domingo, 30 de junho de 2019

O Açude (Conto), de Francisca Júlia



O Açude

Viviam duas velhinhas em duas cabanas vizinhas, construídas num campo extenso e cobertas de um colmo tão verde que, de longe, se confundiam na cor geral da vegetação.
Ali passavam elas sua existência humilde, longe de toda a convivência importuna,, preocupando-se apenas com o cultivo da sua horta e com o trato dos seus bacorinhos.
À tarde sentavam-se juntas à soleira da porta, com o fuso na mão para distraírem-se, e conversavam horas inteiras sobre a sua vida passada, rememorando episódios antigos, velhas recordações da mocidade.
Eram felizes na sua miséria; não lhes faltavam ervas para a alimentação do corpo e orações para a purificação da alma.
Uma delas. porém, a que parecia mais moça, tinha um defeito — a preguiça. Abandonava-se durante o dia à preguiça, dormindo pelos cantos, esquecida do trabalho, de modo que muitas vezes era a sua vizinha quem lhe trazia o sustento.
Suas casas tinham sido feitas por elas mesmas numa planície rasa, muito plana, por onde os ventos passavam livremente, refrescando a atmosfera.
Do lado do poente havia uma coluna de certa elevação, regada por um arroio fresco e límpido, que nascia no alto e escorregava pelo dorso da colina em pequenas catadupas.
Do lado oposto, um rico proprietário tinha construído um grande açude, onde se acumulavam as águas de um rio próximo, cercado por uma represa de pedras. Essas águas serviam nas secas do estio para a rega das plantações.
Um dia um caminhante que atravessava a campina veio abrigar-se dos ardores do sol numa das cabanas onde as duas velhas estavam reunidas, a fiar.
E ele disse-lhes:
— Minhas velhinhas, é urgente que mudeis vossas habitações para o alto daquela colina, porque o açude está-se esboroando aos poucos, pode partir-se a represa e a água inundar este campo, matando-vos. Fugi daqui, velhinhas.
A mais velha, que era solícita e prudente, respondeu:
— Amanhã me mudarei.
A outra, que era, preguiçosa, contentou-se com sacudir os ombros, incrédula, e disse:
— Veremos.
De fato, no dia seguinte, mal a manhã tinha despontado, já a velhinha estava tratando da sua mudança, arrancando os batentes das portas, a palha do telhado, e pouco a pouco ia levantando, não sem pequeno esforço, sua nova habitação sobre a colina.
Depois de colocado tudo em seus lugares, feita a cerca grosseira que prendia as suas aves e bacorinhos, instalou-se descansadamente, livre de todo o perigo.
A outra, apesar das instâncias da primeira, deixou-se ficar em baixo, e, preguiçosa como era, ia adiando a mudança.
Uma tarde, quando o crepúsculo descia e espalhava um aspecto de tristeza religiosa sobre a verdura dos campos, a velhinha, que estava sentada na soleira da sua casa, no alto da colina, viu com espanto a represa de pedras que segurava as águas do açude romper-se com estrondo, cair, dando passagem a uma enorme massa d'água. A água caiu. desceu e veio galopando pelo campo, espumando e roncando, com uma força e ímpeto a que nada poderia resistir. Tudo que encontrava na frente ia torcendo e arrancando.
A velhinha preguiçosa deitou a correr, os cabelos soltos, gritando de desespero. Coitada!
A água alcançou-a logo, envolveu-a com a sua espuma, arrastou-a nas ondas e levou-a, morta já, até à outra extremidade do campo.
Sua companheira, que tinha ficado ao abrigo do perigo, por ser cuidadosa e prudente, elevou as mãos ao céu num resignado gesto de súplica.



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Pesquisa, transcrição e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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