sexta-feira, 5 de julho de 2019

O amor das mães (Conto), de Brito Camacho


O amor das mães
Dizia o médico que não era nada; mas a criança piorava a olhos vistos, a febre queimando-lhe as carninhas tenras, e uma tosse incessante, muito funda, parecendo que lhe rasgava o peito, como se fosse uma lamina! Era o seu filho único, a compensação de uma vida longa de trabalhos e dores, a esperança de um futuro longínquo, em que havia clarões de gozo. Nem ela sabia como aquilo fora. De repente, como se o tocara um bafejo de peste, o pequeno deixou-se-lhe cair no colo, a encolher se como quem sente frio, a tiritar como quem tem medo, e logo aquela maldita tosse entrou a rasgar-lhe o peito, como se fosse um punhal, ao mesmo tempo que lhe martelava a cabecita loira, como sobre uma bigorna.
Enquanto não chegava o médico, fora ela renovar todas as flores do seu oratório, acendendo muitas velas à Senhora do Rosário, sua madrinha de batismo, perante a qual ajoelhava todos os dias, com muita fé e devoção. Pedia lhe agora a vida do seu filho, a salvação do seu Toneco, que ali estava ardendo em fere, a tosse rasgando-lhe o peito, como se fosse um punhal, e nas faces redondinhas umas grandes chapas vermelhas, como dois gigantescos pingos de lacre. Parecia lhe que a sua Madrinha descerrava os lábios, a dizer-lhe boas palavras, e, como fechasse os olhos, num grande movimento de concentração, ia jurar que tinha sentido sobre a sua cabeça pendida a mãozinha branca da Santa, a significar-lhe que tivesse esperança.
Dizia o médico que não era nada; e efetivamente desaparecera aquela febre que escaldava o seu Toneco, como num banho de enxofre derretido; cessara aquela maldita tosse que lhe rasgava o peito, como se fosse um punhal, e das faces emagrecidas tinham- se apagado aquelas chapas vermelhas, que eram como dois grandes pingos de lacre, ou duas gotas de sangue, muito quente e muito vivo. Aquilo não era nada; o sofrimento cessara... porque também cessara a vida.
Apagou as velas do oratório e, quando atirava para o quintal as flores e a sua Madrinha, pareceu-lhe que se descerravam os lábios da Santa, como num gesto de súplica. Fechou a janela, com força, e, deixando cair os olhos, cheios de lágrimas, sobre o pequenino leito vazio, ficou-se a considerar a impossibilidade de terem crenças as mães que perdem os filhos.



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Pesquisa, transcrição e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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