terça-feira, 18 de junho de 2019

Cobra é o diabo! (Conto), de Gustavo Barroso



Cobra é o diabo!

O acampamento ficava perto, além duma serrota pedrenta e nua de árvores, que apontava por traz dos carrascais verdes e pujantes naquele ano de inverno farto. Como o sol descia e rapidamente seria noite, eu e o Luís Fusco, cafuz alto, azeitonado, nada feio, de fisionomia expressiva, voltando de caçar marrecas na lagoa do Lemos, apressávamos o passo. No mato, havia já sombras espessas sob as copas e, nos ramos altos, laivos de púrpura do ocaso. Começavam os espaçados pios agourentos dos caborés e naquela tranquilidade desusadamente crepitavam as nossas rudes alpercatas, esmagando o saibro grosso da vereda.

Espingardas ao ombro, seguras pelo cano, a coronha no ar, à maneira sertaneja, às costas a roda de marrecas e picaparras mortas, úmidas de água e sangue, caminhávamos silenciosos. Uma, ou outra vez, o Fusco fazia em voz alta reflexões de caçador experimentado, quase sempre em meu desfavor:

— Ih! Virgem Maria! “Seu” moço foi quem Deus deixou neste mundo
“mode” gastar pólvora à toa... Atirou na lagoa que foi um desespero! Vinte e cinco tiros contei eu e só matou oito patinhos...

—E você?

—Ih! Eu é outra coisa. Pólvora custa dinheiro e gente pobre não pode
gastar sem conta. Escute, “seu” moço, dei quinze “papoucos” e trago seis marrecas, quatro picaparras, um putrião, um socó-boi e um carão, ao todo quatorze bichos!

— Alto lá! Que conta é essa? Quatorze não, treze somente.

— Ora, “seu” moço, conto o carão por dois e vale bem, que é o bicho mais custoso de matar. Vosmincê nunca matou um carão na sua vida! Bicho espantado, "danisco”, pior que barbatão mocambeiro. Só chegar perto dele é um “poema”!...

O “cabra” era “prosa” como quê e tinha desses termos petulantes, ou estapafúrdios, a cada momento. Eu ria e continuava a marcha, apressado. Subimos uma lombada de comoro, semeada de jataís pequenos, raquíticos, no meio dos quais sobressaíam as folhas branquicentas dos toréns. Uma coruja rasga-mortalha gargalhou pavorosamente na solidão. O Fusco gritou:

— “Desconjuro”, agouro!

Depois, o silêncio pareceu maior. Descemos o outro lado do cerro, que dava sobre estreito e alongado vale, despido de arvoredo, verdadeira varjota alcatifada de junco, orlada de sabiás pequeninas. Avistávamos a fogueira do acampamento e vultos de homens passando à frente da sua luz intensa. Quase noite, calma completa e a fumaça subindo no ar, lenheira como uma diáfana coluna branca. Mas um silvo vibrou sinistramente, adiante, no caminho. O sertanejo parou de súbito, narinas dilatadas, olhos vivos percorrendo o chão. Apontou-me uma mancha mais escura que o barro do solo e que parecia mexer, a uns oito metros de distância. Mal a distingui.

— Cobra é o diabo! disse ele.

Levou a lazarina ao rosto e deixou-a cair na sua melhor posição de pontaria. O tiro partiu. A mancha escura distendeu-se e logo se imobilizou. Fomos ver o que era e levantei com o cano duplo da Flaubert uma cascavel de mais ou menos sete palmos e quatorze anéis no chocalho, que estava de tocaia na vereda. O cafuz tomou-lhe a cauda nas mãos, contou esses anéis e exclamou, mostrando num grande riso os dentes brancos como marfim:

— Cada anel é um ano de idade. Quatorze anos esta diaba!

Levamos a serpente morta para o acampamento.

Mais tarde, a lua saiu de trás da serra. Seu rosto, olhando de cima dos íngremes contrafortes da cadeia do Gigante, espalhou o prateado perfume de sua luz à face de todas as coisas. Como que um mistério novo cobriu a natureza inteira. Na ânsia de senti-lo, deixei a barraca e fui sentar-me na relva, debaixo de vigoroso mulungu, de cuja embastida folhagem minha presença espantou pesado corujão da mata. Fiquei ali profundamente distraído. Da lua sobre o tapete de juncos da varjota e sobre as ramarias aveludadas desciam véus intensos, tecidos de luz esverdeada, dando a tudo uma tal suavidade de tons que encantavam os olhos infatigavelmente. Tudo parecia delicioso na noite mágica e até o uivo esganiçado das raposas subia no ar luminoso como uma vibração estranha e ao mesmo tempo harmônica com a paisagem dormente.

Todos os caçadores dormiam, ressonando alto. Longínquo berro de onça veio das quebradas da serra, cujo vulto imenso o luar diluía no horizonte, acordando-me da meditação. Relanceei o olhar em torno e dei com o Luís Fusco acocorado, fumando, a dois passos de mim.

— Você não vai dormir, Luís?

— “Inhor” não. ‘‘ Seu” moço está acordado e eu vou ficando por aqui, “mode” vigiar. Isto é lugar de muita cobra e cobra é bicho do diabo!

— Quem lhe meteu na cabeça que aqui tem tanta cobra assim?

— Ih! eu sei. Tem mesmo. Tem que é coisa por demais. Este mato está cheio de jararacas, corais, cascavéis, caninanas e cobras de veado. Infelizmente, só não tem papa-ovas, que são as que comem as outras. Escute, “seu” moço, já morei aqui pertinho, na Ipueira do Gonçalo, detrás daquele cerrado de bálsamos e trapiás. Ainda lá devem estar os restos da minha tapera. Eu tinha no copiar uma cangalha velha, que era a minha ratoeira de apanhar cobra. Todas as manhãs, a gente levantava a cangalha e achava debaixo, enroscadas, uma, duas, ou três bichas. Prendia-se cada uma á ordem de São Bento e marrava-se o pau na cabeça até matar.

Sorri. O “cabra” mudou de posição, sentou-se numa das raízes do mulungu, bateu o cachimbo apagado, tornou a enchê-lo e a acendê-lo. Tirou duas fumaçadas e continuou:

— Creio que tenho o destino de morrer de cobra, mas também tenho matado tantas! Ainda “isturdia” me aconteceu uma! Virgem Maria! Foi nos mocosais da Serra Negra. Estava caçando mocós e escondi-me em riba daquela fenda estreita que divide a ponta da serra, como se lhe tivessem dado uma machadada. Espiei primeiro o lugar. Fervilhava de mocós! Nem cortiço de inxui, quando se acende fogo “mode” espantar as abelhas. Escondi-me, como ia dizendo, e rocei dois pauzinhos, afim de imitar os guinchinhos dos bichos e chamá-los fora da toca. Fiz pontaria no maior que vi e dei o tiro. Vosmincê sabe que tiro em mocó tem de ser mortal, senão ele foge, arrastando as tripas, e vai morrer dentro do buraco, onde não há cristão de juízo que enfie o braço. É sempre esconderijo de cobras. Elias são doidas por mocó.

O chumbo matou-o, mas ele rolou na beirada da grota e caiu lá em baixo. Tornei a fazer a chamadinha. Vieram ver o que era. Fiz fogo noutro. Tornou a rolar no corte. Então, cheguei à beira e olhei. Os dois bichinhos estavam presos à uma ponta de pedra, ao meio da descida. Resolvi ir buscá-los. Larguei a espingarda e comecei a descer entre as duas íngremes paredes, sustentando-me com os pés e as mãos num lado e noutro, à todo arreganhado “que nem” Judas na forca. Assim, fui me chegando ao lugar onde estava a minha caça e a perdi sem poder fazer a menor ação. Sempre digo que cobra é o diabo!... Mal me preparava para largar a pedra dum lado, estender a mão e apanhar os mocós mortos, à minha vista, uma caninana de mais de uma vara de comprimento sai dum buraco e come com toda a calma os dois, um depois do outro. E eu, entanguido entre as duas paredes, sem nada poder fazer, dando até graças a Deus e ao senhor São Bento que ela me deixasse em paz. Credo! Nunca passei por “agonia” maior, “seu” moço! Tornei a subir como tinha descido, de mãos abanando e furioso por não ter podido dar cabo daquela maldita ladrona. Porém vinguei-me delia. Matei terceiro mocó, atirei-o na tal ponta de pedra e fui de espingarda carregada para a beira do precipício. A danada veio pelo paredão, de língua de fora. Com uma boa carga de chumbo, esmigalhei' lhe a “caixa do pensamento”!

Larguei a rir, como rira do “poema”. O Luís olhou para mim muito sério e prosseguiu, agora sob o peso de imensa tristeza:

— Mas meu destino é morrer de cobra. Meu coração adivinha. É capaz até de ser hoje mesmo, pensei lá no caminho, quando a coruja rasga-mortalha largou aquela risada. A cascavel de tocaia deu-me mesmo um “batecum” no coração... Cobra é o diabo!

Vasta manada de nuvens negras, tangidas devagarinho pelo vento nos campos iluminados do céu, cobriu o rosto da lua e encheu de trevas o sertão. Era tarde. Levantei-me, dizendo:

— Bote fora os pensamentos ruins e vamos dormir, Luís. Boa noite.

O homem ergueu-se, deu alguns passos atrás de mim, os pés dentro das tiriricas rasteiras e, antes que me respondesse o boa noite, soltou um grito:

— Ai! Diabo!

Levantava o pé esquerdo, segurando-o com as mãos. No escuro nada se via. Risquei um fosforo e divisei perto do artelho uma diminuta picada vermelha. Ele pôs nos meus olhos espantados os seus estranhamente calmos e disse com resignação:

— Eu não lhe disse, “seu” moço, cobra é o diabo!...

Quem passa hoje pela varjota do Acampamento, como é chamada, vê, à sombra de frondoso mulungu, toucado, às vezes, de frutos rubros, uma cruz de madeira tosca, rodeada de pedras. É o tumulo humilde do maior matador de cobras do sertão — Luís de Assunção Carneiro, apelidado Luís Fusco.

Orem por ele.


---
Gustavo Barroso (Alma Sertaneja, 1920).
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Sugestão, críticas e outras coisas...