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7/09/2019

A escravidão (Crônica), de Olavo Bilac


A escravidão

Bem mais feliz do que a nossa é a geração desses pirralhos que andam agora por aí a jogar a cabra-cega, a atirar pedras às árvores e a perlustrar os mistérios da carta do ABC.

É bem certo que os dias se sucedem e não se parecem. No maravilhoso tear em que uma alta Vontade desconhecida vai urdindo a teia das eras, há fios claros, de ouro e de sol, e fios negros, da cor da noite e do desespero. Depois das grandes crises, a vida repousa e adormece, refazendo forças; e há então esses largos períodos de paz e modorra, que dão aos espíritos otimistas, à moda de Pangloss, a ilusão de que foram contados e extintos os dias de sofrimento humano.

Esses meninos, que aí andam jogando peteca, não viram nunca um escravo... Quando eles crescerem, saberão que já houve no Brasil uma raça triste, votada à escravidão e ao desespero; e verão nos museus a coleção hedionda dos troncos, dos vira-mundos e dos bacalhaus; e terão notícias dos trágicos horrores de uma época maldita: filhos arrancados ao seio das mães, virgens violadas em pranto, homens assados lentamente em fornos de cal, mulheres nuas recebendo na sua mísera nudez desvalida o duplo ultraje das chicotadas e dos olhares do feitor bestial. Saberão tudo isso, quando já tiverem vivi do bastante para compreender a maldade humana, quando a vida já lhes houver apagado da alma o esplendor da primitiva inocência; e, decerto, um frêmito de espanto e de cólera há de sacudi-los.

Mas a sua indignação nunca poderá ser tão grande co mo a daqueles que nasceram e cresceram em pleno horror, no meio desse horrível drama de sangue e lodo, sentindo dentro do ouvido e da alma, numa arrastada e contínua melopeia, o longo gemer da raça mártir, — orquestração satânica de todos os soluços, de todas as impressões, de todos os lamentos que a tortura e a injustiça podem arrancar a gargantas humanas...

A distância, tanto no espaço como no tempo, atenua a violência das impressões.

Ainda há pouco tempo, em fevereiro, os astrônomos dos observatórios da Europa viram aparecer uma nova estrela, na constelação do Aquarium.

O astro novo brilhou alguns dias, com um intenso fulgor, e apagou-se logo. A explicação que a ciência encontra para esse fenômeno causa admiração e espanto. O que parecia um astro novo era realmente um velho astro, até então invisível para nós e subitamente incendiado, em uma horrenda catástrofe, por uma combustão química. Assim, o que aos nossos olhos se afigura o natal radiante de um astro, o desabrochar esplêndido de uma flor planetária, é, de fato, o funeral de um mundo, talvez igual, talvez superior ao nosso, e devorado e destruído por milhões e milhões de séculos de vida, naufragando agora no inevitável e irreparável desastre. Mas, a nós, que nos importa essa tragédia celeste, passada, tão longe da terra, que a inteligência humana nem pode calcular a distância que nos separa do seu cenário? Estremecemos durante um minuto, e passamos adiante, sem mais pensar no astro defunto que se abisma no aniquilamento...

A distância no tempo tem o mesmo benéfico efeito da distância no espaço. Nós não podemos ter hoje uma ideia nítida do que foram, por exemplo, os pavores da inquisição: o ulular das vítimas do Santo Ofício atenuou-se e morreu, sem um eco. E o horror que hoje nos causa a leitura daquela infinita narração de atrocidades, é um horror puramente literário. Longe dos olhos, longe do coração, — diz o velho prolóquio; a distância é o pintor miraculoso que faz aparecer, no fundo do quadro, vagamente esfumadas numa névoa indecisa, coisas que, vistas de perto, só causariam repugnância e aflição.

Esses meninos, que nasceram depois de 13 de maio, pertencem a uma geração amada dos deuses. Quando saem de casa a caminho do colégio, com os livros na maleta e uma risonha primavera nos olhos e na alma, já não encontram pelas ruas, como nós encontrávamos, o doloroso espetáculo que nos estatelava de surpresa e assombro: — as levas de escravos maltrapilhos e chagados, que saíam das casas de comissão, manadas de gado humano consignadas à ferocidade dos eitos, pobres mulheres e pobres homens, que traziam no rosto uma máscara de ferro, como prevenção e castigo da intemperança; míseros anciãos cambaios e trêmulos, tendo a alvura da carapinha em contraste com a escuridão da pele, e já meio mortos de velhice e sofrimento, e ainda mourejando de sol a sol, com o cesto sujo à cabeça para o trabalho do ganho, molecotes nus e esqueléticos que chupavam seios sem leite; toda a vasta procissão, enfim, dos abandonados de Deus...

Aqueles de nós, que iam passar as férias nas fazendas, ainda estudavam de mais perto e com mais proveito a sinistra engrenagem do aparelho negreiro.

Lá, no esplendor perpétuo da natureza em festa, sob um céu todo feito de carícia e paz, na face da terra aberta em flores e frutos, — estendiam-se os eitos devoradores de vidas, e a crueldade inventava requintes satânicos. Ao rumorejo suave das ramadas, e ao festivo clamor dos pássaros, casava-se, do romper do sol ao cair da tarde, uma cantilena melancólica que dava calafrios... Era o queixume dos que retalhavam a terra, enquanto os vergalhos dos carrascos lhes retalhavam as costas; era o guaiar da raça miserável que cantava o seu infinito desconsolo. E, no chão que o esforço dos escravos lavrava e fertilizava, corria o sangue dos mártires, pedindo misericórdia, clamando vingança, caindo sem cessar, gota a gota, dos corpos supliciados...

Ah! que felizes sois vós, meninos de agora! Já ao vosso inocente folgar se não vem unir a revolta instintiva, que nos envenenava a alma, naqueles duros tempos da nossa meninice... Quando nascestes, já essa nossa revolta explodira, terrível, rompendo contra todas as conveniências, contra tradições de família e de casta, para extinguir a aviltante vergonha; e agora podeis sorrir vendo o trabalho irmanar pretos e brancos, na terra amada que já não tem pústulas malignas no seio...

Mas das grandes desgraças sociais, como das grandes moléstias que longo tempo devastam o organismo humano, sempre resta alguma coisa que convém combater e afastar.

Em boa hora, lembrou-se alguém de pedir ao presidente do Estado do Rio o perdão dos ex-escravos que cumprem sentença na penitenciária de Niterói.

Já se pode declarar vencida a campanha, porque o homem que está dirigindo o Estado do Rio foi, pelo fulgor da sua pena e pela nobreza do seu exemplo, um dos mais ardentes apóstolos da abolição. Mas não basta que se use de misericórdia para os infelizes da penitenciária de Niterói. Por esse vasto Brasil, quantas vítimas da escravidão não estarão, ainda, no fundo dos calabouços negros, pagando crimes a que foram unicamente levados pelo rebaixamento moral e pelo irrefletido desespero a que os reduzia o egoísmo sórdido dos senhores?

Há uma lenda da Bretanha, cujo suave encanto vem agora à lembrança do cronista.

Diz a doce lenda que um dia, no fulgor incomparável da sua majestade, o Senhor Deus dos cristãos viu chegar barra do seu tribunal supremo uma alma carregada de crimes torpes. O Senhor Deus franziu o sobrolho e começou a invectivar a alma daninha:

— Tu roubaste, tu intrigaste, tu caluniaste, tu violaste donzelas, tu saqueaste as minhas igrejas, tu profanaste a terra com a tua presença, tu renegaste o meu nome!

A pobre alma, debaixo desse temporal de acusações tremendas, quedava calada e triste. E o senhor Deus clamou, com uma voz que abalou os céus:

— Que alegas tu em tua defesa, ó alma perversa?! Então, a alma perversa disse, chorando:

— Senhor! eu nunca conheci mãe!

E o senhor Deus, comovido e aplacado, acolheu em seu seio o pecador... Assim também, diante da justiça dos homens e da justiça de Deus, podem e devem comparecer sem receio aqueles que, quando escravos, cometeram crimes. Porque quando os homens e Deus lhes perguntarem o que têm a alegar em sua defesa, eles responderão:

— Ó homens, nossos irmãos! e ó Deus, Nosso Senhor! nós nunca conhecemos a Liberdade!...”



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Pesquisa e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2019)

Recenseamento (Crônica), de Olavo Bilac


Recenseamento

Enfim, vai o Rio de Janeiro conhecer-se a si mesmo… Uma cidade sem recenseamento é uma cidade que a si mesma se ignora, porque não tem a consciência da sua força, do seu valor, da sua importância.

É mais que um serviço — e não é dos menores — que o Rio vai dever ao seu prefeito, a esse homem providencial, de quem já se pode impunemente dizer o maior bem, sem o risco de passar por adulador, pois que já não há, em toda a cidade, quem o não admire e o não louve.

Infelizmente, já se descobriu o meio de opor embaraços à realização da bela ideia. No mesmo dia em que o prefeito decretava a organização do recenseamento da população, era publicado um ofício do ministro da Guerra, solicitando a organização do alistamento militar… E o povo, cotejando essas duas medidas, juntando-as, pesando-as na mesma balança, começou logo a atribuir-lhes uma aliança oculta um conúbio escondido, uma identidade de intuitos e de fins. A gente culta (que infelizmente não é legião) sabe — que esses dois serviços nada têm de comum, e que o propósito da prefeitura é, única e exclusivamente, o de saber quando habitantes tem a capital da República — coisa que, por vergonha de todos nós, ainda não se havia tentado averiguar. Mas, para a gente ignorante e desconfiada (a desconfiança e a ignorância são irmãs gêmeas), o recenseamento é o pretexto para o alistamento militar — e já o medo da farda e do serviço de caserna começa a sugerir às almas inquietas a ideia de se recusar a encher as listas censitárias.

Esse terror é natural. Antigamente, o recenseamento apenas era feito para auxiliar dois serviços profundamente antipáticos aos povos de todos os tempos: o do recrutamento militar e o da cobrança de impostos. O imposto e a farda — dois espectros, dois espantalhos! Já na velha Roma, no remotíssimo tempo de Servius Tulius, quando os curatores tribuum saíam, com as suas tabuinhas enceradas e os seus estiletes de marfim, a percorrer a urbe, e a recensear os habitantes, separando-os em assidui e proletarii — um medo pânico se alastrava pelas vielas e pelas alfurjas da cidade, e um terço da população, sabendo que aquilo significava guerra ou imposto, cobrança de sangue ou cobrança de dinheiro, transpunha as portas, e ia refugiar-se no campo.

Hoje, o recenseamento tem um fim mais amplo, mais nobre, mais belo — um fim social. E uma parte essencial da estatística, que, sendo "o estudo numérico dos fatos sociais", é uma das ciências tributárias e auxiliares da sociologia. Como explicam os mestres da economia política, a vida social é um movimento perpétuo, uma transformação contínua, e uma constante renovação de fenômenos, que, por ma is diversos que pareçam, sempre se podem classificar em um número relativamente limitado de categorias. Não há um só fato individual que deixe de ser interessante, porque os fatos individuais, reunidos, formam os fatos sociais; e não há meio de governar sem o conhecimento desses fatos. É a estatística que torna possível o governo. Ela é, por assim dizer, a "escrituração social": se uma casa de comércio não pode viver e prosperar sem o registro minucioso das suas compras e vendas, e sem os balanços periódicos que demonstram o bom ou mau estado dos seus negócios — também a sociedade humana não pode dispensar os seus guarda-livros, que são os encarregados da estatística…

Essa "escrituração social" tem sido até hoje criminosa mente relaxada no Brasil. Os "guarda-livros" do país, ou são incompetentes, ou são indiferentes. Aqui a estatística é um mito. Para não ir muito longe, e apenas citar um fato simples e de fácil verificação, basta lembrar que, no Rio ele Janeiro, a Biblioteca Nacional e o Museu Nacional não têm catálogos! É incrível, mas é verdade… Se nem temos sido capazes de organizar e publicar o catálogo de um museu ou de uma biblioteca, não é de espantar que não tenhamos organizado e publicado até hoje o catálogo geral da nossa população, das nossas riquezas, do nosso trabalho, da nossa vida…

Há pouco tempo,; a Legação Japonesa no Brasil distribuiu, pelas repartições públicas e pelas redações dos jornais, o Anuário financeiro e econômico do Japão relativo a 190$. Lendo esse livro, que é um monumento assombroso e maravilhoso de estatística, é que se pode compreender o estupendo progresso daquela nação.

O que nós costumamos chamar "milagres" não é mais do que o resultado simples e natural da combinação destas duas forças: o trabalho e o método… Nesse anuário, tudo quanto constitui a vida do país está incluído, estudado, discriminado, catalogado, classificado: orçamentos, dívida pública, empréstimos, agricultura, indústria, viação, comércio. Há ali coisas que espantam; há, por exemplo, um quadro demonstrativo da produção do fumo, que é um assombro de exatidão e de minúcia: o fumo colhido foi contado de folha em folha… E com esse trabalho e com esse método que as casas de comércio prosperam, que as casas de família têm fartura e conforto, e que as nações enriquecem e se fazem fortes e respeitadas!

Agora reparo que a "Crônica" está perdendo o tom que lhe compete, e enveredando por um estilo que não é o seu.

Estas coisas são tão corriqueiras, que até as crianças das escolas primárias as conhecem…

E parece, realmente, que é pedantaria ridícula, e ridícula ostentação de ciência barata, o estar aqui o cronista a demonstrar as vantagens e a utilidade da estatística em geral, e do recenseamento em particular…

Mas estas ideias, tão simples, tão claras, tão vulgares, não podem, desgraçadamente, ser eficazmente incutidas no ânimo de toda a nossa população. Por quê? porque uma grande parte da nossa população não sabe ler…

Basta lembrar a última bernarda que tivemos no Rio: a de novembro de 1904… Que foi o que causou esses sanguinolentos motins? Foi a intriga perversa de alguns especuladores políticos que excitaram o povo contra a lei da vacinação: e muita gente acreditava que os médicos iam injetar no seu corpo sangue de rato atacado de peste bubônica! Essa balela, que apenas parecia cômica, teve efeitos trágicos. Que utilidade poderiam ter, para destruí-la, os boletins profusamente espalhados pelas autoridades sanitárias, e as explicações dadas pela imprensa? Nenhuma. O papel benéfico da imprensa não pôde deixar de ser quase nulo, numa cidade que conta quase 1 milhão de habitantes, mas na qual todos os jornais diários reunidos não chegam a vender 100 mil exemplares por dia…       

Assim, não há meio de contrariar eficazmente o equívoco, que a publicação simultânea das duas medidas veio criar. Se o Ministério da Guerra houvesse adiado a publicação do seu propósito — o povo, que confia no prefeito, porque dele só tem recebido benefícios e cuidados, veria no recenseamento mais uma prova da sua paterna! administração, e auxiliá-lo-ia. Mas parece que há, neste país, uma doença orgânica, que leva muita gente, irresistivelmente, a perturbar e estragar, com consciente ou inconsciente maldade, tudo quanto se pretende fizer de bom.

Vão agora tirar da cabeça de certa gente que a entrega das listas censitárias há de expô-la ao recrutamento militar!

O que é verdade é que, para, abusivamente, e contrariando expressamente a letra da lei, por em prática o recrutamento forçado, as autoridades militares não carecem do recenseamento. Ainda há pouco, para organizara parada espetaculosa de uma guarda nacional que não existe, alguns coronéis de mentira andaram complicando a vida doméstica dos cidadãos, privando-os violentamente dos serviços dos seus cozinheiros e dos seus copeiros…

O povo, porém, não compreende isso. Se lhe não demonstrarem cabalmente que o recenseamento civil, organizado pela prefeitura, nada tem de comum com o alistamento militar, organizado pelo Ministério da Guerra, ele, apavorado pelo fantasma da Farda, há de mais uma vez furtar-se ao cumprimento de um dever social, que tão facilmente e com tão grande utilidade para todos pode ser cumprido. Como, porém, fizer essa demonstração àqueles que, por culpa e desídia do Estado, continuam aviltados pelo analfabetismo, moralmente cegos, tristemente mantidos na ignorância, privados da compreensão dos seus direitos e dos seus deveres?

É aqui que tudo vem ter: o problema da instrução é como, nas máquinas, o eixo central, em torno do qual os movimentos de todas as peças se combinam e conjugam. Por isso, é que não deixo de tocar este realejo, cuja música pode parecer enfadonha, mas é indispensável:

e si cette histoire vous embête,
nous allons la recommencer!
("se esta história vos aborrece
nós vamos recomeçá-la")
O.B.

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Pesquisa e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2019)

7/06/2019

Glória latente (Conto), de Raul Pompeia



Glória latente
Até que, sentindo no pensamento as ideias nítidas, recortadas como arabescos em aço e a grande vida da paixão como um tumulto de asas de águia num entalho de escarpas; delineada a pauta da meditação; a harmonia geral do poema como preludiada em sinfonia; o ardor nervoso, que precede a composição, mordendo o freio de ouro do metro e da disciplina planejada, sôfrego como um cavalo de guerra num começo de balada: – plenamente possuído da obra, ele resolveu-se a tomar a pena.
No papel em branco, lustroso, iriava-se por uma zona estreita um reflexo do claro dia. Ele deixou-se fascinar pelo brilho da folha. Era como um rio de luz infinitamente.
O primeiro canto celebraria a Vontade e o Amor, inteligência e instinto, as feições primordiais da existência poeticamente delimitadas e o encontro destas energias, distintas, confundindo-se como sexos, ou divergindo violentamente para promover os dramas da natureza e da humanidade. A Vontade agita o caos; o Amor encaminha a agitação; a Vontade cria o mundo, o Amor perpetua.
Concluiria por um quadro do terror dos homens pré-históricos, nas vésperas de um grande cataclisma...
Ao alcance da mão tinha o tinteiro, algumas gotas do sangue negro dos livros.
– Era aquilo a forma. Bastava colher habilmente no cristal o fio líquido e desfiar na página.
Ali dormia o estilo na síntese fluida do bocal, a cor, o desenho sábio da palavra.
Palavra?... Sim, o veículo da vaidade de que o escritor depende, palavra, o mesmo vil instrumento das permutas do interesse e do apetite.
Uma dúvida de repugnância paralisou-lhe a pena.
– Escrever: formular, comunicar. Mas que pretendemos dos outros? Aplauso? A arte que vive do aplauso rebaixa-se, prostitui-se; as chamas ardem para cima. Critério? A arte que não tem apoio na convicção da própria força sucumbe; a hesitação atrofia e anula; a arte forte cresce de si mesmo, organicamente. De que lhe podia valer a eleição do vulgo?
Formulem os músicos ambulantes da expressão, os mercadores de espírito, que vão de feira em feira, pelas cidades da tolice humana, mostrando o próprio talento como um asno douto, ou um macaco esperto, os mercadores de plástica, que despem em público a imaginação, pobre escrava palpitante, e oferecem a pura carne à fome grosseira de quem a compre, a flor da epiderme cultivada ao dente brutal das feras do prazer. Formulem os pregoeiros de opinião, pagos a preço de renome, em moeda corrente de lisonja, e os outros, os que vencem, os grandes homens do ventre, mordomos do consumo dos povos, chamados políticos, supostos governos, preciosamente agaloados por maior brilho de ucharia, às ordens do Vulgo poderoso...
O canto segundo resumiria a construção histórica da Vontade: sociedade, impérios, as corrupções, as guerras acabando pelo espetáculo de Roma espavorida, estalando as calçadas de mármore das praças sob o galope da cavalaria dos bárbaros.
– Podia escrever, admitiu. E molhou a pena. Uma lágrima mais grossa da tinta voltou ao tinteiro. Podia escrever. Findo o trabalho, perfeito de grandiosa inutilidade, entregá-lo-ia ao fogo. Ninguém saberia daquela existência artística ali começada, ali destruída: ele só, depois da alegria da criação, sem apreço, sem desdém, assistindo, de alto, ao perecimento da obra, como a divindade indiferente que visse esgotar-se a vida emprestada a um meteoro.
Que sublime poder, esta imolação da vaidade ao orgulho! O livro em retorno ao não-ser original, independente de estranho juízo, glória bravia de estrela, vivida, consumida num recanto insondado do espaço, longe da admiração, longe do olhar, virgem da crítica, alheia aos homens como a fatalidade!...
O canto terceiro seria a notícia épica dos fatos do Amor, religiões, com o argumento das filosofias, perseguições, martírios, num quadro da Idade-Média. Serviria de remate à agonia do último Cruzado em São João d’Acre, velho, esquecido desde muito da sua dama, negando Deus, prevendo e lamentando um futuro a chegar em que a Vontade predominaria inteiramente, vestida na frase de todos os disfarces, saudando enfim a Morte, a terrível amiga e conselheira, que havia de sugerir um dia a verdade da vida como sugeriu as crenças váquas e as meditações inanes...
– Mas escrever fora provar: a consciência perfeita não ensaia. Demais, que pretendia escrevendo? Castigar na tortura da fórmula a ideia livre, encadear as ondas do pensamento, a tormenta infrene da paixão, escravizar à norma a sua força, feliz inteiramente, sobre aquele mundo incriado, como espírito do Gênesis sobre as águas.
Bastava-lhe sentir e pensar intensamente a alma dos homens, vibrar como um eco o sofrimento, o entusiasmo dos semelhantes. Para que transmitir? Poder é a força em si.
Realizar é somente a expansão ocasional, a expansão é o suicídio da força. O vocábulo define a ideia; a encarnação limita o Verbo. Amesquinha-o.
Não! Gozaria no íntimo o egoísmo ignorado da pujança. Seria a sua alma para ele o próprio espetáculo. Ser uma alma completa: que mais? O seu poema aprofundaria os seus amores, servir-lhe-iam as ideias para a visão lúcida das cousas: seria poeta como um forte na barbaria primeira, antes da linguagem. Que sólido descanso repousar a mediocridade obscura sobre a força que produziria um universo! Tranquilizar a inércia sobre a glória de poder!
O poema voltaria ao cristal como a gota escapada à pena. Não baixaria à fórmula. Ignorá-lo-ia o mundo. Ignora-se também o diamante primitivo na obscuridade compacta das minas negras. Far-se-ia o sepulcro do seu orgulho, satisfeito de conservar inviolada a psique no mistério da renúncia...
Renunciou.

Ramo da esperança (Conto), de Raul Pompeia



Ramo da esperança

Um deles ergueu-se e olhou pelo mar...
– Terra?
– Não... não... Apenas o gume afiado e limpo do horizonte e o claro céu depois... Os náufragos recaíram na morna prostração do desânimo.
Três dias eram passados já que o incêndio e o oceano lhes haviam devorado
o navio e os companheiros. Só eles restavam. Eles e o pequeno batel que os levava.
O batel e o largo mar imenso...
Em roda, o sol quente e o medonho silêncio solene da calmaria morta.
À vista, nem um pano branco!... Nem a fumaça do continente, além!...
Guiavam-nos os cansados remos e a aventura; não havia mais pão; a água ia faltar.
O quarto dia despontou brumoso.
Ah! que o digam os marinheiros; o nevoeiro é triste como os sudários alvos.
O nevoeiro amortalha a coragem.
Perdidos!...
Mas alguma cousa avizinha-se sobrenadando. Todos olham.
Um braço mergulha sôfrego e levanta vitorioso ao ar um ramo verde...
Verde como a esperança!
Salvos!
Ali, ali mesmo na bruma, adivinha-se a terra firme, com as palmeiras verdes da pátria!

6/21/2019

Última carpa (Conto), de Valdomiro Silveira



Última carpa
O cancã não fugiu do trato: fez, no talhão marcado, as duas primeiras limpas, com trabalho horrível porque a trapoerada e o marmelada estavam altos, o picão florescido, o caruru de semente, e o ora-pronobis com grande viço de fartura e de sombra. O administrador não teve incômodos: antes do romper do sol escutavam-lhe a voz entre as ruas do cafezal, e o anúncio da noite já era bem negro no céu, quando aquela voz cessava.
A tempo e hora, foram feitas as replantas; os cafeeiros aparados tiveram ligeira poda; aos mais velhos foram tiradas as saias; e, por último, o Cancã chegou terra a cada pé, quebrando galhos secos, amassando ramagens e folhas. A não ser a galinhada de sua cria, e algum tizio ou patativo assustado, quando não um bando errante de papagaios curraleiros, não tinha companhia no serviço.
Afizera-se bem à vida solitária: vivia em qualquer rancho de sapé, com a purunga de água e as vasilhas de mantimentos, anos e anos, aturando empreitadas desconformes, pouco se lhe dando das festas que faziam na capela. Agora, como a terra ajudava, teve licença de plantar no café novo, e arranjara um pouco de tudo: feijão e milho, mangarito e abóbora, mandioca e gergelim.
Mão abençoada era aquela! O feijão, que por toda parte andava sofrendo o rigor da seca, e mal embainhara e granara, chocando lamentavelmente, viera-lhe às mil maravilhas, enrodilhara bem, alastrara pelo chão, pesado de vagens cheias; as bonecas do milho davam bom jeito; o mangarito enfeixara-se todo, como um pequenino capão; e até a mandioca vassourinha, que todos diziam ser novata por aqueles cantos, frondejava em rica vitória de força e frescura.
O administrador, que era cabroche enjoado e intiquento, varava horas e horas o olhar para as plantas do Cancã, entusiasmado, chegando a dizer-lhe frases de meia adulação:
— Home! Você tá suparado p’ra temperar um chãozinho! Jugou as sementes e deitou as ramas, e não teve batimento nem um de pacuera, porque tudo rompeu dereito, que foi uma boniteza!
o Cancã tratava de atenuar os gabos, muito modesto:
— Qual nada! Daqui p’ra deante é que é o feio! Um pé de vento pode ainda derrubar o cateto; uma tempestade de muitos dias é capaz de estragar o mulatinho; o gergelim não tá livre de estorar fora do tempo, co’este solão que tem havido; a abób’ra ás vez fica um horror, de aguada...
O administrador apartava-se, contemplava de longe o porte, a verdura do milharal, andava um tanto, voltava-se outra vez, desaparecia para tornar no dia seguinte, menos por tomar fé no estado do talhão que por se entreter com a roça do empreiteiro. O Cancã era um simples, um largado; mas não faltou quem o advertisse:
— Olhe, que o Veríssimo tá aguando p’ro amor de as suas plantas. E fique sabendo que aquilo é um gaudério dos mais piores que Deus ponhou neste mundo: um larifo excumungado, que tem fel no logar onde os outros tenham o coiração!
Para o Cancã, tudo era nada: não lhe passava pela mente que o Veríssimo fosse capaz de cobiçar-lhe as posses, quando tinha de seu, a par com a fazenda do patrão, um sítio encantado, de bom. A inveja é para os fracos; é para os que não acham encosto nem valedouro em ninguém; é para os que muito querem e nada podem... Não atentava nos ditérios e conselhos dos outros parceiros ou camaradas: ia enfiando os dias, calmo e confiante, à espera da quebra do milho e do malhar do feijão, das mais tardias feituras do polvilho azedo e da farinha de beju.
Aproximava-se a lua da última carpa do talhão. O Cancã cuidou do que relevava na própria roça, porque não tivesse de interromper a limpa do café para olhar pelo que era de casa, afiou as enxadas, encabou-as de novo, esperou. Houve uma chuva atrasada, que se prolongou por dias e, depois, calor de fornalha. Parecia levantar-se da terra, às horas mais quentes, fumaça clara com vivos de fogo, que tremia e dava tonturas; os coleirinhos, que de manhã esvoaçavam pela erva em bandos turbulentos, aquietavam-se entre as árvores das capoeiras, cansados e silenciosos: e era tão áspero, na transparência dos ares, o rouquejar dos caranchos, que se imaginava estar ouvindo a cada instante, uma trovoada longínqua.
Certo dia, por volta de uma da tarde, o Cancã teve que abrir mão do eito: doíam-lhe os olhos, um forte peso nas costas o arcava para a frente, sentia frouxas as pernas e os braços bambos. Deu parte da doença ao administrador:
— Seo Veríssimo, vim-lhe dar definição de um causo que me sucede. Hoje eu arreio um tiquinho: tou morrinhento, não sei do que, mas porém me representa que panhei um ramo de influência: preciso de beber um café com limão e suar algum pouco. Vou p’ro rancho.
O outro mostrou-se compadecido:
— Ora já se viu só que infalência tão sem graça, esta agora, quando a gente véve apurada duma vez, por via do patrão que tá chega-não-chega! Não há de ser nada: cuide premeiro do corpo, depois vigie os tratos.
Retirando para o ermo, a um lado do talhão, junto já da capoeira, viu o Cancã que um curiango dos grandes se desmanchou no carreadouro, debatendo as asas longas, e abriu o voo curvo para a escureza de u’a moita de mamoneiros. Entristeceu-se:
— Não mal-agoure um pobre, pass’o triste! Eu não quero bater o trinta e um ainda: tou muito moço, coitado de mim!
Entrou no rancho, ingeriu a xapoeirada, acomodou-se. As ripas da cumiada estreitaram-se, baixaram, entrançadas de sapé muito escuro e muito quente, abafaram no com o peso. Onças irosas miaram pelos arredores. Jaguariaivas malcriados ladraram ao doente, ensurdecendo-o, atormentando-o. Um desconhecido sacou de uma azagaia, com feições ferozes, e ia cravar-lh’a no peito, quando, a romper-lhe o delírio, veio dizer o administrador:
— Antão, como vai essa quitanda? A mó’ que já tá cuo semblante mais sussegado!
O Cancã levantou-se num dos quadris:
— Agora, louvado Deus, tou tendo u’a melhorinha! Aminhã garro cedo no serviço.
Não mancava nem torcia nas promessas: logo ao alvorecer, de feito, achou-se no talhão da empreitada. Mas havia gente a fazer aquela última carpa, e ele admirou-se:
— Como é, seu Veríssimo? Pois este talhão é meu ou não é meu?
O Veríssimo olhou-o de alto, muito sério, duramente:
— Já foi seu: como houve apuro, e você teve sua manha, entreguei p’r’outro.
— E as minhas plantas, seu Veríssimo?
— As plantas do empreteiro que larga o serviço, de quem é que são? São do que manda na terra!
O Cancã fez-se lívido e pegou a tremer. Contem- piou demoradamente, com amor e quase já com saudade, a verdura tenra dos arbustos. Funda tristeza principiou a tremer-lhe o coração e os olhos. Levou-os ao céu, que se ria todo azul e sem nuvens, e, caindo na crueldade do mundo, implorou com humildade de cachorro, que rasteja e lambe os pés do senhor:
— Por tudo quanto é sagrado, patrão, não me tire as minhas plantas! Ao menos me dê licença p’ra mim fazer a colheira: eu acupo só por mais uns dias o rancho, e depois mexo!
Mas o Veríssimo fechou-se no dito. E houve tanta lágrima, e tanta queixa, e tanta importunação, que mais tarde, como já desse de pretejar a barra do céu, e a teima não cessasse, foi preciso chamar uma escolta de seis soldados, que mandou sair aquele vagabundo, desaforado e cabeçudo, para além das porteiras da fazenda...



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Pesquisa, digitalização e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

Crianças (Conto), de Vicente de Carvalho


Crianças

Era o dia de São José, daquele velho, barbudo, calvo São José, com a sua túnica vermelha caindo dos ombros, nas mãos o cajado de amendoeira milagrosamente abotoado em flores, e que, desde longínquos avós, de cuja memória já só ele restava, se mantinha como o santo predileto na devoção da família.
Era o seu dia, segundo a consagração do calendário. E, ao fundo do oratório aberto, destacado, dominando de toda a majestade da sua estatura de dois palmos uma corte de pequenas imagens secundárias, com um ramo fresco de lírios aos pés, o santo resplandecia no clarão da vela benta, piedosamente acesa em sua honra.
Ali estava ele, iluminado e glorioso, o bem-aventurado carpinteiro de Belém, escolhido por Deus, como o mais puro entre todos os homens puros, para depositário e guarda fiel da predestinada, fecunda virgindade de Nossa Senhora.
Segundo uma tradição remota e que vinha, de geração em geração, transmitida de pais a filhos, a velha e encardida imagem recebia pontualmente todos os anos, naquele dia que o calendário lhe destinava, uma singela homenagem de veneração, de confiança, e de amor, sob a forma de um ramo de lírios que se desfaziam em perfume aos seus pés, e de uma vela benta que ardia e se derretia em sua frente.
Os três pequenos, pilhando-se sozinhos, livres de qualquer intervenção adulta, tinham resolvido entre si dar uma busca ao interior do oratório, aberto. Jorge, o mais velho, concebera a ideia e dirigiu a ação. Era já um homenzinho de cinco anos, chefe natural e terrível do grupo. Fecundo em planos de travessuras, ousado na execução, distribuindo com mão forte e pródiga despojos e taponas, Jorge era acatado e seguido.
Puxou vigorosamente para junto da meia cômoda, em que assentava o oratório, uma cadeira; ergueu para esta o Joãozinho, cujos três anos eram ainda incapazes, sem apoio e sem auxílio, de altas cavalarias como essa.
— Agora você! disse com voz de comando, dirigindo-se à irmãzinha; e ajudou-a a subir. Em seguida, cumpridos os deveres de chefe, Jorge subiu por sua vez, colocando-se atrás dos outros dois.
E os três, encantados, puseram-se a examinar a um por um os sagrados moradores do oratório.
Havia um São Pedro, com os olhos cheios de arrependimento de ter negado o Divino Mestre, fitando vagamente o teto. Tinha na mão a chave dourada com que abre às almas dos eleitos as portas da bem-aventurança; e, a seus pés, o galo tradicional, talhada toscamente, abria as asas desiguais, esticava o pescoço, um pescoço exagerado de cegonha, e repousava sobre a túnica azul do santo a sua crista quase quadrada.
Fronteiro a São Pedro, com o cordeirinho branco aos pés, a face rubicunda e moça, as pernas fluas até o joelho, São João apoiava a mão esquerda na longa curva do seu cajado de pastor, e estendia o braço direito num gesto majestoso de bênção ou de prédica.
São Francisco, dentro do seu comprido hábito negro, tinha um ar de suave humildade, com os olhos baixos, o rosto inclinado para o chão e emoldurado por umas enormes, incríveis barbas cor de chumbo.
Completava a coleção das pequenas imagens uma pequenina Senhora das Dores, doce figura de mãe angustiada, com o punhal simbólico cravado no coração até ao cabo, as mãos postas, os olhos aflitos e lacrimosos erguidos para o céu.
A primeira coisa que atraiu o olhar do mais pequeno foi o cordeirinho de S. João:
Um bicho! disse ele apontando com o dedinho esticado.
Não é bicho, corrigiu Jorge, é carneiro.
— Ele morde?
— Não, explicou o mais velho; só dá chifrada.
— Mas ele não tem chifres, interveio Vivi.
Jorge não gostou da objeção que infringia o respeito devido à sua autoridade em assuntos relativos aos animais. E retrucou:
— Tola! Ele dá chifrada com a cabeça.
— Eu tenho medo dele, disse Joãozinho.
— Não é carneiro de verdade, assegurou Jorge. Não se mexe. Quer ver?
Agarrou pelo pescoço o cordeirinho de São João, e puxou-o. A frágil massa partiu-se; e ficou solta na mão de Jorge a cabeça do animalzinho degolado.
— E agora? perguntou Vivi assustada. Eu não disse?
Vivi, note-se, nada tinha dito, àquele respeito.
Jorge, porém, era corajoso e resoluto; meteu rapidamente no bolso a parte arrancada do cordeiro, dizendo:
Não faz mal, eu escondo. Ninguém conte, hein?
Pouco preocupado com aquele incidente, tão simples e tão vulgar, o despedaçamento de um objeto, Joãozinho olhava já atentamente para o galo posto aos pés de São Pedro.
— O que é aquilo? perguntou, desconhecendo a figura mal feita.
— É uma galinha, explicou Jorge.
— Eu quero a galinha! declarou Joãozinho.
— Não, acudiu Vivi. Aquilo é do santo.
— Mas eu quero!
Jorge era generoso: arrancou e deu ao irmão o galo de S. Pedro, com as pernas partidas, e sem a crista, que ficaram pregada à túnica azul do santo.
Vivi reparou na imagem da Senhora das Dores, por cuja face desbotada pela mágoa corriam lágrimas de sangue; e, comovida, perguntou:
— Por que será que ela está chorando?
Jorge explicou prontamente:
— Você não vê que ela está com a faca enterrada no peito?
— Coitada! murmurou Vivi. É melhor tirar a faca.
Jorge tirou a faca.
— Quem seria o mau que deu a facada? perguntou
Vivi.
— Foi o barbudo! opinou Joãozinho apontando para São Francisco.
Devia ter sido mesmo: São Francisco com a sua longa túnica negra, as suas enormes, incríveis barbas cor de chumbo, era a figura mais feia da coleção.
— Com certeza foi ele! concordou Vivi.
— Foi! decidiu Jorge. Pois vai de castigo.
E agarrando S. Francisco, meteu-o, preso, no vão escuro entre o oratório e a parede.
Chegara a vez de São José, que jazia, no lugar de honra, ao fundo do oratório.
Jorge, com uma erudição pitoresca, apanhada nas conversas em que a família, de quando em quando comentava o padroeiro, começou a instruir os irmãozinhos:
— Aquele é o marido de Nossa Senhora, é o pai do Menino-Deus. Mas o Menino-Deus não é filho dele, é filho do Espírito Santo, que é uma pombinha.
— É uma pombinha que anda nas folias, em cima da bandeira, interrompeu Vivi.
— Eu já vi! disse com importância e orgulho o Joãozinho.
— Chama-se São José, continuou Jorge. Dantes era carpinteiro; agora é santo. Quando o Menino-Deus nasceu, apareceu uma estréia. Os pastores todos foram rezar. Foram também três reis. Um era preto...
— Um rei preto? estranhou Vivi.
— Preto sim. Na terra dos negros o rei é preto. Mas é rei.
— E as princesas?
— As princesas, não; que boba! As princesas são umas moças muito bonitas, com cabelos de ouro, e uma estréia na testa... O outro rei mandou matar o Menino Deus...
— Por quê? perguntou Vivi.
Jorge hesitou. Na realidade, ele estava pouco a par das razões políticas de Herodes; mas não quis dar parte de fraco, e, depois de refletir um momento, respondeu a Vivi:
— Ora, porque... Porque era um rei muito malvado.
— E mataram o Menino-Deus?
— Não puderam, capaz! S. Jorge pôs Nossa Senhora, com o Menino-Deus no colo, em cima de um burrinho finito manso, um burrinho ensinado; e todos três fugiram para outra terra...
Joãozinho, apertando na mão o galo arrancado a São Pedro, dobrara sobre a cômoda o braço, encostara a este a cabecinha loura, e cochilava, no aborrecimento daquela exposição de História Sagrada que Jorge ia cosendo de farrapos. Mas a alusão de um burrinho muito manso, um burrinho ensinado, espertou e teve um aparte:
— O santo está sujo.
Efetivamente. O tempo e a fumaça da vela benta, acendida sempre, durante anos e anos, no dia consagrado a São José, haviam encardido a imagem, desbotando-lhe as cores, envolvendo-a como numa poeira baça e gordurosa.
— É mesmo, disse Vivi reparando. Está muito sujo. Coitado, é preciso limpar ele.
Jorge decidiu-se logo a limpar o santo. Fez descer da cadeira os irmãos. Afastou as pequenas imagens, e o ramo de lírios. Agarrou com a mão esquerda a peanha, e com a direita o pescoço de São Jorge. E, num gesto decidido e forte, tirou-o do oratório.
Daí a instante, São José estava no chão, sozinho, no meio do quarto, anulado e pequenino. Jorge trouxe uma bacia de rosto, larga e funda; e, enquanto vazava nela a água do jarro, ordenou a Vivi que trouxesse o sabão.
Sentaram-se os três. Joãozinho quis logo meter na bacia o galo. Mas Jorge suspendeu-lhe o braço, asseverando que não se põe as galinhas n’água, porque se afogam. E, segurando com todo o cuidado o barbudo, calvo, venerável São José, deu-lhe um- mergulho.
Agora, você! disse ele, dirigindo-se a Vivi; Mulher é que lava.
Vivi não se fez rogar. E, carinhosamente, pôs-se a ensaboar o santo.
Daí a momentos, na confusão das tintas que se desmanchavam, São José tinha a barba azulada, o rosto coberto de manchas, a sua calva, aquela austera calva tão lisa e tão lustrosa, aparecia salpicada de rubores que lembravam uma impingem...
Jorge reparou nisso; e ordenou a Vivi que lavasse melhor, com mais forças. Vivi esfregou com energia. A massa molhada começou a esfarelar-se.
— E agora? perguntou Vivi assustada.
Jorge não respondeu. Tinha ouvido passos na escada. Era a mãe, que subia, a ver de certo que é que faziam os três traquinas, tão sossegados havia tanto tempo... Jorge, muito ligeiro, nas pontas dos pés, escapou-se. Vivi seguiu-o logo, enxugando no vestidinho branco as mãos molhadas das tintas diluídas da imagem de São José.
Joãozinho, então, sem reparar em nada de todos esses incidentes, percebendo apenas que ficara único senhor do campo, apoderou-se do santo, e pôs-se, muito entretido, a lambuzá-lo de sabão.
Encontrou-o a mãe nessa tarefa, a que se entregava conscienciosamente; e avançou para ele no momento preciso em que Joãozinho acabava de esfarelar com todo o cuidado uma orelha de São José.
— Maroto! exclamou ela.
E ia fazer cair sobre Joãozinho o castigo merecido pelo horrendo crime, cujos vestígios e destroços via no soalho e no oratório devastado, quando lhe acudiu a reflexão de que tudo aquilo não podia ser obra só do pequerrucho, de que houvera forçosamente no caso intervenção de mãos mais hábeis, de braço mais forte, de figura mais taludinha...
— Foi aquele pestinha! murmurou indignada, pensando em Jorge.
Arrancou das mãos de Joãozinho aturdido a imagem escalavrada de São José; beijou-lhe os pés com palavras compungidas em que pedia perdão pelo sacrilégio dos filhos; e repôs o santo no seu oratório forrado de azul com estrelinhas de ouro, cercou-o da sua corte de pequenas imagens, todas mais ou menos mutiladas, só faltando São Francisco, que continuava oculto, de castigo, no vão escuro...
Cumpridos esses atos de piedade, voltou-se para Joãozinho, que apanhara do soalho o galo de São Pedro, e conservava-o na mão:
— Você fez uma coisa muito feia, e vai apanhar, e vai para o quarto escuro...
Joãozinho, aterrado, só respondeu:
— Não, não mamãe!... Não mamãe!...
Ela porém, muito enérgica:
— Escolha: ou apanha, ou vai para o quarto escuro!
— Joãozinho fitou-a. Percebeu no rosto severo da mãe — que não escapava mesmo. Ora ele nunca tinha apanhado — e conhecia já o quarto escuro. Escolheu, choramingando:
— O quarto escuro, não...
— Vá então buscar o chinelo, para apanhar.
Joãozinho foi, vagaroso, de cabeça baixa, como um criminoso que era. Quando voltou, trazia sempre, na mão esquerda, o galo de São Pedro; e empunhava na direita um pé dos chinelinhos... de Vivi.
— Com este, sim? implorou.
E ia entregar o quase inofensivo instrumento do suplício — quando se arrependeu, retraiu o braço, susteve-se... E com o rosto aflito, os olhos suplicantes, numa vozinha entrecortada, de susto e de choro:
— Eu mesmo me dou, sim, Mamãe? Eu me dou com força. Eu prometo que me dou com toda a força!

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Pesquisa, digitalização e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

6/18/2019

O vício de Fernandes Coutinho (Conto), de Alberto Rangel



O vício de Fernandes Coutinho

Apesar dos numerosos, perpétuos e pingues privilégios de juro e herdade averbados na sua carta de doação, desde o cativeiro do gentio, com a faculdade de mandar vendê-lo ao Reino, até receber os quinhentos réis por ano do ofício de tabelião do público e judicial, e bem assim o dízimo do quinto dos metais e pedras preciosas, a vintena do pescado e pau brasil e o redizimo das várias produções da terra, chegara do Espírito Santo à Bahia do Salvador o herói da Ásia portuguesa, donatário Vasco Fernandes Coutinho, sem um ceitil na escarcela de indigente e grão proprietário.

Fizeram-lhe por isso muito gasalhado e até esmola, condoídos daquele homem astroso, que possuindo terras de um mundo, andava como se não tivesse terreiro onde pudesse aquecer-se ao sol, ou estender a enxugar as peças da vestimenta.

O Governador da Bahia D. Duarte da Costa recebeu em sua casa o infausto capitão, sobre a cabeça do qual se pejavam os revezes civilizadores iniciais das terras do Espírito Santo. Amparou-o D. Duarte em hospitalidade de carinho, por ver assim, despojado de tudo, quem se atirara de Portugal, com os cruzados ganhos no Oriente e os provindos da venda de uma quinta e da cessão de uma tença, aproveitados ao transporte de sessenta fidalgos e moradores diversos à terra dos Micos e Papagaios. Desmoronara o monte de esperanças nascidas nas dobras do alvará do 1º de janeiro de 1534. Tudo perdera o desgraçado, bem insensato para o governo de tal empresa, recaída numa região maldita, infestada do goitacá e do tupiniquim, que trucidavam os habitantes e deixavam raso tudo quanto era plantação e engenho.

Afetando transbordante acolhença, D. Duarte falava ao encanecido e infortunoso Fernandes Coutinho, enquanto os criados retiravam os saleiros, galhetas e salseiras de estanho, os restos do pernil de porco e os pratos e covilhetes da índia azuis e brancos, da mesa do almoço forrada de um mantém em pano de Bengala.

— Eh! Vasco, andas um choquento! Emborca este carrascão sem lhe respeitares a rascância de estreme, que um barril dos de quatro em pipa, vindo pelo último galeão, retém ainda alguns almudes da vinhoca. Esta pinga reinol levanta mortos, e terá a força de exalçar o abatimento dos melancólicos sentenciados de D. Pedro Fernandes. Então? Demoliu-te o bom humor e a resignação esse engrimanço exorcisório do Bispo, pondo-te de mistura com a ralé que lhe ouve as diatribes, segue as trampas e teme a bravaria de anatematizador?

Assentavam-se em roda D. Álvaro da Costa, Fernão Vaz, Rodrigues Peçanha e outros. A palestra ia prazenteira no pospasto; mas Fernandes Coutinho, meio murchado, evitava participar das réplicas e casos de tão folgados convivas. Forçado, porém, pela intervenção direta de D. Duarte, o mofinento, desentranhando-se de um gabão de ranzal muito surrado, desatou a falar:

— Ainda hoje de manhã na Só, depois de me vexar com um chorrilho de admoestações, a que estive a responder com uma certeira estroncada na pança, ou uma boa virotada na tonsura de masmarro, D. Pedro me excomungou de novo. Tornado um belizário, tão infeliz nos negócios de minha jurisdição, e ainda por quebra a insistência desse prosseguimento de tão alto ministro de Deus, o qual devia ter mais a fazer que se ocupar da singularidade alheia; esta afinal não prejudica a ninguém, nem autoriza me mandem ao encalço o meirinho da Correição. Lembrar-me ter amarrado, em Malaca, uma catana à tromba de um elefante, e assim haver afrontado o inimigo, para agora andar corrido das igrejas, qual podengo pirento e espurco!...

— Mas, porque não pões termo a esse raio de maluqueira de “beber fumo”, fumigando-te pelos gorgomilos abaixo com o fedor e a acridez dessa aborrida coisa de tapuio? Aposto uma dobra mourisca que te voltaria a esquença, adiantou D. Duarte. Além de que a saúde não te iria embora nas azas desses vapores execráveis...

— Como te enganas, D. Duarte! E o petum que me dá vida, alumia o entendimento, expele os maus humores da atrabílis, e me sustenta até nos embates da má fortuna. Afundar na miséria, ver os amigos e companheiros devorados pelo selvagem, possuir rios, montanhas e praias enormes e sem conta, com a sacola do farrapão, sem dispor de uma mealha!... Alafé, se não fosse o fumo que me enleva e faz esquecer, ha muito teria espichado uma corda para esganar-me, descansando de tanta desventura! Graças à nefanda erva me curo das reumas e salva-se esta alma. Se D. Pedro bem compreendesse os deveres do seu ministério, haveria de exigir a levasse eu entrançada ás palmas de Ramos, para que ele a santificasse com as borrifadas do hissope. Quando chove e se alagam as almargens, quando a seca esturrica as panasqueiras e os roçados, quando vem a arraiada? ou monta o sol a pino e vai declinando, e a noite choca o sono no silêncio e na escuridão, o melhor divertimento é tragar um pouco dessa substância, que repara e incita, alivia e entretém!

— A mim esse olfortum me fede a rato pesteado, repontou Peçanha.

— A mim me sabe a megalino, inebria-me. Não te deu a natura delicadeza de sentidos para seres capaz de apreciar o dom da terra virgem que mais me apraz, contrapôs Coutinho. A-de-mais essa dádiva celeste é um bálsamo à adversidade, acessível por todo tempo e o qual sustentando o homem, o consola das aflições e mata o berne dos animais, dissipa as inflamações, aproveita ao sono, solda as bostelas frescas e as chagas corruptas, e acaba com os piolhos, as sarnas, as lombrigas e a dor de cólica...

— Há de acabar transtornando-te a cabeça, alterando-te a vista e dando-te fleimas ao estômago, redarguiu D. Duarte.

— Talvez. Mas já era tempo para esses prejuízos se pronunciarem. Ando cada vez mais lúcido enxergo sempre bem, e apetite é regular, que nunca fui nenhum alarve. Destrenga-Deus voltar eu pra o “vilão farto” da minha donatária, a renovar o empreendimento de povoar aquelas solidões; poderia D. Pedro Fernandes Sardinha gastar-se em latinórios e malavenças, que Vasco merendaria com os anjos, chupitando a “erva santa”.

— Sem necessidade de anunciá-lo em pregão público, a tom de caixas, adianto-te uns seiscentos cruzados para o renhimento dos teus esforços na brenseda com que te doaram, proclamou D. Duarte. Tentarás o impossível... A mitra há de pensar que, reduzido de meios, não te restará senão abaixares a cabeça, e secares o corpo à imposição dos seus castigos, dizendo adeus às terras do Espírito Santo. Enganar-se-á.

— O donatário sem outros bafejos da sorte beija as mãos do hospedoso Governador, disse sorrindo Fernandes Coutinho, desanuveado pelo imprevisto adjutório do amigo.

— O façanhudo D. Pedro verá que ninguém se atrasa com as suas punições tão pouco teológicas, segundo a opinião deste bicho de concha, o padre Luís da Gram. Irás hoje, Vasco, em companhia do meu filho Álvaro, rodar pela cidade, evitando passar, bem entendido, na alcáceria do Bispo, para que ele não escreva a D. João III dizendo-lhe mando ultrajar a casa; e deem então boas gargalhadas, discreteando entre si por essas cales, subideiros e calejas, mais por acinte ao prelado e a suas imprecações, que por sincero contentamento.

— Levarei a minha cangoeira bem à mostra, pregada entre os beiços...

—Bem lembrado, Vasco, encherás com a tua chaminé a cidade do Salvador de uma fumarada de fogo-posto em renqueia de paveias, acrescentou risonho D. Duarte.

— Até que chegue às ventas episcopais de Sua Excelência Reverendíssima e o faças espirrar feito um bode na primavera, alardeou D. Álvaro.

Badalavam os sinos do mosteiro de Jesus e da Sé nas doze batedelas do meio-dia. A cidade soniculosa, cingida das ruínas da taipa grossa de Tomé de Souza, aquietava-se nos mormaços derreantes da hora. O mar parado no calmão, lá em baixo, cobria-se do surgidouro das naus até Itaparica de escamas fulgurais, às zagaiadas do sol. Na altura da ponta do Padrão, uma carraca desvelejando ferrava os panos, circundada por biguás.

Delicioso, mas intraduzível, o sabor dessas folhas castanhas e sumarentas da manoca fornecida pelo algarvio ladino, que vivia com um genro de Caramuru, a barganhar com índios. Para o senhor Bispo, quando acendia o pitimbau em que uma delas se enrolava, o tempo corria numa fugida de acalento, no ligeiro torpor e gosto das cismas leves, no transporte caricioso de nuvem morna e cor de rosa.

Também ele sofria da pertinácia desse vicio ferrenho, em que se desmandava o azarado D. Vasco Fernandes Coutinho. Começara a adversia pela simples curiosidade de como esse capitão e governador donatário se pudera curtir no maldito costume tupinambá; e caíra o prelado por sua vez no apego veemente e indestrutível desse aprazimento ao qual não sabia mais resistir. Com que dor de vergonha se vira obrigado ao anátema sobre o delinquente de tão feio habito, quando ele com o báculo castigador incidia na extravagância do mesmo crime!

Realmente a erva pagana era dotada de embeleco diabólico. Não embebedava, inaugurava-se pela repugnância e os espasmos do vomito; na continuação era a doçura incomparável de um recreio, o entretenimento daquele aspirar e espirar, e as ideias na cabeça vagamundeando por aí além... O gozo tênue não lhe estava em proporção às ganas e atracadas do atraimento. Que desejo imoderado de o sorver quando faltava, que anciã de o buscar mal o seu praticante se via só, por exemplo, na hora da sesta, para se repor de alguma fadiga, ou preencher o tempo na calentura do vácuo e da estupidez de ócio inaceitável...

Pesada estante com sermonários, pontificais, hagiológios, baldoairos, passioneiros e outros livros de instruções litúrgicas, análises de concílios, decretais, panegíricos e obras de Doutores da Igreja, enchia completamente uma parede. O Senhor Crucificado, de osso, tetricamente espichado numa cruz de ébano, estendia os pés sangrentos para os banhar numa concha de água benta. O genuflexório de jacarandá vermelho estufado a gorgorão. A Virgem enlevava-se na peanha, sobre a grande mesa, em frente ao cadeirão abacial, recoberto da espaldeira de veludo lionês. Um baúlão e banquetas esparsas. No apartamento assim ornado, o eborense D. Pedro Fernandes-ocultava o seu delito, como se escondesse o pragão de um câncer sob o brocado do pluvial. Começara apenas havia dias o vício de escarmento, irmão do que praticava D. Vasco, e no entanto já o subjugava até as entranhas. E ainda mais o horrorizava o mal desse habito, porque o flagício se fazia soberano do dignitário da Igreja e responsável pela propagação nefasta desse indecoro. Vira-se obrigado a fulgurar, com as faíscas e trovejo de sua cólera, o cristão perdido no rito gentílico, enquanto ele, pregado no trono episcopal, por sua vez chupava a emanação do vegetal, que ardia olente e extasiante, deliciando-lhe as papilas da língua e as glândulas da pituita...

Nesse instante, deixando de lado o Ritual Romano, acabava o Bispo de tomar de dentro de uma arca braguesa, com pesados fechos de segredo, a folha seca e amorfanhada de um belo castanho escuro, e a enrolara cuidadosamente, depois de se assegurar de possíveis indiscrições no salão em que se achava. Pusera D. Pedro fogo ao pequeno rolo de petum e começara a respirar-lhe os fumos, quando alguém se anunciou para além dos batentes cerrados. Foi só o tempo do precavido expelir a baforada, apagar o pitimbau, abafá-lo sob o troneto da imagem de Nossa Senhora dos Prazeres, ao lado, no grosseiro mesão de araribá, e começar a folhear as páginas de um abominário encontrado mais à mão.

Levantada a aldrava da porta, entrou por ela um sacerdote meio corcunda, com remendos na loba e o chumaço dos cabelos espirrando em franja da calote do solidéu.

Benedicite! assoviou o reverendo chantre da Sé, atirando para trás o capelo e aparecendo rubicundo, qual um tiepiranga. Entrava o capiscol para falar à Sua Ilustríssima a propósito de novo desaguisado entre o deão Fernão Pires, o cônego Luís d'Ávila e mais dignidades do cabido, transformado numa estalagem de velhas peixeiras e arrieiros galegos.

O sexagenário D. Pedro Fernandes parecia não estar bem-disposto nessa tarde pura e radiante de abril de 1554, pois recebeu o chefe do coro com certo agastamento:

— Avalio ao que vêm, nova disputa entre o deão e o arcediago, soprada por esse malfadado solfista e ribaldo Francisco de Vacas, na garupa do físico e licenciado Jorge Fernandes! E concertou o píleo, no alto da cabeça redonda, com um gesto lasso. Ter letras de um grande barrete e canonista, ser provado em religião e virtude, exercer o magistério em Paris e em Salamanca para viver a sermoar uns escravos, degredados e mercadores!... Valha-me São Jaques de Compostela, que não me faltam aborrimentos neste episcopado, tendo pela proa as malversões desse molengueiro. Duarte-armeiro mor, para me baixar a intervir na parlenga inacabável de murçados dessa craveira, na infame cidade da Rixa e da Libertinagem, capital da índia brasílica! Querem reduzir a minha croça a um varapau de porqueiro! Seja!...

Tendo desabafado o resto da acrimônia no antigo dominico o pregador Gomes Ribeiro, o bispo mudou familiarmente de assunto:

— Então padre mestre, o fulheiro Luís de Góes, metido de gorra com o desbatizado e tranca-ruas D. Álvaro da Costa, aforciou a filha órfã de um cristão novo, uma carocha mais champuda que o sino grande da Nossa Senhora da Ajuda! Os maganos da crápula estão roubados. No seu fornizio arpoaram um grosso cachalote pensando levar no papo uma sereia. Falaciosa dissolutio...

— A corrupção vai desmanivada nestes povos. Fala-se também que amanheceu hoje suspensa à lindeira da porta do almotacé Oliveira uma capela de chifres. A cidade, porém, está mais alvoroçada com a excomunhão do Coutinho, disse o chantre, espremendo na mão seca o volume do processionário, e sentando-se num tamborete de belbute, que na devassidade dos vaganaus e na grinalda de agravo. Muitos deploram que esse" doudarraz e bobo alegre, por uma esquisita mania...

— Mania?! reverendo chantre. Pois então esse donatário por graça d'El-Rei dá o funestíssimo exemplo a seus sesmeiros e colonos de usar uma droga infernal, que lhe entra pela garganta abaixo, tal a fumarola do Érebo sorvido nas goelas de Belzebu, e devo eu ficar indiferente a tão escandaloso manejo?! Tão convicto anda esse homem de perdição da inocência da excentricidade de bruxo, como Sua Reverendíssima de concertar o canto chão com os tunantes da colegiada. Compreende-se que o devoto da Igreja gaste a fazenda e o tempo a sugar fogo de umas ervas do gentio, às baforadas, assim o arcanjo do mal no meio dos danados do Tártaro? Não é coisa de costa arriba? Se o pastor não acode a tempo, gafam-se e esmadrigam-se as ovelhas imitando esse engole peçonha, disfarçada em fumareda. Por isso afixei na porta da Sé a carta de excomunhão que tanto espanta o rebanho, o qual por meus pecados me foi dado apascentar. Ando a par das constituições da minha prelazia. Não ficarei nisso. Hei de pôr um cobro à teimosice. Quem se meter na viciação ficará nu da cinta para cima, com as tais folhas penduradas do pescoço, à missa do Domingo. Mandei arrebatar a cadeira de espaldas que pertencia a D. Vasco, numa igreja de Pernambuco, o exclui-lo da comunhão dos fiéis. Mas o desditoso réprobo não cria vergonha, obstina-se a usar a substância execratória, tal um condenado eterno às perversões de Gomorra. Não lhe bastaram as azorragadas do meu sermão. Infatigável, hei de fulminar novamente o excomungatório com todos os raios da minha potestade! Para desviar D. Pedro Fernandes do assumpto que tanto o agastava, o chantre noticiou:

— Segundo ouvi dizer ao mestre de capela, acabou-se infelizmente o óleo da Pérsia destinado ao crisma e à extrema unção.

— E bastante suave o extraído da cabureíba. Adotemos esse bálsamo tão virtuoso, pois o Santíssimo Padre há de aprovar a substituição.

—A Sua Ilustríssima, Senhor Bispo, não lhe chega aqui um cheiro meio acre, que nunca senti igual? interrompeu de repente o chantre, inclinando para uma e outra banda a ponta do seu beque de araçari. Tênue caracol de fumo desfazia-se num farrapo azulado, torcendo-se na aberta da janela, procurando absorver-se na luz em que se esbatia.

— O aroma é singular, continuou o chantre. Não alcanço defini-lo bem. Talvez o produto da algália misturado a alguma resina desses sertões, ou antes a morrinha de um mono temperada com o aroma suavíssimo de quando arde a ubirataia...

— Odor do demônio, Reverendo chantre, esclareceu D. Pedro Fernandes, mostrando o ar desconfiado de seminarista pilhado na transgressão. Às vezes o diabo mescla o enxofre do Orco e o perfume do benjoim dos mouros. Pode bem ser queira o Tentador disfarçar o bodum da presença com este pixé, que tão pecaminosamente o embevece. O Príncipe das Trevas rescendia mais que o incenso, o cinamomo e o nardo, a perseguir São Domingos de Gusmão. Tome de suas contas e se ajoelhe aí neste genuflexório. A fim de ajudar-lhe a resipiscência, reze duas coroas, que também se peca pelas narinas, reverendo Tomé! Spurtitia nasi imissus in re peregrina est...

O chantre ajoelhou-se e começou a rezar, intrigado da penitencia. E a olhar para o fiapo daquela fumaçazinha a desfazer-se de todo no ouro borbotante da janela aberta, ele distraía-se, esbrugando os bugalhos das camândulas...


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Alberto Rangel (Quando o Brasil amanhecia..., 1919)
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)