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7/07/2019

A noiva do golfinho (Conto), de Xavier Marques


A noiva do golfinho

– “Havia uma linda tinharense chamada Marina, que era também a mais singular de todas as criaturas...”

Viveu em Tinharé, nas águas alterosas do sul.

Essa ilha é formada por um alto morro sempre afligido dos ventos fortes que correm da banda de leste.

Quando os temporais conflagram o oceano, a grande ruga de terra parece muito mais longínqua e inabitável; as suas palmeiras de longos caules vergam e rangem como as cordagens dos navios em tormenta. E se os ares abonançam, fujam as nuvens, brilhe o sol ou paire sereno o luar, fica sempre nas costas o eterno alarido das marés, sob os gritos das procelárias que futuram novas insurreições marinhas, naufrágios, lutas e agonias de marinheiros.

Foi ali, mas em tempo já muito antigo, quando a roca de Tinharé não dardejava ainda a torre nem o lume do farol, que viveu e morreu aquela, cuja história de amor tanto comovia as raparigas de sua condição.

Talvez ainda a conte alguma velha avó, como as de outrora, sob o puxado das casas de palha, lá no cimo do morro, à hora em que num horizonte imenso, cavado e tão profundo que alucina os olhos e a alma, começam a murchar os jardins de violetas e os rosais do crepúsculo.

Era a essa hora que costumava transitar pelas praias o espetro amoroso da infeliz que esteve para noivar com o mais esquisito, o mais misterioso de todos os noivos.

Depois vinham as sombras da noite envolvendo as bordas da ilha, onde se punha a roncar o terrível gargantão, comedor de pescadores e marinheiros; nos casais do morro conchegavam-se os vizinhos, unidos pelos mesmos sonhos e terrores que desciam com as trevas: e as velhas avós, acabando de narrar o idílio trágico da malfadada, deixavam errar mais um mistério sobre as rochas ermas de Tinharé.

***
Eis o que elas contavam.

Havia uma linda tinharense chamada marina, que era também a mais singular de todas as criaturas da ilha. Sua morada era antes o campo e as praias do que o palhote, onde participava do sustento de um casal de velhos. Daquela cor de leite coalhado não havia senão ela no lugar. Era delgada como um palmito e leve como uma pena: leve de corpo e de juízo. Os olhos tinha-os um nada sombrios, tirando a azul, e os cabelos, tão sutis e assedados como os fios de uma teia de aranha.

Nisso, como em tudo mais, ela se punha fora do vulgar, semelhante a uma ave estrangeira vinda pelo céu, num dia de tempestade, para espantar as aves ribeirinhas de Tinharé, que a desconheceram sempre, sempre até à morte. De comum com as outras apenas tinha o falar, isto é, as palavras com que dizia as mil extravagâncias que lhe acudiam à mente.

Que tivesse pai ou mãe ou parente qualquer, nunca ninguém o soube. Nas ilhas aparecem às vezes desses entes solitários como elas mesmas. A gente, contudo, mal se satisfazia com esta razão, e por muito tempo não se cogitou de outra coisa.

– Donde veio Marina?... De algum navio naufragado nos bancos de coral? De algum barco onde acaso viajava a mulher que se arrependera de a ter dado à luz? Teria sido entregue às ondas dentro de uma barquinha ou de uma condessa, como aquele inocente que passava na correnteza do rio e foi salvo por uma princesa?...

Depois ninguém mais indagou da origem de Marina. O gênio caprichoso, as excentricidades, as louquices dela fizeram esquecer esse enigma. Em vez de perguntarem de que parte e como viera à ilha, perguntavam todos com pasmo quem havia formado naquele corpo franzino de criança um coração tão poderoso para resistir e tão soberbo para desejar.


Oh! não, nunca se vira em gente humilde um desejo tão alto, nem tão pouca resignação ao seu destino. Se bem a entendiam, ela queria colher à mão os astros, como se apanham os malmequeres no vargedo. Ambiciosa e cobiçada nenhuma o foi jamais como a linda criatura. Mas pobres daqueles que se enamoravam de Marina: ela não lhes dava mais esperança do que os vagalumes dão luz. Se um instante os escutava, dias e semanas fugia até de vê-los. Procuravam-na, espreitavam-na e lá iam encontrá-la nas dunas da costa ou na crista de um rochedo, sozinha e pensativa, como que à espera de embarcação ou de alguém que lhe houvesse prometido entrevista.

Andava cega pelas ondas ou por alguma visão que só a ela aparecia por cima das águas.

– Quem será?

E os tinharenses moços a rogar, a implorar-lhe piedade. Porque eles sofriam, coitados! sofriam constante e duríssimo desprezo, que é a maior pena de amor. Se eram bons faziam-se melhores, a fim de merecê-la. Trabalhavam dias inteiros no mato a cortar piaçaba, pelejavam na pesca e marinhagem com borrascas e calmarias. Como eram tidos por famosos indolentes, puniam-se com aturadas labutações; que assim é que eles catavam a confiança das raparigas que apeteciam por amantes. E todas elas amaram, deram marinheiros ao mar e cultivadores às vargens. Só a caprichosa Marina se recusava à lei da tribo, querendo, pelos modos, imitar a figueira que negou um fruto a Nosso Senhor.

– É uma ovelha brigada com o rebanho...

Assim diziam as outras, não menos escandalizadas pelo contraste da sua vida, sempre ao revés dos gostos, dos sentimentos, do pensar e das maneiras comuns. Quando todos riam, ela se mostrava amuada e triste. Se um temporal sobrevinha, atordoando o morro com o estrépito das vagas, toda a gente se recolhia silenciosa; mas agora é que era ver Marina aos saltos, cantando, rebentando de alegria. Sua voz acrescentava às cantigas mais sabidas umas toadas, uns retornelos de paixão e melancolia estranhas.

– Quem te ensinou essa toada, Marina?

– Foi o mar – respondia.

No meio do canto, repentinamente, calava-se, lançava suspiros à toa e muitas vezes acabava enxugando os olhos com a teia esparsa dos cabelos.

Assim vivia a desditosa num ansiar sem repouso, abrasada por uma sede sem aplacamento. Vela que transluzisse no horizonte fazia-a cismar como uma estrela que corresse no céu. Barco que aproasse à ilha, esperava-o a pé quedo, no porto, com o coração em frêmitos. Sumia-se a vela; do barco desciam os costumados, os vulgares tinharenses. Marina voltava, ora triste, morta de tristeza, ora agastada, mais intratável que um bicho. Criam muitos que ela amava, que curtia uma grande paixão de homem desconhecido. A dificuldade estava em explicar-se onde vira esse homem, que ninguém nem por sombra o encontrara naquele monte de terra, cujos habitantes, sem excluir os próprios animais, andavam pisando os mesmos sítios e caminhos.

Um dia, enfim, depois de violenta marulhada, achando-se ela no topo de uma escarpa, de frente para o oceano, alguém se aproximou e pôde ouvir-lhe a súplica inaudita que dirigia às ondas ainda ressentidas da tempestade.

– Mar, ó mar dos golfinhos encantados e das sereias feiticeiras, que é do meu amado marinheiro, aquele que me prometeste e por quem anseio mais que as tuas ondas? Traze o meu noivo, ó mar querido, que já não tenho suspiros no peito para lhe mandar!

Desde então, sempre que Marina desaparecia da chã do morro, era certo estar pousada em algum seixal da costa, a falar com o oceano essa língua que só assentava na loucura ou nos lábios cabalísticos de alguma bruxa. Quando subia, era mais muda que as pedras; os olhos semicerrados, fugidos com horror deste mundo, como que os vazara para não ver os pobres colhedores de piaçaba que andaram a ferir os pulsos nas palmeiras de espinho e agora desafogavam o peito em cantigas dolentes, capazes de comover os penhascos.

Enquanto eles padeciam, a visionária sonhava.

Passava dias longos dentro do seu sonho, donde só se desprendia aos primeiros uivos do temporal.

Ei-la de novo a folgar, a cantar e a dançar.

Isso fez compreender aos tinharenses que o marinheiro prometido devia chegar, como as aves da procela, num grande ruge-ruge de ventania e chuvas. A certeza desse amor agourento e quase fantástico teve-a a gente do morro uma manhã em que Marina, acordando de bom humor, contou às vizinhas:

– Sonhei que um navio tinha ferrado na costa da ilha. Era todo branco e brilhava como um navio de prata. As velas alvejavam como as roupas do coradouro ao luar. Na proa trazia duas figuras, que eram dois golfinhos de ouro, com as caudas retorcidas voltadas para o céu. Veio de bordo um moço corado e lindo, que parecia mais um príncipe do que um marinheiro, e subindo a este morro, chegou-se a mim e disse:

–  “Bela menina, há muito tempo que te procuro, saltando de ilha em ilha, de praia em praia, trazido pelas ondas e pelos ventos que me levavam teus suspiros e queixumes. Sabes quem sou eu? Sou o príncipe dos marinheiros. Aqui estou e venho buscar-te... prepara-te e segue-me, se é do teu agrado”.

E Marina, crente e feliz, pôs-se a girar como o fuso nas mãos da fiandeira.

Entretanto foram correndo as semanas e o marinheiro não chegava, nem com tormenta nem com bonança, em navio de prata ou barco de madeira. Pelas praias e grotas e ambiciosa criatura continuava a penar, a gemer e a exclamar:

– Ó mar dos golfinhos encantados e das sereias feiticeiras, que é do meu amado marinheiro, aquele que me prometeste e por quem anseio mais que as tuas ondas?...

***

Um dia, tendo descido a escarpa do morro, logo às primeiras claridades da manhã, Marina afastou-se até sumir-se, do tamanho de um pássaro, nas areias espessas do litoral. Havia passado um rebojo; aves pesadas sulcavam o céu, baixando às vezes até molhar as penas na espumarada do oceano.

As rochas marinhas, os morretes de pedra verdejavam de camadas de limo que as marés de água-viva tinham criado, na conjunção da lua.

A tinharense demorou-se horas esquecidas, mas quando apareceu não cabia em si de contente. Nas faces de leite coalhado fulgia-lhe uma luz de nácar puríssimo, o cabelo esvoaçava, os olhos dilatados e mais azuis ardiam em febre de alegria. E ela chilrava como uma andorinha a fazer verão.

– Que viste hoje, Marina?

– Vi o meu amado.

Vira-o de fato. Depois de tanto suspirar, de tanto ansiar, de tanto gemer, o mar lhe mandara o prometido e desejado amante. Não viera em nave de prata nem esquife de madeira: ela o encontrara de súbito, encostado a um morrete verdejante, ao pé da escarpa que se abria em grutas habitadas por aves marinheiras. Belo, feiticeiro, fresco e palpitante como um peixe n´água, tinha o ar de quem dizia: “Pensavas que eu não vinha, amor? Pois aqui estou”. Era fielmente aquele que ela trazia retratado na mente, – marinheiro e jovem, de cabelos ruivos como as barbas da lagosta, o rosto vermelho da lustrosa cor dos salmonetes, os olhos amorosos, esverdeados, profundos como os abismos onde flutuavam as querenas de seus navios de sonho. Sua voz (ele falou-lhe) era um murmúrio doce e branco, só comparável ao rumor dos mimosos búzios que ela gostava de escutar; seu sorriso (ele sorriu-lhe) deixou-a fascinada como o brilho de escamas dos alvíssimos dentes...

E agora, todas as manhãs, partia Marina do puxado da casa e lá ia esconder-se com a sua felicidade nas grutas mais silenciosas, longe, entre as eriçadas fragas da costa. Passava quase os dias inteiros nesses retiros, em colóquios misteriosos com o noivo, de quem contava maravilhas, o lindo noivo que a enchia de promessas, de carícias e lisonjas, mas que a ninguém aparecia e a quem todos viam somente pelos olhos da encantada criatura.

– Que ele era esquivo, confirmava Marina, mas havia de vir, havia de mostrar-se e então julgariam do tesouro que as vagas lhe trouxeram.

Supunham-no algum náufrago ou mareante fugido de bordo. Pelos traços que ela dava, seria estrangeiro, vindo por altos mares, dos países desconhecidos e tão remotos que parecem lendas.

Muita moça do morro invejou a estrela da gloriosa tinharense. Como ela, desejavam ser loucas para ter sonhos de que assim despertassem. Os moços aquietaram-se e perdoaram-lhe o orgulho e os desdéns, porque ela, enfim, já amava. Os velhos rogavam ao céu pela paz daquele coração que tanta piedade merecia.

Todos os dias estava o noivo para subir ao casalejo; e cada dia se malograva a expectativa dos tinharenses.

Decorreram tempos. Ninguém viu, de longe sequer, o marinheiro de Marina. As raparigas e os homens baldaram passos e tocaias; nunca atinaram nem com a gruta onde se refugiavam os felizes amantes.

Já no espírito da gente nascia a suspeita de algum encantamento ou bruxaria, quando de repente se soube que Marina pedira ao casal de velhos um canto da casa de palha para morar com o adventício que viria a desposá-la.

Ela por sua vez fazia aprestos de noivado, dizendo e jurando:

– Está para breve...

De tábuas de pau-louro mandou construir um leito sobre quatro toros. De macias flores de macela encheu uma colcha, que estendeu nas tábuas. A mulher que cosia rendas teceu-lhe fronhas para os travesseiros. Marina carreou a areia mais branca da praia e sessou-a numa urupema sobre o chão da camarinha, onde passou a queimar folhas aromáticas de alecrim.

Nada mais faltava para as núpcias, a não ser quem lhes deitasse a bênção.

Num domingo pela manhã foi anunciada a vinda do marinheiro.

– Companheiras, ajudem-me a enramar esta casa para que se torne digna de receber o meu amado.

Vieram do mato braçadas de folhagem fresca, ainda gotejante de orvalho, ramos de murungu que pareciam cobertos de borboletas vermelhas, cachos alvos de ingazeiro, lírios convales e regaços cheios de flores amarelas de S. João.

As moças, amigas de folgar, pregavam palmitos e canas aos portais da casa, e com os cipós floridos das trepadeiras fizeram festonadas, que pendiam das vergas do palhote. O terreiro alastrou-se de conchas e juncou-se de folhas de pitanga. A casa dos velhos parecia um bosque sagrado, todo em flor, para as núpcias de uma ninfa.

Vieram os bons cantores com as violas. Todas as suas mágoas se finaram, por não haver mais coração que disputar. Dentro de poucas horas iam conhecer o ente privilegiado que cativara e possuía o coração arisco da tinharense.

Assim que o sol abrandou e no céu do morro, azul da cor do seu mar, começaram a desdobrar-se as nuvens róseas e douradas da tarde, Marina, com os cabelos ornados de junquilhos, saiu a correr pelo trilho escarpado, ao encontro do marinheiro que a esperava ao pé das rochas.

Lá se demorou mais de uma longa hora. Mas com surpresa dos convivas voltou sozinha.

– Teu noivo, Marina?...

– Ele aí vem, ele aí vem... Soem as violas, para que haja prazer em volta do meu amado.

As violas soltaram rasgados vivos e estridentes. Pararam. Repetiram as tocatas.

E o marinheiro não chegava.

– Ele aí vem... Dancem, companheiras, para que sejam de primor as boas-vindas do meu amado.

As moças rodaram como fusos. Cantaram. Sapatearam. E o marinheiro não subia.

– Ele aí vem... Ora esperem.

Marina tornou a descer, mais rápida que uma andorinha no ar, com o cabelo espalhado a derramar os junquilhos de que se havia engrinaldo para as núpcias.

Desceu e sumiu-se...

Nisto as sombras caíram pesadamente, enrolando-se ao longo da praia. As nuvens do crepúsculo, de róseas fizeram-se roxas, de roxas tornaram-se pretas.

Uma vasta mancha negra fechou num capuz o horizonte do morro, e um vento irado, esmigalhando vagas e vagas contra as penhas da costa, ganhou o cimo, passou esmagando as copas das árvores, que se punham a urrar, enquanto os caules das palmeiras gemiam.

Maria não voltava.

Homens e raparigas recolheram-se ao palhote, surpreendidos por essas trevas repentinas e por essa tormenta assombrosa, em que o oceano bramia pelas bocas de milhões de feras assanhadas, que em feras se haviam transformado as ondas.

Marina continuava ausente!

Palmas e ramagens eram arrancadas do terreiro e destruídas, como se lhes tocassem as mãos de iracundos demônios. A casa como que girava num vórtice; as próprias criaturas tinham medo de ser arrebatadas pelas refregas. Apelos, protestos furiosos articulavam-se no alarido da tempestade. O vento silvava maldições, o mar levantava clamores de vingança. Parecia que todos os gênios marinhos, peixes encantados, sereias, feiticeiras raivosas, acudiam das suas glaucas moradas para impedir a união dos amantes...

Nem Marina, nem o marinheiro!...

Só então se fez a luz sobre o mistério daquele amor desnatural...

– Pai do céu, que horror!

E ao espírito da gente surgiu, mas só então, no seu feitio verdadeiro, aquele que sob as formas enganadoras de homem tinha vindo iludir a ambição da triste e malfadada.

Noivado, se o houve, foi no seio do abismo, no leito frio do mar, donde nunca mais voltou a noiva do golfinho.

6/30/2019

As duas moças (Conto), de Francisca Júlia



As duas moças
Duas moças viviam em casa dos seus pais, numa aldeia quase deserta onde todos eram igualmente pobres. Cada um era proprietário do seu próprio terreno donde tirava o sustento para a sua família.
Os habitantes, ignorantes na sua simplicidade, não conheciam a riqueza nem a miséria. Se lhes falavam em palácios de arquitetura custosa, em luxo, carruagens e aparatos de riqueza, eles riam-se, como se de fato estivessem ouvindo contos de fada ou novelas do outro mundo; quando lhes falavam em miséria, em horrores de fome, sorriam também, e diziam que não há jeira de terra sem couve e couve que não alimente.
Este povo era tão simples, que dormia com as portas abertas, sem receio aos ladrões e malfeitores, porque não acreditava na existência desta gente.
Estas duas moças é que estavam incumbidas do trabalho da casa, plantio das hortaliças, criação das aves, porque seus pais já eram velhos e inaptos para qualquer serviço.
Uma delas, Rosa, quando toda a família estava reunida ao redor da mesa, conversando sobre assuntos domésticos, como as próximas chuvas, a surribação da terra, a peste das galinhas, ergueu-se e falou assim:
— Meus velhos pais e minha boa irmã, vou deixá-los por algum tempo; estou cansada desta vida monótona, sem futuro, desta pobreza geral, em que cada qual tem de trabalhar para comer; eu nasci para uma existência mais luxuosa e de mais conforto, onde tenho carruagens para exibir a minha formosura, palácios para mostrar minha elegância e leitos de seda e púrpura para afogar minha preguiça. — Adeus.
Todos começaram a chorar, as faces escondidas nas mãos, sufocados pelos soluços.
O velho falou com amargura:
— Ingrata filha, vai; sê feliz; que os teus desejos se cumpram e que a fortuna espalhe riquezas pelo teu caminho, como um semeador lançando grãos sobre um terreno fértil; porém que as saudades de teus velhos pais, que abandonaste, e da pobre aldeia, em que nasceste, arranquem lágrimas aos teus olhos, suspiros ao teu peito e ofegos ao teu coração.
Então a boa filha, que tinha ficado, depois de abraçar os pais, prometeu-lhes com amor que nunca havia de abandoná-los, que havia de ficar sempre na companhia deles, como um consolo à sua velhice.
Os tempos passaram. Um dia um rico lavrador, moço ainda e extremamente belo, passou por essa aldeia, enamorou-se desta pobre rapariga e pediu-a em casamento.
Os velhos consentiram. Era a felicidade esperada por tanto tempo, que lhes entrava em casa. Enriqueceram.
E Rosa, que fora tentar fortuna, voltou mais pobre ainda, coberta de andrajos, os pés descalços.
Os pais, quando a viram, abraçaram-na chorando, sensibilizados pelo aspecto humilde das suas roupas e da sua fisionomia.
E perguntaram-lhe:
— Onde está tua riqueza, Rosa?
— Na experiência, meus bons pais, na miséria que sofri, na fome que me devorou as entranhas. Se eu soubesse dos sofrimentos por que havia de passar, não vos abandonaria e deixava-me ficar convosco. Os meus sofrimentos datam da minha partida: a riqueza das donzelas está no carinho dos seus pais.



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Pesquisa, transcrição e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

Os dois mendigos (Conto), de Francisca Júlia



Os dois mendigos
Caminhava pela estrada real um moço de aspecto nobre, feições agradáveis, e trajava de maneira modesta, porém distinta.
Tinha os cabelos enrolados em anéis que lhe cobriam o pescoço, e um ar simpático que condizia bem com a graça natural da sua pessoa.
Seu principal encanto estava com certeza nos olhos claros, de uma expressão infantil, penetrados da mais encantadora doçura.
Caminhava distraidamente, os olhos fixos no chão.
Em sentido contrario vinham dois mendigos maltrapilhos, as roupas esburacadas, animados aos bordões, a cabeça caída para a frente, como vergados ao peso dos anos. A idade e os sofrimentos tinham-lhes arrancado os cabelos, cavado grandes rugas na face e enfraquecido todos os músculos.
Como tivessem caminhado muito, tinham os pés inchados e umedecidos do sangue que vertiam; sentiam fome; estavam extremamente pálidos, os passos trôpegos, os lábios trêmulos, de modo que nem podiam falar, mas apenas balbuciar como as crianças.
O vento impiedoso impelia-os para a frente, forçando-os a andar depressa e fazendo-os tropeçar nos calhaus da estrada.
Quando se aproximaram do moço, caíram de joelhos, mais por cansaço do que por desejo de implorar a piedade, e gemeram ao mesmo tempo:
— Uma esmola, senhor.
O moço sentiu as lágrimas empanar-lhe a vista e, penetrado de compaixão, apalpou os bolsos; mas, como encontrasse apenas uma moeda, e a justiça divina manda que se distribua a esmola em partes iguais, disse com malícia:
— Perdoai-me, pobres velhos, a vossa miséria sensibilizou minh'alma e acordou soluços em meu peito; porém não tenho um real para consolar vossos sofrimentos.
Os velhos levantaram-se.
O primeiro olhou o rapaz com mal contido rancor, os olhos intumescidos de cólera, e gritou brandindo o bastão com a pouca de forças que lhe restavam:
— Maldito sejas tu e malditos todos os teus; que o fogo devore a tua propriedade; que as águas engulam a nau em que embarcares; que teus afetos pereçam e que um vento de desgraça passe sobre a desolação da tua existência!
E partiu.
O outro velho fitou com ternura a face do jovem, e falou-lhe:
— Se feliz, mancebo, que as minhas mãos tremulas possam tirar de sobre tua fronte as pragas do meu companheiro; que a tua propriedade seja firme, que as águas sejam mansas na tua viagem e que a bênção do Senhor esteja sempre suspensa sobre tua cabeça.
Então o moço tirou do bolso a moeda de ouro e deu-a ao mendigo.
Assim devemos praticar sempre: nunca devemos dar esmola, principalmente quando o nosso dinheiro é escasso, sem observar se a pessoa que nos pede é merecedora da nossa piedade.



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Pesquisa, transcrição e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

O Açude (Conto), de Francisca Júlia



O Açude

Viviam duas velhinhas em duas cabanas vizinhas, construídas num campo extenso e cobertas de um colmo tão verde que, de longe, se confundiam na cor geral da vegetação.
Ali passavam elas sua existência humilde, longe de toda a convivência importuna,, preocupando-se apenas com o cultivo da sua horta e com o trato dos seus bacorinhos.
À tarde sentavam-se juntas à soleira da porta, com o fuso na mão para distraírem-se, e conversavam horas inteiras sobre a sua vida passada, rememorando episódios antigos, velhas recordações da mocidade.
Eram felizes na sua miséria; não lhes faltavam ervas para a alimentação do corpo e orações para a purificação da alma.
Uma delas. porém, a que parecia mais moça, tinha um defeito — a preguiça. Abandonava-se durante o dia à preguiça, dormindo pelos cantos, esquecida do trabalho, de modo que muitas vezes era a sua vizinha quem lhe trazia o sustento.
Suas casas tinham sido feitas por elas mesmas numa planície rasa, muito plana, por onde os ventos passavam livremente, refrescando a atmosfera.
Do lado do poente havia uma coluna de certa elevação, regada por um arroio fresco e límpido, que nascia no alto e escorregava pelo dorso da colina em pequenas catadupas.
Do lado oposto, um rico proprietário tinha construído um grande açude, onde se acumulavam as águas de um rio próximo, cercado por uma represa de pedras. Essas águas serviam nas secas do estio para a rega das plantações.
Um dia um caminhante que atravessava a campina veio abrigar-se dos ardores do sol numa das cabanas onde as duas velhas estavam reunidas, a fiar.
E ele disse-lhes:
— Minhas velhinhas, é urgente que mudeis vossas habitações para o alto daquela colina, porque o açude está-se esboroando aos poucos, pode partir-se a represa e a água inundar este campo, matando-vos. Fugi daqui, velhinhas.
A mais velha, que era solícita e prudente, respondeu:
— Amanhã me mudarei.
A outra, que era, preguiçosa, contentou-se com sacudir os ombros, incrédula, e disse:
— Veremos.
De fato, no dia seguinte, mal a manhã tinha despontado, já a velhinha estava tratando da sua mudança, arrancando os batentes das portas, a palha do telhado, e pouco a pouco ia levantando, não sem pequeno esforço, sua nova habitação sobre a colina.
Depois de colocado tudo em seus lugares, feita a cerca grosseira que prendia as suas aves e bacorinhos, instalou-se descansadamente, livre de todo o perigo.
A outra, apesar das instâncias da primeira, deixou-se ficar em baixo, e, preguiçosa como era, ia adiando a mudança.
Uma tarde, quando o crepúsculo descia e espalhava um aspecto de tristeza religiosa sobre a verdura dos campos, a velhinha, que estava sentada na soleira da sua casa, no alto da colina, viu com espanto a represa de pedras que segurava as águas do açude romper-se com estrondo, cair, dando passagem a uma enorme massa d'água. A água caiu. desceu e veio galopando pelo campo, espumando e roncando, com uma força e ímpeto a que nada poderia resistir. Tudo que encontrava na frente ia torcendo e arrancando.
A velhinha preguiçosa deitou a correr, os cabelos soltos, gritando de desespero. Coitada!
A água alcançou-a logo, envolveu-a com a sua espuma, arrastou-a nas ondas e levou-a, morta já, até à outra extremidade do campo.
Sua companheira, que tinha ficado ao abrigo do perigo, por ser cuidadosa e prudente, elevou as mãos ao céu num resignado gesto de súplica.



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Pesquisa, transcrição e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

Rei Fantasma (Conto), de Francisca Júlia



Rei Fantasma 
(Balada alemã)

Quem é que cavalga a esta hora, na escuridão da noite, sob a chuva que cai e o vento que uiva? As árvores agitam a folhagem descabelada, arrepiadas do terror da noite.
O velho passa apressadamente, apertando nos braços o filhinho amado, fazendo-lhe com o rosto e com as mãos um carinhoso abrigo.
— Oculta-me o rosto, pai.
— Para que queres que te oculte o rosto, filho?
— Não vês o rei envolvido em seu manto de púrpura, brandindo o cetro como um louco?
— Não tenhas medo, filho, é uma nuvem e mais nada; é uma nuvem que estremeceu à fúria do vento e se desfez em água.
"Linda criança, vem comigo! vamos gozar as riquezas do meu reino, embriagar a vista no esplendor do meu ouro, correr os meus campos onde há flores perfumadas e árvores vergando ao peso dos frutos".
— Pai, pai! não ouves o que o rei me promete em voz baixa?
— Não é nada, meu filho; é o vento brando que murmura nas ramas e que resvala nas folhas, e mais nada. Filho, não tenhas medo.
" Criança linda, queres vir comigo? As minhas filhas são claras como a neve e têm cabelos louros como o sol; elas te conduzirão à dança noturna em companhia das fadas do bosque; elas te ensinarão brinquedos nunca vistos e te farão passear numa barquinha azul sobre as águas do lago. E tu hás de adormecer ao seu canto e sonhar sob seus afagos".
— Pai, pai! Não vês as filhas do rei dançando lá em baixo na planície, vestidas de branco, com os rostos escondidos nos cabelos?
— Meu filho, meu filho, eu vejo bem: são os salgueiros distantes, embranquecidos de neve, que o vento agita e balança, e mais nada.
"Amo-te, bela criança; gosto do teu rosto pálido, dos teus olhos azuis como o céu e dos teus cabelos negros como a noite; vem! quero levar-te comigo para deslumbrar-te nas riquezas do meu reino. Se tentas resistir, arranco-te dos braços do teu pai".
— Pai, pai! o rei me leva, o rei me arranca, o rei me mata. Livra-me, pai! ele é tão mau, ele é tão grande, ele é tão feio!
O pobre pai treme; fustiga o cavalo; atravessa a escuridão da noite sob a chuva que cai e o vento que uiva; aperta tanto o filho contra o peito que o sufoca.. Muito tempo depois, quando entrou em casa, tinha nos braços a criança morta.



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Pesquisa, transcrição e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

Anacreonte (Conto), de Francisca Júlia



Anacreonte
Em Téos, na Grécia antiga, havia um poeta que se chamava Anacreonte.
Era velho, tinha os cabelos inteiramente brancos e as barbas aneladas e longas, que lhe cobriam o peito e lhe davam um aspecto simpático e venerando.
Era o homem mais feliz que havia. Como todos o amavam e o distinguiam com uma admiração sem limites, nada lhe faltava.
Sua habitação ficava à beira do mar, cujas ondas, na enchente, vinham até à sua porta, quebrando-se em espumas alvas.
Pela manhã, mal a aurora tinha nascido, as camponesas de Téos vinham em grupo trazer ao poeta o sustento do dia. Uma trazia um cântaro de barro cheio de leite gordo, outra um púcaro de saboroso vinho espumante e frutas de todas as qualidades; outra ainda um vaso de água pura para as abluções matinais do poeta. Depois untavam-lhe as barbas e cabelos com óleos aromáticos, perfumavam-lhe os pés com mirra sândalo, e esperavam, sentadas no chão, os agradecimentos do velho.
Anacreonte ficava em pé, majestoso na sua inspiração poética, e, com largos gestos e voz grave, ia cantando as odes que tinha composto durante a noite, fazendo-se acompanhar a uma lira de prata, cujas cordas desferiam os mais melodiosos acordes.
As raparigas subiam em seguida e atravessavam o campo em direção às suas casas, cantando as odes do poeta com suas vozes juvenis. Os camponeses, que não podiam ir fazer ao velho a visita matinal, porque os impedia o trabalho da lavoura, a criação das ovelhas e o fabrico do vinho, contentavam-se com vir ao encontro das moças, para ouvir dos seus lábios as últimas composições de Anacreonte.
Assim vivia ele, absolutamente feliz, querido e admirado por todos, preocupando-se apenas com seus versos, indiferente a outros afazeres.
Policrato, porém, tirano de Samos, curioso por conhecer o poeta, ouvir-lhe dos próprios lábios a poesia das suas odes, mandou chamá-lo.
Anacreonte, uma bela manhã, sobraçando a sua lira de prata encordoada de novo, com sua túnica de púrpura presa aos ombros, uma coroa de pâmpanos e heras em torno à fronte, embarcou numa galera, e partiu mar fora.
Policrato tinha ordenado que se preparasse um banquete real para festejar-lhe a recepção. Anacreonte apareceu.
Todos os que estavam ao redor da mesa, onde se ostentavam as mais extraordinárias iguarias, levantaram-se com as taças transbordantes e gritaram:
— Evohé! — que era o grito de satisfação dos gregos.
Anacreonte, então, em pé no meio dos convivas, admirável na sua roupagem de púrpura, empunhou o instrumento sonoro, arrancou um acorde e começou a entoar um hino de louvor a Policrato. Seus versos eram tão belos, tão inspirados, sua voz tão clara, que todos estavam suspensos de admiração, embriagados de poesia. Policrato aproximou-se do poeta, curvou-se em sinal de admiração ao seu gênio, deu-lhe uma bolsa cheia de moedas de ouro, e disse-lhe:
— Toma esta bolsa; é tua; contém uma fortuna. Quero que sejas o homem mais poderoso de Samos. Amanhã cantar-me-ás uma ode igual a essa.
Anacreonte agradeceu. À noite, quando se retirou para os seus aposentos, começou a pensar na fortuna que lhe pertencia, nas terras que havia de comprar à beira mar, plantadas de vinha, nas ovelhas brancas pastando pelos outeiros, no cortejo de escravos que havia de ter, na felicidade, enfim, que lhe dariam aquelas pesadas moedas de ouro. E não pode dormir, tal era a satisfação de que se achava possuído.
Pela manhã tinha um aspecto doentio, os olhos amortecidos.
Procurou Policrato e disse:
— Senhor! aqui está a vossa bolsa e o ouro que ela contém. Não a quero. Desde que a poesia bafejou minh'alma, ainda se não passou uma noite em que não compusesse uma ode; ontem, porém, a riqueza que me destes preocupou tanto minha imaginação, que não consegui dormir nem compor a ode que me pedistes. Adeus. Quero partir para Téos, pobre como vim, porém feliz na minha pobreza. Para que servem fortunas? Nada me falta: tenho o bom leite, o excelente vinho, a água fresca para as minhas abluções e a amizade dos meus vizinhos. Esta é a minha riqueza. Adeus.


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Pesquisa, transcrição e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

O sino que anda (Conto), de Francisca Júlia



O sino que anda 
(Imitação de Goethe)

Era um dia uma criança tão inquieta e travessa, tão amiga dos brinquedos e da ociosidade, que não tinha paciência de estar por muito tempo ajoelhada na igreja, aspirando o perfume do incenso, sob a luz dos altares.
Quando chegava o domingo, à hora de ir fazer suas orações, achava sempre um pretexto para correr até ao campo, à procura das borboletas e de ovos de passarinhos.
Disse-lhe a mãe um dia:
— O sino chama-te, meu filho, o sino toca, o sino fala-te, o sino prescreve-te os deveres da religião e obriga-te a assistir às missas; e se continuares a fugir para o campo, um dia o sino há de descer da altura em que está e correr atrás de ti.
Mas a criança pensou:
"O sino está tão alto, badalando lá em cima, preso nas paredes da torre!..."
E seguiu adiante, correndo pelos atalhos e devesas, ávido de ar e de liberdade.
Mas que medo, meu Deus! que terror lhe arrepia os cabelos e lhe empalidece o rosto. Numa curva do caminho o sino aparece, andando como se tivesse pernas, a ralhar como se tivesse boca. A pobre criança, desesperada, corre de um lado para outro, tropeçando nas pedras, rasgando-se nos espinhos.
E o sino cai. O pobrezinho corre, corre sempre, toma a direção da igreja e entra, mal acordado do susto. Desde esse dia, quando chega o domingo, ou algum dia de festa, ele é o primeiro a ir à igreja, obedecendo ao primeiro toque do sino, sem ser preciso que ninguém o convide.



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Pesquisa, transcrição e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

O Maníaco (Conto), de Francisca Júlia



O Maníaco
Viam-no sempre por montes e vales, exposto à chuva que lhe encharcava as roupas, ou ao sol que lhe queimava a pele, curvado, com os olhos fixos no chão, como quem procura um objeto perdido.
Na primavera, quando os rosais da cerca estavam floridos, os campos verdes e os passarinhos alegres, cruzando-se no ar numa revoada feliz, o pobre rapaz passava, atravessava as campinas, subia as montanhas, indiferente à beleza da paisagem, os cabelos voando ao vento.
Quando se sentia muito fatigado, sentava-se na ponta de uma pedra e adormecia.
Alimentava-se de frutas silvestres, bebia água á nascente dos ribeiros, e, à noite, abrigava-se debaixo de uma árvore ou no fundo de uma gruta, como um animal selvagem.
Um camponês, que o conhecia, chamou-o um dia e perguntou- lhe com curiosidade:
— Ó rapaz! que é que andas fazendo pelos campos e bosques, todos os dias, exposto ao sol e à chuva?
— Procurando tesouros.
— E tens alguma esperança de achá-los?
— Sim, afirmou o moço com convicção, correndo os olhos pela extensão das campinas.
— É melhor, disse o campônio em tom de conselho, que mudes de vida; tu, nesta faina de procurar tesouros, tornas-te um homem completamente inútil, inapto para o trabalho. É melhor, pois, que te esqueças dos tesouros, que os não há, e procures outro gênero de vida em que aproveites a tua inteligência e o teu trabalho.
— Não, disse o maníaco, se há muitos anos dediquei minha existência à procura de tesouros, é porque tenho certeza de encontrá-los.
— Mas como?
— Uma noite, era eu pequeno ainda, estando adormecido em meu leito, apareceu-me uma fada em sonho, que me falou mais ou menos assim: "Tu estás destinado pela sorte a ser o homem mais rico do mundo, e cuja fortuna te facilitará os meios de vencer os maiores soberanos da terra, de conquistar reinos e mares e dominar sobre tudo com o poder do teu cetro. Legiões inteiras de soldados, vestidos de couraças e armados de lanças, te acompanharão nas conquistas; sobre os mares terás navios embandeirados, infindáveis domínios em terra, e um exército de lacaios, ricamente vestidos, que se hão de curvar, submissos, á voz do teu mando. Para isso, porém, é necessário que, logo que fiques homem, vás por campos e montanhas, planícies e vales, sem medo às tempestades nem às noites, em procura de um incalculável tesouro que a sorte destinou para enriquecer-te". Assim me disse a boa fada, com uma voz firme e segura, inspirada pela fatalidade do Destino.
Hoje sou um homem; cumpre-me obedecer-lhe; e, em quanto não encontrar a fortuna que se acumulou para o meu gozo, irei caminhando sempre, mundo fora, os olhos no chão, as roupas apodrecidas de uso, como um mendigo de estrada.
Dito isto, levantou-se, passeou a vista em torno, curvou a cabeça e partiu.
A noite tinha cabido. A lua, muito clara, apareceu entre as nuvens e inundou os campos com sua luz argêntea.
O maníaco foi seguindo.
"Infeliz rapaz!" pensou piedoso o camponês, acompanhando-o com os olhos. Quantos também não há no mundo que atravessam uma existência inútil, tão inútil talvez como esta, incapazes de trabalhar, esperando que a felicidade os venha procurar no sonho, como este louco que pensa encontrá-la no solo.



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Pesquisa, transcrição e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

A Ovelha (Conto), de Francisca Júlia



A Ovelha 
(Fábula)

A ovelha, um dia, muito triste por não ter forças para lutar com os cães que a mordiam, ou armas de defesa contra a ferocidade dos lobos, dirigiu-se a Júpiter e expôs-lhe suas queixas:
— Pai, todos os animais que vivem sobre a terra, desde o inseto ao paquiderme, têm meios de defender-se contra os ataques; e coragem para provocar as lutas. Eu, porém, sou tímida e indefesa: tudo me causa medo. Queria, pois, que me désseis uma arma qualquer.
Júpiter, tocado de piedade, perguntou-lhe:
— Queres um veneno oculto nos dentes, para dar a morte aos que te fizerem mal?
— Oh! não! respondeu a ovelha. Os animais venenosos são nojentos e causam medo a todos.
— Queres ter na boca duas fileiras de dentes afiados, como os leões e os lobos?
— Oh! não! Os animais carnívoros são tão odiosos e antipáticos!
— Queres saber arremeter, como os touros, com duas pontas na cabeça?
— Oh! não! Eu causaria terror aos outros animais, e não seria acariciada pelos pastores.
— Que queres, pois? gritou Júpiter, impaciente.
— Nada, senhor, nada quero. Prefiro viver assim, tímida e fraca, porém estimada e afagada por todos.

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Pesquisa, transcrição e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

O Monge (Conto), de Francisca Júlia



O Monge
Uns mercadores, com suas malas às costas, caminhavam em direção à cidade, para vender suas mercadorias. Mas a viagem tinha sido longa e eles estavam cansados.
Tinham atravessado campos, galgado montanhas e sentiam já tanta fadiga, que resolveram sentar-se sobre a relva para descansar. Mas o sol estava muito ardente e eles seguiram adiante. Entraram num bosque onde a sombra era fresca e em cuja entrada havia uma gruta de pedras brutas, iluminada de alvas estalactites.
Penetraram, não sem algum receio, cautelosos, porque podia ser um covil de malfeitores.
Tudo estava às escuras. Mas, logo que se habituaram às trevas s da gruta, viram um monge de joelhos, as mãos postas, a fronte erguida, absorvido nas suas preces.
— Monge, disse um deles; perdoa-nos ter-te interrompido nas tuas meditações. Entramos em tua habitação para te pedir abrigo contra os ardores do sol.
— Entrai, viajantes, respondeu o monge mal desperto das suas contemplações místicas Todos os peregrinos terão aqui seguro abrigo contra as inclemências do sol e contra as tempestades da noite.
Os mercadores agradeceram, e, como sentissem fome e sede, falaram:
— Na nossa longa e perigosa jornada a fome devorou nossas entranhas e a sede secou nossas gargantas; mas tu deves estar tão acostumado ao jejum, que em tua habitação nada pode haver.
— Nada há, de fato, pobres viajantes; mas o poder de Deus é infinito e a sua misericórdia é sem limites. Então, de um gesto, fez jorrar de uma fenda da rocha um grosso fio de água clara, onde eles beberam até à saciedade; e, arrancando do chão uns calhaus que se transformaram em pães, entregou-os aos peregrinos, dizendo:
— Tomai; cumpriu-se a divina vontade.
Os mercadores, homens materiais e rudes, tremeram de susto, receando algum sortilégio diabólico; mas, ao mesmo tempo, diante da religiosa bondade e aspecto humilde do monge, comeram.
E um deles falou:
— Monge, se tu estás revestido de tanto poder e podes, com um gesto apenas, fazer brotar a água e transformar em pães os calhaus brutos, por que não fabricas também o ouro para gozares as delicias da riqueza? E por que vives oculto nas trevas desta gruta, como uma fera, emagrecido pelos jejuns e cilícios?
— Que errada e falsa compreensão tendes da vida, meus amigos! Sabei que o ouro serve somente para corromper os sentimentos, envenenar a alma, e não poderá dar-me os gozos a que eu aspiro. Ao menos, na pobreza em que vivo e que desprezais, sem as preocupações que acarreta a fortuna e os pecados que ela desperta, posso mergulhar-me inteiramente em minhas preces e na contemplação da divindade.
Os viajantes agradeceram ao monge o generoso acolhimento, beijaram-lhe respeitosamente as mãos e partiram.



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Pesquisa, transcrição e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

O Curandeiro (Conto), de Francisca Júlia



O Curandeiro
Cristo andava passeando em companhia de São José pelas ruas de uma aldeia, parando diante de cada porta a observar o trabalho de cada um.
Viu um ferreiro que dirigia imprecações contra o céu, porque o fogo da forja não era bastante forte para abrandar o ferro; um mercador sentado em uma pedra a contar o dinheiro ganho com usura; um ladrão que passava, de ar humilde de mendigo do templo, esfarrapado e imundo, ocultando sob os andrajos o produto do seu roubo; viu com horror alguns garotos apedrejando um velho estropiado; cães sem dono, magríssimos, uivando de fome pelas ruas, e lazarentos raspando as chagas com cacos de telha.
— Que gente ímpia! disse Jesus ao seu companheiro. São José abaixou o rosto, sem dizer nada, como se se sentisse envergonhado diante de tanta impiedade.
E foram caminhando, devagar, pelas tortuosas ruas da aldeia.
— Cada homem destes, falou Cristo, tocado de compaixão, se é rico, é perverso e cruel; se é pobre, é um revoltado da sorte, que vive a maldizer a pobreza. Parece que um gênio mau ou que a cólera divina derramou sobre esta miserável terra o aluvião de todos os pecados. Pobre gente!
— Bem difícil seria arrastá-la ao bom caminho.
— Impossível quase, murmurou Jesus; mas, enfim, para que se não diga que a nossa visita foi inútil e sem proveito, vamos ensinar a virtude com o bom exemplo ao primeiro que aparecer.
Nesse instante eles tinham passado diante de uma porta onde um curandeiro se anunciava com grandes gritos, dizendo-se milagroso.
Pararam.
Cristo ouviu o seu pregão e perguntou-lhe:
— Em que consistem as vossas curas milagrosas, e por que é que vos apregoais como o primeiro curandeiro do mundo? Que virtudes têm os vossos remédios e a vossa ciência? Que mágico vos ensinou tanta sabedoria? Mostrai-me vossas virtudes todas, para que eu vos acredite.
O homem começou a enumerar, com orgulho, as curas que praticara:
— Com óleo de oliva, a que misturei umas preparações, de que eu só guardo o segredo, curei um leproso em poucos dias; concertei a perna a um estropiado; dei vista a um cego e voz a um mudo; uma pobre mulher, que há muitos anos gemia no fundo do leito, ergueu-se e está hoje sã com os remédios que lhe dei. Tenho bálsamos para as feridas, óleos para as queimaduras, alívio para as dores, pós para as lepras e colírios para todas as doenças de olhos.
— Sois, na verdade, muito sábio; porém, por mais prodigiosas que sejam as vossas curas, nunca vos esqueçais de que o mundo é grande e nele devem haver homens de sabedoria igual ou superior à vossa.
— Igual, talvez; mas superior, não, afirmou com a natural soberba.
— Vejamos, pois, disse Cristo. Aqui está um homem (e apontou para o seu- companheiro) que, desde a infância, tem uma enorme chaga que lhe cobriu a perna inteira e o faz estorcer-se de atrozes dores. Vede se podeis curá-lo.
São José, que já estava prevenido ou tinha adivinhado a intenção do Mestre, ergueu a ponta do manto que o cobria e mostrou a perna, muito inchada e toda coberta de chagas vermelhas e roxas.
O curandeiro olhou com repugnância e untou a perna de São José com uns óleos frescos e perfumosos.
O Santo começou a gemer de dor, e grossas lágrimas lhe molharam as barbas.
O homem falou:
— Impossível curá-lo. Essas feridas são tão velhas que se radificaram por todo o corpo. Podeis seguir o vosso caminho, infeliz peregrino, que não encontrareis cura em parte alguma.
Cristo, então, disse-lhe:
— Vós nunca soubestes curar. O que não puderam fazer os vossos óleos, faço eu com um gesto.
Passou a mão de manso sobre as feridas de São José, e curou-as imediatamente.
O curandeiro caiu de joelhos, assombrado.
— Quem sois vós, senhor, que sabeis obrar tão grandes prodígios e milagres como estes?
— Um pobre peregrino, respondeu Cristo, com sua evangélica modéstia e religiosa humildade, que anda pelo mundo a aliviar as dores e sofrimentos humanos.



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Pesquisa, transcrição e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)