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7/14/2019

Divina (Conto), de Jorge Falleiros



Divina
Meu irmão e eu somos estudantes de Engenharia. Chamo-me Pedro, ele se chama Paulo. Gostamos muito de dançar. Isto depois de termos frequentado uma Escola de Dança que nos custava 60 mil por mês, o que representava um desfalque enorme na mesada. Fomos, outro dia, a um baile no Trianon, em benefício não sei de que casa de caridade, para recolhimento de crianças pobres. Paulo valsou com uma moça bonita que lhe deitou uns olhos compridos. Foi quanto bastou para entabularem um namoro que, por desequilibrado, não me pareceu gracioso. Passaram assim até à madrugada.
Ao nos retirarmos Paulo me disse que era ela filha duma das famílias mais distintas da Pauliceia. Chamava-se Mariana e morava não sei em que palacete da Alameda Barão de Limeira.
Pobre rapaz! Queria por força ir visitá-la, conforme ela o havia convidado. Acabou pedindo-me que o acompanhasse: — Sem ti não vou, disse-me. Acedi. Quando deixamos o palacete da Bela procurei dissuadi-lo.
— Olha, não sejas tolo. A moça é formosa, é rica, é de boa família, é tudo quanto quiseres, mas não será nunca tua esposa.
— Isso dizes tu... e quais são as razões para tal afirmares?
— Eu? motivos?... Ora bolas! eu sei.
— Sabes como?
— Escuta, quero ser franco: tua pretensa namorada é para contigo duma indiferença quase desdenhosa...
— Desdenhosa?
— Desdenhosa. Não lhe viste aquele modo de perguntar: — Sim?... É?... É, é?... — a tudo quanto lhe dizias?
— Qual! histórias! Vá saindo! São elegâncias que não compreendes. A própria indiferença é o encanto das mulheres.
— Bom, se é assim, faze o que entenderes.
Aquela sua ideia a respeito da indiferença das mulheres lisonjeou tanto a sua vaidade de poeta (porque é um poeta) que, ao outro dia, veio me trazer um soneto que terminava por este verso:
Indiferente, má, quase divina.
***
Não digo mais nada; um mês depois da primeira visita, Paulo era noivo da senhorita Mariana. Fiquei boquiaberto, mas, nem por isso, duvidando menos. Pudera não! Se a família havia pedido prazo até ao dia da formatura!
***
O contrato que acabo de narrar se deu há uns dois meses mais ou menos. Ontem assisti ao casamento do meu irmão. Não houve outra assistência além da minha. Fizemos a coisa às escondidas.
— Como assim? perguntará o leitor — pois a noiva não tinha pedido um prazo enorme?
De fato; mas é que ele não se casou com a noiva. Casou-se com uma pequena italiana, costureirinha corriqueira.
Paulo tinha o mau costume (por, mim várias vezes repreendido) de ir estudar no Largo do Arouche porque o nosso quarto é um tanto escuro. Ora, aconteceu que a italianinha passava por ali todos os dias, e eles se entreolhavam mutuamente. E, como o Diabo escreve torto por linhas direitas... o resto o leitor já sabe. Também o pai dela veio a saber e quis que a policia também o soubesse. Esta forçou meu irmão ao casamento. Uma desgraça! Fiquei desconsolado.
— Mas Paulo, — disse a meu irmão — que fizeste? Deitaste a perder a tua honra, a honra da nossa família, todo o teu futuro...
Como, porém, ele começasse a chorar como uma criança, de tal maneira que fazia dó, tive pena dele. Consolei-o:
— Mas afinal... agora... que diabo!
***
Hoje estava eu fingindo esperar o bonde no Largo dos Guaianazes, quando me encontrou um colega de pensão.
— Estavas esperando o bonde?
— Não. Estava te esperando a ti para prosarmos.
Não tínhamos prosa. Passou por nós uma rapariga.
— Divina, pois não? — fez-me ele.
— Deixa disso! — respondi com uma ideia fixa. Só houve na terra uma mulher divina.
— Qual terá sido, Deus de bondade!
— Foi a noiva de meu irmão no momento em que soube do casamento dele.
— Estás maluco?
— De fato, aquela indiferença foi divina.
Uma divina indiferença. Não riu, não sorriu não chorou, não caiu desmaiada, não sentiu a menor emoção; disse apenas: — Esses estudantes são uns infelizes; qualquer italianinha os perde Divina, pois não achas?
 São Paulo 1921.

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Pesquisa, transcrição e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2019)

O tio da Escócia (Conto), de Lúcio de Mendonça



O tio da Escócia
(A meu irmão Cândido Drummond)
Eu — sem modéstia e sem pesar o declaro — bem sei que não possuo o que propriamente se chama um nome literário, posto que tenha frequentado os prelos com uma assiduidade de que, sem dúvida, se hão de lembrar, em tempo, os meus biógrafos.
Não é que também não conte as minhas glórias; conto. Uma tarde na roça, ouvi uns versos meus recitados por um bando de moças a passeio por uma alameda. Se bem me lembro, já tenho uma ou duas descomposturas do "Apóstolo" e de outra folha católica. Enfim, com algum esforço, e revolvendo bem o passado, podia ainda enramar outros louros. Pois bem: valesse muito mais o meu nome que eu sem pena o trocaria, como hoje.
A explicação deste ato encontra-se numa notícia há meses divulgada pela imprensa: — na Madeira, naquela ilha com que todos simpatizamos pela sua exportação engarrafada, estavam-se habilitando herdeiros de uma fortuna colossal, deixada por João Drummond, um fidalgo de sangue real, um emigrado político da Escócia.
Ora, este homem ilustre era, nem mais, nem menos, tio deste que se tinha por obscuro plebeu. Eu já sabia, por tradições de família, que me girava nas veias o heroico sangue escocês. A verde Erim! já, muito antes da herança, eu estremecia de orgulho filial imaginando que ainda provinha daquela raça de bardos montanheses; e, como bom descendente de Ossian, tinha um fraco pelos nevoeiros. Hoje não! vejam os senhores bardos se têm outro descendente! olha quem! uns miseráveis, que talvez fossem até salteadores! Nós descendemos dos Drummond, senhores de Stogbal na Escócia. Puro sangue real! Se não fossem certas prevenções, que nos ficaram dos nossos tempos de plebeu e republicano escrevíamos ao imperador chamando-lhe primo. E isto mesmo com certa generosidade: o nosso sangue é muito mais azul: da casa de Bragança dizem umas coisas, que nunca se atreveram a murmurar da nossa, de que Walter Scott fala tantas vezes.
Mais do que nós, porém, que ficamos olhando o vulgo muito de cima, aproveitou com a notícia um parente nosso, cuja história aí vai, para maior glória da família.
É um rapaz gordo e forte, e chama-se Marcelo. À noite, parece ter trinta anos; à luz do sol, quarenta. Passou por todas as academias da capital, mas nunca passou disso; ultimamente era revisor de provas num jornal e, nas horas vagas, colaborador de várias confeitarias, seção "balas de estalo". Vestia-se invariavelmente de preto, e era modesto como um prólogo.
Este rapaz sempre teve a previsão da riqueza. Lia todos os testamentos no "Jornal"; só se apaixonava de herdeiras; e, sentindo uma preguiça superabundante, dizia à mãe: — Veja bem, que eu com certeza tenho sangue nobre.
Pelos fins do ano passado, a paixão de Marcelo era pela filha de um titular da capital. O pai, cujo apego às apólices não há quem não conheça, nem desconfiava de que lhe cantavam os melros, todas as tardes num caramanchão do jardim.
 Diga-se, para esclarecimento dos fatos, que Marcelo era um rapagão, e a namorada uma corujinha, que, se não, fossem as apólices paternas, havia de se resignar aos sobrinhos.
Corriam assim as coisas quando, uma clara manhã, leu Marcelo na "Gazeta" a notícia da vertiginosa herança do tio escocês. Logo depois do almoço foi visitar a avó, de quem obteve em conversa a genealogia da família; mas não se falava do ascendente mais glorioso.
— Diga-me, atalhou Marcelo, não tivemos parentes na Madeira?
— Tivemos, sim, e ainda temos. Hoje, os Tristões...
— Sim?! a senhora afiança-me isso? E nunca ouviu falar, num parente nosso que veio da Escócia?...
— Pois não! isso mesmo! um emigrado...
Marcelo saltou na cadeira e saltou ao pescoço da velha:
— Estamos ricos!
Leu-lhe a "Gazeta"; conversou-se ainda muito a respeito do grande homem; elogiou-se a honestidade da lei inglesa, que deixa jazer por tantos anos uma herança; e, quando saiu, levou Marcelo cartas e papeis velhos de família, por onde se provava, pouco mais ou menos, o seu direito aos brasões e às libras esterlinas do emigrado.
Essa noite, no colóquio do caramanchão, perguntou à menina das apólices:
— Que dirias tu, se te propusessem um noivo de sangue real?
Ela fez-se modesta; isso não era para ela; e estava bem satisfeita com o seu.
— Pois o meu sangue é desses!
A outra não compreendeu bem o alcance da notícia, e admirou-se menos do que convinha à magnitude do caso. Marcelo insistiu e explicou; em suma, aquilo vinha abrir-lhe a porta da sala, a ele que só conhecia a do jardim: já se animava a falar ao papai.
Espalhou-se a nova, e no outro dia Marcelo era interpelado a cada esquina:
— Tu também és parente?
— E dos mais próximos!
— Então, milionário?!
— E nobre; acrescentava ele, levantando os colarinhos à altura da situação.
E aos que ainda não sabiam era o primeiro a dizer que descobrira ter sangue real. Um malévolo perguntou-lhe se isso vinha de Pedro I.
— Muito acima, corrigiu Marcelo sem compreender. Vem da Escócia. Não leste a "Gazeta"?
Entraram a surgir-lhe parentes por todos os lados, em todas as classes — na magistratura, no comércio, no magistério, nas letras, na indústria, na política, na diplomacia. Eram apresentações todos os dias. Por uns e por outros, chegou a ser apresentado ao pai da menina, o qual lhe ofereceu a casa.
Iam de vento em popa as suas esperanças. Já se via em Botafogo e no Catete, numa sala de decoração severa, e antiga, onde passavam fâmulos de libré, a passos que os tapetes amorteciam; ou, voltando do teatro, no fundo de um "coupé" brasonado, rolando surdamente, enquanto lá fora faiscavam as ferraduras das parelhas e os plebeus voltavam a pé, com as mãos nos bolsos e as golas levantadas.
E vinham depois os bailes do Cassino, o Jóquei-Clube, os passeios à Tijuca, os verões em Petrópolis. E que horizonte político! uma cadeira na Câmara, o coleguismo das notabilidades, e, mais tarde, a curul do Senado, o direito de sentar-se ao lado de Otaviano e de pedir pitadas ao Sr. Abaeté e oferecer outras ao Sr. Jaguari, que não as dá.
Tinha também a ideia de proteger as letras, favorecer a empresa do "Cenáculo", alcançar uma comenda para o Artur de Oliveira e uma pensão ao Ferreira de Menezes para escrever mais a miúdo e outra ao C. — para nunca mais escrever! E, para mostrar-se bem do seu partido e da sua.classe, maquinava tomar a assinatura do "Apóstolo"; e, se o apurassem muito, era homem para uma conferência na escola da Glória: para a fazer e, até, para a ouvir!
Chegou a achar que era uma afiança desigual a, sua com a corujinha das apólices, e pensou vagamente em uma formosura real, cujo retraio vira na almanaque de Gotha, princesa da Dinamarca; mas isso não deixava de ser complicado; demais, conservava ainda alguns preconceitos democráticas: optou pela fluminense.
Uma noite, apresentou-se ao titular, com bom padrinho, e obteve a mão da namorada; mas o homem, pelo seguro, impôs que o casamento fosse depois de recebida a herança. O herdeiro dos Drummond saiu desconsolado; acudiu-lhe, porém, uma esperança: conseguir logo da menina o que a prudência paterna adiava. A primeira vez que se viu a sós com ela, disse-lhe que não podia esperar tanto pelo casamento, que o pai o ofendia duvidando do seu direito, e insinuou perversamente que era capaz de levar a outra os seus brasões.
Procurou também deslumbrá-la com a exibição do seu rico futuro: podiam ir morar para a.
Escócia, um país de legenda, um castelo antigo entre os rochedos, entre a vegetação fantástica dos alamos e dos pinheiros, ouvindo à noite gemer a alma dos heróis nas lástimas do vento.
Ela achou bonito, com a condição de se pintar de novo o castelo, e de pinhões não queria saber: sempre ouvira dizer que era muito quente; quanto aos fantasmas, podia-se fechar a janela.
Mas uma coisa ficou-lhe — a possibilidade, que ele mostrou de vir a ser conde. "A Sra. condessa!", "a condessa de Stogbal!" já via os esplendores do seu luxo e a inveja das amigas. Lembrava-se da sua viagem à Europa, logo que saíra do colégio, e imaginava-se outra vez a bordo, nas tardes do tombadilho, na vasta alegria do mar, comendo ameixas passadas, sua gulodice predileta. E via-se chegando aos seus domínios, esperada no seu castelo, caminhando entre alas de velhos lacaios de libré; e havia de ter aias inglesas, asseadas e discretas, e uma música suave, como a banda dos alemães do Passeio, que tocasse todas as tardes no pavilhão do jardim...
Não, positivamente, já não podia ser menos que condessa na Escócia; cumpria casar, e já, para que outra não fosse condessa com o Marcelo.
É um velho recurso muito explorado e sabido, mas ainda assim infalível com os pães de coração fraco: amuou dias inteiros, sem comer ou comendo às ocultas, e chorando como quem não tivesse mais que fazer. Não havia meio de a consolar, senão dar-lhe Marcelo; deu-se-lhe. Assim casou, há meses, este meu parente, primeiro que desfruta o tio da Escócia.
É hoje outro homem: não entra nos cafés onde almoçava "de assobio", nem passa pelas lojas de roupa feita da rua do Hospício; foi admitido ao Grêmio do Bernardo, e já tem assinatura de camarote para a Companhia lírica a chegar. Breve o temos na Glória. E vá se preparando o "Apóstolo" para o milagre de mais um assinante.
No baile do casamento, foi visto a conversar com um ministro: suspeita-se-lhe a intenção de representar a nação por Mato Grosso ou Goiás, ou de ser lente substituto na Escola Politécnica, lugar para o qual está provado que se não exige nem exame de francês.
Projeta uma economia que talvez o leve ao ministério — suprimir, a pasta da marinha. E nas horas vagas, que são hoje todas as suas horas, inventou um jogo em que se procura, não onde está o gato, mas onde está o barrete frígio de certo jurisconsulto.
Tal era o homem que se perdia na obscuridade da pobreza e na ociosidade dos cafés, por falta unicamente de uma herança. Bastou-lhe a notícia de uma, ei-lo elevado à altura do seu destino.
Encontrou-se comigo, há dias, na rua, e já não me conheceu, esquecido, tão cedo, de que toda a prosperidade lhe veio do nosso tio comum. Deixa-te estar, vilão, que também, há de chegar o meu dia; já a esperança, a musa profética, mais doce que o mantuano, segreda-me na hora dos sonhos: "Tu Marcellus eris" Também nós seremos gente, e nutriremos na alma cívica a aspiração generosa de ir salvando a pátria a cinquenta mil réis diários.
Até lá perdoai-me, ó manes do meu rico tio, e fazei com que venha a mim, sem demora, o meu quinhão dos brasões e mais das libras, principalmente das libras, de nossa ilustre casa!
Rio, junho de 1878.

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Lúcio Eugênio de Meneses e Vasconcelos Drummond Furtado de Mendonça (1854-1909)
Pesquisa, transcrição e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2019)

A velhinha (Conto), de Afonso Arinos




A VELHINHA

Quando já não me lembra, mas foi em tempo que vai longe.

Passeava uma tarde por uma rua solitária de pequena cidade em ruína. Ao defrontar uma casinha de gelosias abertas, mergulhei o olhar indiscreto nas paredes interiores, onde me pareceu divisar telas antigas — magníficas talvez — esquecidas ali, ou melhor, poupadas à profanação de algum adelo pela providência benfazeja de uma lembrança querida que elas representassem.

Nesta nossa terra, onde as tradições tão depressa se apagam, tão cedo se esquecem as velhas usanças, — o encontro, muito raro de algum objeto antigo, tem sempre, para mim alguma coisa de delicado e comovente. Móveis ou telas, papéis ou vestuários — na sua fisionomia esmaecida, no seu todo de dó — eles me falam ab sentimento como uma música longínqua e maviosa onde se contam longas histórias de amor, ou se referem dramas pungentes de não sabidas lutas e misérias.

O espírito se compraz, então, no tecer uma trama de romance ou de tragédia, em que cada um dos velhos objetos vive na vida de mil personagens evocados; uma longa estrada, sinuosa e branca, se rasga para o país do sonho, e a alma, seguindo-a, deixa embular-se como Leila, ao som de guslas, ou à plangente harmonia das bailadas.

O certo é que, ao perscrutar as paredes escuras de uma pobre salinha, pela janela aberta sobre a rua, não só telas descoloridas, como um antigo cravo, primoroso na fábrica, incrustado de bronze e ornado de finos lavores de talha na madeira negra prenderam de todo a atenção.

— Restos de uma grandeza extinta! que triste fadário vos impeliu ao casebre mesquinho de quem por certo, vos não conhece a história nem o valor? Cravo centenário! que lânguida açafata ou melindrosa sinhá-moça esflorou o marfim de teu teclado, desfiando o ritmo grave de uma dança solarenga ou, a furto, a denguice feiticeira de um fado vilão?

Isto pensando, aderguei a uma pequena porta ao lado, cuja aldraba a mão ergue involuntariamente. Neste ponto, o sonho começado interrompeu-se e eu, desconcertado, verifiquei a indiscrição daquele passo. Nova reflexão sucedeu a esta: um pouco daquele fatalismo que o grande Loiola entregou a solução do primeiro problema de sua vida de pecador já redento e de seareiro de Deus no grande agro do mundo. — Ora, se cá vieram ter meus passos, não será sem alguma funda causa ignota. Entremos.

Bati algum tempo e, não acudindo alguém de dentro, entrei sem mais cerimônia. Pus-me a examinar um quadro a óleo com uma velha moldura de madeira envernizada; representava dom João V quando infante, na posição e na idade. Era uma criança loura de rosto vivo, vestida de camisola de seda branca com uma larga faixa azul; tinha na mão esquerda, a modo de menino Deus, um orbe, e na direita, um cetro de marfim. A um lado, sobre uma grande almofada de veludo cor de granada, fulgia o escudo de armas dos Braganças.

Passei ao cravo e admirei a perfeição do puro estilo Luís XV, artificioso, arrebicado, mesureiro, revelando no bem acabado da minúcia, no trabalhado do pormenor, as mil regras da etiqueta do tempo.

Na grande tábua inteiriça do fundo, sob o teclado, avultava um belo corpo de Baco, coroa de pâmpanos, trazendo nas costas, em forma de manto régio, uma grande pele de tigre. Aos cantos, anjinhos anafados, com cintos de rosas caindo-lhes nos quadris roliços, abraçavam os fustes de colunazinhas e tocavam com os polegares estendidos as folhas do acanto, como se esforçando por colhê-las.

Um leve ruído fez-me voltar o rosto e ver então, emoldurada pelas ombreiras da porta, ao fundo, uma estranha figura de mulher, vestida de algodão muito branco, com o torso pendido a uma dor intensa, sopitada a custo, e a fisionomia cansada, emurchecida, repuxada de rugas, onde mal se adivinhavam os olhos sem brilho, quase inexpressivos, a não ser um "quê" muito fugaz de carinho, que neles boiava ainda como uma flor desprendida da haste e já quase fenecida, flutuando na superfície de um lago dormente.

Meio admirado, meio constrangido, por ter penetrado, sem mais nem menos, naquela casa desconhecida, dirigi-me para a mulher e balbuciei:

— Perdoo-me a confiança. Tinha andado muito pela cidade e estava com muita sede... Bati; não vendo gente, entrei assim mesmo. Perdoe-me a confiança, não é?

— Sente-se, nhonhô: vou buscar a água — disse-me ela com voz trêmula, e saiu, querendo fazer-se pressurosa, arrastando pelo chão as chinelas de couro.

Ao voltar sobre os passos para entrar no interior de casa, pareceu abafar um gemido... E lá foi, apoiando-se às paredes do corredor, sempre curvada, premida sempre por uma dor que seus lábios não diziam, mas seu aspecto nos contava de modo a fazer pena.

Sentei-me num catre grosseiro, mesquinho, cujo assento era um tecido de couro cru, destoando do cravo, tão elegante, tão aristocrático, que até evocava requintes de luxo e de galanteria numa corte já morta.

A mulher demorou-se um pouco, polindo, talvez, o cristal de um velho copo há longo tempo fora do uso.

Quando voltou, corri ao seu encontro, por evitar-lhe alguns passos mais, e, enquanto bebia, demorei a vista sobre aqueles restos venerandos de uma — quem o sabe? — talvez extinta beleza.

— Agradou-lhe aquilo? perguntou-me apontando para o cravo. Foi da casa de meu sinhô.

— Mas que é dos filhos ou dos netos de seu sinhô? Eles não quiseram ficar com isso?

— Ele não deixou filhos — acrescentou a velha com voz sumida.

— Ah! não deixou filhos...

Ela abanou a cabeça e ficou alguns momentos de olhos abertos, vagos, vagos...

Eu, fingindo não perceber sua comoção, levantei a cabeça: deparou-se-me, então, dependurado num torno de madeira, um chapéu de homem.

— Mas a senhora tem um filho, não é? Seu filho faz-lhe companhia, não é assim, minha tia? Está trabalhando fora com certeza.

Do tamborete de como onde se tinha sentado, a velha surpreendeu-me a olhar; levantou os olhos também, mas baixou-os logo, escondendo o rosto nas mãos.

Esteve assim muito tempo... Depois, como que continuando um período já começado, disse:

— Coitado! assim desamparado... ninguém sabe!... Nem o consolo de um lugar bento...

— Como!?

Ela fez-me um gesto, e por ele compreendi que seu filho era louco. Depois, quase por monossílabos me fez compreender que o desventurado, sua única alegria, apesar de enfermo da mais triste das enfermidades, desaparecera de casa havia mais de dez anos, sem que soubesse até então de seu destino. Era crença de todos que fora arrastado pela corrente do rio ou tragado por algum boqueirão da serra. — "E acabou-se tudo" — acrescentou. — "Nem mais esperança, nem nada!" Depois, apanhou a barra da saia e nela tentou afogar o pranto.

— Que página sentida escrevestes, ó intérpretes do coração humano, que doa mais do que a só vista desse velho pergaminho mudo engelhado no rosto da velhinha! Essa dor infinda e resignada, essa dor desamparada e humilde naquele despojo humano é mais dolorosa do que a do mito imortal de Prometeu

Tomei insensivelmente, uma das mãos da velhinha e beijei-a como o de uma mãe venerada.

O cravo ancião e o quadro do rei infante, representando as passadas grandezas, diziam como através dos séculos, vencendo-os, sobrepujando suas glórias, — alguma coisa inominável, mas sempiterna, pode encontrar-se oculta na prece de um mísero ou no coração de uma velhinha.

Cheguei a saber então qual a causa ignota que me guiara os passos inconscientes à pobre casa de gelosias abertas.

E — não me envergonho de contá-lo — saí daquela casa com os olhos marejados de lágrimas.


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Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes
Iba Mendes Editor Digital. São Paulo, 2025.

Cristo (Conto), de Sylvio Floreal


Cristo
Luís era filho de pais anônimos, filho da multidão, filho de ninguém!
Marieta, sua mãe, concebera-o por descuido, numa noite de aventura e galanteria, quando tinha aproximadamente uns 20 anos.
Na idade em que todas as mocinhas flertam e namoram inocentemente, ela, sozinha na vida, já tinha uma noção acabada da ferocidade dos homens, com todo o complemento das suas animalidades, manifestadas sob todos os vícios: e conhecia também o cinismo dos proxinetas e das inculcadeiras das casas de tolerância.
Luís entrou na vida a golpes de fórceps, graças à perícia de um ginecologista.
***
Impossibilitada por diversos motivos, de seguir essa mesma vida que seguiu Maria Madalena, antes de conhecer o Rabi, concentrou toda a sua atenção sobre o seu filho e procurou trabalho. Desnorteada na rotunda da vida e assediada por todas as dificuldades, ia à busca de ocupações, mas o seu aspecto de ex-rameira pouco a recomendava, embora ela apelasse por todos os disfarces possíveis. Através da sua modéstia, analisando-a bem, gritava sempre a mulher que desdenhara a boa conduta: faltava-lhe o hábito da honestidade.

Mas, à custa de bater em todas as portas, que se lhe fechavam, como a querer condená-la à fome, abriu-se-lhe um dia a duma fábrica de tecidos, onde havia trabalhado quando menina.

Alugou um pequeno quarto no Belenzinho e durante o dia, o seu filho ficava em casa, entregue aos cuidados de uma velha napolitana, doente e hemiplégica, que fora penteadeira, quando forte e menos usada pelo tempo e manuseada pelos homens, de Marieta e outras rascoas, desabaladas que escondiam o nome de família sob o manto de Zazás, Fifis e Frufus!
***
Luís crescia à solta, por entre uma aluvião de outros guris peraltas e safadinhos. Era ágil, arguto, vivo, como são todas essas crianças que vivem em liberdade, entregues aos seus próprios instintos, nos meios populosos em que a ladinice e a malícia se respiram no ar...
Ausente do carinho materno, desabrochava robusto como um broto germinado no flanco de uma árvore pletórica de seiva. Confirmava-se nele a sentença popular: filho de ninguém traz os germens de todas as qualidades!
Bem perto de onde morava, havia uma bela casa, de aspecto feliz, residência de uma família abastada, possuidora de muitos filhos.
Todos os dias, ali pelas seis horas da tarde, o pai entrava, e ao chegar ao portão do jardim, era recebido pelos filhos que lhe saltavam ao redor, alegres e satisfeitos, chamando-o ternamente de papai: e Luís assistia a este espetáculo de ternura e não sabia explicar porque é que todos os meninos tinham pai e ele não tinha! Começava a surgir no fundo de sua infantilidade, o primeiro vislumbre da razão. E ficava triste, com vontade de chorar...
***
A mãe, sempre mourejando na fábrica, parecia ter tomado a vida a sério, e trabalhava sem tréguas, como se quisesse refazer e limpar, com um presente de sacrifícios e extenuações, todo um passado de ignomínias e ociosidades. Assim que pilhava um tempinho fora da fábrica, costurava vestidinhos do seu filho e dos filhos de outras mulheres suas vizinhas e companheiras de serviço.
Aproximavam-se as festas do Natal, e ela toda entregue à confecção de umas calcinhas para o seu pequeno, feitas dum vestido seu, que conservava no fundo da mala, de ótima casimira, vestígios ainda da sua loucura.
Costurava e quando a roupa que cosia lhe evocava o passado, se levantava lentamente e ia beijar a cabeça de seu filho adormecido. Uma noite, faltando poucos dias para o Natal, o pequeno acorda sobressaltado e chorando, chama pela mãe e depois pelo pai instintivamente. A mãe aflita não sabia como consolar o filho. E acaricia-o ternamente: — papai? sim, ele vem... Dorme, meu filho, ele está viajando. Na, noite de Natal virá com sapatinho branco cheio de doces. Dorme, meu coração! Dorme!...
Luís adormece novamente. Ela, para espairecer um pouco, abre a janela que dava para um quintalório cheio de latas e roupas estendidas no coradouro. Olhava para todos os lados; tudo em silêncio.
Levantou a cabeça para o céu e com os olhos umedecidos contemplava a lua solitária que espalhava um brilho monótono e suave, como se fosse o olho de "alguém" que estivesse espiando lá do alto esta dolorosa cena...
***
No dia seguinte, o menino, quando brincava com os outros, ouvia de espaço a espaço, contar que na noite de Natal nascia o Menino-Deus, e que por isso iam com papai e mamãe à missa do galo ver o presepe.
Luís, filho espúrio, era a personificação desse fenômeno inexplicável que põe os fisiologistas que nutrem veleidades de nobreza e desmentem que há no fundo genésico da plebe qualidades geniais, em constante alarme.
Produto dessa força que plasma, no seio do anonimato, os tipos excepcionais e de eleição, o pequeno tinha todos os sentidos, para compreender a vida, mais abertos e evoluídos que os outros de sua idade.
Além de não ter pai, arrastava a fatalidade da precocidade! E a ideia de ver o seu pai crescia em seu cérebro tenro com toda a força de sua inocência, agradada tenazmente, pela potência maldita de ser um menino precoce!
***
25 de dezembro. Céu loucamente estrelado. Meia-noite... Natal! Os sinos batem nas torres de todas as igrejas. Belenzinho em peso se movimenta para ir assistir à missa do galo. Há ruídos de malas que se abrem para tirar frescas camisas e vestidos engomados de mulher. Balbúrdia em todas as esquinas, onde magotes de espadaúdos rapagões, filhos de italianos quase todos, estacionam para ver passar as Rosinhas, as Conchetas e as Pimpinellas que vão à igreja. Flerte não há! A plebe não perde tempo com coisas inocentes e inúteis.
Grupos dispersos namoram muito agarradinhos, nessa distância fatal em que os lábios dizem palavras que são projéteis atirados ao coração.
***
O babaréu cresce na proporção direta em que as ruas vão enchendo de povo. Luís, que a essa hora dormia, acorda, e como a sua mãe lhe havia prometido que o seu pai viria na noite de Natal, interroga-a: — Mamãe, não estamos na noite de Natal?
— Sim, meu filho, daqui a pouco nasce o Menino Jesus!
— E papai, por que é que não veio?
— Papai ainda não chegou da viagem. Sossega, qualquer dia ele aparece.
— É muito longe lá onde foi papai?
Enquanto Luís passava por um curto silêncio a mãe procurou um pequeno retrato que tinha guardado, encaixilhado numa moldura ordinária, estrelada e pintalgada de manchas cinzentas. E levando-o aos lábios da criança, diz fervorosamente: — beija-o, meu filho, é o retrato de seu pai!
Luís afaga-o ternamente contra o peito e apoia a cabeça contra o travesseiro, balbuciando: — papai... papai... papai... e adormece religiosamente com o retrato de Cristo sobre o peito.
A mãe soluça de joelhos aos pés da cama, murmurando:
— Cristo! pai de todas as crianças que não têm pai... sê na noite de Natal o pai de meu filho...

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Sylvio Floreal (1918-1928)
Pesquisa, transcrição e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2019)

São José (Conto), de Tomaz Lopes



São José
(Lenda Cristã)
O velho cura morava na aldeia, e só muito raramente, com mais sacrifício do que esforço, arrastava a sua velhice pachorrenta e a sua discreta virtude até o burburinho da grande cidade tão cheia de fortuna e de miséria, eternamente escabujando no volutabro do vício. Chamava-se Bernardim, e era um homem de altura meã, quase gordo, com um ar sadio de campo, olhos pequeninos e claros, cabelos brancos e faces ainda de punícea cor, onde começava a sulcar o vale das rugas.
A sua casa no campo era o certo abrigo dos pobres, porque nunca lamento ou suplica, sono, tristeza ou fome tinham ficado esquecidos à soleira como cães sem dono e sem destino. A amigo ou estranho, era sempre de bom rosto que o velho dava pouso. Era uma singela casa no meio de um tosco jardim onde chorava a murmura e sonora queixa de um regato; e esse regato era de certo a única lamentação que repetidamente passava à sua porta. Na primavera as flores perfumavam toda a casa; brancas santas e alvos santos de gesso e de mármore surgiam do oratório durante os três meses da suave estação, como flores nascendo de flores; no inverno, quando o céu era gris e os caminhos eram brancos, à boca do seu calorífero vinham os pobres aquecer-se do rude frio.
O doce Bernardim, homem simples e bom, sem a enredada sabedoria dos magnos sacerdotes, sem largos voos de imaginação, pouco se aprofundara em dogmas e conceitos; cumpria fielmente as leis de Jesus com a mesma facilidade inocente com que um fruto sai de uma flor. Assim, não maldizia porque de ninguém se queixava; era esmoler porque se condoía de quem era pobre e tinha fome; não mentia por ignorar que outra coisa além dos beijos e da verdade pudesse pousar em humana boca, — nem mesmo as abelhas que esvoaçavam em torno dos lábios de Platão; não praguejava porque de nada serve a blasfêmia; não odiava porque todos o amavam; era casto porque tinha bons pensamentos. Lera pouco durante a longa existência; sabia que no princípio Deus criou o céu e a terra, depois separou a luz e a treva... Não conhecia histórias de raças e de conquistas, nem crônicas de guerras religiosas, nem falsidades e manhas de inimigos. A Inquisição com todos os suplícios e todas as vítimas era uma espécie de lenda para amedrontar os ateus, assim como o papão era uma fantasia para intimidar as crianças; o Papa era um padre muito santo e muito sábio que morava em Roma; Roma era uma cidade vizinha de sua França. Com o latim do Seminário dizia missa, fazia citações ao amigo farmacêutico, pregava às vezes no púlpito e ensinava declinações e conjugações: ancila, ancilae; fero, fers, tuli, latum, ferre...
Gostava de passar bem porque dizia que não era santo; e quando sentado à mesa, com a porta aberta para quem tivesse fome e quisesse entrar, tendo dado esmola e distribuído pães (mais pão do que conselhos), orava e acalmava o estômago com o pão que é o corpo, com o vinho que é o sangue de Jesus, muitas vezes pensava: — Coitadinho de São João que comia gafanhotos!...
Era tranquilo e meigo; qualquer sofrimento lhe causava pena, para toda estúrdia encontrava uma desculpa, e para os crimes tinha sempre um perdão.
Certa vez, numa tormentosa noite de inverno, quando lá fora caía o gelo e rugia a fúria do sudoeste digladiando as árvores nuas, ele deitado, acomodado começava a dormir; de repente escancarou-se a porta e entrou pelo seu quarto um homem todo coberto de Sangue e de medo.
— Meu Padre!
— Que é, filho?
E o assassino tremendo como se já estivesse diante da máquina sinistra e fatal da guilhotina:
— Matei meu irmão!
O Padre Bernardim olhou-o, mal compreendendo as suas palavras loucas.
— Teu irmão?
— Sim, meu irmão!
Com uma infinita calma e uma suave ternura, o velho sacerdote acrescentou:
 — Que horrível crime, meu filho! Deus te perdoe!
Persignou-se, — e como tinha sono continuou a dormir.
Toda a aldeia o estimava; havia moças que batizara e casara; quando saía, já.se apoiando a um trêmulo bordão, as mulheres vinham dos casais à porta, à espera de sua benção, e ele passava sem se apressar e sem se admirar, como se estivesse em casa ou como se a aldeia fosse a continuação de sua casa. E quantas vezes, quando havia lua no céu, as crianças se reuniam à sua porta, e o Padre, ingênuo e bom começava com sua voz repousada e tranquila:
— Era uma vez uma camponesa que se chamava Joana...
***
Foi nos primeiros dias de fevereiro que uma vez, por uma tarde fria, quase à hora da noite, um homem pobremente vestido de calça e blusa, com uma espécie de gorro de operário, entrou em casa do Padre Bernardim. A classe terminara. Bernardim estava só no seu quarto, quando duas pancadas discretas ressoaram à porta. Tão habituado estava o Padre a todas as visitas, que nem de leve se admirou, e calmamente disse:
— Entre!
O homem tão modestamente vestido de marceneiro penetrou rio seu quarto.
— Meu Padre, eu sei que vai amanhã à cidade, e lhe venho pedir um favor.
Tanta doçura havia nas palavras do desconhecido, tanta certeza, tão amável e boa era a sua fisionomia, que o velho sacerdote teve a esquisita vontade de lhe beijar as mãos.
— Mas como soube que eu vou amanhã à cidade?
O carpinteiro tirou o gorro passou a mão pelos cabelos e pela barba castanha, e falou com uma voz persuasiva:
— Não lhe posso dizer ao certo como tive notícia de sua visita amanhã a Paris; mas o que é verdade é que há mais de quinze dias eu ando à sua busca para lhe pedir a graça a que vim. Sempre, infelizmente tem havido desencontro entre nós; aqui estou porém; e mesmo que o Padre quisesse adiar a viagem, é tão caridoso o que lhe vou pedir, que certamente acederá à obra de tanta misericórdia e caridade!
— Fale, irmão!
— Depois de amanhã é o Carnaval; é a loucura da embriaguez e da orgia. Num dos centros mais populosos e vergonhosos da cidade mora uma pobre pecadora que há seis meses definha, vencida pelo mal terrível da tuberculose. A casa em que habita é muito mais que suspeita; desde janeiro até São Silvestre estrebucha entre as quatro paredes uma horrenda bacanal; é lá a reunião dos vadios, dos alcaiotes, dos companheiros do vício, dos sodalícios da orgia. É a vilança da inteligência e do caráter, a pândega pulha e ignóbil de bordel e de taverna! A criatura de que falo muito me interessa; parece-me que no mato, descobri um remédio que si não é cura, é ao menos um alívio ao doloroso mal dos pulmões. Mas me diga, irmão: eu, um pobre carpinteiro posso entrar assim de blusa, sem chamar a atenção numa casa de tanto pecado e. tanto luxo? O meu amigo é um sacerdote; e para que não desperte suspeita, quando levar o remédio ouvi-la-á em confissão, pois a criatura, enfermiça há muito, anda agora a morrer. Bastará que chegue à sua casa às dez horas da noite, quando os rapazes e as mulheres saírem em algazarra para o ruído do Carnaval. O seu quarto é no segundo andar, num corredor, terceira porta à esquerda. Vá, meu irmão, e fique certo de que faz uma grande obra de caridade. Vá, ela o espera!
E o marceneiro deu a rua e o número da casa.
Com tanta firmeza ele falara que o Padre não pensou em por a menor objeção; apenas com um sorriso que a tristeza severizara indagou:
— E o remédio que lhe devo dar, onde o encontro?
Quedou-se alguns instantes pensativo com o sobrecenho carregado o desconhecido; parecia que uma grande magna lhe lancinava a alma; por fim, murmurou:
— Irmão, ela já está desenganada pelo médico!
— Sim, mas o seu remédio descoberto no mato?
O carpinteiro meneou a cabeça negativamente.
— É inútil levar-lhe remédio! Vejo que é tarde! Leve-lhe a extrema unção!
Bernardim curioso ainda perguntou se ele a vira ultimamente.
— Não, eu nunca a vi!
Até hora alta da noite os dois homens conversaram; um do outro se agradara na simplicidade que os fazia parecidos; e era tão simpática a convivência dos seus espíritos que nem um reparou na madrugada que vinha nascendo no céu...
***
Paris estava no deslumbramento da festa louca. Explodiam por toda a parte orquestras de assovios, faiscavam iluminações, retumbavam clamores de orgia. Já passavam os grupos para os bailes numa ruidosa algazarra a que se sentia o vinho. Era o domínio do rega-bofe e da troça, da pândega desconjuntada, da pilhéria, da chalaça, da chacota, da laracha, do insulto mascarado a que se chama geralmente espírito... Passavam pierrots, arlequins, clowns, dominós; todo mundo tinha uma fisionomia mais ou menos mascarada; tilintavam guizos, sacudiam-se canções lascivas de bordel. Era o Carnaval. Era a intriga elegante para a gente fina, era a pilhéria boçal para os rudes; eram os vinhos Champagne para os ricos e clubmans, era a aguardente para os pobres e galhardos. Para muitos era a verdade. Vinham os grupos e os carros de todas as ruas e penetravam ruidosos nos boulevards festivos. A grande, a gloriosa, a imortal cidade parecia toda entregue à momice e à graçola do entrudo. Onde estava o grande cérebro de Paris produzido por centenas de edições, em milhares de brochuras, a seiva fecunda do seu grande espírito pelas artes e pelas ciências? Onde os cursos em que se aprendem todos os conhecimentos do saber humano, em que se preveem todas as hipóteses, em que se investigam todas as causas, e se determinam todos os efeitos? Paris descansava; o Carnaval se estendia sobre a opulenta cidade como um grande polvo que abre tentáculos...
Caía a neve; choviam policromias de confetti; e pairava no ar um cheiro de harém, e subia no espaço um perfume de absinto...
Às dez horas da noite, de uma casa da rua des Petits Correaux saiu um grupo alegre de mascarados e mascaradas; carruagens se aproximaram; houve uma grulhada de vozes, uns risos e uns gritinhos nervosos, um ar de cochicho e segredo que há sempre entre máscaras para que toda gente saiba que eles se conhecem entre si; depois um ajuntamento de curiosos, e os carros partiram. Aquele trecho da rua ficou por instante silencioso; nesse momento, um carro modesto parou; desceu o Padre Bernardim acompanhado pelo acólito, e os dois entraram na casa de onde haviam partido os mascarados. Defronte, um homem de blusa de operário e que parecia um marceneiro, rondava.
***
O velho Bernardim sentiu-se contrafeito ao penetrar naquele corredor, ao subir aquela escada onde pairava um ar de mistério e de orgia, onde havia pouco roncavam deboches e bebedeiras, onde passaram homens sem fé e mulheres seminuas, e onde entrava agora com Jesus Cristo, para dar a extrema-unção a uma moribunda. Mas lembrava-se das palavras do seu visitante: "Ela o espera!" Ela o esperava; mas onde? Todas as salas estavam vazias; por toda parte, em vez de remédios, jaziam garrafas esgotadas de vinhos Seus pudicos olhos surpreendiam interiores desonestos de alcovas lascivas... O acólito lembrou que era no segundo andar, terceira porta à esquerda. Subiram uma nova escada, chegaram ao corredor; mas pairava o mesmo silêncio, descansava o mesmo abandono. O velho padre estava receoso; temia que entrasse alguém e o visse conduzindo o Salvador aquela casa de pecado e de vício. E se voltassem de repente aquelas mulheres e aqueles homens? Decerto o desrespeitariam, tontos pela loucura da bebida e do Carnaval. Foi com uma vaga esperança de fugir àquela casa sem fé e sem Deus, que ele disse ao companheiro:
— Parece que nos enganamos! Não há ninguém na casa!...
Mas este não respondeu: com a mão em concha sobre a orelha, parecia ouvir atentamente.
— Que é que fazes?
— Não está ouvindo um rumor que parece um gemido?
Efetivamente aos ouvidos do Padre chegavam agora uns dolorosos e abafados ais. Encaminharam-se mais para porta, e bateram de leve; ninguém respondeu; outra vez, com os nós dos dedos, Bernardim de mansinho fê-la ressoar; também não houve resposta, mas aos dois amigos pareceu que o sussurro cessara. Por fim o rapaz entreabriu a porta, e o Padre entrou sozinho.
***
Longo tempo durou a confissão.
Quando o Padre abeirou-se do leito da enferma, quando ela o viu, não mostrou o menor espanto nem o mais ligeiro sobressalto; apenas nos seus grandes olhos muito fundos e sofredores, fulgiu rápida e fugace uma centelha de alegria. O velho sacerdote olhou em volta de si. O quarto era pequeno, mas conservava um luxo atrevido e convencional de veludos e de cetins; o leito largo, fofo, sensual, era encimado por um baldaquino de seda vermelha como sangue; e à cabeceira, pregado à parede, um grande espelho refletia o quadro triste de uma doente quase na agonia. O Padre que vencera facilmente a vergonha de entrar naquela casa suspeita, escrupulizou diante daquele cristal de serralho, luzente e obsceno, e desviou os castos olhos. Perto da porta um divã ostentava a sua cor vermelha também; havia espalhadas duas ou três cadeiras largas; o lavatório estava cheio, transbordando de frascos secos de essências e caixas vazias de pó de arroz ao lado um átrio onde descansavam os três volumes do Chevalier de Faublas e uns números velhos de Sans-Gene, L'Indiscret, Culotte Rouge, La Dame aux Camélias", e uma história de Napoleão I; perto da cama estava a mesinha; havia frascos de remédio, — e uma vela iluminava uma pequena e tosca imagem de São José Bernardim, com uma voz tranquila deu as boas noites à rapariga, e indagou solícito:
— Sente-se melhor? Gemia tão baixinho que mal pude ouvi-la!
Ela fez um esforço cansado e murmurou com tristeza:
— Tinha medo de incomodar os que se divertiam! Já ontem quiseram mandar-me para o hospital! Diziam que eu ia estragar-lhes o entrado... Não me queriam dar um confessor! Mas eu. sempre tive a esperança de não morrer com tanta culpa!
E olhou com um ar devoto para a imagem de São José...
— Pois aqui estou, minha filha, para ouvi-la e perdoá-la!
A pobre criatura ficou com os olhos rasos de lagrimas felizes; e com a voz trêmula indagou curiosa:
— Diga-me, meu Padre, conhece-me? Como soube que estava doente?
— Um homem que foi à minha casa e me falou do seu estado... Não o conheço; creio que é um carpinteiro.
— Talvez queira fazer o meu caixão...
— Talvez queira salvá-la, minha filha!
Ela contou-lhe a sua história. Era a mesma de sempre, dolorosa e banal; era a sedução estúpida de um homem covarde; depois da posse vinha o gualdipério imediato; era a primeira queda no lodo e na lama do vício, o espectro da fome aparecendo, e por fim a rendição completa, o aluguel do seu corpo, a prostituição da sua alma.
O Padre escutava-a em silêncio, ansioso pela obra da graça e do perdão; ouviu-lhe ainda todos os feios pecados, e absolveu-a. Nesse momento a vela se apagou. Quando conseguiu de novo acendê-la, reparou com um vago tremor que a estátua de São José tinha caído, e que a rapariga estava morta...
***
Muitas horas passara no quarto da moribunda; quando chegou à rua reparou que era hora alta da madrugada. Por todos os lados ainda estrugiam gritos alegres de carnaval.
O carro aproximou-se; Bernardim deu um derradeiro olhar à triste casa onde ficara abandonado um cadáver, e entrou com o acolito para a carruagem. Vinham pela rua carros alegres, iluminados a fogos de bengala; era o grupo de mascarados que regressava. Os animais fustigados partiram, e ele pensou:
— Aí voltam os doidos para o cemitério!...
Para trás não tinham ainda ficado dez metros, quando ao aceno de um desconhecido, a caleça parou. Era o marceneiro; e assim disse:
— Muito obrigado, meu Padre, por ter vindo! Coitada, ela morreu!
Foi só; caminhou e desapareceu na sombra. Mas o Padre Bernardim, dando ordem para de novo partir, pensou que havia qualquer coisa de estranho naquele homem tão pobremente vestido de operário; pareceu-lhe que havia uma luz refulgente e tranquila nos seus olhos; e supus um instante que em fim aquele carpinteiro talvez fosse São José...
Rio, 1904.

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Thomaz Pompeu Lopes Ferreira (1879-1913)
Pesquisa, transcrição e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2019)