6/21/2019

O Amor do Sacristão (Conto), de Fernando Pessoa



O Amor do Sacristão
Naquele dia, o pobre alucinado estava mais triste do que nunca.
Parecia balbuciar palavras entrecortadas de pranto e raiva, quando dispunha na sacristia as vestes sacerdotais. O padre olhava atônito o definhamento progressivo do seu acólito, e por algumas vezes o interrogou a esse respeito, ao que ele respondia como melhor lhe convinha.
Chegara o momento dele o acompanhar, e manifestou-se no seu rosto um não sei quê de consolação, tão pronunciada, que o idoso sacerdote teve umas desconfianças, que mais tarde veio a sopor como a causa da sua tristeza indefinida.
O órgão, num choro monótono e soturno, convidava os fiéis à oração. Nesse dia afluíra à igreja uma multidão mais compacta do que de costume.
Nas varandas, os olhares das velhas matronas seguiam os menores movimentos das filhas, de olhar piedoso e santo, e de lábios nacarados, como as frescas rosas de Alexandria. Na capela-mor vagueava, de envolto com os aromas das violetas, pendentes dos seios das crianças, um tom religioso, que mais se manifestava, quando dentre a multidão saíam alguns suspiros ou soluços contrafeitos, arrancados, talvez, do peito de alguma desventurada que procurava alívio na prece — a companheira dos crentes.
Distraídos, os assistentes não observavam uma cena, verdadeiramente interessante, passada entre o sacristão timorato e uma loira, encoberta pelas bondosas mamãs.
Desgraçado rapaz! Enamorara-se de uma criança que o desprezava talvez mais do que desprezam o rochedo, cismando, entre as ondas murmurantes, os frêmitos das espúmeas vagas, tentando, em vão, abalá-lo.
Desgraçado rapaz! Nem pensava — tal era o seu amor! — que ajudava à missa, e seu rosto estava sendo o espelho do que lhe ia no coração, subjugado pelos risos tentadores de Cupido. Era tal a atração do olhar melancólico da pálida virgem, que o moço, embebido na contemplação das suas faces aveludadas, não atendia aos seus deveres.
Era já adiantada a missa, e ele ainda não ousara receber de um olhar da virgem satisfação e alento para uma semana e, quem sabe, se para sempre!
Eu não sou dos que conheço o amor de alguém, contemplando-lhe o olhar triste ou alegre, a face pálida ou rosada; no entanto a posição desalentada da cabeça, os suspiros que, de quando em quando, exalava, parecendo murmurar um nome, o olhar cheio de inocência, pureza e santidade, buscando, talvez, na face do Cristo amortecido a primeira letra da palavra — Esperança, tudo fez com que eu ficasse convencido de que aquele coração juvenil era de alguém — mas não do repugnante sacristão!

Entretanto o padre pronunciava o último oremus e o órgão findava uns trenos magoados.
Terminara a missa.
A igreja ia-se esvaziando pouco a pouco. As pequenas corriam para as mães, e estas beijavam algum grupo alegre de crianças loiras que distraídas, discutiam com as amigas do colégio sobre a elegância dos seus pequerruchos piegas...
Enquanto aqui se passava uma cena, toda infantil, na sacristia — silencioso — o padre, e o meditabundo sacristão trocavam entre si um olhar raivoso mas humilde.
Desesperado amor! Altiva criança!... Ia, brevemente, cessar o escândalo que se dava há três semanas durante a missa. — Ia, talvez, pela porta fora, chorar o seu escravizado amor no cume das montanhas, beijando as açucenas lacrimantes e os nevados lírios e, num beijo, dizer-lhes o seu amor e, num soluço, dizer-lhes o seu nome!

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Pesquisa, digitalização e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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