domingo, 23 de junho de 2019

Um homem bom (Conto), de Alberto Rangel



Um homem bom
Si sensus abssit, ne mala quidem sunt.
(Des. Erasmus - Stullitle Laus)
Atravessando de um salto o lago de Santo Antônio, numa triangulada breve, o caminhamento seguia, em cheio, por um vasto teso de terra firme, que devia ser transmontado na mesma deflexão.
À noite, uma chuva forte, com trovoada, alagara os taperis da turma, varejando-os. O temporal caíra com um rumor estranho de ramas sacolejadas e feitas em lascas às rajadas mais violentas. Atrôos, gritos, grasnos, pancadas e pios, a todos os barulhos noturnos e comuns, substituíra a tormenta uma só matinada, em que toda a mata estalava, abalada no seu edifício intricado e em desaprumo. Singular, a floresta amazônica! De alto porte e espessa, não tem força para se aguentar em pé, sendo além disto quebradiça como vidro. Uma de suas árvores, caindo, arrasta as companheiras na queda. Uma lufada prostra-a por bocados. Na sua debilidade, as raízes adventícias, as lianas e as sapopemas amparam-na debalde no cambaleio...
Com a luz da madrugada tudo, porém, sossegou escampado; apenas pingos grossos tombavam das folhas luzidias, lacrimejantes da água, que as lavara à noite; e, gorjeios, trinos e pipilos de pássaros invisíveis saudavam o fresco alvorecer.
A mata rorejante, que estremecera apavorada, aquie­tava-se, secando risonha à luz, que lhe sorria. Uma endemoninhada, possessa, que ao exorcizar de aurora se tornara bem-aventurada.
Acentuada a claridade, que a custo rompia as pali­çadas da brenha, depois de me servirem de um prato de caldo, onde se engolfavam dois pedaços de "queixada", partimos do pouso agreste. Seguíamos a retomar o serviço deixado, na véspera, na estaca 515.
Aproveitando a aberta da picada já feita, um homem houvera aí deixado uma armadilha. Encontramos, entre samambaias e quiobas, o rifle desarmado; e, num alvoroço de alegria rodeamos, todos, uma anta magnífica, que a arma vitimara. Estava o tapir um pouco adiante e um pouco para fora da picada, no arranco primeiro da fuga impossível. Reclinava-se ele, como a dormir, com o bucho roto, num tálamo suntuoso, pomposamente arranjado todo, em delicados musgos e parasitas brancas. Jamais cadáver de rainha repousara em tão mimosa alca­tifa. Arrojara-o para ali o simples choque num cordel fino. O animal, temível corredor de "steeple-chase", que não tropeçava, rompendo os obstáculos dos troncos, estava derrubado por um arqueiro. O fio tocado de leve determinara o tiro, na diabólica disposição da máquina trai­çoeira. Um "baliza" ficou tirando o couro ao bicho, para depois o esquartejar, enquanto chegávamos a essa última estaca numerada.
Daquele ponto em diante, a mata se encorpava. Não era mais uma frouxa talagarça, mas um tecido basto, que os terçados e foices a custo romperiam.
Por esse centro, passo de homem só haveria, palmi­lhando trilhos a algum barreiro, ou a algum lago, ou igarapé, remotos. O mais eram vestígios de onças, de pacas e de veados astutos e fujões.
Dominavam, de vez em vez, a tessitura da floresta castanheiras excelsas de nome e de aspecto. Em torno delas ainda restavam ouriços, quebrados na derradeira safra. O cascabulho, em montes, denunciava uma explo­ração extrativa, a qual havia animado o sertão, que uns secos dados lineares e angulares iam configurar numa planta oficial.
Cessado o fruto caído das frondes monumentais, acabara o trabalho. Remergulhava temporariamente a floresta no seu abandono, por improdutiva. O homem voltaria com a carga amadurecida das épocas. Então, nem as sezões, nem o risco de algum choque de ouriço, tombando fulminador, rechaçariam o caboclo da "apanha da castanha". O patrão, em algum lago ou igarapé próximo, vigiaria, aguardando com a sua garra leonina a troca do produto. Uma barrica de castanha valeria um litro de aguardente... E, envenenando o Mura, o "cearense" aumentava seus saldos; mas, explorado por seu turno, enricava o português ou o judeu, que lhe aviara na cidade.
O "trânsito" fora centrado na estaca, junto a um delirante torvelinho de ramas e sarmentos de cipotaia, de dentro do qual uma sumaumeira se elevava para além das copas verdolengas das outras árvores altas, mas anãs, junto àquele monstro calçado de sapopemas. Apertado o parafuso de "pressão" e pelo de "chamada", levada com rigor a linha de colimação ao pé da baliza, na estaca anterior, o serviço de medição continuou, invertida a luneta da posição, que a obrigara a visada à ré.
As folhas secas faziam no chão um grosso e largo capacho, que se rasgava, esmolambando-se ao pisar dos homens da turma atarefados.
A picada, avançando, fazia uma vereda reta e longa. Imaginar-se-ia que um pesado réptil de lenda, a "cobra grande" tivesse embarafustado naquela direção, no in­tento suspeito de mudar de fojo, torando, com seu rastejo, grossos troncos e galhos finos, pisando indiferentemente, com o desdobrar de suas grossas roscas e escamas de chumbo, o solo arregoado e mole das baixas, o lamarão dos igapós, a corrente dos igarapés e o lombo da terra firme.
Coava-se o sol pelo velabrum das ramagens, numa luz, que viesse brincando pelos entalhes e relevos de velhas e úmidas arcarias do claustro de uma abadia gótica c arruinada. O trabalho de medição avançava devagar. Ouvia-se, somente, o bater dos ferros, decotando as ramas, os caules e as folhas.
De repente, ao cair para cada lado do "pico", pelo corte das foices e terçados, um denso pano de taquaris e tiririca, a linha topara o grosso tronco de um murumuru, cuja coroa, opulenta de palmas, vergava até o chão. Logo o trabalhador de machado o atacou; e, como a fibratura do astrocarium fosse como o machado, acendi um cigarro e esperei que caísse a rígida palmeira.
Perto de mim se conservava o homem, que tinha por encargo transportar o instrumento. Uma barba rala no queixo magro, um rosto de maçãs salientes, uma tez baça de linfático e, na fisionomia de um maleitado, os olhos redondos e inexpressivos de um peixe morto.
Como uma réstia de luz dardejasse no "trânsito", ele abriu o guarda-sol para resguardá-lo. Nesse movi­mento, a camisa de algodãozinho entreabriu-se no peito descarnado e moreno do homem e casualmente distingui, bem na altura do coração, uma enorme cicatriz. Não pude me conter e perguntei-lhe a que era devido tão tamanho golpe.
— Saiba Vossa Senhoria, que foi no Ceará, respondeu.
— Mas, como? inquiri num capricho de comuni­cação, que me dominou, enquanto o gume do machado batia e se embotava no vetusto murumuru.
— Nem lhe conto, seu doutor. — E continuou num solerte desabafo, passado por uma prosódia peculiar aos hábitos de linguagem de velho sertanejo. — Isto deu-se no ano dos três oito. Eu morava no Granguê e vivia de plantar algodão, afora roça. Uma vez por outra ia ao Aracati ou à União, vender tabaco e courinhos. O seu coronel Távora, meu chefe, me queria muito; e, quando precisava de homem, mandava logo me chamar, e me entregava um clavinote boca-de-sino, que era arma, chamada bicho-arma! Duma feita ele me mandou deitar um, que arreou redondo, mesmo ao pé de uma carnau-beira, que tinha na volta da estrada dos mandacarus. Foi só um papoco!
— E a polícia nunca sindicou?
— Quem ousava?... seu doutor, obtemperou o matuto.
Jacamis longínquos, "esturrando", enchiam a mata de um bumbum retumbante.
— Era um bom homem, seu coronel Távora, e impor­tante, falado naquelas redondezas, que nem havia outro! Ele era muito velho, na seca de setenta e sete já tinha filhos homens; mas, apesar disso, se casara, havia pouco, com uma moça nova, parruda. Dona Maroca cio Grato, filha do seu major Fulgêncio Cabeça de Sola. Linda moça! A cara era que nem um algodão de tão alva e os dentes era ver duas carreiras enfiadas de "conta de São Francisco". Esse tal, que eu havia emborcado na carnaubeira, tinha vindo da capital, para Promotor.
Era um rapaz de boa aparência e muito cantador de modas. Toda a noite, quando havia festa na fazenda, o doutorzinho não faltava. Pelo jeito, ele andava que­rendo desencaminhar Dona Maroca, e daí foi que o "seu" Coronel resolveu fazer virar o bicho, com os pés p'ra riba.
— E foi unicamente este que o Coronel mandou Você matar? perguntei.
O tabaréu, o "carregador da luneta", como ele próprio se intitulava, esboçou um sorriso significativo na face sem sangue.
— Bem, continua a história, disse eu, entre interes­sado e distraído.
O machado percutia sempre na palmeira em golpes repetidos, mas pausados. Grasnos de araras chegavam-nos das alturas.
Endireitando a aba do chapelão de miriti, ele re­latou a narrativa com ingênua sinceridade e até com uma pontazinha de orgulho de estar lembrando, no cruel exí­lio do Amazonas, um caso do seu Ceará amado, que inte­ressava ao "branco".
— Mas Dona Maroca, a mulher de "seu" Coronel, soube, positivo, do acontecido e que fora eu quem derru­bara o Promotor. Um dia, por causa de ser preciso pre­parar as eleições na vila, o Governo mandou chamar o "seu" Coronel. Este, no momento de mandar o pajem selar o quartau, um quartau famoso de pelo pedrês me­lado, me entregando o clavinote de fiança, recomendou que todas as noites eu fosse vigiar a "casa grande" e dor­misse no paiol de farinha, que estava vazio. Assim o fiz. De manhãzinha eu saía do paiol e ia cuidar de meu legume. Na terceira noite de ausência do "seu" Coronel, fui direito ao paiol, mas ia assombrado e cheguei até a me arear. Um pano de mortalha passou, açoitando meus ombros. Eu beijei três vezes o meu bentinho. Enfim, tinha prometido ao seu coronel, fui sempre. A noite estava feia; um vento, que de repente, chocalhava os galhos dos angico e juazeiros na capoeira, que eu tinha de atravessar, Com muito custo me desareei. Enxerguei o paiol e que nem um mocó, se escondendo na loca das pedras, meti-me dentro. Estava todo transido; chegava a bater o queixo na tocaia. Eu penso que o frio não era de fora, era de mim mesmo. Ah! seu doutor! Eu me "alembro" bem. A lua era que nem um beiju e a papa-ceia já devia estar se sumindo, quando, num instante, me vi agarrado por dois cabras, que me amarravam e me arrastavam logo para o terreiro, mesmo debaixo de uma oiticica, ao pé da cacimba. E quem havia de ver, seu doutor? Dona Ma­roca que, me enxergando, foi falando no nome do Pro­motor e mandando: "Quero ver o coração deste cabra malvado. Arranquem já e já..." Ah! seu doutor, esmo­reci. Eu estava peiado. Fiz só me encomendar a São Bonfim do Icó e senti uma parnaíba me lavrar o peito. Também não acabaram, seu doutor. Foi só o tempo do velho, o seu coronel, com um chiqueirador na mão, saltar ao pé de mim, que nem um canguçu. Aí os cabras se sumiram; Dona Maroca ficou empalemada e branca, que era ver uma visagem, enquanto ele me desatava aos relhos, que me acochavam o corpo. Seu coronel havia chegado de surpresa, pois era um homem desconfiado como o demo. Ele ficara, positivo, espiando tudo atrás de umas moitas de mofundo e assuntará logo que Dona Maroca estava se vingando em mim da morte do Promotor. Avançando para a mulher, ligeiro como um preá, o seu coronel subjugou-a, depois mandou, positivo, que eu tirasse o coração dela... pelas costas.
O carregador do "trânsito" fez uma pausa, que me deu aflição. Uma centelha estranha vivificou-lhe os olhos baços. E acrescentou:
Tirei, seu doutor...; seu coronel era meu chefe... A mulherzinha estrebuchava que nem um porco sangrado. Tinha nas mãos o coração quente, que era ver uma fresura de bode quando seu coronel, dando ordem para enterrar tudo, saiu do terreiro com cada soluço que parecia que tinha se acabado o mundo...
E o narrador, instintivamente, procurando fechara camisa por onde eu divisara a cicatriz do talho formidável, considerava:
Deixem lá! era um homem bom o seu coronel; ele sempre quem me valeu, quando eu andava de rixa e em todos os apertos de minha vida. E confirmou concluindo: — Homem chamado bom, seu coronel, e sabido danado, escrevia até deitado!
As machadadas cessaram e, na picada, o murumuru tombando, dera um baque no chão, semelhantemente a um corpo, estendido morto por uma única e vibrante estocada na nuca.

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Pesquisa, digitalização e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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