sexta-feira, 5 de julho de 2019

A caravela (Conto), de Brito Camacho



A caravela
Os monárquicos oferecem ao
Sr. D. Manuel, como prenda de
casamento uma caravela.
(Dos jornais)

O seu único rendimento era o seu emprego, um bom emprego que obtivera por concurso... de tranquibernias eleitorais, num ano em que as listas foram metidas nas urnas espetadas na ponta das baionetas. Não era, positivamente, a opulência; mas era a vida farta e sem cuidados, o futuro garantido com uma reforma de aproximadamente dois contos de réis.
Logo que se proclamou a República ele aderiu, jurando fidelidade ao novo Regime, funcionário do Estado e não da Monarquia, português antes de mais nada, patriota acima de tudo. Tinha o cuidado de só dizer mal das instituições quando se achava entre amigos, e na repartição, com medo de fazer alguma coisa que o comprometesse, não fazia coisa nenhuma.
Era talassa, mas como não tinha outro rendimento senão o seu emprego, guardava o seu talassismo dentro da maior reserva, não fosse cair-lhe em cima a demissão, que seria a miséria negra, incapaz como já estava de exercer um mister lucrativo. Mal conseguia dissimular a sua íntima satisfação quando os boatos eram mais insistentes de conspirata a rebentar, e justamente nessas ocasiões ele aparecia por toda a parte lendo com muito interesse os jornais republicanos.
Com a mulher não tinha segredos, embora ela se mostrasse pouco saudosa do passado, e insistentemente lhe recomendasse os maiores cuidados, não fosse ele, num desabafo imprudente, estragar a sua vida. De modo que ao ter conhecimento, pelos jornais, de que fora apreendida a caravela, foi como se lhe batessem na cabeça com uma barra de chumbo. A bordo da caravela ia a mensagem, e na mensagem ia o nome do marido. Era o conselho disciplinar, era a demissão, era a miséria negra, visto que o seu emprego era o seu rendimento único.
À hora do jantar, apenas ele entrou em casa, sem lhe dar o beijo de todos os dias, a voz entrecortada de soluços:
— Estamos perdidos, não é verdade?
Ele já sabia do caso, mas nem sequer se mostrava apreensivo.
— Tontinha! O meu nome está na mensagem, lá isso é verdade, mas não está a minha letra, e perante o conselho disciplinar eu farei esta coisa simples — afirmar que não autorizei ninguém a assinar por mim...
Horas passadas, no café, como uns talassas, na mesa em que ele estava, dissessem mal da República, pregou uma bofetada no que lhe ficava mais próximo, e erguendo o chapéu a toda a altura do braço estendido, gritou com toda a força dos seus pulmões burocráticos:
Viva a República!
Os jornais, na manhã seguinte, encareciam o feito desse patriota, um devotado amigo da República.


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Pesquisa, transcrição e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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