terça-feira, 4 de junho de 2019

O criado Pedro (Fábula), de Ana de Castro Osório



O criado Pedro

Isto passou-se com um Padre, Abade rico de uma boa freguesia, e homem bondoso e simples, que tivera uns poucos de criados Pedros e com todos se dera muito mal.

Jurou pois que, por muito ano que vivesse, nunca mais tomaria ao seu serviço ninguém com este nome. Não porque ele fosse mau. Mas criara-lhe aversão, por muito mal se ter dado com o serviço de gente assim batizada.

Ora a pessoa encarregada de lhe procurar um criado, por mais que procurasse, ou talvez para se não incomodar a procurar muito, encontrou um rapaz chamado Pedro, e disse-lhe que iria servir o Abade, mas que teria de mudar o nome, ficando a chamar-se José.

Por desgraça o pobre rapaz era realmente um Pedro das malas-artes, e logo que entrou a servir principiou a fazer disparates que muito mal dispuseram o amo, já farto de tolos e tolices.

— José, sabes ajudar à missa (perguntou-lhe no sábado, à noite)?

— Sei, sim senhor.

— Bem, amanhã, na missa do dia, vê como te portas! Olha que hás de andar sempre atrás de mim.

No dia seguinte, à missa, o rapaz pôs-se atrás do patrão e para onde ele ia, ia também, de maneira que o Padre se não podia mexer. Não fazia senão atrapalhá-lo.

Desesperado, veio o Abade para casa e disse-lhe, com desconfiança:

— José, tu não és José. És por força Pedro, às tolices que fizeste hoje na missa. Tu não vias que me não deixavas mexer? Devias andar bastante afastado de mim.

No dia seguinte vai o Padre para o altar e o bom do rapaz, com a campainha na mão, foi-se para o fundo da Igreja, e não houve maneira de o fazer sair dali.

O Padre estava fulo, e não fazia senão gritar-lhe que por força era Pedro, pois todos os criados que tivera com esse nome eram assim muito parvos.

É claro, o rapaz negava. E dizia que o tinha mandado afastar-se, e ele assim fizera.

— Ó pateta, não é muito longe nem muito perto. E assim à distância daquela vara de tocar os bois.

Que há de fazer o moço, no dia seguinte? Pega na vara, espeta-a nas costas do Padre, e pôs-se a andar atrás dele, de modo que mais parecia a sua sombra. Estava o amo cada vez mais furioso, gritando para o rapaz que ele era Pedro, nem podia ser outra coisa!

Um dia, tinha o Abade alguns colegas para jantar, perguntou ao rapaz se sabia cozinhar.

O Pedro disse logo que sim, mas o amo, sempre desconfiado, foi dizendo:

— O melhor é matar-se uma galinha, que isso é coisa que por si mesma se faz. E não mexas naquela travessa, que tem veneno para os ratos!

Eram ovos moles, mas, como sabia que o rapaz era guloso, foi-lhe dizendo assim.

O moço foi à capoeira buscar uma galinha, meteu-a na cozinha onde acendera um grande lume, pôs-lhe um alguidar com água e uma faca ao pé e foi para a casa de jantar, onde viu os ovos moles muito amarelinhos e apetitosos. Não pôde resistir, apesar de imaginar que era veneno; provou um bocadinho, achou doce, e enfiou a travessa toda para o estômago.

Agora o vereis: começou a gritar que estava envenenado, fazendo tamanha berraria que alvoroçou a terra!

Chega o Abade com os amigos. Chama que chama o criado, mas resposta nenhuma obteve. E só ouvia gritos e lamentos que mais o intrigavam.

Vai à cozinha, e vê a galinha viva, aos saltos, ao pé do lume, com o alguidar e a faca no meio do chão; procura o doce, encontra-lhe o sítio; corre à sala e vê tudo cheio de gente que vinha saber o que acontecera ao rapaz, que não se ouvia senão gritar que estava envenenado com o remédio dos ratos...

Não podendo mais, vai ao quarto do moço e encontra-o fingindo-se morto.

— Pedro, tu por força és Pedro! Salta cá para fora, que tudo o que comeste era veneno, mas que não mata os Pedros.

— Senhor Abade, então não estou morto, porque me chamo Pedro.

— Não estás, mas vais sair já para o meio da rua, porque não fazes senão tolices. Então o jantar já está pronto?

— Eu, antes de morrer, levei a galinha para o pé do lume, pus-lhe faca e alguidar, água e panela, para se fazer por si mesma, como o senhor meu amo disse. Acho que deve estar contente comigo!

— Estou, estou, mas vai-te já embora, que não te quero mais em casa. 

O rapaz, muito desconsolado, lá foi para a sua casa, mas julgando que o patrão é que era maluco e mal agradecido.

Quantas pessoas, assim como este Pedro, embora mudem de nome e de posição, ficam sempre espertas como ele! Mas, como ele também, julgam sempre andar bem, e que os outros é que são tolos e não se sabem explicar.
 
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Fonte:
Ana de Castro Osório: “Contos, fábulas, facécias e exemplos da tradição popular portuguesa” (editado a partir da edição da Bibliotrônica Portuguesa)

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