terça-feira, 4 de junho de 2019

Façanhas do Sr. Manuel Valente (Fábula), de Ana de Castro Osório



Façanhas do Sr. Manuel Valente

Houve, em tempos, um galego, desses de corda e chinguiço, que se chamava Manuel Valente. Passava entre os seus patrícios e colegas por ser homem avisado e de bom conselho, de modo que sempre o atendiam em seus negócios e resoluções.

Assim, depois de muito mourejar e ter granjeado bom pé de meia, combinou com outros da mesma terra voltarem às suas casas e descansarem, enfim, de trabalhos e fadigas.

Juntaram-se uns doze e puseram-se a caminho, a pé, já se deixa ver, para mais economia. Andaram todo o dia, e quando chegou a noite estavam cansados e cheios de fome. Nisto passaram por cima duma ponte, e um deles, olhando para baixo, vendo a lua-cheia refletir-se na água, imaginou que era um enorme queijo que estava no fundo do rio. Cheio de alegria chamou os companheiros, ficando todos de boca aberta debruçados nas guardas da ponte a olhar para baixo. E diz de lá o senhor Manuel Valente, que era comandante de toda aquela tropa:

— Baia, companheiros, que isto non tem que bêr. Eu agarro-me às guardas e outro segura-se aos meus pés e outro aos pés desse, até fazermos uma cadeia que chegue ao fundo do rio, para se ir buscar o queijo.

Assim foi. Começaram a segurar-se nas pernas uns dos outros e, quando já estavam quase a chegar ao fundo, diz o senhor Manuel Valente muito aflito:

— Esperem aí, rapazes, deixem-me cá cuspir nas mãos, que já as não sinto. —

Se assim o disse melhor o fez. E, como largou as mãos, caiu todo aquele cacho de gente no meio do rio, que levava bastante água, tomando um banho forçado e que não foi muito agradável. Enfim, com grande trabalho e não pouco risco, lá conseguiram salvar-se, e era já manhã quando se viram todos em terra exaustos. Como estavam encharcados deitaram-se no chão, muito juntos para secarem ao sol e sentirem menos frio.

Assim ficaram largo tempo. Por fim começaram a afligir-se, porque julgavam ter confundido as pernas de tal maneira que lhes seria impossível saber cada qual das suas. Lamentavam a sua triste sorte, quando passou um bufarinheiro, destes que andam de terra em terra a vender panos, e lhes perguntou o que estavam ali a fazer, todos em monte.

Contaram-lhe a desgraça acontecida quando iam quase a deitar a mão ao belo queijo que estava no fundo do rio, e disseram-lhe que tinham misturado as pernas e agora não podiam levantar-se porque, em tal confusão, não dava cada um com as suas.

— Eu sei dum remédio bom (disse o homem), mas hão de pagar um tanto por cabeça, para eu o aplicar.

De boa vontade pagou cada qual a sua parte do preço que o homem pediu, e ele então pegou no metro e começou a dar pancadaria brava para um lado e para o outro. Os galegos do chinguiço puseram-se logo em pé, berrando com a dor, mas agradecidos por aquele remédio que lhes fizera conhecer as pernas.

Guiados pelo senhor Manuel Valente, continuaram o seu caminho. Mais adiante encontraram uma vaca morta no chão. Com muito medo do animal, por duvidarem se estava morto ou vivo, não queriam passar e punham-se de longe a chamá-lo:

— Ó vaca, ó vaca!...

Mas o bicho não se movia, pois estava morto e bem morto. O senhor Manuel Valente gritou:

— Viva que non viva, ó vaca hu!...

E partiram todos a correr, só parando muito longe, quase já sem fôlego.

Ainda mais adiante encontraram um soldado que voltava da guerra, pobre como Jó. Vendo os galegos, pensou em tirar partido do encontro e, pondo a arma à cara, disse-lhes:

— Ah, vocês vão para a terrinha cheios de dinheiro, sem nunca terem arriscado a vida? Pois cada um há de pagar-me um pinto. Senão fico sempre aqui de sentinela e não os deixo passar!

Os doze viandantes, assustados com tal ameaça, resolveram pagar os direitos da sentinela improvisada. Assim o soldado recebeu doze pintos em boa moeda, que meteu ao bolso a rir. E deu-lhes passagem livre.

Quando estavam a bastante distância começaram todos eles a insultar o soldado. E o senhor Manuel Valente voltou-se para os companheiros e disse, com grande arreganho:

— Ah rapazes, que se nós fôssemos outros tantos, o portuguesito do diabo levaria o pinto ó non.


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Fonte:
Ana de Castro Osório: “Contos, fábulas, facécias e exemplos da tradição popular portuguesa” (editado a partir da edição da Bibliotrônica Portuguesa)

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