terça-feira, 4 de junho de 2019

Os teimosos (Fábula), de Ana de Castro Osório



Os teimosos

Dois casados, mulher e homem sem filhos e com boa casa de lavoura, tinham, para seu mal, o mesmo defeito de serem teimosos. E, o que era muito pior, teimavam por tudo e por nada, e até por uma simples palavra.

Uma vez, quando estavam a jantar, disse o marido:

— Este sáfio está muito bom.

— Não é sáfio, é sáfia (retorquiu a mulher!)

E daqui se armou logo uma grande questão. E tão grande que, por fim, o marido enfureceu-se e deu pancada na mulher. Depois arrependeu-se do que tinha feito, só por serem ambos teimosos. E ficaram de bem um com o outro.

No ano seguinte, no mesmo dia, diz a mulher:

— Lembras-te, homem? Faz hoje exatamente um ano que tivemos uma grande questão por causa de uma sáfia!

— Não era sáfia, era sáfio (emendou logo o teimoso, para não dar o braço a torcer!) — E lá tornaram a questionar e, de tanto dize tu direi eu, perderam a cabeça e acabaram por bater um no outro.

Todos os anos era certo festejarem assim aquele bom aniversário. Arrependiam-se depois. Mas, sempre que vinham a falar no caso passado, a fúria da teimosia tomava conta deles.

Parecia uma praga rogada por algum inimigo a repetida guerreia por causa do nome, de sáfio ou sáfia, daquele peixe cozinhado e comido há tanto tempo. Bem diz o ditado antigo: "duro com duro não faz bom muro". E, se a dureza é de estúpida teimosia, desfaz todos os muros e defesas da vida em comum e abre campo à desgraça.


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Fonte:
Ana de Castro Osório: “Contos, fábulas, facécias e exemplos da tradição popular portuguesa” (editado a partir da edição da Bibliotrônica Portuguesa)

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