terça-feira, 4 de junho de 2019

O soldado da vaca (Fábula), de Ana de Castro Osório



O soldado da vaca

Havia um homem que tinha dois filhos, rapaz e rapariga. Não era muito abastado, pois quando morreu deixou apenas de herança a casa de moradia, uma quintarola e uma vaca para os dois filhos. Mas estes não queimaram o herdado, com divisões. Como eram muito amigos e se davam bem, ficaram a viver juntos, amanhando a terra e tratando a vaquinha, que lhes davam o sustento. E assim evitaram a miséria.

Andou o tempo, e um dia caiu a sorte ao rapaz, e lá foi ele para soldado, ficando a irmã sozinha, com grande mágoa do seu coração. A rapariga só tornou a ter alegria quando o viu de volta, com o tempo de serviço terminado.

Continuaram então a viver como tinham vivido até aí. Mas o Soldado, (como passaram todos a chamar-lhe), desacostumara-se do trabalho do campo e do modesto viver dos aldeões. Não fazia senão dizer à irmã que melhor seria venderem a casa e a vaca e partirem para a cidade, que é onde uma pessoa se pode governar e onde há maior riqueza. Não percebia, o pateta, que é onde há mais ricos e mais luxo, que a pobreza mais dói.

A rapariga tanto se aborreceu de o ouvir falar em vender a herança, que lhe disse:

— Eu não vendo a casa. Se queres, vende a vaca e não me fales mais em me levar para a cidade.

Foi o que ele quis ouvir. Apesar de todo o desgosto que a irmã mostrava, pegou em si e levou a vaca à feira.

Logo à entrada falou com um homem que lhe perguntou para que era o animal.

— Para vender a quem mais der (respondeu o rapaz, alegremente).

— Então deixe-a naquele curral e venha depois aqui ter comigo, porque ninguém lha pagará melhor. Eu não olho a dinheiro. Compro para outro.

O Soldado assim fez. Levou a vaca e deixou-a no curral que lhe fora indicado, mas quando voltou para falar ao comprador já não o encontrou. Foi de novo ao curral, para retirar a sua herança, e achou-lhe o sítio.

Desesperado, procurou por toda a feira o homem com quem tinha falado, mas parece que se tinha sumido pelo chão abaixo pois não conseguiu mais tornar a vê-lo. No entanto, pelos sinais que deu, chegou a saber que esse falso comprador era o capitão de uma quadrilha de ladrões que infestava as cercanias. E todos o aconselharam a não esperar mais nem a vaca nem o seu preço.

— Não, isso é que não pode ser. Ou eu não sou quem sou, ou eles hão de conhecer que fizeram mal em se meter com um Soldado.

Foi para casa e contou o que se passara à irmã, que apertou as mãos na cabeça, dizendo mal à sua triste vida e bradando com o irmão por ter tão pouco juízo.

— Deixa estar que me hão de pagar tudo, capital e juro...

— Não te metas agora tu em questões e baralhas, que ainda te vejas pior!...

— Não te agonies, deixa-me cá, que hei de vingar-me dos espertalhões, e eles hão de ficar conhecendo o Soldado da Vaca.

Informou-se melhor da vida dos ladrões e pôs-se a espiá-los. Um certo dia soube que estava doente o capitão da quadrilha. Sem dizer mais nada, foi a casa do Médico, que era um bom sujeito muito seu amigo, pois o conhecia desde criança, e pediu-lhe o seu fato emprestado.

Vestiu-se e preparou-se como se fosse um doutor e foi passear em frente da casa dos ladrões. Mal o viram de lá, correram ao seu encontro, pedindo-lhe que entrasse para ver um doente.

Era exatamente o homem que tão bem lhe soubera apanhar a vaca.

Ninguém o reconheceu, tal era a distinção das suas maneiras.

Com grande desembaraço começou a receitar para a direita e para a esquerda, a mandar buscar coisas aqui e além, de modo que despachou todos os ladrões, ficando só com o doente.

Chegou então ao pé dele e disse-lhe com intimativa:

— Agora, meu amigo, ou me pões para aqui o dinheiro da minha vaca ou vais já morrer.

Cheio de medo, respondeu-lhe o doente que fosse ao cofre buscar o seu dinheiro, e a tremer lhe entregou a chave.

O soldado abriu o cofre, encheu as algibeiras de ouro, e tratou de se pôr a salvo antes que viessem os quadrilheiros.

Chegou a casa, entregou o dinheiro à irmã e disse-lhe, muito satisfeito com a sua esperteza:

— Vê lá o que trago aqui! A minha vaca rendeu mais de dez.

Efetivamente, como acontece quase sempre quando alguém se paga por suas mãos, as algibeiras abarrotadas de ouro continham bem mais do que valia uma boa manada.

— Que fizeste para arranjar tanto dinheiro (perguntou a irmã, aflita)?

— Não te dê cuidado.

Foi entregar o fato ao seu amigo Doutor, e continuou a espreitar o que se passava em casa dos ladrões.

Soube que o doente ia de mal a pior e foi ter com o Prior da freguesia para que lhe emprestasse por algumas horas o seu fato.

O Padre, como gostava muito dele, também lho emprestou. Pouco depois aparece o nosso homem enroupado como se fosse um verdadeiro Prior.

Bateu à porta da casa dos quadrilheiros e perguntou se estava alguém doente que quisesse confessar-se. Disseram-lhe que sim, e entrou.

Como da primeira vez tratou de mandar todos embora, cada um com seu recado e, ficando só com o doente, em vez de o confessar, disse-lhe:

— Quero mais dinheiro pela minha vaca, senão morres já!

O ladrão deu-lhe as chaves do cofre e ele encheu de novo as algibeiras e partiu depressa.

Quando os ladrões voltaram e se viram mais uma vez enganados, ficaram num desespero e resolveram mudar de terra, só para se livrarem do atrevido Soldado.

Este, que pôde sabê-lo, disfarçou-se em carroceiro e veio oferecer os seus préstimos.

Disseram-lhe que sim e mandaram-no carregar a carroça quanto podia para se mudarem dali. Que há de fazer o espertalhão? Pega em si e leva tudo para casa da irmã. Os ladrões encarregados da mudança, esperaram, esperaram, e como não vinha ninguém voltaram a casa a saber o que acontecera. Desconfiaram logo do seu perseguidor e resolveram embarcar para o Brasil, para se livrarem de tal inimigo. E como não tinham boas contas com a Justiça, não fizeram queixa dele, pensando só em fugir-lhe.

O Soldado da Vaca, achando-se bem vingado do roubo da sua herança deixou a sua mania de aventuras, e dedicou-se a cultivar a terra e a tratar das suas coisas.

É bem certo que muito aproveitou com a sua vingança do engano em que caíra. Mas quem rouba a ladrão tem cem anos de perdão.


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Fonte:
Ana de Castro Osório: “Contos, fábulas, facécias e exemplos da tradição popular portuguesa” (editado a partir da edição da Bibliotrônica Portuguesa)

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