6/13/2019

O Emprazado (Conto), de Alexandre Herculano



O Emprazado
(Ano de 1312
O exército castelhano capitaneado pelo infante D. Pedro estava cercando os mouros de Alcaudete. Em Martos, povoação pouco distante, alojara-se com os seus cavaleiros el-rei D. Fernando IV.
Este príncipe contava apenas vinte e cinco anos de idade, e alguns meses de reinado. Os seus costumes eram devassos: as noites passava-as em banquetes; os dias em escutar os enredos dos cortesãos; colérico em demasia, a sua sanha e vingança eram sempre terríveis. Pouco tinha que esperar a Espanha do seu reinado, que prometia ser longo.
Junto a Martos havia um rochedo altíssimo pendurado sobre um vale profundo: a vista se turbava a quem quer que do alto olhava para o abismo que jazia aos seus pés.
Dois homens vestidos de pelotes caminhavam entre saiões e alvazis para o píncaro do rochedo: desordenadas lhes pendiam as capas curtas dos ombros, e, sem toucas na cabeça, o vento lhes agitava os cabelos desgrenhados. Levavam as mãos soltas, e ninguém diria que papel faziam neste drama, se não fosse a desordem dos seus vestidos, as punhadas que davam no rosto, e os movimentos da aflição que os agitava.
Eram dois condenados: aquela a sua hora extrema.
Quando a Corte estava em Palença saía certo dia do palácio real um cavaleiro da família dos Benavides dois vultos aproximaram-se dele e o apunhalaram-no: caiu o cavaleiro moribundo, e expirou sem conhecer os seus assassinos; também ninguém mais os conheceu.
O furor de el-rei, que amava este cavaleiro, subiu ao maior auge: as masmorras atulharam-se de acusados; mas nenhuns deles pareciam serem os assassinos.
Contudo a vingança real precisava de ser satisfeita: juízes corruptos fizeram recair a culpa sobre dois cavaleiros, os irmãos Carvajales: e condenaram-nos à morte.
— Morram por elo — disse el-rei transportado de alegria, quando lhe levaram a confirmar a sentença: “do alto do rochedo de Martos sejam precipitados no fundo do vale: que os corvos pastem um dia carniça de cavaleiros.”
Era pois aquele dia o do suplício.
Cobertos de armas luzentes, encostados às lanças, e montados em cavalos acobertados, um basto esquadrão de cavaleiros, ao lado do caminho que dava para o rochedo fatal, aguardavam a passagem dos dois condenados. No meio daqueles elmos lampejantes um havia adornado com uma coroa: o cavaleiro cuja cabeça ele resguardava trazia vestida uma cota toda bordada com as armas de Castela. Era o jovem D. Fernando, que, com a viseira levantada, ria e falava com os nobres que lhe estavam aos lados.
Já se vinha aproximando o cortejo dos justiçados. Adiante um pregoeiro dizia em voz alta:
— Justiça que manda fazer el-rei dos dois irmãos, Pedro e João Carvajal, por terem atraiçoadamente assassinado o muito nobre cavaleiro Benavides!
— Mentira, mentira! — clamavam os dois desgraçados. — Aleive infernal, as nossas mãos estão inocentes.
E aquele préstito de morte chegava ao sítio em que el-rei o estava aguardando.
Aí, os dois irmãos Carvajales, rompendo por entre os esbirros, foram cair em joelhos aos pés do ginete de D. Fernando de Castela.
— Salva-nos, oh rei, salva-nos; porque não somos culpados. Prontos estamos a passar pelas provas do fogo e da água: prontos a levantar na estacada a luva daqueles que nos chamam traidores; porém morrer como o mais vil servo; morrer coberto de infâmia, nós que sonhávamos a glória dos combates, nós que contávamos cercear tantas cabeças de mouros! Rei, salva-nos! porque esta morte é horrível.
El-rei os escutou calado: e olhando para os saiões e alvazis, lhes disse com ar torvo:
— Que esperais vós outros? Levai os assassinos!
Então os dois irmãos, como movidos por uma só vontade, se ergueram em pé: os seus rostos, até aí aflitos e cobertos de lágrimas, pareceram asserenar-se; mas esta serenidade era a da desesperação. Fitaram os olhos no céu, e este olhar era tremendo; porque nele havia a expressão da confiança em Deus, e da maldição que a inocência sabe arrancar do Céu contra os tiranos da Terra. A postura dos dois cavaleiros era naquele momento sublime.
— Tu não queres perdoar-nos? — disse por fim Pedro de Carvajal, dirigindo-se a el-rei.
— Não, traidor assassino!
— Assassino és tu, malvado, que nos condenas sem justiça; que cobres de luto e de infâmia a nossa nobre família. Porém não folgues na tua maldade, mesquinho rei da terra; porque há um rei nos céus. Lá nós e tu seremos julgados. Comparece aí de hoje a trinta dias. Eu to ordeno em nome do Supremo Juiz. Rei emprazado, que não te esqueça este dia!
Dito isto, os dois irmãos caminharam com passos seguros para a extremidade do alto rochedo; e dentro em breve os seus membros jaziam dispersos no fundo do vale; e os corvos pairavam e esvoaçavam ao redor deles.
El-rei tinha ficado silencioso e carregado: ninguém ousava falar-lhe.
Ao longe vinha correndo um cavaleiro, pela estrada de Alcaudete. Trazia brancas de pó as armas. Chegando perto de el-rei, sem se apear, lhe gritou:
— Boas novas, senhor! Alcaudete já não pode resistir: os mouros mal se defendem; vinde com os vossos cavaleiros acabar este feito: seja vossa a glória do seu vencimento.
E na manhã seguinte marchava D. Fernando para Alcaudete, no meio dos seus cavaleiros; mas sempre triste e carregado.
Daí a alguns dias ele se achava em Jaén. Chegando ao campo do infante seu irmão, adoecera gravemente; e por isso, deixando aí todos os seus, viera aforrado a Jaén, onde uma febre invencível o retinha no leito das dores.
Alcaudete brevemente caiu nas mãos dos castelhanos: os mouros foram exterminados; saldou-se mais uma dívida do oitavo século. Esta nova chegou a Jaén. Levada a el-rei, as únicas palavras que se lhe ouviram foram:
— Que me importa Alcaudete? Que me importa Castela?
Eram 7 de Setembro do ano do Senhor de 1312.
Pela sesta el-rei parecia dormitar. Havia trinta dias que à mesma hora um bando de corvos pairava e esvoaçava ao redor dos membros despedaçados de dois homens, que tinham sido precipitados do alto de um rochedo, o qual se levanta à entrada da pequena povoação de Martos.
A esta mesma hora, em Jaén, soava na câmara em que D. Fernando jazia um som rouco de estertor; e este som surdia dentre as cortinas do leito real.
O som foi diminuindo, até acabar num silêncio profundo.
No outro dia umas andas, seguidas de homens a cavalo, cobertos de burel branco, conduziam para Córdova o cadáver de el-rei. O seu jazigo devia ser em Toledo ou em Sevilha; mas foi impossível levá-lo tão longe: a podridão e os vermes começavam a despedaçar-lhe os membros, com a mesma rapidez com que se tinham despedaçado os dos dois irmãos Carvajales no fundo do vale contíguo à povoação de Martos.

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Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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