segunda-feira, 15 de julho de 2019

A Calúnia (Crônica), de Sylvio Floreal



A Calúnia

Você já pensou sobre o que é a calúnia? Certamente que já, mormente sendo você um homem batido na rotunda da vida por todos os vendavais...

A potência da calúnia é como a força insidiosa dos tentáculos do polvo: acaricia com ternura a presa, para depois cingi-la entre os viscosos liames e lentamente gozar a volúpia do mal.

A calúnia nasce na sombra e se arremete contra quem quer atassalhar, de um modo vago, indeciso, de forma amorfa, misto de lesma e de infusório; o seu fim capital ferir, mas ferir sem tomar uma atitude, sem dizer quem é, contanto que desmorone, aniquile a sua vítima, que lhe proporciona ensanchas para vergonhosas gargalhadas!

Há criaturas tão ignóbeis na vida, que inventam calúnias com a mesma facilidade e perícia com que Fregoli executava os seus trabalhos de transformismo e prestidigitação.

Fizeram da calúnia uma muleta e vivem escorados nela toda a existência; no dia que lhes faltar essa muleta, rolarão por terra, como um fruto podre, que além de não prestar exala mau cheiro. A calúnia soez é sua razão de ser, o seu fim, o seu princípio e a sua modalidade única.

O caluniador passa pela vida encerrado no aprisco sórdido do seu egoísmo, achando defeitos em toda a gente, falhas em todos os indivíduos, mazelas em todas as criaturas, mesmo nas que são fisicamente e moralmente mais limpas do que ele. Passa pela vida como aquele personagem de Kalidassa, atirando lama às estrelas, sem perceber que essa lama lhe borrifa a própria cara.

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