sexta-feira, 5 de julho de 2019

As competências (Conto), de Brito Camacho



As competências
— Vossa excelência deseja?...
— Um compêndio de geografia.
O caixeiro afastou se, voltando passados dois minutos com um grosso volume na mão.
— É o que há de melhor...
— Perdão; o que eu desejo não é um tratado, é um compêndio.
— Perfeitamente; é para um estudante do liceu...
E afastou-se novamente.
Foi quando entrou o comendador Casquinhas, muito fragalhoteiro, com uma grande camélia branca na boutonnière da sobrecasaca preta.
— Ó senhor conselheiro! Os meus parabéns...
— Obrigado, comendador, obrigado. A política partidária tem exigências que obrigam, e, acima das comodidades pessoais, está o serviço da Pátria, o bem do país.
— Sem dúvida, e eu compreendo muito bem que vossa excelência não desejasse entrar no ministério, sobretudo para uma pasta que ainda não geriu...
— É certo que não desejava entrar, mas não pelo motivo que disse. Sempre fui apaixonado pelos estudos coloniais e tenho dedicado uma particularíssima atenção a tudo que diz respeito à Marinha. Fui um grande estudante de Geografia, em cujo exame fiquei distinto. Andava então a abrir-se o canal de... na América... o canal de Suez.
— Vossa excelência quer dizer o canal do Panamá?
— Não, o canal de Suez. Tenciono passar por lá, no verão próximo. Está no meu programa uma viagem às colônias.
— A todas?
— Não, apenas às da Costa Oriental da África. Preciso informar-me do que valem Macau e Timor. Tenho um plano de administração colonial...
— Mas Timor e Macau...
— Bem sei, ficam um bocadito distantes de Angola, que é o objetivo principal da minha viagem; mas como tenciono visitar os Açores, o desvio não será grande.
O comendador ia desmaiar quando o caixeiro voltou, com um livrinho na mão.
— Quanto é?...
— Meio tostão, Sr. conselheiro.

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Pesquisa, transcrição e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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