domingo, 23 de junho de 2019

Estaqueado (Conto), de Alcides Maya



Estaqueado
Espertando as brasas ao borralho, entre churrasco e mate, narrava Florentino aos companheiros um dos últimos lances dos seus amores quando os cães, de ronda à noite, romperam a ladrar furiosamente.
De golpe, ariscos, os três homens ergueram-se e, trocando olhares interrogativos, no sobressalto que à época, de guerra sem tréguas, provocavam os rumores da estrada, saíram cautos ao terreiro.
Seguido pelo João Crioulo, que, em farejando perigo lhe não abandonava a sombra, limitou-se o capataz a perscrutar a treva nos arredores; mas o índio Afonso, lidador amestrado nas guerrilhas farrapas, quis mostrar outros como se procedia antigamente e, afastando-se, deitou-se na macega e colou o ouvido à terra. Durante um minuto, compassado bateu contra o solo duro o coração do guasca...
Nenhum longínquo repercurso indiciava tropel do exército em marcha; e como os quero-queros, adormecidos, não anunciassem gente, concluiu o gaúcho, levantando-se, não se tratar de forças.
Incapaz, por anciania, de bater-se, e despeitado ante uma revolução de que o alheava a idade, ao antigo farroupilha aprouve negar qualquer aproximação de colunas e simulou desdém pelo receio dos outros.
Cavalhada nenhuma, comentou reunindo-se-lhes. Que tropa haverá de ser? Pela certa, esses diachos tão vendo alguma coisa lá em riba... É da lua...
E os seus olhares subiram, fixaram-se na altura, onde, como uma adaga alfanjada, o crescente, por entre nuvens, ensanguentado, surgia.
Os cães, no entanto, não houve chamá-los: toda a noite investiram à campanha, furiosos, na sua contínua ronda selvagem.
— Danados! invectivou-os Florentino com simpatia de retorno ao fogão. Boa raça! Estes, são para o que vier: enxergam no escuro e morrem ao lado do dono... Também não se pede outra cousa, que eles é que nos põem no rastro das carniças...
— Se desta feita não engoram... — foi o comentário sarcástico do índio.
E a sua cólera rebentou contra o "modo de se guer­rear hoje em dia".
— Não se respeitava ninguém e era só roubo c mais roubo, degola e mais degola. Antigamente, não: em combate, ninguém tinha pena, quem podia matar, ma­tava; mas, depois, no acampamento, os prisioneiros.eram tratados que nem ermãos. Que ermãos nóis semos... Lembre-se, amigos, do que lê contei de quando peguemos aquele bombero de Chico Pedro. O homem tinha vindo pela calada inté a nossa guarda avançada. Degolou-se? Que esperança! Ameaçado de morrer ali ansim, não. disse nada, nem abriu a boca e ia ser fuzilado sem testavilhar quando o general se meteu no meio. — Que um gaúcho guapo, disse, só se mata no campo e de arma na mão... Pois era por este conseguinte nos meus tempos e não se saqueava... Hoje em dia! Haraganos!
E no galpão deserto, longamente ressoou a linda romanceria heroica da campanha antiga...
***
Na manhã seguinte, verificou-se a suspeita da vés­pera: numerosos contingentes militares acampavam além do Salso.
Aos habitantes da estância impressionou-os primeiro, no horizonte, o negrume dos corvos, acompanhando os exércitos na expectativa do dia seguinte das batalhas e cevados nos cadáveres que a pressa das guerrilhas inse­pultos espalha no pampa; depois, o gado a correr em alvoroço ao fundo do campo; e, afinal, signo infalível, dois ou três cavalos feridos, que, longe das querenças, e não desejando talvez morrer no abandono de estranhas terras, seguiam a distância os regimentos onde os com­panheiros estavam. Mais tarde, um grande pontilha-mento de fogões, em linhas múltiplas, anunciando bivaque; e, ao outro dia, unia vasta e renhida batalha próxima.
De posto em posto, breve, circulou pelos fogões a nova do recontro; fora completamente batida a coluna rebelde e dali à fronteira, numa extensão de quatro a c inço léguas, a. cavalaria vitoriosa perseguira a ponta de lança os vencidos.
***
Voltando, à tarde, de percorrer a estância, trouxe o João Crioulo a nova de uma carniça no cerro dos Paus-a-pique, em frente à planície onde se peleara o último  entrevero.
Descobrira-a à volta pelo revoar dos corvos e não tivera tempo de ir courear a rês morta.
Na madrugada seguinte, saindo a rodeio, Florentino, em trânsito por aquele rincão, convidou o índio para nina chegada ao cerro.
Alcançaram-no com o sol ainda baixo no horizonte.
Soprava uma aragem fresca; o gado, tranquilo, espalhava-se nos pastiçais rociados; e dos ramos rebrilhantes de aljôfar, pássaros, perto dos ninhos, chilreavam, des­pertos à luz tíbia. Dentre as ervas e espaços, perdizes voavam assustadas; havia sobre superfícies mansas de água adejos lentos de garças brancas; e avestruzes aos bandos iniciavam pelas várzeas e coxilhas o seu giro vagamundo, arrepiando a plumagem cor de cinza, distendendo as asas mangras. Como sempre, à vista de ginetes quero-queros cantavam, em rebate, e longamente repercutia por vezes nas campinas o mugir da tourada, ou, alegres à aurora que raiara, ecoavam amorosos nitridos de pastores conclamando a eguada. Todo o campo, rórido, fulgia e de rútilos revérberos diamantinos, toucavam-se a perder de vista, às espadanas oblíquas do sol nascente, os musgos, as relvas, as macegas, as folhas altas do arvo­redo, as próprias rugosidades pétreas, escalavradas, verdoengas de líquen, venadas de hera, com insetos indecisos em aturdido voejo, evitando arestas, sobre os verdes reves­timentos caprichosos, irregulares das paredes ásperas. Borboletas, abelhas e colibris, passarinhos, dourados escaravelhos, voláteis formas multicores, agitavam-se, esvoa­çavam sobre galhos, rochas, plantas, enquanto nos pri­meiros surtos da manhã, voluptuosos de espreguiçamento ao espalmar das asas, caranchos sulcavam fortes o ar, em transvoos tardos. E havia para as nuvens vibrantes ascen­sões de guias e principiava nas flores do campo a colheita de mel para as colmeias. Puro anilava-se o céu, toda a campanha verdejava suavemente.
***
No tranco, observando as pontas de gado que mar­chavam rumo do rodeio, os dois gaúchos rejubilavam ante a criação nova.
Fora-se o inverno: flora renascera e à alma rude dos campeiros agradava o espetáculo da terneirada tro­tando ao lado das vacas ou dos potrilhos retouçando sob um raio bom de sol. E, certo, o prazer, que sentiam aumentava-o a memória dos últimos massacres, de par com a esperança do fim da guerra.
Derrotados, extraviavam-se agora os revolucionários pelas veredas e encruzilhadas da linha. Oxalá não volvessem!
No íntimo, espicaçava-lhes ainda o orgulho a neu­tralidade que lhes fora imposta, a um pelo seu posto de capataz, obrigando-o a agradar a ambos os partidos, pelos anos ao outro. Mas a luta cessara e com os prejuízos, aliás de pouca monta, ia-se também o constrangimento que os dominava de estarem a matear nos fogões, conver­sando, enquanto nas coxilhas, desfraldadas, as bandeiras convocavam à pugna.
Seria aquela a última carniça deixada na estância pela revolução? Quem sabia! Dissolvidas as tropas, formavam-se malocas de bandoleiros e mais do que nunca se impunha a vigilância do campo.
— Tinham de dormir de freio na macega por muito tempo... — acentuou Florentino. Acabara a guerra dos políticos, ia principiar a guerra dos ladrões...
— Que esta rês morta hi nos Pau-a-Pique, eu lê juro, che! é obra no mais dessa plevia do Salso. Vivem sem trabalho e serviram-se do combate pra que se pense terem sido soldados... Foram eles... Inda um dia!
Mas aproximavam-se e, galgado o cerro, aos olhos pávidos dos gaúchos um painel trágico recortou-se, de surpresa.
Quatro estacas ensanguentadas erguiam-se palmos acima do chão e, entre elas, ainda preso a duas pelos artelhos, que um maneador ligava aos tocos cravados no solo, uni cadáver jazia ressupino, entregue aos abutres, carcaça à mostra, órbitas vazias, ventre rasgado, restos de carne em sânie sobre os ossos nus. Um fétido insupor­tável exalava-se do corpo em decomposição. Fugitivos diante dos homens, corvos olhavam de longe, gulosos, o arcabouço pútrido.
Era aquela a carniça: defrontavam evidentemente um prisioneiro de guerra.
Haviam-no deixado ali, por vingança decerto, após a batalha; e ali agonizara muitas horas, bem esticado, cabeça caída para trás, rosto congestionado, olhos desesperadamente voltados para o firmamento. Vira talvez baixar do azul o primeiro urubu esfaimado, sentindo no peito e nos olhos a dor terebrante das primeiras bicadas.
Quem, a vítima? quem, os assassinos?
Ante o mistério do crime, de improviso descoberto na sinistra molduragem daquele estaqueamento, sombrios e perplexos por algum tempo quedaram os gaúchos; porém o silêncio, interrompeu-o índio Afonso, entre agoniados e raivoso:
— Bandidos !
Estendera, reteso à cólera, o braço; eram-lhe áscuas vivas as pupilas, e, da cima isolada e pedregulhenta do cerro, o seu gesto de maldição recortou-se enérgico e austero sobre a amplitude melancólica dos campos...

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Pesquisa, digitalização e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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