domingo, 2 de junho de 2019

Tejo, Douro e Guadiana (Fábula), Ana de Castro Osório



Tejo, Douro e Guadiana

Em tempos que já lá vão há tanto que só Deus o sabe, nasceram três Rios irmãos nas serranias de Espanha.

Logo de começo mostravam ter nascido para gigantes e não se contentarem com pouca terra por onde alargarem os seus senhorios e grandes forças.

Eram e são ainda e sempre serão os seus nomes Tejo, Douro e Guadiana.

Nenhum queria ver-se dos outros ou vencido ou levado. Mas também não queriam separar-se tanto que deixassem de ser irmãos, quer na vida e caminho de lutas e nas terras senhoriadas, quer na sua entrada no Mar de cujas águas eram filhos.

Viam outros rios seguir por caminhos diversos e até opostos, sem tão grandes ambições. E todos três, conversando, troçavam deles, menosprezando os seus destinos e pouca força.

Mas não sabiam como lutar, entre si, pela maior grandeza desejada, sem perderem de todo a companhia de bons irmãos, nem como dominar terras vastas sem se combaterem ou misturarem.

Por fim resolveram que marchariam para o mesmo grande Mar, conquistando terras por caminhos diferentes. E, para não terem que combater-se, combinaram deitar-se a dormir uma longa noite e partirem logo ao acordar, ficando ao que primeiro acordasse o direito de escolher o caminho do seu poder. E assim ao segundo, logo depois dele, contentando-se o terceiro com o caminho ainda não escolhido.

O primeiro que chegasse ao grande Mar seria vencedor na corrida em que se entregavam à sorte, ou ao juízo de Deus, na luta por seus separados senhorios.

Assim combinaram e assim fizeram.

O Guadiana foi o que primeiro acordou.

Viu os irmãos muito bem ferrados no sono, sorriu-se e pôs-se a caminho com sossego, escolhendo as terras do sul, porque as entreviu menos montanhosas e mais fáceis de romper e senhoriar. E assim foi seguindo e crescendo em poder, mas sempre fugindo quanto pôde a grandes lutas com as montanhas inimigas.

Achou-se poderoso nas baixas que tem hoje o seu nome, e seguiu diretamente para o sul, rodeando as terras do Algarve, até chegar ao grande Mar.

O Tejo acordou em seguida e ficou muito arreliado por já não ver o irmão Guadiana. Mas quando notou a direção mais fácil tomada por ele, marcada já por sua torrente, disse para consigo:

— Chegarás primeiro ao Mar, talvez...

Mas eu serei o mais poderoso. Irei mais a direito e para mais longe, rompendo serranias, até que me sinta forte bastante para fazer e senhoriar vastas planícies, e ser depois quase um Mar.

Escolheu as terras do centro e, seguindo a esteira do Sol, lutou com montanhas, dominou outros rios, criou um vasto senhorio nas planícies e lezírias do ocidente e fez-se um Mar pequeno que, rompendo os derradeiros montes, entro no Mar Maior.

O terceiro rio gigante, que era o Douro, quando acordou e não viu os seus irmãos ficou furioso. E, querendo ser o vencedor na corrida, largou a galopar veloz por montes e vales das terras do norte, sem escolher caminhos; galgou precipícios; despenhou-se em desfiladeiros; rodeou montanhas ou as rompeu, para chegar antes dos outros dois ao grande Mar.

Para castigo da sua preguiça em acordar, não teve senhorio de planícies e terras chãs. Mas em prêmio de tanta luta foi também poderoso e rico.

E assim, evitando contendas, que para qualquer deles poderia ter sido a morte, os três rios, Tejo, Douro e Guadiana, se tornaram gigantes e senhores de terras vastas, ficando bons irmãos e bons amigos em terras de Portugal, que deste Mundo são as derradeiras diante do Mar sem fim.

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Fonte:
Ana de Castro Osório: Contos, fábulas, facécias e exemplos da tradição popular portuguesa (Editado a partir da edição da Bibliotrônica Portuguesa)

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