quinta-feira, 6 de junho de 2019

Maria Madalena (Conto), de João Grave



Maria Madalena

Tudo o que no seu coração havia de santidade e de sideral pureza dera-o ela aos homens que tinha amado, arrastada por um tumulto de ilusões que nunca floriram; e agora, a sua mocidade e a candura da sua beleza iam mirrando tristemente, como uma rosa caída há poeira dos caminhos e de todos os pés calcada. Outrora, nas douradas manhãs da adolescência, a formosura radiante de Maria Madalena iluminava almas e vergéis. Em pequenina, as morenas mulheres bíblicas, se lhe afagavam o rosto sereno onde se espelhava o alvor da inocência como a estrela da madrugada num lago manso, erguiam as mãos e exclamavam:

— Abençoados sejam os peitos que te deram de mamar e o ventre que te gerou!

As pombas, descendo em revoadas dos altos minaretes, nas tardes loiras de sol, vinham arrulhar na graça virginal dos seus ombros nus, e as cotovias pousavam-lhe cantando nos braços, feitos para pendentes e manilhas de ouro, na religiosidade das auroras nascentes. Assim fora crescendo, pura como um lírio.

Ao tempo em que era moça, o seu corpo imaculado tinha o viço e a romântica alvura das açucenas: e os seios, severos e rígidos, como frutos novos, com lágrimas de aurora tremendo no meio, lembravam jaspes brunidos onde, por um milagre, manassem gotas de sangue que o frio congelasse. No lar em que desabrochara como um jasmim, errava um perfume de felicidade e de paz, que a sua virgindade enternecia. Um dia, veio o primeiro amado e uma íntima e casta adoração encheu-lhe o peito ingênuo. Pelos finos silêncios do crepúsculo, ficava-se a olhá-lo enlevada, os olhos vagos tocados de luar, o peito arfando de sobressalto, a face ardendo de rubor. Ah! ser querida para sempre, ter perto de si alguém que a amparasse com toda a bondade e todo o carinho, possuir um braço forte que a guiasse pelas ermas asperezas do mundo!

Era como se na sombra caíssem estrelas, desprendidas da seda dos céus plácidos e que esclarecessem toda a treva. Mas o nem amado fugira, deixando-a, quando ela chorou de mágoa e de vergonha. Então, outros vieram, queimou-se no lume impuro que a abrasou, andou de mão em mão como uma flor a que se houvesse aspirado todo o aroma.

E sempre a humilhação, a desventura, o desalento, a crueldade! Não sonhava já. As suas quimeras iam longe, num poente expirante que a vista mal alcançava. Desprezada, repelida da porta das herdades, escorraçada de toda a piedade, esmolava sem destino pelas estradas, lavando as manchas do corpo com prantos ardentes.

Os cães ladravam-lhe pelos atalhos, as crianças debandavam espavoridas quando ela, invadida por uma funda saudade, queria beijá-las e apertá-las meigamente contra o seio; os homens murmuravam-lhe ao ouvido palavras sórdidas, com gritos roucos de desejo; e as noivas, ao voltar das fontes coroadas de narcisos frescos, cobriam aflitivamente a face, se a encontravam bebendo nos regatos ou repousando das soalheiras que queimavam como labaredas, sob os sicômoros e as figueiras bravas.

Através das montanhas, correndo os descampados e escutando o sussurro das fontes, lembrava os momentos amorosos de outrora e a sua juventude tão malfadada.

Os pastores atiravam-lhe côdeas duras que ela devorava sofregamente; escondia-se pelos côncavos das serranias ou pelas quebradas dos vales, fugindo ao vento das noites sem luar.

Toda a vida amara os outros, por eles se perdera e nunca alguém lhe teve amor. Com que alegria, com que piedosa gratidão, com que enlevo descansaria a cabeça no seio daquele que a levantasse da lama! Mas quem se compadeceria da sua dor, quem apeteceria sequer o seu corpo maculado? Lívida, desgrenhada, batida de sarcasmos, mostrava as carnes por entre os farrapos que as chuvas tinham apodrecido. Os dedos esguios e ósseos engelharam e havia muito que não colhiam rosas; na sua boca que o sofrimento empalidecera e enrugara, morreram as canções de idílio que antigamente lançava à aragem sonora. Todos a esqueceram; somente os soldados romanos, de grandes lanças com ferros polidos brilhando no cimo, a osculavam com fúria, se a deparavam no seu caminho, ao acaso, tão pobre e só como sempre, ou os foragidos e os vagabundos a assaltavam pelos matagais e pelos brejos, de olhar falseando como brasas vivas. E assim vivia, no lento desespero dos anos que nenhuma consolação serenava. Até das sinagogas a varriam como a um lixo, para que a sua podridão moral não profanasse os templos e não corrompesse dum hálito empestado o ar e a unção dos ambientes purificados de virtude e de fé.

Jesus Cristo repousava uma tarde à beira de um rórido pomar. Ia esmorecendo a rosa divina do sol; em ranchos, os íbis passavam para os ninhos, e as cores gritantes desfaleciam na candidez do fim da tarde pacífica. Da terra, das cearas maduras, dos rios correndo e murmurando por entre os aloendros em flor, onde dormiam cegonhas, das densas florestas, dir-se-ia elevar-se uma oração que subia tranquilamente para o céu. Uma poesia esparsa, feita de sonho, de infindável aspiração, de ternura, pairava na atmosfera translúcida.

Jesus palmilhava a terra negra da Judeia, ensinando a misericórdia e o perdão. Na gleba estéril que as suas sandálias rotas pisassem, rejuvenesciam ervas; rocha dura que o seu bordão de peregrino roçasse, inundava-se de água; os próprios cardos reverdeciam, se o visionário sublime os lamentava. Não se sabia de onde viera. A sua existência andava envolta numa teia de lendas e de mistérios; mas a lama dos seus milagres e a doçura da sua caridade espalhavam-se por toda a Galileia.

Dizia-se que Jesus não possuía eirado ou vinha, choupana ou rebanho, trigal ou horta, e que, por isto mesmo, abalara, evangelizando, pregando o desdém pelas riquezas e rasgando ao infortúnio das almas a transcendente vereda da salvação, que atravessava charcos, galgava carcavões, trepava montes e se alava aos intermúndios da beleza eterna. O seu nome era abençoado pelos que muito padeciam; as suas palavras vertiam bálsamos maravilhosos nos peitos ulcerados de dor.

Curava os leprosos, refrescava-lhes e ungi-lhes as chagas com remédios e aromas desconhecidos, oferecia aos famintos um pedaço do seu pão e mergulhava a palma da mão nos charcos para saciar a sede aos mendigos. As criancinhas aproximavam-se dele e queriam espreitar--lhe os olhos azuis, puxando-lhe levemente pelas pontas do coffie.

O Rabi nascera num casebre humilde de Nazaré e era filho de gente resignada e boa.

Mais tarde, chamara para a sua companhia rudes pescadores, aconselhara-lhes o renunciamento das vaidades e partira no êxtase da sua crença, libertando os escravos e redimindo os condenados. O seu poder extra-humano comunicara-se aos companheiros. Uma desamparada mãe clamava um dia contra a morte que lhe arrebatara o filho, seu derradeiro auxílio; e Cristo ressuscitara-o, rezando.

Pedro, seu companheiro, ouvindo uma vez em Jafa soluços abafados e vendo as mulheres carpir mágoas pela morte de Dorcas, velha e ingênua tecedeira, trouxera-a novamente para a vida, levantando-lhe a pedra do túmulo. E logo da sepultura brotaram anémonas, e abelhas de ouro, como numa aleluia!

Jesus criou também a esperança, que surgiu gloriosamente da terra sagrada da Palestina.

Madalena assistia deslumbrada ao desenrolar destes milagres. Dentre a turba humana, Jesus Cristo era o único ser que não repelia os deserdados com a ponta do pé. Procurou-o através de selvas, de despenhadeiros e pragais. Os outros jogavam-lhe pedradas e duros escárnios; mas as vilezas e as maldades não a afrontavam, porque na sua alma dealbava uma clara manhã de felicidade. Pensava que Jesus a acolheria com carinho e lhe enxugaria docemente as suas lágrimas, e esta esperança seduzia-a.

Certo dia, explicava Cristo ao povo triste, num casal de Samaria, essas doutrinas libertadoras que volvidos séculos iluminaram a vasta desolação universal. Escutavam-no as multidões prosternadas que a miséria devorava como uma chaga, e sobre as suas frontes brilhava um nimbo radiante. Madalena viu-o e ficou deslumbrada. Os seus desejos carnais acenderam-se diante da figura ideal desse homem na flor dos anos.

Tinha os lábios tão vermelhos que, por certo, jamais neles haviam flamejado pecaminosos beijos: e as suas parábolas eram de uma tal suavidade que derramavam nos peitos atormentados uma pacificação indizível. Como a adoração de Jesus daria gozo às vontades sedentas! Pudesse ela rolar a cabeça delirante, desvairada de luxúria, naqueles ombros que as privações definharam!

Começou, então, a seguir o Rabi pelas sarças, pelos espinhais, pelos campos, pelas aldeias. Ele tão bom e tão justiceiro, não lhe negaria um quinhão desse amor que é a razão de toda a vida. Havia de amá-lo apaixonadamente, de sofrer por ele, de acariciar-lhe os pés, chaguentos das caminhadas, na macieza das mãos.

Uma vez aproximou-se, tímida, medrosa, apavorada, e Cristo sorriu-lhe com meiguice. Sentia-se feliz, era a primeira vez que alguém se não enojava do seu crime. E contou, com os olhos rasos de água, todas as suas desditas, todas as suas angústias, toda a sua desgraça imensa. No poente de ouro voavam as garças, batendo as asas, e as rosas desfaleciam na languidez crepuscular. Jesus ajoelhara, comovido. Uma serenidade augusta dava relevo à sua figura etérea e a sua voz pausada e profética ressoava no silêncio.

— O mundo é mau, em verdade to digo. Ama as coisas efémeras da terra e a tua desventura será enorme. Mas ergue a fronte, que o teu amor vá para o alto, para Deus, que não engana...

Um pranto de consolação e de alívio inundava as faces de Madalena, desoprimindo-a; as revoltas do seu sangue apagavam-se.

— Chora! — murmurou Cristo. Chora sempre, que o pranto purifica e torna a dor fecunda como as cearas. Chegará um minuto supremo em que a tua existência atinja o céu.

— Todos me repelem! Sou mais desgraçada do que as cadelas leprosas.

— Sofre, que o sofrimento deixará o teu coração tão branco como os lírios de Galaad.

Vinha subindo a lua redonda e resplandecente, como numa apoteose. O ar toldava-se duma poeirada tênue de astros. As palmeiras ramalhavam à perfumada aragem que passava. Madalena repousara a fronte sobre os braços de Jesus!

Havia tanto tempo que não dormia assim!

Cristo admirou-a na sua quietude confiada. Irradiava de claridade. E ele era moço; aquele coração torturado, palpitando junto do seu, perturbava-o.

No seu sentimento, repentinamente, definira-se um mistério. Era, afinal, humano e feito do mesmo barro que gerara a primeira criatura; uma tentação empolgava-o. Estremeceu até à mais recôndita fibra do seu ser, quando pousara a sua boca na de Madalena, num ósculo imaterial e longo. A pecadora acordara dum sonho infinitamente lindo e contemplava-o mudamente; mas Cristo, sublime, dizia:

— Que o beijo que eu te dei seja, através dos tempos, o símbolo da misericórdia e do arrependimento e que as tuas lágrimas lavem todas as culpas das que errarem!

Alvorecia; uma luz de incomparável pureza cobria a terra inteira...

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Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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