quarta-feira, 12 de junho de 2019

D. Joaquina Eustáquia Simões D'Aljezur (Conto), de Manuel Teixeira Gomes



D. Joaquina Eustáquia Simões D'Aljezur

(Historieta quase romântica)

O refúgio, o bucólico sanatório indispensável às minhas crises de melancolia, era então a horta dos Pegos Verdes, oásis de laranjeiras sepultado num vale da serra, entre estevais sem fim. Ali haviam demorado por vários séculos alguns monges autênticos, de cuja pobreza os restos do convento — acanhadíssima construção térrea de pedra e barro — perpetuavam o atestado suficiente.

Eu ia para lá a pé, de espingarda a tiracolo, calculando a hora da partida de modo que chegasse ao nascer do Sol, quando o hortelão, o Sr. Elisiário, já andava nas leiras, com a enxada, a abrir caminho à água.

A levada de alvenaria passava ao portão; sentava-me, descansando um instante a escutar o murmúrio da água, e logo, numa dessas frequentes e profundas acalmias da madrugada na serra, que um trilo de rouxinol perturba e magoa, eu cortava subitamente o silêncio com o meu grito:

— Elisiário!...

Da obscuridade rescendente onde o pomar tufava acudia sem demora a voz do velho, tenebrosa, ao rés-do-chão:

Ora muito bons dias a vossenhoria... — E em seguida, mais aguda e livre: — Ó Custódia,

Custódia... cá temos o patrão...

Era o sossego de duas vidas consagradas ao amanho da leiva generosa que perfazia a paz solene daquele ambiente de solidão, e eu entrava nela tão naturalmente que nunca a trilhava...

A minha presença em nada alterava a norma de existência ao casal de velhos que para ali viera pouco depois da voda, quarenta anos atrás. Não tinham filhos nem os haviam desejado e, encantados no egoísmo daquela quietação cobiçada e realizada imperturbavelmente, as minhas poucas palavras eram-lhes indício de uma velhice precoce por onde nos emparelhávamos, e assim conseguia eu vencer a sua hostilidade latente, mas sempre alerta, por tudo quanto revelasse tumultos e petulâncias da mocidade.

A minha cama e o meu quarto arranjavam-se todos os dias, que eu lá estivesse ou não, e esses cuidados conservavam-lhes na memória a minha lembrança; quando eu chegava recebiam-me singelamente, como a alguém que se espera depois de curta ausência, embora sucedesse passarem-se às vezes anos inteiros sem que me vissem aparecer. Do que eles comiam comia eu também, de sorte que nem mesmo o lado material da sua vida sofria modificação.

O velho era malicioso, com grande queda para a zombaria cujo exercício a surdez da mulher baldava naquele escampado e sobre mim gostosamente incidia, mais ou menos velada, enquanto por lá me tinha. A velha, verdadeira pobre de Cristo, calada e obediente, ia-se dobrando para o chão como um compasso que se fecha pouco a pouco, emperra e já não abre; parecia feita de barro amarelecido e gretado, com duas inextinguíveis pinceladas de carmim nas faces. O pretexto à minha demora dava-o a caça, e de espingarda ao ombro subia eu todas as manhãs muito cedo à cumeada das serras por onde me deixava ficar horas esquecidas, mas a caçar de preferência ou exclusivamente, perspectivas e horizontes... A espingarda, no entanto, escudava-me a reputação já abalada e que fatalmente se faria de doido varrido ao vincar a suspeita de que não era pela caça que eu levava os dias inteiros a bater mato.

Umas vezes por outras disparava a espingarda para o ar ou atirava ao alvo; os tiros ecoavam pelas quebradas dos montes e ouviam-se no convento, provocando, ao regresso, grande cópia de perguntas irônicas e sorrisos de mal disfarçada mofa no meu caseiro, que me via voltar de mãos vazias, e cujo auxílio e companhia nas minhas inocentes explorações campestres eu terminantemente recusava. As alusões, pouco respeitosas, do socarrão à minha má estrela venatória — ele não me punha em dúvida a perícia — eram invariáveis, sem nunca falharem e divertindo-me sempre. Depois, como se isso lhe fosse indispensável e seguro introito à exposição das suas habilidades e façanhas — para fixar o contraste entre a minha impotência e o seu valor, — com bastante pitoresco, embora muito sóbrio de gestos, descrevia as manhas dos coelhos assustadiços e os variados voos com que perdizes e rolas se levantavam fugindo ao caçador inexperiente. "Tricas de escapar" — chamavam-lhes, mas ajuntando logo: — Comigo não brincam os passarinhos e se vossenhoria aqui viesse no tempo da caça proibida, que é quando vale a pena dar um tiro, ou nos meses em que eu posso largar a rega, veria então... Que eu bem sei que vossenhoria no parado acerta como ninguém...

— Pois, tio Elisiário, amanhã trago-lhe a bolsa cheia...
— Vossenhoria anda com pouca sorte. Aos tiros que lhe tenho ouvido já não devia haver bicho com vida numa légua em redor...

E o caso era que os bichos tampouco pareciam acatar-me a destreza. Os coelhos miravam-me, com aprazível e tranquila curiosidade, da entrada das suas luras, e uma vez que eu esquecera a espingarda sobre umas pedras fui encontrá-la feita poleiro, donde uma perdiz vigiava a ninhada.

Mas atirar a uma ave, símbolo da graça inofensiva e da elegância mimosa!... Vê-las voar, tão leves, e vê-las pousar, num declive tão doce, como que no ponto certo onde a curva do seu voo encontra a imaginária tangente...

Na liberdade daquela solidão tudo era gozo para os meus sentidos, sempre despertos e ávidos: o ar impregnado pelas exaltações resinosas das estevas; o pesado, quase palpável perfume das moitas de rosmaninho; os gorjeios que a passarinhada solta como isolados fios de pérolas cristalinas; o ruído, o remurmúrio de colmeia de que a vida dos insetos repassa o mato espesso; as borboletas ardendo na luz intensa, como pequeninas chamas verdes que se perseguem, e caindo nas sombras com a opacidade das flores de enxofre... E os vastos horizontes, familiares, mas duma tão perpétua novidade, abrangendo no mar faiscante o recorte sinuoso da costa, lá da Ponta do Altar às rochas do Cabo, com os estuários do arade e das rias de Alvor, e, a norte, a perspectiva circular das serras que fecham o Algarve, imponentes, e até importunas, quase, nas altíssimas ondulações da Fóia e da picota, mas morrendo em linhas azuladas, como que esvaídas, direito ao mar e acamando, a levante, em aveludadas ondas de musselina...

Singular e pacificador panorama por onde, com a alma, a vista se me alongava infinitamente apaziguada!

Não, não era para verter sangue que eu ia aos Pegos Verdes, pois logo me penetrava a clemência duma grande harmonia idílica, mas tampouco estranhava a ferocidade instintiva e cultivada do tio Elisiário, que bem lhe correspondia à expressão macabra do rosto: em pequeno tivera a desgraça de esborrachar o nariz, ficando-lhe essa feição estampada ao meio da cara como um às de paus...

As minhas belas sestas dormidas no terreiro da igreja, debaixo duma copadíssima alfarrobeira, que ali imperava escoltada por oliveiras! A agitação de umas tantas vides, soltas e reverdecidas em pleno sol, hipnotizava-me; o sussurro da aragem nas ramadas da imensa árvore, embalava-me; outras vezes o vento dava com força nas altas oliveiras com o ruído sinuoso e ecoado duma grande vaga a rebentar na areia da praia e os meus sonos ali eram prolongados, reparadores e deliciosíssimos.

Os dias corriam-me tão serenos, tão iguais, naquele ermo dos Pegos Verdes, que pouco a pouco o espírito se me tranquilizava e como um líquido repousado que deposita, por fim, no fundo do vaso, todas as impurezas que o embaciavam, passadas algumas semanas fazia-se-me no cérebro a limpidez necessária. Calmo e indulgente, pois é o veneno da própria atrabílis que nos intoxica a visão do próximo, voltava à convivência dos povoados...

Em uma dessas temporadas de purificação, já quando pensava em a dar por finda para voltar às obrigações da vida social, uma tarde que o calor me levara ao preferido retiro da alfarrobeira, veio-me o tio Elisiário dizer que chegara ao convento uma senhora em minha busca.

— É uma verdadeira madama!...

Não seria fácil pintar a expressão de assombro e malícia quase obscena com que o velhaco sublinhava a designação de madama.

E como se chama essa madama? — inquiri sonolento, e mais aborrecido do que surpreendido.

Não sei, nem ela quis dizer o nome, porque o patrão também a não conhece... Metia-a na casa onde vossenhoria come. Vem esbofada com o calor e em trajes de viúva...

Você nunca a viu, Elisiário?

Eu nunca, mas a minha mulher diz que aquela cara não lhe é de todo estranha e que já uma vez na feira de Lagos a encontrou passeando sozinha na Rua dos Ourives...

Fui. À sombra das parreiras, cuja latada separa o convento da horta, descansava um mocetão espadaúdo e hercúleo, vestido de soriano escuro, encostado à albarda de uma estafadíssima égua que arreganhava os dentes direito à rama viçosa do batatal.

— É o pajem... — segredou-me o Elisiário, piscando o olho.

Entrei no convento. Na casa de jantar pouca luz havia e essa mesma quase não alcançava o recanto ao qual a misteriosa visita se acolhera e que eu, ainda encandeado, a princípio mal divisei na cadeira onde o seu vulto negro foi pouco a pouco tomando forma.

Dei as boas-tardes, abri a janela e de relance, enquanto buscava assento, examinei a desconhecida que, muito naturalmente, sem se levantar, me estendeu a mão descarnada e fina.

Devia ser mulher de quarenta anos. Alta, delgada, envolta nas pregas dum grande xale de caxemira preta, que a saia de merino prolongava no mesmo tom tenebroso até ao chão, sustinha o corpo num conjunto elegante e digno; as feições regulares e emaciadas, cuja palidez ebúrnea se acentuava sob o alpendre da mantilha negra e lisa, e as pálpebras vermelhas do carmim vivo que o costumado choro parece destilar...

Silenciosa, apertou-me a mão, deixando, logo, cair a sua, pesadamente, nas sombras do regaço, ao passo que a mão esquerda, espalmada sobre o peito, aí desenhava a fragilidade dos seus longos dedos, como que a aguentar baldamente as palpitações dolorosas de um coração martirizado.

Instintivamente a comparei à "Mater" do Germano Pilon, obra-prima de expressão dolorosa — embora um quase nada declamatória — com a qual o museu do Louvre se orgulha e de que a misteriosa senhora parecia haver copiado a atitude sofredora.

— Vossa excelência o que deseja deste seu criado? — disse eu a meia voz, realmente impressionado pela trágica nobreza do seu aspecto.

Antes de me responder ergueu vagarosamente os olhos ao céu com o semblante de quem implora a inspiração divina, depois, ainda mais vagarosamente, pousou-os em mim e, com a voz funda onde persistia a dorida rouquidão dos soluços abafados, exclamou:

Eu sou Dona Joaquina Eustáquia Simões d'Aljezur...

De Aljezur!... E veio vossa excelência de tão longe a cavalo, com este calor tremendo. Mas deve estar muito cansada! Não deseja tomar alguma coisa? Suplico-lhe que mande sem cerimônia, como se estivesse na sua própria casa...

Aljezur é o meu nome de família; de Aljezur foram os meus antepassados que, sem jactância, poderei aquilatar de nobres... Eu, hoje, moro em Bensafrim; pela estrada velha, tomando os atalhos, não chega a duas léguas de caminho... Agradeço a vossa excelência o seu cuidado, mas não estou cansada nem preciso de tomar coisa alguma...

Após demorada pausa continuou:

— Não admira que nunca ouvisse falar no meu nome e que até o ignore por completo: vossa excelência é muito novo; nem mesmo poderia lembrar-se da época do verdadeiro esplendor da minha família: eu própria dele só conheço os decadentes vestígios... Nasci sob a influência duma funestíssima estrela e até desses vestígios me desapossaram...

Aqui as suas mãos de marfim, soltas, agitaram-se à altura do rosto para logo se enclavinharem na negridão das roupagens, enquanto um grande soluço lhe estrangulava aflitivamente a voz...

A piedade irrebatível perante espetáculo de tão patente infortúnio, aflorou-me aos lábios em palavras de conforto; animei-a como a criança desvalida, no transe da orfandade, e escutei-lhe a pungente história, preso duma comoção que não esmereceu até final.

Sem proteção de ninguém, viúva de um oficial que provara em combates coloniais o seu arrojo — digno também da nobilíssima estirpe donde provinha, — reduzida à miséria, escorraçada de quantos lhe deviam respeito e amparo, abandonada no isolamento de uma insignificante propriedade já roída de hipotecas, via-se esbulhada do grande patrimônio, que legitimamente lhe pertencia, cuja importância despertara a avidez de parentes poderosos e ativos, os quais, vivendo na capital, conseguiam inutilizar quantos esforços ela empregasse para entrar judicialmente na posse do que era seu.

Aos descoráveis algozes fora-lhes fácil apoderar-se e talvez destruir os principais documentos em que baseava os seus direitos, documentos confiados ao célebre advogado Rodrigues de Moura, que preparara a ação judicial. Desgraçadamente, depois da morte daquele homem generoso, de cujo desinteressado patrocínio ela recebera provas inúmeras, o seu sucessor, o Dr. Claro Fernandes, ou por sugestão dos seus implacáveis inimigos ou porque realmente não possuísse já os elementos suficientes à continuação do pleito — este alvitre repugnava menos à natural delicadeza dos seus sentimentos, — recusava dar-lhe andamento, deixando sem resposta todas as suas cartas, e sabendo a minha intimidade com o Dr. Claro — com efeito havíamos sido camaradas em Coimbra — atrevera-se a vir suplicar--me que interviesse, escrevendo-lhe.

Tal o resumo de quanto a ilustre "dolorosa" me expôs, mas sem tentar, nem de leve, reproduzir o tom digno, o entranhado sentido, a substância trágica das suas lamentações e ainda menos o colorido, a veemência com que narrava, exaltando-se até aos mais levantados raptos de emocionante eloquência, com os quais, decerto, encobria ou transpunha passagens melindrosas de cuja elucidação claramente se pejava, sobretudo nas imprescindíveis e rápidas alusões às peripécias do seu casamento, que fora também singularmente infeliz.

Prometi — e tão sincero quanto o confrangimento verdadeiro por calamidades alheias pode mover um homem de brios — senão fazer-me seu paladino, pelo menos insistir, apertar com o meu amigo Claro Fernandes para que lhe prestasse o auxílio devido. Eu fiava do fundo cavalheiroso do seu caráter a mais pronta solicitude por aliviar tão peregrina como injustificada desventura, quando esta lhe fosse bem patente, e de antemão garantia à pobre senhora que encontrava no fogoso e moço advogado auxiliar não menos prestável do que lhe fora o seu antecessor, e, felicitando-me pelo feliz acaso, mercê do qual eu interviria em assunto assim sugestivo de generosos impulsos, lisonjeava-me profundamente que me houvesse escolhido para seu intermediário.

A cada uma das minhas palavras as feições de D. Joaquina Eustáquia pareciam desanuviar-se, refundindo-se em calma tranquilidade, em quase alegre confiança.

Secaram-se-lhe os olhos, sorriu, apertou de novo o coração, certamente já menos oprimido, com uma das mãos, estendendo-me, num gesto de confiado abandono, a outra mão, que eu beijei, respeitoso.

Protestou o seu eterno reconhecimento, como cumpria, mas ainda em termos levantados, com a espontaneidade de uma alma que se expande livremente ao calor de outra alma cuja rara generosidade a não frustrara na sua esperança até ali tanta vez desiludida, e assim se despediu.

Ao transpor a porta do claustro uma revoada de pombos mansos pousou-nos em volta com o ruído de água lançada de alto, aos baldes. D. Joaquina deteve-se um instante, como que embevecida na graça das aves irrequietas, mas quando se inclinava para as amimar, o tio Elisiário acudiu, solícito, a enxotá-las. O bando levantou voo, passando quase ao de cima das nossas cabeças com o rumor isócrono do arfar de um cão cansado, e D. Joaquina ficou-se ainda um momento, extática, feminilmente, quase infantilmente graciosa, com as mãos estendidas direito ao céu onde os pombos se perdiam.

— Pois haverá no mundo nada mais lindo, mais elegante, mais livre do que uma ave! — observou-me.

Foi realmente espetáculo para ser olhado, a agilidade juvenil, junta ao desembaraço de consumada cavaleira, com que ela, estribando-se na mão que o pajem lhe oferecia, saltou sobre a albarda da égua e a meteu pelo caminho da serra num chouto rápido, seguida a custo do companheiro. Ao longe a égua tomou feição de palafrém caminhando, ligeiro, sob o peso de alguma desditosa princesa de balada...

Mas a voz do tio Elisiário soou inesperada e zombeteira a meu lado:

O pajem é forte moço... mas tem o nariz vermelho e roído... Aquilo deve ser formigo...

Não fale em narizes, Elisiário, porque o seu também é bonito... — atalhei, severa e secamente.

E recolhi-me a cismar na história de D. Joaquina Eustáquia, vulgar, talvez, nos seus pormenores mas tão fantástica pela incontestável estranheza da sua dramática heroína...

O meu primeiro cuidado, quando regressei a casa, foi escrever ao Dr. Claro expondo o caso, instando por imediata resposta e instigando-o a que, embora as aparências fossem desfavoráveis a D. Joaquina, concedesse ao seu pleito a atenção que, a meu ver, ele merecia.

A resposta não se fez esperar. O meu amigo prometia tomar o assunto a peito, ajuntando que os empregados do escritório, contemporâneos do seu predecessor, se lembravam ainda de D. Joaquina como de alguém que consubstanciasse, não as calamidades do destino adverso, mas os predicados mais ridículos que possível fosse imaginar — sem poderem no entanto explicar o motivo de semelhante impressão, de resto frequente em subalternos perante o infortúnio desamparado e importuno. Isso por modo algum o desviaria de se ocupar seriamente da questão, esperando, para muito em breve, dar-me notícias mais minuciosas e animadoras.

Ao mesmo tempo, encontrando-me com pessoa de Lagos, sempre bem informada e discreta, perguntei se alguma coisa sabia acerca de D. Joaquina Eustáquia e por ser negativa a sua resposta instei a que inquirisse o necessário da própria gente de Bensafrim.

Passaram meses sem que me chegassem novas diretas ou indiretas da desventurada, e quando justamente me dispunha a visitar o cabo de São Vicente, fazendo caminho por Bensafrim, recebi carta do Dr. Claro atestando formalissimamente que D. Joaquina Eustáquia Simões d'Aljezur era o tipo acabado da histérica mentirosa e trapaceira, desvairada por fantásticos sonhos de grandeza e vesânicos terrores de perseguições; que tais documentos jamais haviam existido fora da sua imaginação pervertida, e os seus parentes eram-no apenas por afinidade, mas pessoas de comprovada e indubitável honradez, para quem toda e qualquer alusão à triste heroína doía como afronta direta e imerecida.

Em Lagos, de passagem para o Cabo, o informador cujas luzes solicitara corroborou a opinião do advogado com a do povo de Bensafrim onde ela era tida e havida por louca e alcunhada ridiculamente de "Princesa de..."; o informador não conseguira averiguar com exatidão o nome do escarninho principado...

Que mais poderia eu fazer a bem de D. Joaquina? Em meu próprio bem resolvi abandoná-la e remeter-me ao silêncio tenaz das almas limpas de remorso.

Demorei-me três dias na região do Cabo. O sítio onde se levanta a torre do farol, nas ruínas anexas ao velho mosteiro, é soberbo de trágico, orgulhoso isolamento, que tudo em volta acentua e harmoniza.

A monstruosa penedia mociça de Sagres aguenta as investidas do mar do sul e de encontro ao esporão rochoso do Cabo se pulverizam os raivosos vagalhões que o vento norte atira pela costa de Portugal abaixo. Toda a paisagem se repassa da heroica tristeza daquelas incessantes lutas e na charneca vizinha ao mar as raríssimas árvores que medraram vivem quase rentes com a terra, dobradas para levante, fugindo, desgrenhadas, aos arremessos da tormenta.

Mas a lembrança de D. Joaquina, evocada, involuntária e fugitivamente, naquele cenário, perseguia-me ainda mais dolorosa e dramatizada, como se o seu vulto negro por ali errasse açoitado dos elementos...

E, com efeito, era ali que conviria juntar aos uivos da procela os clamores lamentosos de uma alma torturada, no desamparo!

Mesmo em frente ao Cabo levanta-se um leixão de que o mar padece há séculos e a mais e mais se empenha em desfazer. Ali tudo ferve em cachões de espuma e é temeroso de ver como o mar se lhe cava em roda para lhe dar assalto e o sepulta nas ruínas dos altíssimos castelos que levanta e, bramindo, cai de novo e se cava mais fundo e logo se ergue mais alto para de novo o envolver nos concêntricos turbilhões das catadupas de um feroz remoinho, ao concertado esforço de o arrancar!

Mas o rochedo deve ter as raízes no coração da terra, pois nada o abala!

E também é curioso de ver em dias amenos, quando ele se reflete na água espelhada, como se estria de gumes e parece abrolhado de navalhas.

Quem pudesse atirar sobre ele, ao sabor do mar enfurecido, as nossas mágoas, os nossos remorsos, os nossos vícios. Como tudo sairia dali retalhado, sangrando, disforme, inútil e com que delícia não seria então recebida a morte que nos nivelasse a dor pela alegria, e nos absorvesse as cruéis claridades da alma por onde se desdobram tão angustiosas tragédias!

Era ainda a imagem lutuosa de D. Joaquina que tais lamentações me sugeria, mas a imagem que se movia e trabalhava pelo inconsciente, pois se acaso eu a apercebia, logo tratava de a rebater como a espectro importuno e vexatório. Para que agravar a minha própria tragédia enxertando-lhe o drama de uma existência onde a irremediável loucura fazia a cada instante novos e insanáveis destroços... Loucura!... É tão falível o conceito não só do vulgo mas dos que se equilibram tranquilos na gloriosa plenitude de uma vida desembaraçada, quando se trata de algum ser anormal que as vicissitudes arrastam por sendas inexploradas ou desconhecidas!

Mas o egoísmo sempre triunfava à ideia de alijar do espírito semelhante obsessão e foi inabalavelmente decidido a não me ocupar mais de tal criatura que eu regressei a casa.

Outra carta do Dr. Claro, que chegara durante a minha curta ausência, ateou o interesse, que parecia de todo extinto, em exultantes labaredas.

O meu amigo penitenciava-se da leviandade com que tentara justiçar a pobre vítima à falta do fio encontrado, agora, casualmente, para fácil penetração ao labirinto que devia ser a vida de D. Joaquina Eustáquia Simões d'Aljezur. Houvera processo por ocasião do seu divórcio e o marido não só lhe negara o valiosíssimo dote, que por contrato antenupcial lhe devia, mas até os alimentos lhe recusara. A virtuosa família do marido — cuja morte pouco tardou após a separação — abafara o processo e ele pedia-me que obtivesse, quanto antes, de D. Joaquina certos esclarecimentos de que mandava nota, jurando que, a realizarem-se as suas previsões, tomaria à sua conta levar o pleito afinal e por todas as instâncias, ainda que nisso empenhasse a posição que ocupava no foro e alguns bens que possuía.

Cavalheiroso amigo!

D. Joaquina, é certo, não aludira durante a nossa entrevista dos Pegos Verdes à circunstância do divórcio, nem explicara a razão por que não usava o nome do marido, o que era, pelo menos, singular. Mas isso o que importava!

A esperança, a quase certeza de que havia realidade nas suas queixas e justiça nas suas pretensões, e a convicção de que ela era a vítima imbele da cupidez e da maldade de uns hipócritas mascarados de generosos sentimentos mas seguramente de tigrino coração e catadura feroz — como convém à falsa virtude — apoleavam-me de remorsos, exacerbados ainda por haver, tão facilmente, dado crédito às atordoadas do vulgo celerado e estúpido.

Eu desejaria voar até Bensafrim e descendo-lhe ao humilde tugúrio, qual enviado celestial, depor-lhe no regaço a palma do martírio e na fronte a imarcessível coroa de rosas da inocência resgatada.

Estávamos no começo de março, num período de dias aprazíveis. Parti na manhã seguinte, às 9 horas, com um sol de Inverno radiante.

Parti, mais serenado já, mas com a iluminação do triunfo a ampliar-me a alma e em plena comunhão com a natureza que se expandia luxuriante.

A estrada sai da vila por entre hortejos e pomares com as pereiras e os pessegueiros então floridos. Pelos espaldares dos outeiros viam-se jeiras lavradas de fresco, onde as amendoeiras, já tupidas em folhagem tenra, se enovelavam em manchas de mimoso verde-claro. Era milagrosa a transparência da atmosfera nas várzeas da Torre, com os salgados dos Montes, à esquerda, listrados de água espelhada nas valas cheias e a seguir, a Abicada reverdecida em searas espessas, até perder de vista, dando, a sul, nas linhas virgilianas da barra de Alvor. Logo passamos à extensa área pedregosa que antecede as terras do Diaxere, de uma larguíssima ondulação melancólica. À entrada de Lagos a surpresa sempre alacre da ria lavada de toda a fresquidão do mar, o hálito da preiamar em aragens leves e penetrantes, cheirando a melancia; e o mar, uma linha azulada onde se balouçava um grande patacho branco. Depois, subindo, esse aberto mar azul engastado na curva puríssima do areal da Meia-Praia e para oeste a Ponta da Piedade, rochas de uma solidez duvidosa, todas comidas ou mordidas da vivíssima luz que a água reflete; e a caminho de Bensafrim as várzeas de esmeralda do Paul, de onde se levantam, como nas margens de um lago italiano, agudos serros pedregosos.

Bensafrim, caída no fundo de um vale entre duas serras íngremes, assenta na faixa de grés que atravessa o Algarve e ali serpeia numa inundação de águas ruivas petrificadas, com ruas pelos alastramentos laminados de onda que se fossilizou ao espraiar.

A norte, o serro coberto de estevais coroa-se de um moinho de imensas asas sempre furiosamente batidas pelo vento, como se Notus lá desembocasse; a sul, o outro serro, mais sobranceiro, mais íngreme, fazendo sombra à estrada e ao povoado, fortifica-se naturalmente a blocos de calcário jurássico, que o amuralham até ao cume, dentando-o de formidáveis ameias.

Pedi informações, numa venda ao pé da estrada, acerca do paradeiro de D. Joaquina. O taberneiro vem em pessoa cumprimentar-me, empunhando um copázio de vinho já meio vazio que solta dos lábios horrorosamente cancerados, instando, com enfadonha insistência, por que eu beba o resto...

Apeio-me. O homem da venda, mau grado a minha formal recusa de lhe beber as sobras, condescende em indicar o caminho ao meu cocheiro, e um garoto dos seus doze anos salta para a boleia a fim de nos guiar.

Ou seguindo de trem, pela estrada que rodeia o serro do moinho, ou subindo a pé ao moinho e descendo a outra vertente, dá-se no fundo do vale com a casa de D. Joaquina. Eu prefiro ir só, pelo moinho.

Atravessando a ribeira a vau subo ao serro pelos estevais; comigo vai subindo o vento que no topo assopra em furacão as velas do moinho e as faz rodar loucamente. Mas, daí, o espetáculo é soberbo, com a perspectiva de serras que se desdobram até ao cabo, azuis, violetas, e lá muito ao fim, esfumadas, no contraste das linhas de Sagres, que se apercebem recortadas na rocha aos entalhes, com ásperos escuros cavados entre arestas vivas e luminosas. A norte as serras de Monchique aparecem inteiramente outras, separadas, com um mamelão isolado entre a Fóia e a Picota...

A vegetação lanceolada que acompanha os sinuosos ribeiros cristalinos vai correndo pela base do serro e passa a poente, junto a uma casa abarracada; na ponte, em frente a essa casa, parou o meu trem: é sem dúvida ali que mora D. Joaquina.

Desço por altos estevais espessíssimos que me fustigam a cara e me untam o fato de resina. A casa é um pequeno e pobre monte algarvio, com porta e janela, que foi pintado a cor de-rosa e agora mostra por entre grandes côdeas de reboco já caído as talhadas da taipa, como um bolo que perdeu parte da sua capa de açúcar.

Aproximo-me da entrada que tem a porta aberta: ninguém.

Entro a uma casa ladrilhada e miseravelmente mobiliada com desmanteladas cadeiras e mesa de castanho. Dentro, no quarto, ouvem-se vozes em contenda. Uma dessas vozes, que amolecia por vezes, silvava, a largos intervalos, no tom, que logo reconheci, da fala de D. Joaquina quando estrugia a sua indignação de vítima recriminadora. A outra voz, em tom igual, acompanhada por baques surdos, assim de golpes feridos em corpo flácido, dizia vitupérios.

— Ah! porca, ah! velhaca, assim é que tu poupas o dinheiro, bebendo logo duma vez toda a aguardente... Ah! safada! Toma, toma, toma... que não deixaste nem uma pinga...

Após muito breve hesitação passei à outra casa. D. Joaquina, sobre um capacho roto, em pernas que se escanifravam descarnadas e negras, estorcia-se nas mãos do pajem, o qual, ajoelhado, a zurzia metodicamente, e antes de fugir ainda a ouvi murmurando, já rendida:

— Ah!... filho... não me batas tanto... que me dói muito amanhã...

Fui para o trem, não horrorizado nem ofendido, mas triste... O cocheiro olhava-me com escárnio e o moço ria à socapa. Antes de me meter na carruagem, perguntei ao garoto:

Então tu conheces aquela senhora?

Que senhora?...

A que mora ali, naquela casa...

Aquela... senhora... É a Princesa Venérea...

Princesa Venérea?!...

Assim lhe chamam aqui todos...

Por quê?...

Não sei... Aquilo é uma refinadíssima bêbeda, que tem deitado a perder toda a rapaziada do povo...


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Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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