. Inesperadamente, luzes longínquas, ardendo, afilhando na noite como pontos de ouro, acordaram Henrique da sua reverte. Estava perto da casa campestre em que Maria da Luz se refugiara, ao adoecer. Pedro devia esperá-lo, certamente.

O desabrido galope do cavalo sobre as pedras despertava os cães de guarda, que latiam aos portões de ferro das quintas solitárias. Entrando na povoação, Henrique abrandou a marcha, dirigindo-se para a desolada vivenda onde Maria da Luz agonizava, velada por uma enfermeira, quase só — ela que antigamente tivera uma tão numerosa e gentil corte de vassalos, como rainha da graça e da formosura.

Chegou. A habitação da enferma era baixa, com um largo beiral onde as pombas arrulhavam, durante o dia. Sobre o muro que a cercava, caía um ramo de glicínias brancas. Pedro conduziu-o logo ao quarto de Maria da Luz, que arquejava, no leito, encostada a grandes almofadões. O seu corpo mirrado tinha, debaixo das roupas, o volume do de uma criança. Havia no ambiente um cheiro particular de febre e de medicamentos. A pouca vitalidade que restava à doente parecia concentrada nos olhos, negros, profundos, dolorosos, que reluziam, iluminando-lhe de claridade o rosto macilento e emagrecido. Henrique aproximou-se de Maria da Luz, com uma infinita piedade no coração por essa flor que tinha conhecido tão viçosa e radiante e que o sofrimento fanara: e como a olhasse com espanto e comiseração, ela segredou, baixinho:

— Sou eu, com eleito!...

Esboçou levemente um gesto, para que os deixassem sós e depois continuou penosamente:

— Ainda bem que veio... Agradeço-lhe a bondade... Será esta a última vez que o importuno!...

— Não, há de curar-se!... Verá! — exclamou Henrique, com lágrimas nos olhos. 

— Não me iluda... De resto, a morte não me atemoriza e estava cansada da vida, que para mim foi bem triste...

Henrique queria falar, consolá-la com a esperança de dias melhores, mas ela, fazendo-lhe sinal para que se calasse, pediu:

— Dê-me a sua mão... Assim!... É tão bom a gente saber que tem na existência um afeto... Veja como me abandonaram, a mim que gastei a mocidade com os outros!...

Interrompeu-se um momento, abalada pela tosse, para recomeçar:

— Mas, para que servem as lástimas?... Eu não o mandei chamar, para contar-lhe as minhas desgraças, mas para revelar-lhe um segredo de que nunca suspeitou e que eu não quero levar para a morte.

A sua mão fez uma pressão mais doce na mão de Henrique:

— Sabe por que eu desprezei sempre as suas ofertas, aceitando as dos outros? Não sabe!...

— Não, certamente!

— Aí está a razão porque um dia lhe disse que os homens não veem nada!... Nunca me entreguei ao senhor, porque o amava e porque este amor foi o primeiro e o último para mim!...

— Maria da Luz!... — bradou Henrique, levantando-se.

— Sossegue, não se exalte! Eu era uma pobre mulher, pertencendo àqueles que não amava; e por um capricho que ainda hoje não decifro, não quis pertencer ao único homem que verdadeiramente amei! Por quê?... Porque, no meu sentimento, o considerava diferente dos outros. E o senhor nunca me compreendeu! Odiou-me, talvez!... Acabou-se! Fiz-lhe mal, mas também padeci aflitivamente. Perdoe-me...

— Oh! meu amor!...

— Um beijo!... Dê-me um beijo, se lhe não repugna beijar um cadáver...

Henrique beijou-a demoradamente, na boca, como se quisesse sorver-lhe toda a alma, que se apagava.

— E agora vá!... Poucos dias terei de vida, mas lembre-se de mim, deste supremo instante...

— Não! Há de viver!...

— Vá, por Deus... Acendeu-se uma luz nova no meu espírito. Sinto-me tão nem!... Este segredo queimava-me! Que medo eu tive de morrer sem lho confessar!... Mas vá, chame a enfermeira. Agora, a sua presença faz-me sofrer!... Adeus, adeus para sempre!...

Alvorecia e Maria da Luz morreu daí a uma semana.


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Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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