segunda-feira, 15 de julho de 2019

A deliciosa perversidade de Monteiro Lobato (Crítica), de Sylvio Floreal



A deliciosa perversidade de Monteiro Lobato

Monteiro Lobato, o flamulário da ironia, é, em terra de Piratininga, uma afirmação esplêndida de rebeldia literária.

A sua personalidade literária, solidamente definida e organizada, desde o dia do seu aparecimento, despertou entusiasmo no ânimo de toda gente, fazendo com que fosse focalizado pela atenção das camadas cultas, de norte a sul do país. O seu temperamento de criador que observa, de fantasista que vê a vida em todas as suas amplitudes e modalidades, e de romântico que conhece as fraquezas lamechas do amor e as virulências descalabriantes das paixões, sempre se manteve integralizado dentro de sua personalidade, fiel o mais possível à sua visão e ao seu eu, livre e rebelde a toda e qualquer influência estrangeira.

Sempre desdenhou as escolas e menoscabou as atmosferas asfixiantes desses ambientes onde prolifera, assombrosamente, o cego e minúsculo elogio mútuo e imperam os cânones das artes e estéticas oficiais. O seu principal característico é a independência, assim como a sua grande tendência dentro da literatura é a de fazer arte pessoal e rebelde mas que diga alguma coisa e reflita o mais possível o meio, a terra e o homem.

Emancipou-se de tudo e de todos!

Conhece a língua portuguesa com proficiência, e escreve como bem lhe parece, contanto que traduza aquilo que quer dizer de modo o mais agradável, variado e interessante. Conhece a literatura francesa profundamente e não se deixou escravizar pelo que ela tem de medíocre e de sublime. Conhece a Grécia de Homero e de Venizelos, e confessa francamente que conseguiu matar a Grécia na sua arte. A salvo todas estas tutelas mentais, ele se pôs de tal modo, e com tanto talento, que o crítico mais ferrenho e coscuvilheiro não lhe apontará descalabros nem absurdos, por ter tomado uma atitude hostil contra todos esses padrões estéticos, de procedência duvidosa, que há muito desindividualizam a maioria dos escritores brasileiros.

Os bonifrates da crítica choca e os escritorescos, possuidores de muita formúncula gramatical e de nenhum temperamento artístico, clamam esturdiosamente que ele abusa do neologismo, do termo ambíguo e de expressões bárbaras, recém elaboradas no ventre da idiotice popular!

Tudo isso é verdade! Mesmo porque ele não escreve para iluminados, e o seu propósito único é escrever para o povo; por isso o seu vocabulário é chamejante, as suas expressões são contundentes, argutas, psicológicas, espirituosas, cáusticas, incisivas, mordazes, audaciosas, demolidoras!

Sendo a sua linguagem viva, agitada, colorida, consorciada numa perfeita afinidade com o seu temperamento, resultou um instrumento de expressão original e inconfundível que lhe facilita dizer tudo com elegância e bom gosto, sem tomar atitudes pernósticas e mirabolantes de quiosque embandeirado!

Todos os livros de Monteiro Lobato são caldeados sob a comburência vulcânica de uma certa linguagem aguda e verrumante, onde o leitor estaciona a cada passo para admirar a gama dos imprevistos, composta, ora com seu sarcasmo doloroso, ora com o seu humor variado, faceto e salutar, ora com a sua ironia deliciosamente perversa!


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Fonte:
Rafael Rodrigo Ferreira: "O 'literato ambulante': antologia e estudo da obra de Sylvio Floreal - 1918-1928" (Tese). Universidade de São Paulo - USP. São Paulo, 2018.

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