quinta-feira, 6 de junho de 2019

O amor entre os deuses (Conto), de João Grave



O amor entre os deuses

Houve tempo em que os Deuses dos remotos poemas de Homero, quando se cansavam da sua lenta imobilidade entre as flores perpetuamente frescas, os altares de prata sempre iluminados e os templos de ouro e cedro continuamente adormecidos na paz e na claridade, sob o cantar das rolas, os zumbidos das abelhas e o murmúrio sem fim da água límpida manando entre os musgos e vergéis, vinham errar por entre as alegrias efémeras da terra, onde se arrastava uma triste humanidade lamentável. Os seus corpos dum esplendor de aurora e lua ondulando no ritmo dolente das vagas músicas, deixavam rastros de fulgor, lucilações de luz; e eram eles que davam ao mundo melancólico e monótono todo o seu encanto espiritual e poético. A Grécia antiga, sobretudo, foi muito amada pelos Imortais, que nela mostraram a fabulosa opulência da sua nudez e a incomparável beleza das suas linhas. Aí, pelas tardes mornas de primavera, descansavam à sombra dos bosques de loureirais e mirtos ou conversavam amorosamente nos jardins do Partenon, desfolhando lírios de neve e discutindo com poetas e filósofos sobre os trechos épicos que os rapsodos então levavam por toda a parte, desde o Peloponeso até aos solitários e verdes mares da Iônia onde as nereidas cantavam quando o sol subia das bandas do nascente como numa apoteose gloriosa e onde as alcíones gemiam ao cair dos poentes lacrimosos e nostálgicos.

O ar cheirava às laranjeiras, e, na terra fecunda, as rosas desabrochavam como serpentes, vestindo o chão negro duma pompa nupcial. Platão, o transcendente, e Scoto, o subtil, conviveram muito com eles, passeando através das florestas rescendentes das resinas dos ciprestes, onde os íris desabrochavam, no viço e na graça das suas tintas maravilhosas e onde as violetas, aos molhos, perfumavam toda a sombra; e Anacreonte calçou de estrofes o pé rosado das Deusas, de seios túmidos e direitos onde as cigarras pousavam pelos ardentes calores dos meios dias rubros, descendo das copas das árvores.

Houve um zagal, que pastoreava as manadas nos prados de altas ervas e lançava a sua frecha contra as águias, que sonhou lindos sonhos com a suave e ingênua Chloé, nas lânguidas manhãs em que ela, despindo o seu peplum de linho e com os cabelos fulvos picados da poesia dum narciso, se banhava nos regatos cristalinos e murmurosos, e colheu nessa boca imaculada e sanguínea, como um botão de rosa, os beijos virginais e perturbantes como um vinho forte. Geres, ao amadurecer das cearas ondeando ao vento como um denso mar de ouro fosco, surgia com a fronte enramada de papoulas, cheia de sidérea formosura, abençoando o pão que havia de encher as tulhas, com a alegria da sua bondade. Juno, a de olhos cismadores e tão fundos que muitas vezes os Deuses se curvavam para espreitar os mundos desconhecidos que neles se refletiam, batia as asas alvas entre os pomares onde as levadas de rega corriam e gorgolejavam. E Diana refugiava-se entre balsas, à beira dos lagos, rodeada das ninfas deslumbradas, na mocidade irradiante das suas maravilhosas formas. Quando ela mergulhava nas espumas níveas ou nas ondas azuladas, os seus dois peitos pareciam nenúfares enormes, pingados de lágrimas de aurora. Porque os Imortais não conheciam as tristezas da velhice, os mistérios invioláveis da morte, as amarguras da dor cruel!

À sua volta, tudo morria, tudo suspirava de desejo, tudo arquejava de sofrimento, tudo se finava de saudade. A própria natureza, pelos outonos elegíacos, adoecia; as corolas fanavam-se e as aspirações dos homens imperfeitos eram tão pequenas que nem chegavam ao longínquo céu, num voo supremo; mas eles ignoravam o travor das lágrimas ou desesperos de ansiedades insatisfeitas e nos seus lábios vermelhos nunca se apagava o fulgor do riso, nem nas suas frontes serenas desfalecia o clarão da alegria alada. A sua voz vibrante entoava os fortes e vitoriosos cânticos que os ventos sonoros levavam, sussurrando, para longe.

Também amavam como os homens; mas o seu amor era mais duradouro e mais enternecido de enlevos e doçuras. Deslizava idealmente, numa paz inalterável, como a água duma fonte caindo num jorro lento, entre miosótis e lírios. E essas abelhas de ouro que fabricavam os claros favos de mel do Himeto vinham esvoaçar no remanso dos seus idílios, enchendo todo o ar diáfano de sons fugidios. Os seus beijos eram infinitamente doces e nenhuma leve amargura do mundo efémero os envenenava.

Ora, um dos Imortais mais adorado, pela sedução da sua beleza máscula, foi Júpiter. A branca e loira Semmele soube enredá-lo nos enleamentos da sua graça, estendendo-lhe os braços de jaspe brunido e oferecendo-lhe o seio para ele descansar a cabeça duma impecável correção de linhas. Nos primeiros tempos, esse amor foi como um sonho infindável, sempre vivo e sempre palpitante. Na clara brandura dessas tardes que nunca mais voltarão, perdiam-se ambos pelos bosques olorosos, tão queridos de Apolo, escutando o canto das aves. Abraçados à beira dos arroios, contemplavam as suas imagens que se espelhavam nas águas puras e transparentes.

As formas da Deusa, ondeantes e nervosas, eram duma tão esplêndida graça que as cotovias, descendo do alto, iludidas, vinham pousar-lhe nos ombros divinos e ficavam a gorjear horas inteiras.

Quando ela passava, os prados de violetas derramavam mais aroma e os rosais floridos roçavam as suas carnes viçosas e estremeciam de gozo. E ao vê-la assim, na irradiação luminosa de toda a formosura plástica, Júpiter, alucinado, estreitava-a nos braços possantes e osculava-a com loucura, dizendo-lhe:

— Oh! Semmele, possa o azul, para toda a infinidade dos séculos, assistir às nossas eternas bodas! O teu peito tem mais perfume do que os jasmins do Olimpo e a tua boca mais doçura do que os cortiços de mel. Não há nos mares um verde tão lúcido como o dos teus olhos nem pérolas mais belas do que os teus dentes, oh! Semmele!

Ela, arrebatada, num abraço mais apertado e num suspiro mais fundo, respondia:

— Oh! Júpiter! que a tua adoração seja constante! Antes de te ouvir, não tinha sentido ainda o gozo que só o amor dá. Foste uma revelação para o meu espírito, porque, depois do teu primeiro ósculo, o Olimpo dardejou duma luz nova. Compreendo agora o mistério da morte entre os mortais. Deve ser dum grande encanto morrer com tanta ventura no coração, adormecer no sono perpétuo quando se é embalado por este contentamento!

Ao descer da noite faiscante de estrelas — essa noite que nas remotas eras da Hélade tinha um outro nome mais poético e mais vibrante de lirismo e de harmonia — recolhiam à gruta onde os coxins fabulosos das nuvens vinham tapetar a terra dum manto diáfano, reluzindo entre as labaredas das pedras preciosas: — carbúnculos chamejantes, topázios suaves, diamantes que brilhavam mais do que o dia, esmeraldas dum verde sem par, safiras que dir-se-iam feitas do azul celeste.

As ninfas em coro rodeavam os dois amantes, que despiam caridosamente, perfumando-os; as estrelas coroavam em crescente os cabelos longos e flavos de Semmele; nas tinas de mármore rosado amornava a água do banho toda láctea de essências raras; os leitos de cedro e prata escondiam-se entre dóceis de seda franjada a ouro; nas lâmpadas de cristal, que pendiam do mármore dos tetos, ardiam óleos virgens que espalhavam penumbras misteriosas. As sílfides, mal começava o sono dos Deuses, que corria sem sobressaltos, vinham afagá-los brandamente; nas balsas de jasmineiros cantavam rouxinóis; os alaúdes das nereidas gemiam cariciosamente; e das harpas eólias, suspensas dos salgueirais, evolavam-se músicas incoercíveis como um hálito vago. A lua — como a lua era linda nessa longínqua época! — ascendia no veludo dos céus, entre pálios de astros, com uma luminosidade desconhecida e incomparável; e o rumor dos beijos, como uma palpitação de asas, vinha perder-se no hino glorioso do mundo, que todo amava numa volúpia ardente.

Em certos meses do ano, aproavam à ilha divina as altas naves que traziam marinheiros da Trácia e de todas as partes da Grécia, das paragens ignoradas do Ocidente, pensativos e curvados sobre as amuradas. As tripulações, bêbedas do falerno diabólico, saltavam em- terra e dirigiam-se à floresta sagrada, onde as esperavam as virgens desnudadas, mais pálidas do que açucenas, rodeando o templo de Vênus e esperando com resignada humildade o sacrifício. Então, um frêmito potente soprava, as folhagens ramalhavam, acendiam-se as revoltas fogueiras onde rechinavam sucos cheirosos; e toda a noite se escutavam gemidos, ósculos brutais, rugidos de cio, cânticos pagãos, gritos roucos. Sobre a sua ara, Vênus rejubilava e vibrava dum desejo sensual mais forte, acolhendo os Imortais que diante dela se prosternavam, na capitosa luxúria das suas carícias.

Quando no céu surgia a estrela de alva, Júpiter acordava e recebia das mimosas mãos de Semmele a taça de ambrósia. De novo as harpas suspiravam e os beijos flutuantes morriam, desfalecendo na amplidão da ilha, onde vicejavam rosas de toda a sorte...

Mas ai! o amor mesmo entre os Deuses é transitório! Ao fim de anos de uma ternura infinita, veio a saciedade. Júpiter já não encontrava na perfeição de Semmele belezas ocultas que o arrebatassem. O viço das suas carnes era sempre o mesmo; o verde dos seus olhos, que refletiam as paisagens luminosas e as fotosferas douradas, nunca se toldava; a sua vida não tinha perturbações que o sacudissem fortemente — ciúmes ou ímpetos de luxúria. Começou a isolar-se, bocejando, para os sítios ermos, onde podia desafogar os seus tédios; e quando Semmele vinha, aérea e sorridente, fechar-lhe o pescoço num abraço, repelia-a com aspereza e aborrecimento.

Uma tarde, quando a sua tristeza mais pesada era, ao levantar os olhos, deparou Helena no seu terraço, regando os cravos. Era morena, e o seu olhar negro e líquido prometia gozos nunca fruídos à aspiração de Júpiter — porque nesse tempo, os Deuses ainda tinham aspirações e fantasia. Daí em diante, todos os dias ele admirava essa aparição olímpica, que enchera de cuidados a tranquilidade do seu coração tranquilo. Oh! como ela atraía irresistivelmente a ânsia do Pai dos Deuses, assim simples e ingênua, com a fronte coroada de anémonas e a clâmide envolvendo-a de névoas vaporosas, deixando adivinhar a sua sobrenatural beleza corpórea! As pombas rodeavam-na num voo lento e o jardim esplendia de luz, se ela aparecia, pensativa e risonha, entre os vastos alegretes de flores. Foi esta a adoração mais cândida que viveu na alma de Júpiter! Quando o soube assim namorado, Semmele tentou cativá-lo com todos os requintes da sua sedução de Deusa; mas o amante leal de outros tempos recebia alheado os seus beijos. Entre lamentações, Semmele exclamava:

— Oh! Júpiter, tu esqueces-me! Os teus beijos de agora não têm aquele fogo que outrora me abrasava, nem as tuas palavras a música incomparável e deliciosa que era o meu arroubamento. Por que me odeias, oh! bem amado? Não é o meu corpo tão belo como antigamente? Onde há ventre mais liso e fecundo do que o meu e ósculos mais quentes do que os destes lábios?

— Onde? Todas as bocas que a minha ainda não tocou têm uma tentação que a tua foi perdendo. Cansaram-me as tuas graças, oh! Semmele! Antes tu me não tivesses encontrado, ou houvesses resistido às minhas solicitações!

E foi por unia alvorada loira de sol que Júpiter deixou a gruta para sempre, indo aninhar--se sob o afago de Helena, que o recebeu entre os braços amorosos. Então, as harpas, os alaúdes, as sílfides e os elfos abandonaram a ilha de Semmele, que trocaram pela morada da Deusa a quem Júpiter escolhera para companheira. Gratas, vagarosas semanas volveram, no calor das novas doçuras, e todos os encantos de Helena resplandeceram de mocidade. Júpiter caiu numa outra embriaguez, no encantamento dos gozos desconhecidos. Mas ainda a saciedade chegou dentro de pouco; e uma noite em que Leda lhe apareceu, banhando-se nas águas do oceano, como um lírio boiando nas vagas, olvidou Helena, para se enredar no amor do peito mais opulento e forte que até aí tinha visto. Leda era caprichosa. Amou Júpiter, mas obrigava-o a transformações e a metamorfoses, humilhando-o na sua vaidade. Ao subir das auroras, fugia do leito mole e mergulhava nas águas frias, escondia-se nas conchas nacaradas; e ele seguia-a, lamentando-se num fundo suspiro. Os instantes mais felizes eram aqueles em que batia as suas asas de cisne entre os joelhos gordos da bem-amada.

— Por que me desdenhas, oh! Deusa? Pois não te quero eu com uma constância que ainda não tive por nenhuma outra? — preguntava Júpiter.

— É porque te amo muito, e quero que o teu amor seja firme para sempre. Se me entregasse sem resistência nos teus braços, oh! Júpiter, se me abandonasse humildemente aos teus beijos, a minha desventura seria irreparável...

— Pois, não é o amor imorredouro como nós?

— Não! Nem entre os Imortais existe a imortalidade do amor...

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Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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