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7/15/2019

Manias e pretensões (Crítica), de Sylvio Floreal



Manias e pretensões

Uma das coisas que mais lisonjeiam a vaidade humana sempre foi aparentar o máximo daquilo que na realidade não se é. Partindo deste dispositivo chegaremos logicamente ao ninho das debilidades que constituem o forte das fraquezas que a humanidade acaricia amorosamente. Chegaremos a esse canteiro irregular onde brotam as ambições ferazes e as manias repolhudas. Por isso, pode-se afirmar, sem esse pavor que infundem as afirmações, que não há ninguém que faça a sua viagem através da vida sem carregar a sacola de sua mania. Há manias insignificantes, inverossímeis, assim como há manias berrantes, que acenam, bracejam mais do que um semáforo de ilha deserta. Se é verdade que todos nós temos a nossa mania, vejamos o grau de futilidade que tem a grande mania de alguns em confronto com a pequena mania de todos.

Há, na seara fértil das manias, uma que pode ser catalogada como presunção: é a mania dos que querem ter talento. Um sujeito que dá ideia perfeita de que vive feliz, porque realiza vinte por cento das suas aspirações no campo desolado das desilusões, um dia encasqueta na bossa amarela das ideias a mania verde, o propósito incolor, a resolução furta-cor de querer ter talento. É uma ideia, uma aspiração, um desejo que, ao cabo de algum tempo, acaba por se transformar, de mentira transitória que era, em verdade fixa, incontrovertida. E o sujeito que a tal ideia dá benévola guarida, depois de convencido de que tem de fato talento, passa a trabalhar a fim de impingir aos outros a sua mania. E afaga essa mania com o mesmo ardor e desvelo com que um pai afaga um filho aleijado. Difícil, a princípio, era convencer-se a si mesmo, porque convencer aos outros é sempre um trabalho menor do que autossugestionar-se. E o figurão, navegando nas águas da benevolência humana, guia do alto, a nau da sua desmedida pretensão, que tem esculpida na proa a imagem ridícula da sua mania. E, como que embriagado por uma ilusão que ninguém quer ter o mau gosto de truncar, o fulano, forrado do cetim barato do cinismo, emproa o seu pseudo talento coroado, primeiro, com a sua inconsciência, depois, com os sorrisos benévolos e concessivos dos outros.

E assim consegue manter florido o prestígio, até o momento em que as circunstâncias não o obriguem a sair da atmosfera dúbia de falso talento. Mas, ó tristeza das tristezas! Quando o momento fatal de revelar a chapa do talento se aproxima, o fantoche em questão tomba do seu frágil pedestal, mostrando todo o enchimento composto da estopa da mediocridade que fora valorizada pela mania da fama.

Ao lado destes maníacos inofensivos, jocosos, há outros que formam na mesma galeria, porém, com uma pequena diferença: são os possuidores de uma dose mui escassa de talento, que mal chega para o usufruto cotidiano: e lançam mão daquilo que se chama, na desordenada república das letras — cabotinismo. O cabotino é um indivíduo que tem um talentozinho que pode ser guardado no fundo de um dedal, porém ele o valoriza no mercado da glória, vendendo-o caro, graças ao poder do cabotinismo. Ninguém se parece tanto com um cabotino quanto um pavão. Porque o pavão, além de ser a ave mais estúpida do mundo, quando abre o bico por onde solta uns gritos agudos, e desconcertantes, e de ser atacado de mortal tristeza quando olha para os pés, tem ainda outras originalíssimas particularidades — é um bichinho magro, descarnado, um esqueleto pavoroso de ave tuberculosa.

E aqui vem a comparação exata, matematicamente precisa.

O pavão, tendo o orgulho da plumagem, a loucura paradisíaca das cores, é uma ave brilhante, pomposa, dir-se-ia feita de miríades de pedras preciosas mutiladas; mas, na realidade, só tem penas, cores, e mais nada. Assim é o cabotino. Insolência, pompas mentirosas na aparência, mas na realidade o seu talento é magro, raquítico, tuberculoso como o corpo do pavão. O pavão e o cabotino são dois astutos vigaristas.

O outro, o que alardeia talento por conta e risco da mania, é um vigarista de fancaria, que nem ao menos tem habilidade de plagiar o talento que possuem as penas do pavão.


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Fonte:
Rafael Rodrigo Ferreira: "O 'literato ambulante': antologia e estudo da obra de Sylvio Floreal - 1918-1928" (Tese). Universidade de São Paulo - USP. São Paulo, 2018.

O conto do vigário e a moda das mulheres (Crítica), de Sylvio Floreal



O conto do vigário e a moda das mulheres

O espírito dos homens sempre procurou a graciosa frivolidade feminina com o intuito de fazer graça. Brincar com as mulheres é mais arriscado ainda do que querer bailar nas bordas de um abismo. A mulher é uma eterna boneca risonha nas mãos dos homens. É uma boneca que gosta de ser afagada pelo homem, esse divertido fantoche, que algumas vezes faz chorar, e quase sempre faz rir. E homem e mulher, na fantochada do amor, procura cada qual arrimar-se aos predicados morais de um e de outro. O homem, pelo fato de possuir uma dosagem corrosiva de fanfarronice, quando não tem outro passatempo que melhor lhe fascine o espírito maledicente, outra coisa não faz que não seja achar defeitos nas mulheres. E então, estribado na proverbial resignação feminina, diz que a mulher é um animal de cabelos longos e ideias curtas; que a mulher não tem talento, como se ela necessitasse de ter talento e de ter ideias para valorizar a sua beleza. Quanto à alma, é possível até mesmo que, às vezes, ela tenha mais do que uma, mas é forçoso reconhecer que sempre ela tem as almas que quer. Na pantomima da vida, os homens, fantoches sisudos, outra coisa não têm feito que caluniar as mulheres — bonecas risonhas.

Os homens transformam-se raramente pelo espírito, as mulheres transformam-se constantemente pelas modas.

A moda é a “mise-en-scène” da alma feminina.

É o delírio furta-cor das pinturas! Estamos em pleno reinado do “rouge” e do “baton”! Os lábios pintados estão na ordem do dia e nos caprichos desordenados dos ideais de elegância que inflamam a sensibilidade das mulheres.

A Eva moderna, vulcanizada pela ânsia maviosa de mentir, no intuito de exteriorizar uma volúpia escaldadiça, com o milagre colorante do “rouge” transforma a boca numa romã esquertejada.

“Baton” na cova dos olhos e “rouge” nos lábios, é um câmbio de cambiantes que torna o rosto feminino uma palheta curiosamente pintalgada. É forçoso, porém, reconhecer que o rosto feminino, sob o disfarce simpático do abuso das tintas, adquire essa graça matizada, que lhe permite corar discretamente. Se é verdade que os sentimentos têm cor, as mulheres que lançam mão dos coloridos para lançá-los na linda carinha podem viver relativamente sossegadas, porque têm na artificialidade das massas coloridas que lhes transformam a fisionomia um agente astuto que as ajuda a atingir os sentimentos segundo a necessidade e os desejos, fazendo-as aparentar sempre aquilo que querem ser, e, às vezes, aquilo que querem aparentar.

A mulher, tendo propensão para várias oscilações, acaricia em última análise a queda das atitudes e das aparências. A aparência constitui a sua embriaguez máxima, a sua tontura suprema. E a moda foi inventada justamente para lhe alimentar essas oscilações.

A mulher, para obedecer aos caprichos da moda, é capaz de cometer todos os dislates possíveis. E para tornar encantador o corpo por fora, não dispensa muita atenção ao que ele exige por dentro; e por isso há mulheres que carregam no rosto maior quantidade de pó de arroz do que mesmo de arroz trazem no estômago.

A moda pode ser considerada hipocrisia do corpo, a mentira dos semblantes a mutação das atitudes e dos gestos.

A moda é um capítulo de astúcia que Maquiavel esqueceu de escrever!

A moda, mesmo quando é ridícula, empresta à mulher uma força que a torna invencível, porque é sempre a ilusão aplicada ao corpo. E o homem, mesmo crivando a mulher de defeitos, vota-lhe uma adoração contínua, um pouco porque é próprio da fraqueza masculina gostar das mulheres, e em grande parte porque elas possuem a magia dominadora da ilusão. Por isso são invencíveis as mulheres! Mas, essa ilusão, sendo o resultado das modas que as transfiguram, é para todos os efeitos uma ilusão conto de vigário. E, na longa teoria dos contos de vigário, esse é por certo um conto de vigário bom, um conto de vigário que possui o dom maravilhoso de fazer o homem esquecer todos os contos de vigário maus que ele é condenado a suportar pela vida além.

E, sem essa ilusão, como seria triste o destino das mulheres! Sem essa ilusão os homens seriam duplamente desgraçados, porque então os defeitos femininos nos apareceriam enfadonhos, odiosos, cansativos, com essa agressividade própria das coisas precárias! Conservemos a ilusão com esse espírito conservador de alto respeito pela mentira, porque a ilusão e a esperança são duas mentiras mais úteis do que a verdade da realidade.


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Fonte:
Rafael Rodrigo Ferreira: "O 'literato ambulante': antologia e estudo da obra de Sylvio Floreal - 1918-1928" (Tese). Universidade de São Paulo - USP. São Paulo, 2018.

O espertalhão caipora (Crítica), de Sylvio Floreal



O espertalhão caipora

É de crer que no fundo de uma ambição desmedida há sempre um conto do vigário em perspectiva.

O conto do vigário do casamento por interesse começa na ambição, passa pelo ridículo e acaba sempre no espetáculo triste do desengano.

Imagine um belo rapaz pobre, uma perfeita estampa litográfica de homem, dotado de uma grande ânsia de enriquecer e que vive a transformar a imaginação num louco moinho de vento, na expectativa de que um dia o vento da fortuna o arrebate em seu turbilhão. Esse vento, que é o acaso, a sorte, o momento, que tem a máscara risonha da felicidade, tarda, não vem! E o belo rapaz vai sacando, através da esperança, sobre o futuro, o alimento róseo para o seu sonho ávido de fortuna. Tenta vários ofícios, ensaia outros tantos expedientes, mas a fortuna teima em não lhe passar ao alcance dos braços. Quando está quase a sucumbir sob o peso formidável, mas invisível do desânimo, um dia, olhando atentamente a sua linda estampa no espelho do quarto, bate na terra e, se tem uns laivos de cultura literária, exclama: — “Eureka! Cá está a fortuna.”

De fato, o espelho bondoso, como é a maioria dos espelhos, lhe revelara a grande verdade, a verdade da sua beleza, a qual, bem avaliada no mercado do casamento entre mulheres que procuram um belo marido, poderia alcançar um preço incalculável. E assim fez o nosso herói. Começou a cotizar seus belos olhos e a sua esbelta figura desde aquele dia em que o espelho, refletindo-lhe a sua fisionomia, o chamara à realidade. E entrou então a fazer girar nas asas do moinho da sua ambição o desejo de casar, não com uma moça nem uma mulher, nem tão pouco ainda com o amor — porém com um dote.

E será possível que o nosso herói não encontre o dote desejado? Encontra, sim; porque o mundo é grande, a vida é vasta e a tolice humana é maior ainda.

E o Caça-Dotes em questão teima, porfia, persiste, até afiar a paciência nos rebolos de todos os obstáculos, mas a sua paciência tem a virtude da paciência obscura da formiga. E ele prossegue sempre, escorregando pelos patamares do seu sonho de grandeza, arrimado ao corrimão da esperança, levando dentro da alma o eco daquele conselho popular que diz: Quem procura acha! E de fato, até mesmo o acaso, que não costuma andar ao léu com qualquer pessoa, nem bem, nem mal acompanhado. A persistência é uma gazua com a qual, abrindo-se as portas do imprevisto, um indivíduo dá sempre de cara com o acaso. E o belo rapaz, sempre trabalhando pela ânsia louvável e simpática de ser rico, veio um dia encontrar-se com uma coisa que tinha talvez uns quarenta anos de idade, coisa essa que possuía cabelos compridos e usava saias. Era uma dona viúva, dona também de algumas dezenas de contos de réis. Uma respeitável senhora; porém, ao espírito do Caça-Dotes, ela era simplesmente uma coisa que tinha muito dinheiro. Foram apresentados por um terceiro, que escondia habilidosamente o interesse em tal apresentação. Noivaram, escondendo ele, o mais possível, todos os seus sentimentos de ganância.

O sonho do herói estava em vias de materializar-se, ou por outra, de metalizar-se. Nas vésperas do casamento ele vibrava e, sentindo-se já um homem que dominava a vida, porque era mais que certo que ia ter dinheiro, muito dinheiro, já pisava firme, ruminando o seguinte solilóquio: Dinheiro! Com o dinheiro, comprarei todas as coisas belas e agradáveis do mundo; com o dinheiro, todas as criaturas humanas rojar-se-ão sobre a minha sombra; com o dinheiro, comprarei aquilo que nem todos possuem — a felicidade.

Comprar a felicidade! Grande mentira, que seduz e perturba unicamente a imaginação dos tolos, porque, em última análise, o dinheiro, tudo conseguindo, consegue somente realizar a parte material da felicidade, e nada mais. No dia do casamento, o ilustre Caça-Dotes, completamente desvairado, recebe felicitações até de indivíduos que o detestam. E passa então a desfrutar a estima e a consideração de várias famílias e de muitas personalidades. Enriquece e é de bom tom cotejar os que enriquecem. Mas se diz o adágio que quem procura acha, há também uma sentença que diz muito bem: O dia da alegria é sempre a véspera da tristeza. Pois bem: as alegrias passaram. Vejamos agora como vive o nosso herói dentro da tristeza.

Passados alguns meses, a ilustre senhora, atacada de uma forte recaída de ciúmes, tornou-se impertinente, irritadiça, amarga.

E, como que agachada atrás do biombo roxo do seu ciúme progressivo, tomou uma assinatura sinistra de rabugices contra o seu esposo, que, a princípio, vergado por uma habilidosa resignação, sorria em face dos tormentos. Porém, ele estava a queimar os últimos cartuchos da paciência, e passou então do sorriso à sisudez.

Evadira-se-lhe, como por encanto, a alegria. Os dias passavam embaciados aos olhos entristecidos; e ele, fazendo prodígios sobre a corda bamba da paciência, pedia aos céus que lhe mandassem uma pesadíssima carga de resignação.

A esposa era rica, mas o dinheiro que caía nas mãos do Caça-Dotes, uma espécie de mesada que lhe dava a ilustre senhora, não chegava nem ao menos para controlar com uma dose de prazeres extraconjugais, todos os tormentos que o assediavam.

E o nosso homem, à espera de que a esposa fosse chamada o mais depressa possível pela Providência, à espera — digamos o pensamento cruel do Caça-Dotes — de que a consorte morresse, estraga os nervos e envelhece antes do tempo sob a descarga de uma neurastenia ultravioleta.

Quando o dinheiro já não lhe serve quase para mais nada, porque ele está envelhecido e curtido por uma lixívia de intensivo pessimismo, a mulher morre.

E aí temos o conto do vigário oriundo da ambição.

E mesmo que o Caça-Dotes desafortunado como foi este, viesse um dia revelar estas amargas verdades com o intuito humanitário de pregar exemplos, não seria tomado a sério absolutamente! Todos os aspirantes a caça-dotes dariam uma sonora gargalhada, achando que o herói em questão, depois do ridículo do seu fracasso, ainda pretende coroar a sua comédia bufa com o ridículo enjoativo de dar conselhos.

Se todos os conselhos provocam naturalmente uma certa aversão, os conselhos que procuram delimitar a ambição provocam ódio, acarretando a pecha de despeitado sobre o mísero mortal que teve a veleidade de querer incutir na cachola de alguém a obediência aos conselhos. Porque, na melhor das hipóteses, quase sempre aceitar um conselho é aprender a errar pela cabeça dos outros. E é por causa disso que há no fundo da astúcia humana uma surda prevenção contra os conselheiros...


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Fonte:
Rafael Rodrigo Ferreira: "O 'literato ambulante': antologia e estudo da obra de Sylvio Floreal - 1918-1928" (Tese). Universidade de São Paulo - USP. São Paulo, 2018.

O homem que comprou dinheiro empacotado (Crítica), de Sylvio Floreal



O homem que comprou dinheiro empacotado

Numa tarde de temperatura que convida a ver montras de lojas e relojoarias, caminha pacatamente pela calçada ensombrada das ruas das imediações da Estação da Luz um homem nem alto nem baixo, nem gordo nem magro.

O drama da vida que o circunda não recebe apurados favores da sua atenção.

E o vulto lá vai, ora gingando sobre as pernas, ora deslizando rijo, ora preguiçoso ao léu da sinfonia bárbara da luta pela existência que redemoinha pelas ruas.

Tudo o encanta, porém, pouca coisa o sugestiona.

Visto de longe, o vulto é um indivíduo qualquer: examinado de perto, o fulano em questão é o senhor Tibúrcio Malacacheta, proprietário de uma pequena roça na Mogiana, onde, há trinta anos, devorado pelo trabalho, conseguiu, com o concurso da esposa e dois filhos xucros, formar um pequeno cafezal.

Há quinze anos que está para vir à capital e, há quinze anos que Tibúrcio faz prodígios de economias a fim de pôr em prática a viagem tão longamente planejada.

Por fim veio à São Paulo, trazendo cinco contos de réis dentro de um lenção vermelho, que ele guarda no bolso de dentro do paletó, cuja saliência afaga continuamente no lado onde lhe bate o coração.

Voltemos à tarde em que o surpreendemos nas adjacências da Estação da Luz. Tibúrcio caminha ingenuamente, enquanto que dois tipos bem apessoados, matreiros, acostumados a dissimular intenções pouco honestas, o seguem em passinhos calculados.

Logo adiante, surge, como que de imprevisto, a fatalidade, uma vitrina de joias baratas onde as pedras de várias cores e tamanhos, de cambulhada com vários metais, brilham mentirosamente, procurando esconder a sua falsidade, segundo o desejo dos proprietários da vitrina.

Até parece que a malfadada montra é uma teia de aranha.

Tibúrcio, querendo satisfazer um velho desejo de adquirir um presente para a sua consorte, aproxima-se e, olhando demoradamente, fica pespegado como uma mosca nas ofuscações das pedrarias.

É o momento do ataque.

Os tipos, que a pouca distância vinham esbulhando mentalmente o pequeno fazendeiro, aproximam-se e param.

Um é nutrido, o outro... pode ser até mesmo desnutrido.

E sem perda de tempo começam a desfiar para os ouvidos do nosso Tibúrcio uma lenga-lenga comovedora e sentimental.

O fazendeiro, acostumado a lidar com bois que passam por ser os animais mais pacientes que há, deixou-se ficar e pacientemente devorara com os ouvidos tudo quanto os dois desconhecidos lhe diziam.

O nutrido, escanhoado, metido num terno muito melhor do que a sua estofa moral, procura consolar o companheiro que mui tristemente conta a história tristíssima de um sujeito muito rico que querendo legar certa quantia à Santa Casa o incumbira, no momento de morrer de levar a essa instituição de caridade a quantia de dez contos de réis.

Porém, ele, que merecera a confiança do amigo morto, por um dever de consciência, achava que devia entregar esse dinheiro à Santa Casa; e, meditando sobre o fato, chegou à conclusão de que a Santa Casa, sendo uma instituição rica, tanto pode prestar benefícios com dez contos a mais como com dez contos a menos.

Mas a consciência é um caso sério e ele não querendo curtir um remorso por todo o resto da sua vida andava justamente à procura de alguém que, recebendo o pacote de dez contos de réis, fosse levá-lo ao seu destino, ou mesmo que não fosse; queria ele ficar com a sua consciência limpa mas também aspirava a um lucrozinho na transação, dizendo que daria o dito pacote a quem lhe entregasse uma quantia qualquer, por exemplo, cinco contos de réis.

Tibúrcio, sem pestanejar, apalpou o lenção vermelho que amortalhava os cinco contos e, olhando para o tipo nutrido e para o desnutrido, esboçou um sorriso, que tinha todas as intenções de ser um sorriso alegre.

O bote estava, assim, quase no seu epílogo.

Os dois sujeitos, maneirosos com a voz suave, proferindo tristezas persuasivas, sobre coisas graves que dizem respeito ao sentimento e à consciência, ao cabo de uns minutos a mais de lamúrias puxadas à sustância acabaram por convencer Tibúrcio de que ele era justamente o homem enviado pela Providência divina, a fim de cumprir o sagrado desejo daquele que jazia no cemitério, tendo legado dez contos à Santa Casa de São Paulo.

Tibúrcio não podia mais! Arquejava, exausto sob o peso de tantas coisas tristes contadas com o firme propósito de tornar a tristeza o mais triste possível.

Foi um banho de duchas de lamúrias que amoleceu completamente o pobre Tibúrcio.

Depois, houve o seguinte: com a boca mole e os olhos tão marejados como os olhos dos outros dois tipos, o fazendeirinho, na ânsia de escapulir com dez contos, entregou a trouxinha de cinco contos embrulhados num lenção vermelho, recebendo o pacote de dez contos, despedindo-se rapidamente e indo cada qual para o seu lado.

Tibúrcio correndo mais do que aquele desgraçado que ia tirar o pai da forca, com o pacote colado debaixo do braço, varou ruas, dobrou esquinas, passou em tudo e por tudo como uma flecha, esbarrando, empurrando, atropelando, com tanta sorte que durante todo o trajeto não conseguiu encontrar nenhum Ford que o fizesse parar.

Por fim, numa rua solitária, debaixo de uma árvore, Tibúrcio parou.

O pacote, que continha a sua felicidade, o seu sonho, rolava-lhe nas mãos, acariciado por seus olhos que ardiam de contentamento. E pela sua imaginação perpassou de esfuziada um cortejo de coisas belas e agradáveis. E o contentamento foi adiante, até confundir-se nos horizontes de todos os seus desejos realizados. Tibúrcio, deslumbrado numa onda de magnetismo, boiava em pleno sonho. E o êxtase, tendo-o arrebatado, produzira-lhe uma transfiguração tão violenta que ele tinha a sensação de que estava virado ao avesso e do avesso assistia a vida gritar em torno de si numa sarabanda interminável, furta-cor, em que a realidade se esfumava em miragens de longínquas cambiantes. Mas a realidade com seu turbilhão de castigos ainda acudiu a tempo, porque senão Tibúrcio, dominado por excesso de sonhos, poderia perder a razão. Porém, a razão, como é uma grande aliada da realidade, salvou o nosso homem justamente no instante febril em que ele desatou o barbante que amarrava o pacote. O pacote abriu-se, mostrando aos olhos do fazendeiro toda a sinceridade da sua mentira, toda a dissimulação do seu embuste. Dinheiro! Havia uma nota nova, de uma quantia insignificante, dobrada astuciosamente, que mostrava na superfície do pacote vários bicos.

Tibúrcio, perdendo a noção da realidade mais ainda do que antes quando mergulhara na região do sonho, quis gritar, provocar escândalo, quis até mesmo esmagar o crânio contra a parede. Lutou alguns minutos contra a matilha da raiva que o invadira, deixando-o possesso; por fim, conseguindo dominar a raiva, e, levando consigo os despojos do pacote ladrão, foi dar parte à polícia. E a polícia foi tão boa que nem o quis encarcerar porque, em última análise, Tibúrcio é que era o verdadeiro ladrão; ladrão por ter querido comprar com cinco contos de réis a quantia de dez, com o agravante de que pertenciam a uma instituição de caridade. E Tibúrcio, voltando para a sua fazendola, naturalmente jurou, com todas as forças da sua fé, que nunca mais na vida se deixaria levar pela tentação de comprar dinheiro empacotado.

Este é o conto do vigário banal que todos os dias deparamos na crônica policial da segunda página dos jornais. Entretanto, a vida está crivada de contos de vigários que não vão parar na polícia, nem na coluna dos jornais...



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Fonte:
Rafael Rodrigo Ferreira: "O 'literato ambulante': antologia e estudo da obra de Sylvio Floreal - 1918-1928" (Tese). Universidade de São Paulo - USP. São Paulo, 2018.

Onde as garças são mais brancas (Crítica), de Sylvio Floreal



Onde as garças são mais brancas

Depois do êxtase produzido pela música e dos momentos de alegria espiritual provocados pela meditação, é possível poder-se afirmar que nada consegue evocar um pensamento de paz e harmonia, quanto aquele que nos proporciona um bando de garças em revoada. Oh! Delírios de brancura! É uma sinfonia de alvas irisações resvalando pelo mistério das canduras! É todo um poema latescente de penas mimosas e asas estouvadas que se agitam nervosamente na freima irregular dos adejos, pela região cariciosa do azul, como se essas gentis filhas das águas e das nuvens, ufanas da própria maravilha, investidas do direito de se igualarem às brancuras das camélias, na ânsia de espalhar a beleza, levassem nos seus voos para o céu, todos os sonhos de pureza da terra.

E ante as suas asas que se arqueiam e recurvam pelo espaço em fora, tem-se a visão das coisas alcandoradas que se confundem no horizonte do sublime. Isto quando se tem a ventura máxima de ver os grandiosos bandos de garças de Mato Grosso, onde esses sutis voláteis, são dotados de tal brancura, que até parecem abusar do direito de ser brancos; direito esse que nos induz a crer que as garças nestas plagas, são, de fato, mais brancas do que as suas irmãs de brancura de outras regiões e paragens.

Nas margens dos rios São Lourenço e Cuiabá, além da fértil colônia dos jacarés e da prolífera família das capivaras que calculadamente assentaram o firme propósito de não saírem mais da orla hospitaleira desses rios, nem mesmo à bala, há, depois das garças, que constituem uma espécie de alma das águas, atuando como um domínio branco, dilatado até as raias de uma tirania suave, feita de asas frufrulejantes, também um formidável número de outras aves, aí agremiadas, entregues à disputa reiterada dos ariscos e reverberantes peixes. E essa agremiação matizada e barulhenta, que se açula ao encalço da presa, entre gritos, grasnados, e cicios siflantes, é composta de teimosos biguás, insolentes baguaris, calculistas anhumas, irrequietas arranquãs, espertos tuiuiús, ariscos colhereiros rosados, gaivotas ingênuas, solertes mutuns e de uma infinita variedade de patos que, juntamente com os persistentes martins pescadores e outras aves aquáticas, de menor importância, vivem em pé de guerra contra os pobres peixinhos que caem na patetice de vir à tona da água.

E a lida pela existência nessas frescas regiões, segue a sua marcha sinuosa, em que os mais fortes e bem aparelhados, conseguem vencer galhardamente, nessa eterna luta dos aptos contra os ineptos.

E todas essas aves munidas de violentas garras e bicos vorazes, pescam nos rios Cuiabá e São Lourenço, em todas as suas horas de fome, e depois vão sestear à sombra das árvores frondosas dos vastos pantanais que se debruçam sobre a caudal desses dois rios.

O pantanal, nas margens dos rios Cuiabá, S. Lourenço e Paraguai, é uma espécie de grandiosa floresta lacustre, formada pelas águas que em determinadas épocas do ano, avolumam-se tanto, que entendem de invadir as sombras das matas. É a tragédia das enchentes, em que essa região denominada pantanal, numa extensão calculadamente de uns oitocentos quilômetros, toma, assim, o aspecto de um oceano improvisado. É um espetáculo surpreendente que evoca, em miniatura, uma contrafação, uma paródia daquele lendário dilúvio que nos relata a Bíblia. E durante os meses em que as águas, abusando do direito de correr, se alastram pelo seio intérmino da floresta secular, causando aflições aos que vivem por essas localidades e alegria aos que navegam pelos rios, livres do tormento dos baixios, o pantanal é um mar pontilhado de árvores que protestam contra o abuso dessas periódicas invasões. Porém, esse protesto não tem produzido efeito nenhum, porque as árvores aparentam a resignada atitude de quem teve, por força das circunstâncias, de adaptar-se ao direito do mais forte. Fenômeno paradoxal! O mais forte, em vez de ser a floresta com o seu vigor e espessura, é justamente a água, com toda a sua moleza e transparência.

Depois de um longo período de incursões pelo domínio sombrio das matas, as águas vão lentamente procurando o leito dos rios. Mas, o pantanal, pelas irregularidades do seu terreno, parece que aprisiona, para as futuras sedes das suas jornadas de seca, uma certa quantidade de água que se transforma em lago, lago esse que por sua vez também se constitui em viveiros de garças. E o pantanal, com seus infinitos lagos de águas vítreas, alguns das regiões arenosas, e de águas turvas dos lugares de terras que se transformam em lamaçais periódicos devido à periódica visita das águas, é uma vasta canaã de aves aquáticas de todos os tamanhos e feitios e é também a charneca da promissão das aluviões de garças, que, debruçadas sobre o espelho silencioso dos lagos, parecem florações maravilhosas, brotadas do reino das alvuras quando paradas a debruar a margem dessas águas aprisionadas, de marcos brancos como essência de neve. E quando cruzam a superfície dos lagos, parecem flocos de algodão, caprichosamente triangulados, dotados de vibração vital. E surpreendendo-as nos mistérios seios da região dos banhados, ora em atitudes hieráticas, ora tatalando as asas, alongando o simpático pescoço e distendendo as magríssimas pernas, parecem-nos muito mais brancas, como de costume o são outras garças. São como que um prolongamento do espírito bom das águas, que, dessa forma se penitenciam dos momentos negros e sinistros que infundem a essa zona, transformando-a em pantanal. E essa penitência, como uma desforra dos males causados, está toda ela concentrada na brancura das garças que representam, assim, o arrependimento das águas perante o espírito da floresta.

Oh! Como são lindas as garças do pantanal de Mato Grosso! E como se tornam encantadoras as mulheres quando trazem, na cabeça, ao lado de um pensamento cor de rosa de candura e beleza, uma aigrette tremulante e espiritual, arrancada da asa doida de uma daquelas garças.

Oh! Sonhos de elegância! Oh! Visões de luxo!

Vendo a maravilha sem par das garças do pantanal, é que se pode avaliar o quanto as mulheres devem amar essas aves que vivem unicamente para criar penas que toucam, garridecem e enfeitiçam as cabeças femininas!

Deus, ao povoar o pantanal de garças, é possível que tivesse fixa na lembrança, a ideia de proteger com a graça e homenagear com a bondade, as representantes máximas de sua beleza na terra — as mulheres!

Sim, Deus nunca se esquece das mulheres.


Rio Cuiabá, 11 de Outubro de 1926.

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Fonte:
Rafael Rodrigo Ferreira: "O 'literato ambulante': antologia e estudo da obra de Sylvio Floreal - 1918-1928" (Tese). Universidade de São Paulo - USP. São Paulo, 2018.

Corações onde ressoa a música das planícies e dos desertos (Crítica), de Sylvio Floreal



Corações onde ressoa a música das planícies e dos desertos

A natureza de Mato Grosso assombra pela fereza e comove pela poesia. A sua grandiosidade, deslumbra-nos os sentidos; a sua poesia prende-nos a alma na teia versicolor da cisma.

Sondando a natureza desse Estado, com enternecidos propósitos de surpreender, além do aspecto físico, os múltiplos segredos que se aconchegam em seu vasto seio, conclui-se que ela, não é somente um celeiro opulento de riquezas naturais, mas também, um maravilhoso repositório de coisas belas, e de motivos esplêndidos para se urdir poemas de alta emoção.

Natureza perdulária, pródiga de saúde, pletórica de energia em que a seiva borbulha, freme, alastra-se, circula e escorre voluptuosamente, acossada por essa ânsia amorosa de quem implora às mercês do esforço para progredir e completar-se e às dádivas divinas da imaginação que lhe imprima um ritmo de calor e forma que a imortalize, integralizando-se na alma humana.

Natureza venturosa que escachoa em rajadas de paixão entre o céu e a terra, e perpassa meiguiceiramente pela alma sonhadora das mulheres como um cântico de esperança a embalar as doçuras infinitas do amor.

Natureza fértil e vivaz, das florestas agressivas, que em êxtase, ouvem, embevecidas, as confabulações dos mistérios, os diálogos dos gênios verdes, filhos da gleba virgem e a orquestração zoinante da Flora e o festim auroral da Fauna buliçosa e assanhada.

Natureza silente, das campinas e das planícies esmeraldinas, intérminas e longas, onde a paciência dos bois pontilha os horizontes e os garrotes insolentes, impulsionados pela brotoeja dos pruridos inscientes ensaiam ingênuas bravatas, descrevendo parabólicas curvas madrigalescas, aos olhos langorosos e feiticeiros das novilhas ariscas.

Natureza fresca e irizada, das águas claras e sonoras que assistem ao idílio das aves, e dos volumosos rios que beijam a terra fecunda debruçada em suas caudais e vão serpenteando e retratando o vulto informe e brutal das montanhas e o perfil ora ramalhudo, ora sutil e nervoso, das árvores.

Natureza espetaculosa, reboante de alegrias, de clamores, de cicios, de gritos e gemidos, vindos do reino vegetal que se prolonga ansiosamente até o animal, numa mescla afetiva em que todos os sentidos dos elementos envolvidos na confederação de uma quermesse de harmonias, açulam e adestram as forças que se expandem e concentram.

Natureza reverberante, cálida, dos perfumes e das cores, das rarefações esmaecidas, que matizam a relva e as alfombras, e filigranam com laivos fulvos o verde enérgico das frondes, por onde erram perfumes ativos, perpassam e flutuam olências dormentes, numa ronda embriagadora, trescalante, de essências que se desprendem do almíscar da Fauna e dos aromas exalados do mistério da Flora.

Natureza dos bucolismos crepusculares, das tardes maviosas, das manhãs joviais e das noites de ar caricioso, propiciatório dos sonhos.

Oh! Natureza estuante de Mato Grosso! A beleza tocante dos teus motivos emocionais, atuando sofregamente na imaginação e na alma da raça, há de fatalmente caldear um tipo de homem bom e generoso perante o céu e a terra, e com a sedimentação de tanta poesia será integrado no seio do cosmos, com um coração onde há de ressoar a orquestração dos desertos, espiritualizado e enfibrado; para afrontar os imprevistos do destino.

Natureza deslumbrante!

Do seu âmago emerge Eva Mato-grossense, como um tipo argamassado com todas as aspirações da natureza dadivosa e hostil, deslumbradora e feroz, suave e trágica! Filhas da volúpia! Mulheres frementes, rubras florações de vida desabrochadas no ambiente largo e bruto!

E nessa bruteza, Eva de candura, transfunde um perfume de selva humanizada. Seu corpo, a orlar o cenário, é um poema de linhas e um prolongamento da vitalidade que flutua no seio dos elementos bravios.

ACZ e inicia “Eva Mato-grossense”, publicado em AV, se pensarmos nas primeiras publicações citadas em que os textos são tomados separadamente.

Gentileza associada ao mistério da amplidão e à poesia que desce do céu. Em ti cantam as curvas de Vênus e vibra a alma inquieta de Yara!

Herdeira dos segredos que ciciam no recesso sombrio das matas e do fulgor que embriaga a paisagem! Oh filha do Gigante Verde.

Mulheres que o amor transfigura em blandícias, enchendo o coração do homem de coragem, para extorquir da natureza feroz, as dádivas maravilhosas, que, batizadas pelo sacrifício vitorioso, vão depois, como oferenda de sorrisos e esperanças, aureolar vossa alma de paixão. Oh! Gentis ardores da gleba virginal!

A agrestidade estratificada e diluída em canduras, freme em vosso seio, pulsa em vosso coração, transborda em estendal de amavios pela vossa alma. Sois, no imo que vos circunda, a força metamorfoseada em flor; o grito bárbaro dos elementos aveludados em beijos; o estuar reboante das águas amaciadas em carícias; o zonzonar das árvores mudando em cicios de desejo...

Criaturas de enlevo! Almas onde ecoa o mistério das espessuras! Corações onde canta o hino das planícies e das florestas. Toda a natureza, concentrada, embala-se como que debruçada na comoção de vossas ânsias.

Prolongamentos de Yaras! Mostrais uma capacidade de ternura que é uma volúpia que traduz o ilimitado que vos envolve e os horizontes esquivos que beijam a fímbria reticulada dos bosques e das paisagens desonduladas.

Por isso, a bondade, filha da natureza, passando pelas águas murmurantes, pelo ramalhar das florestas e pelo gorjeio das aves canoras, chega até a vossa alma divinizada, balsamizando-vos os sentidos para a glória da Vida.

Eva Mato-grossense! Harmonia de forças que sorriem perante os céus!

Bem haja esse teu amor desvelado!

Bem haja a tua paixão, que, sobre o solo indomável, encerra as aspirações transbordantes da raça e a esperança de alargar o destino da Pátria.

Cuiabá, 6 de janeiro de 1927.


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Fonte:
Rafael Rodrigo Ferreira: "O 'literato ambulante': antologia e estudo da obra de Sylvio Floreal - 1918-1928" (Tese). Universidade de São Paulo - USP. São Paulo, 2018.

O inferno – duas horas na cadeia pública (Crítica), de Sylvio Floreal


O inferno – duas horas na cadeia pública

Ir ao inferno, num dia qualquer da semana, sem uma prévia apresentação, é tarefa bem difícil. Mas depois de algum esforço, consegui penetrar no Inferno – Avenida Tiradentes, nº5, Cadeia Pública.

Os touristes que devassaram o reino de Sua Excelência o Diabo dizem que este cavalheiro possui a mais bela morada do mundo. Pela milésima vez, tive outra desoladora decepção. Aquela miniatura do Inferno não tem, é certo, a suntuosidade do outro, onde passeia a sua arrogância o Augusto Príncipe das Trevas, mas, como aquele, um lugar de sofrimento, gritos e choro.

um casarão colonial austero, decrépito. Todo ele clama, pede, implora a misericórdia salutar da picareta!
Construído em 185176, e pelos inestimáveis serviços que tem prestado, trabalhando dia e noite, mais do que as suas forças o permitem, já lhe assiste o direito de ser uma ótima e galharda ruína. Velho pardieiro! És um anacronismo, uma carcaça mefítica, abjeta, ao lado do progresso desta capital que tu viste nascer!

Acompanhado do diretor e outros auxiliares, começo a percorrer os interiores da cadeia. Na porta de entrada, junto às grades, ao lado dos guardas que estão hirtos e vigilantes como domadores de feras, vi o homem que infunde o maior pavor aos visitantes daquela casa — o carcereiro.

Numa pequena saleta, sobre uma mesa pardacenta, jazia um molho enorme de chaves gastas que, pela continuidade do manuseio, espalhavam um brilho úmido e sinistro. O carcereiro agita-as nas mãos que sabem afagá-las com ternura, e elas produzem um som soturno e cavo, como o de uma pedra que rolasse pelo declive tétrico de um abismo!

Há anos que este homem abre e fecha calabouços. Imperturbável, exerce o seu mister silenciosamente, com alta elegância, sem nunca indagar qual é o crime daqueles indivíduos. É tão extraordinário, que até conseguiu perder o sorriso! Essa perda, aliás, não a fez somente ele: fizeram-na todos os que estão lá dentro, tanto os funcionários como os presos.

Não se vê uma máscara alegre!

Passo por entre os presos e tenho a sensação de que a minha liberdade os insulta tenazmente. Esqueço-me dos seus delitos; quisera corrigi-los com um pouco de piedade. Caminho apreensivamente e lembro-me de que a piedade, quando muito, poderá comover a criatura humana; mas nunca a corrigirá!

Paira em todas as caras uma angustiosa expectativa. O que mais o tortura não é o castigo, é a lentidão dos dias, que faz com que não se aproxime o momento da liberdade. O tempo é o maior verdugo daquelas criaturas!

No ar morno há um zum-zum de vozes, um torvelinho de frases. Todos, ao mesmo tempo, me chamam para expor o seu caso, e todos, a una voce, dizem que estão presos sem saber o por quê. Os que cometeram crimes alegam mil e uma atenuantes em abono de sua inocência. Os detidos por briga, roubo, vagabundagens e outras patifarias, clamam contra a polícia que não faz outra coisa senão persegui-los.

Toda a vigilância lá dentro é pouca. Frequentemente, há engalfinhamentos entre os que estão reclusos por vagabundagem e gatunice. O diretor se vê zonzo para manter uma relativa ordem entre eles.

— O senhor imagina — diz-me o diretor —; todos se dizem inocentes, mas por qualquer cousa discutem, provocam distúrbios. Entre eles, da discussão não nasce a luz, nasce a pancadaria!

Acidentalmente, me retenho na grade de um vasto salão, onde esperam ajustar contas com o Júri vários indivíduos. Num abrir e fechar de olhos, afluíram à grade todos os que estavam lá dentro, sentados, contando lorotas, lendo jornais, escrevendo, fazendo cigarros e bugigangas de miolo de pão.

Um turbilhão de olhares me focaliza, verrumando-me com uma certa insistência piedosa. Fisionomias de todos os feitios havia naquele magote. Falavam lamentosamente, com os lábios secos e os músculos faciais parados numa contração de revolta surda! Sobressaía de entre todos um mulato alto, espadaúdo, de beiços carnudos, sensualmente vermelhos como a polpa de uma romã. A sua figura chama-me a atenção. Indago quem é.

— Esse é aquele que anavalhou o rosto da Nenê Romano.

Ele não ouviu. Mas, percebendo a minha insistência, pois que o fitava atentamente, torceu as pontas do bigode e, um tanto contrafeito, abaixou-se e desapareceu.

Noutra sala, igualmente cheia, mas de um pessoal um pouco mais limpo, que constitui a “elite” da cadeia, um cidadão todo garboso, bem escanhoado, sentado sobre um colchão enrolado, falava com voz forte e timbrante. Os outros, fumando, dominados mais pela preguiça do que pela loquela do companheiro, prestavam uma atenção negligente, com olhos semicerrados.

À primeira vista, não conheci esse indivíduo, pois que lhe faltava o principal adorno, o seu dístico — o cravo vermelho!

— Quem é aquele homem?

— Aquele é o Sr. Vicente Gervásio...

Juntamente com outros colegas da prisão, ele vem até à grade. Ninguém fala a não ser ele.

— Sou uma vítima dos caluniadores —, diz o Vicente Gervásio. — Tudo aquilo que se escreveu por aí contra mim é mentira! Nunca roubei, nem extorqui dinheiro de ninguém. Eu fazia o que faz uma grande quantidade de “picaretas” que vivem por aí a fundar revistas clandestinas que ninguém conhece.

E assim, nesta toada, vociferou uma tremenda catilinária contra seus ex-colegas de “picaretagem”.

Durante todo o tempo que levei a examinar outros tipos, Gervásio, fazendo uso da sua verbosidade escorregadia, divagou sinceramente,  a seu bel-prazer, no firme propósito de me capacitar de que é um rapaz de talento. E acreditei, não há dúvida! Vistos que foram os calabouços dos homens, passei ao das mulheres.

Diversas encarceradas respondem por crime de infanticídio, furto e assassinato. E outras, quase todas pretas e mulatas, por bebedeiras e arruaças. O barulho que essas mulheres fazem mantém todo o enorme edifício em constante atoarda.

Pelo enxadrezado de ferro da porta, espio para dentro dessa prisão. O quadro é desolador e repugnante. No soalho, e sobre os colchões encardidos, roídos pelo tempo e pela sujeira, há mulheres sentadas, em atitudes indecentes. Trocam-se insultos virulentos por entre guinchos, berros, blasfêmias e palavrões de fazer corar a caliça amarelenta das paredes.

Ante esta cena de ultrarrealismos, um mal-estar pungentíssimo apossou-se violentamente de todos os meus sentidos. Tive pena daquelas desgraçadas, não por estarem presas, mas, pela degradação da moral a que chegaram, devido exclusivamente ao vício da embriaguez.

Depois, ainda dominado por esse capítulo de sofrimento anônimo, único nos anais da miséria, fui ver aquilo que a cadeia tem de mais trágico e desumano — o local do suplício extremo — a solitária!

É um cubículo escuro, estreitíssimo, úmido, onde o paciente não pode nem abrir os braços. Todo pintado de negro, fúnebre como um necrotério. Pelas paredes há nomes riscados na crosta do piche; são caracteres irregulares e ilegíveis, que, logo se adivinha, foram gravados dolorosamente com a unha. Os presos, os de grande culpa, quando não querem confessar o seu crime, passam ali uma invernada a pão e água.

Turbilhonavam confusamente em meu cérebro impressões macabras de dramas soturnos e desvairados grand-guinol, quando cheguei até o fundo dos prédios, onde os presos cultivavam uma horta luxuriante de variegados legumes.

Enquanto olhava perscrutativamente um canteiro de alface, o diretor toca-me o ombro, e diz-me em surdina:

— Agora o Sr. vai conhecer o preso mais obediente da cadeia.

E aponta-me um homem que se aproxima lentamente. Chega, saúda-nos e para.

— Ei-lo, o Sr. Miguel Trad!

Permaneci um segundo extático, recapitulando cenas na memória.

Depois, trocamos monossilabicamente algumas palavras.

E assim estivemos mais de cinco minutos a falar, bem entendido “em português”, sobre tudo quanto se relaciona com a arte de plantar um pé de couve... O Sr. Trad fala jeitosamente, como um perfeito gentleman. Tudo nele denuncia o homem que, tendo passado através de profundas transformações, vive em paz no presente, confiante no futuro, esquecido completamente do passado...

Sabe fazer uso da sua cultura e inteligência com extrema dissimulação. Sabe, enfim, escudar a arca dos seus segredos...

Num relance, percebi que a minha presença constituía para ele uma interrogação. Entre misterioso e amável, Miguel Trad despede-se de mim, e vai tratar de uma toucerinha de cravos vermelhos.

E é talvez com alguns desses cravos que ele pretende presentear o Sr. Vicente Gervásio, no dia em que este sair da prisão...


Jornal "Ronda da Meia-Noite", ano: 1925.


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Fonte:

Rafael Rodrigo Ferreira: "O 'literato ambulante': antologia e estudo da obra de Sylvio Floreal - 1918-1928" (Tese). Universidade de São Paulo - USP. São Paulo, 2018.

A Vertigem em Marcha “Fisionomia de um bairro” (Crítica), de Sylvio Floreal


A Vertigem em Marcha “Fisionomia de um bairro”

O Brás, durante o dia, é um verdadeiro poema homérico de atividade e trabalho.

a ânsia em marcha, desabusada e audaciosa. É a luta em assomo febril de indômita avançada, penetrando, dominando todas as esferas da vida. O esforço aguerrido pela fúria de enriquecer multiplica-se de mil modos, toma aspectos e proporções espantosas, criando iniciativas, tramando expedientes, urdindo invenções, inventando meios que o conduzam ao triunfo monetário.

Ressumbra, paradoxalmente, uma ânsia titânica, em todas as latitudes, de ganhar dinheiro! A inércia e a ociosidade, segundo certos moralistas esquisitos da China, é que aproximam o homem da perfeição de Deus. Este dispositivo filosófico por certo que não encontra no Brás adeptos apaixonados — nele todos conspiram contra a estagnação e preguiça, trabalhando ardorosamente, distanciando-se de Deus e da perfeição e aproximando-se do Homem. O exagero e o absurdo nesse bairro atuam e prosperam num conúbio admirável de entendimento tácito. Ao lado de maltrapilhos e mendigos que pedincham uma fugitiva esmola, cruzam industriais arrogantes e garbosos.

Desfilam, em direções opostas, “mameludas” matronas e figurinhas lépidas de costureirinhas. E a vida turbilhona numa mistura incaracterística.

Se o suor fosse o símbolo da honestidade, o Brás seria, no concerto dos bairros, o mais honesto de todos. Todos os que lá vivem, acometidos do desejo de acumular fortuna, esfalfam-se, escorcham-se quase que animalescamente, no intuito de enriquecer o mais depressa possível. E tudo pulula numa agitação delirante, nevrótica, produzida por milhares e milhares de indivíduos dominados do desejo de se tornarem alguma coisa pelo dinheiro. De permeio aos que fixaram o seu destino definitivamente aqui, há também os que trabalham com os braços, mas pensando sempre na pátria longínqua. Nestes, o fundo do cérebro é cortado e recruzado por locomotivas e navios em plena voragem de locomoção. Felizmente, estes constituem a minoria. A maioria trabalha com o firme propósito de não mais sair daqui.

Perscrutado esse bairro medularmente, ele oferece um aspecto deveras curioso: é um verdadeiro tabuleiro de xadrez de raças e povos, os mais estranhos pelos sentimentos e os mais diferentes pelas procedências, onde todos, imersos em relativa harmonia, de maravilhosos apetites, jogam e disputam entre si, agressivos e astutos, maneirosos e calculistas, a partida fatal de vencer o rei dinheiro e a torre milhões!

Ao lado desses espetáculos de enorme agitação, surpreendemos, a miúdo, os que vieram para aqui e encasquetaram a ideia inamovível de fazer a América, seja lá como for. Afora estas pequenas anomalias, vemos então a plebe mourejando nas fábricas, a esbanjar saúde, concorrendo assim para a grandeza do bairro. E os ofícios mais contraditórios e os misteres mais desiguais e chocantes aí se confundem e se entrelaçam, formando uma rede extremada e resistente de múltiplas atividades que buscam invadir e dominar todas as esferas da luta pela vida.

Há duas grandes artérias, que, centralizando o grosso do comércio, cortam estouvadamente, num paralelismo irritante, esse bairro: a avenida Rangel Pestana e a rua do Gasômetro. Convergem a elas uma infinidade de pequenas e grandes ruas, ruelas, becos, travessas, e outras monstruosidades deste jaez, intransitáveis, algumas ainda em formação. E todas, como bocarras impudentes, despejam sobre as duas grandes vias a sua formidável choldra anônima e circulante. E nos dias de trabalho, à cadência redemoinhante da lufa-lufa que retroa, revira, sarabanda, controla e pinoteia, perpassam, lascando o barulho, chicoteando o ar, berros, gritos, vozes, assobios, numa debandada estridente que cloroformiza os ouvidos e verruma os nervos.

Em cada esquina desse bairro, fala-se uma língua estranha e ostenta-se um hábito disparatado. Em cada rua, exibe a sua tradição um povo diferente. Em cada praça, brincam chusmas de garotos peraltas e desbocados, produtos dessa feira de povos. E nos dias de férias escolares, então, o Brás, num grande desejo patriótico de patentear a sua extraordinária proliferação, de bom povoador do solo, exibe nas praças e nas ruas o seu incansável esforço genésico, representado em magotes e magotes de crianças de todos os feitios e tamanhos.

Brutalidade! Nessa descomunal fornalha do trabalho, onde os braços forjam o progresso, as vontades urdem a civilização e os egoísmos ululantes entesouram capitais, caldeiam-se e atletiza-se audociosamente, para variegados afazeres e diferentes misteres, uma geração de homens e mulheres, floração esplêndida de similares integralizados nessa zona de luta e atividade, originários todos dessa exótica vegetação de povos que, uma vez aqui localizados, compensam o mal material que fazem, deslocando os nossos capitais para as suas terras, com o bem moral de aqui deixarem os seus filhos, que constituirão no solo americano a família brasileira de amanhã. Todas as raças deste bairro transfundiram muito bem os seus esforços. Mas, se não se disser que os italianos fizeram o Brás, eles, logicamente, morrerão de raiva! Matemo-los a vaidade, dizendo que esse bairro é o produto quase que exclusivo dos seus esforços. A eles, tão somente a eles, é que se deve, talvez, a prosperidade do mesmo. E o Brás é bem uma possessão italiana encravada no flanco da Pauliceia. Lá, respira-se uma atmosfera eminentemente italiana, na generalidade, de ótima garrulice e entusiasmo; e também em certas particularidades percebemos umas aragens napolitanas. Bebe-se vinho feito de tudo, menos de uva; costuma-se engrolar avantajados pratos de macarrão, e joga-se também a mora aos gritos, enquanto as pimpinellas e os guagliôs passeiam sorridentes, namoricando, como se estivessem na via de Chiaia da cidade de Vesúvio. Outras nacionalidades há, é certo, crustacizadas no organismo do bairro, porém em números diminutos e dispersivos, disseminadas aqui, e acolá, por todos os recantos da grande baixada. Não se pode, contudo, negar que no seio dessa vasta aglomeração, os italianos, donos do bairro, em franca camaradagem, formam a regra; os outros, a exceção: e, apesar de bem vistos, não passam de inquilinos.

O Brás, na tela panorâmica da cidade, visto cá do alto à luz do dia, é uma pincelada berrante de zarcão, onde as trompas insolentes das chaminés das suas fábricas expelem, numa ejaculação insistente para o alto, mascarando de negro a fisionomia do céu, atropelados rolos de fumaça! Tem o aspecto de um anfiteatro em combustão, fervilhante, gerando em seu seio um monstro apocalíptico!

Todo ele é Progresso em fantástica escalada para o Futuro!


Jornal "Ronda da Meia-Noite", ano 1925.


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Fonte:

Rafael Rodrigo Ferreira: "O 'literato ambulante': antologia e estudo da obra de Sylvio Floreal - 1918-1928" (Tese). Universidade de São Paulo - USP. São Paulo, 2018.

O aleijão da avenida (Crítica), de Sylvio Floreal


O aleijão da avenida

— Se não fosse paradoxal, eu afirmaria aos leitores da Gazeta que nutro pelo Sr. Zadig uma grande admiração pela sua rasgada audácia de, não sendo escultor, afrontar uma cidade como S. Paulo com aquela salgaralhada rotulada de monumento. O Sr. Zadig, ex-massagista, segundo a voz flutuante dos que há muito o conhecem, quis, num momento de delírio ambicioso, mostrar que ele também, seguindo as pegadas dos aventureiros que aqui armam o bivaque da sua piratagem, e enriquecem trazendo na sua bossa somente as garras da ganância, não bancaria o inocente nem a pomba entre milhares, e, consultando a sua bossa, encontrou no fundo, em estado latente, apetites de aventureiro. E, como aqui, tudo se improvisa, ele improvisou-se, do dia para a noite, em escultor. Fez campas, mausoléus, hermas, estortegadas estatuetas, placas, targas, baixos relevos, santos e outras bugigangas pertencentes à categoria das artes plásticas ou femininas. Assim, furando meses e anos, o nosso homenzinho, que suspirava, como aquele personagem do “Guarani”, na “ária do Aventureiro”, à espera de um golpe decisivo que lhe permitisse um salto, nesta terra de saltos, dos baixios da mediocridade e do obscurantismo, onde esmurrava barro para fazer santos, até à suma glória dos triunfadores, contava fazer um dia um grande monumento. A ocasião chegou: vítima, logicamente, devia ser um anafado capitalista que, tendo legado parte de sua fortuna a uma instituição de caridade, a municipalidade entendera de imortalizá-lo, perpetuando o seu arcabouço na praça pública. Mas, assim não aconteceu; nenhum anafado houve por bem morrer e o bode expiatório, arrastado pelas enxurradas do opróbrio, que havia de ser?! — O nosso máximo poeta, de cujo nome eu não me posso lembrar sem me comover! E o Sr. Zadig, de tocaia, ardiloso, sinuoso, premeditativo, envolvente, como um jaguar que se arremete contra uma presa imbele, trançando curvas lépidas de ferino, desferiu contra o bote fatal e espostejou a vítima entre as apuas laminadas de suas garras. E em certa manhã aziaga, para escárnio dos paulistas, a estátua de Bilac surgia no extremo da Avenida Paulista, tétrica, medonha, horrível, como um insulto fundido em bronze, lançado à memória do cantor do “Caçador de Esmeraldas”! Sobre essa manhã aziaga, outras manhãs monótonas rolaram como que compungidas com a sorte do Poeta e sobre a tristeza dos que nesta terra ainda se interessam pelas coisas sagradas. Vivia em paz o sr. Zadig, talvez inconsciente de ter burlado um grande povo, cogitando em ampliar o seu raio de ação, farejando aqui e acolá a maneira fácil de abocanhar mais uma presa para encher o tonel das Danaides de sua ambição. Mas, nem tudo, nesta terra de aventureiros, está medularmente pervertido. Os que não enriquecem seguindo o exemplo dos bandoleiros, ainda velam de cabeça erguida, como sentinelas nas fronteiras da pátria e, de azorrague em punho, e o verbo flamejante de cóleras, chicoteiam e condenam, para o afinamento da raça, e o decoro e respeito à Civilização, todas as manifestações berrantes de todos os escoiceadores da Arte, do Belo e da Harmonia. Compreendo isso mesmo, a Gazeta, tornando-se tuba de todas as indignações que explodiam avulsamente, sem nenhuma força coesiva, abriu uma clareira nas manhãs aziagas que rondaram à volta do monumento de Bilac, e condensando em suas colunas o clamor anônimo, veio reabilitar a memória do grande poeta, reabilitando ao mesmo tempo, a terra que aspirava vê-lo perpetuado no bronze. E essa campanha, avolumando-se dia a dia, há de arrasar, como um furacão de ódio, o aborto engendrado no cérebro nebuloso de um pseudo escultor.

Neste ponto interrompemos:

— Acha você então que o Sr. Zadig não é escultor...

— Já o disse e continuarei a afirmá-lo: Zadig é um sofrível fazedor de túmulos; um marmorista vulgar, que poderia viver aqui muito quietinho se não fosse tentado pelos pruridos da sua audácia. Audácia que cavou a sua ruína; ignorância que o tornou indesejável; ambição que o tornou odioso e o integralizou, novamente, para todo o sempre, no seu antigo plano rasteiro de obscurantismo.


Jornal "A Gazeta", 29 de novembro de 1920.


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Fonte:

Rafael Rodrigo Ferreira: "O 'literato ambulante': antologia e estudo da obra de Sylvio Floreal - 1918-1928" (Tese). Universidade de São Paulo - USP. São Paulo, 2018.