domingo, 16 de junho de 2019

O Velho da Montanha (Conto), de João Ribeiro



O Velho da Montanha

De volta de um salão de comédia, onde vi os meneios moles e ondeantes de uma dançarina, cheguei tonto e atormentado com aquele espetáculo.

Durante a noite diante de meus olhos insones via riscas de fogo, que colubreavam como áspides infernais.

Logo cedo procurei o licenciado Baltazar dos Santos, o teólogo coimbrão a quem sempre eu costumava recorrer nos apertados transes da vida; e dele inquiri se era realmente aquilo a serpe que tentara a mãe Eva.

— É a mesma serpente, disse-me ele, pausado e grave. Os répteis vivem por muitos séculos e são quase eternos.

E neste ponto foi tirar da estante um pergaminho do século XIV e leu-me em linguagem mais fácil que a do manuscrito, o capítulo vigésimo oitavo das Viagens de Marco Polo Veneto.

Mais ou menos foi isso o que leu o teólogo:

"Que as delícias da sensualidade foram sempre causa principal de todos os crimes bem poderia demonstrá-lo a história daquele desonestíssimo tirano Ala-ed-Din ou Aladino, mais conhecido por "O velho das Montanhas".

Senhoreava esse abominável príncipe as terras de Mulet onde fundou a seita dos assassinos ou bebedores de haxixe, bandidos terríveis que saíam a dizimar a gente inerme e descuidosa nos caminhos.

Escolhera Ala-ed-Din um sítio ameno, ensombrado de árvores com os seus campos matizados de boninas odorantes, e nesse paraíso lançara uma legião de mancebos que ali encontravam palácios de fabricação soberba e mulheres formosíssimas aptas a satisfazer os apetites daqueles jovens inexperientes...

Quando o velho tirano necessitava acometer os cristãos que vinham libertar os lugares sagrados do Oriente, fazia retirar daquele ameno sítio de prazeres os seus jovens legionários advertindo-os de que era aquele o paraíso dos guerreiros, e os que morressem na guerra teriam como prêmio o regresso àquele vale de luxuriantes delícias...

Imagine-se o furor com que os inimigos, acutilando-os, em guerra de extermínio, até que uns e outros sucumbiam, como desesperados e amoucos para quem a vida era o único obstáculo à felicidade paradisíaca.

Assim durou por muito tempo a execranda seita até que um rei tártaro com as suas hediondas e inumeráveis hostes deu cabo daquela tirania e daquela máquina homicida".

Morreram Ala-ed-Din e os seus sectários, como no-lo reconta o famoso Marco Polo Veneto no seu livro de viagens e foi o primeiro a dar-nos a notícia verídica deste sucesso do tempo das Cruzadas.

Mas o que ele não contou e o que não é fácil conjecturar é o destino daquelas mulheres que foram o instrumento de tão grande mortandade.

No dizer do viajante, eram elas "mui bem apostadas e ensinadas a bailar, dançar, tanger, cantar, com as suas vestiduras de desvairadas feições, feitas de ouro e pedras preciosas, garnidas de maravilhoso aparato".

Para onde foram?

Provavelmente para o mundo inteiro onde se pôs a sua prole nefasta a bailar e a dançar para perdição eterna dos homens.

É sabido que Tamerlão, com ter vencido o mundo, picado por uma delas, morreu.

Assim disse o teólogo e desde esse dia fugi dos salões de comédia.

Contudo (tantos são os assaltos do demônio), por vezes cuido que não seria de todo mau morrer como o grande Tamerlão.


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João Ribeiro (Florestas de Exemplos, 1931)
Pesquisa e adequação ortográfica:  Iba Mendes (2019)

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