terça-feira, 2 de julho de 2019

A filosofia do Gabiru IV (Conto), de Raul Brandão



A filosofia do Gabiru IV

Oh descubro agora a torrente esplêndida que é a vida! É a emoção. Ela é o veio límpido onde as sedes se estacam. Liga os homens, prende-os – e o egoísmo afasta-os.

Todos os rios, como todas as vidas, vão desaguar ao grande atlântico de beleza. As criaturas humildes e simples têm uma existência como um fio corrente – água e lágrimas – mas sempre claro. A cólera, a ambição, os interesses turvam a vida, como a terra revolvida turva a água.

Amar os outros, sofrer pelos outros, viver para os outros, é tornar a existência simples, monótona e grande; é fazê-la parecida com as mantas grossas, duma única cor neutra, que agasalham os pobres.

O homem que tem emoção e que ama é sempre feliz: as coisas conhecem-no, as árvores são suas amigas. Sente-se enternecido diante do mais ressequido calhau.

O que odeia, o ambicioso e o mau, passaram pela natureza como o homem na guerra: não viram nem ouviram. As coisas emudecem para eles. Nada lhe dizem, porque não sabem ouvir. Tu, que enternecido paraste diante dum sítio recolhido e simples, diante das desgraças alheias, tu, pobre, que tombaste na cova desprezado, roto, e a quem a terra recebe como a um amigo, tu que adormeceste no derradeiro sono quase consoladoramente, como morre tudo o que é simples, tu viveste... Comunicaste, pela piedade e pela emoção com a natureza inteira e o teu amor repartiste-o pelos mundos que rolam no infinito, por Deus, pelo homem, pela pedra. Tu soubeste e pressentiste tudo.

O que é grande é sempre simples.

Desperta em ti a emoção para que possas dizer:

– Vivi!

Todo o homem que nasce deve ter um quinhão de terra – seu sustento e sua cova. O pão de cada dia deve granjeá-lo com o suor do seu rosto.

É singular a inconsciência com que o homem trata as coisas mais profundas da vida – e a gravidade com que discute as que são apenas aparências vás.

A desgraça é sempre boa – porque aproxima o homem dos desgraçados.

Tudo na vida se simplifica sendo a gente simples. É com a folha que se deixa vogar na mansidão dum rio até que o oceano a traga.

Para se ser feliz na vida é preciso ser-se pobre. Sentir-se que o pão que se come não é tirado a nenhuma boca, nem o lume que nos aquece roubado a alguma velhice friorenta.

Ser pobre, lavrar uma terra que nos dá o pão saboroso e negro e o tronco para o nosso lume!...

Quando se ama, a emoção sai de nós como duma fonte e a gente prende-se aos outros. Não se sente sozinha: faz parte da Vida, duma torrente de amor misteriosa e esplêndida. O amor torna-os irmãos.

O homem não faz senão complicar a vida, que em si é afinal bem simples.

As coisas desprezadas são as melhores da vida: a paz, as horas esquecidas, a água desnevada que se bebe, os minutos de silêncio em que se sente Deus conosco.

De que serve acumular ódios, ambições, riquezas? Não é isto de mais para uma vida terrena?

Não saber nada senão amar – repartir emoção com os outros!

De rastros! de rastros! Ódio, ambição, gritos, tudo isso é nada! Toda a existência perdida a sonhar, a viver sozinho, absorto em coisas nulas, quando a vida é tão grande e tão simples e se reduz – a amar! Pelo amor conhece-se tudo, até o que os sábios ignoram. Olha para um mistério com amor, e ele desvenda-se logo; olha para um calhau com amor, que até nele encontras mil coisas imprevistas; chega-te ao homem, teu irmão, até ao mais degradado, com amor, que nele depararás com Deus. Deus vive ao pé de ti, contigo, tocá-lo a toda a hora. Que precisas para o sentir? Amor.

Vive uma vida simples, a vida de que os pobres se aproximam, com emoção e o teu pedaço de pão negro, olhando o prodigioso mistério, e serás feliz.

Lavra o teu campo, e, nas horas perdidas, olha, prende-te à abóbada do céu, ao homem, à montanha, à árvore, ao mar – e ouvirás Deus em ti, sentindo atravessar-te uma frescura mais viva do que a água das rochas.

Deus está muito perto de ti – e é por isso mesmo que não o vês. A dois palmos da secura passa muitas vezes um veio de água escondido. Basta cavar na crosta da terra, para que o chão gretado e pedregoso se transforme. Que torrente de emoção não vai atravessando os mundos, os homens, as folhas secas e os globos de ouro do céu!

O homem enredou-se de tal forma na ambição, no ódio, na guerra, que perdeu o sentido da vida – tão simples e tão larga – e que deixou de ver Deus, sempre presente ao seu lado.

Para o encontrar, precisa de voltar ao amor das coisas simples e grandes – ao amor dos seus irmãos, da natureza, e de abrir o seu coração a esse fluido misterioso.

A vida artificial é que transformou o homem. Da vida artificial é que nasceu o orgulho, é que nasceram a ambição, os erros, o crime – e até a piedade. Se todos vivêssemos da verdadeira existência – o homem seria feliz. Como se pode redimir tudo isto? Pregando o Amor. Só o Amor nos pode ainda salvar.

Agora vejo! agora vejo! Que montão de infâmias! que montão de crimes! O homem trabalha desesperado, atrás do ouro, da ambição, da vaidade, do sonho vão, para quê? Para ser desgraçado. Um trabalho férreo e hercúleo – para gritar, e encontrar-se ao fim, a dois passos da cova, com inutilidades, carregado de dores e de opróbrios. Não hesitou em despedaçar, em calcar, em mentir – em busca do que ele julgava a felicidade, e que era apenas o erro. Não teve tempo para olhar a montanha, o mar, o céu – o espetáculo de Deus não o viu – porque corria atrás da felicidade. Não perdeu uma hora apanhando sol como um mendigo, tendo piedade de seus irmãos, dando mão aos desgraçados, porque vivia numa aflição, atrás do quê? Da felicidade. Não se sentiu a sós consigo, não se encontrou, nem sequer um dia da sua vida perdeu olhando-se cara a cara, ele e a sua alma, fechado com o seu coração. Por quê? Porque corria atrás da felicidade. Desprezou tudo, a vida, a respiração dos montes; riu-se do amor, da emoção – futilidades – porque feroz, incansável, negro como um mineiro, ele buscava, sem perder um minuto – a felicidade! Chegou ao termo da jornada, tendo amontoado ouro e pão, tirado a outras bocas, tendo feito gritar, blasfemar, contente o seu orgulho e a sua vaidade mas afinal profundamente desgraçado. Está a dois passos da cova. Interroga-se e não compreende. Então isto é que era a felicidade? De que me serve tudo isto? O desgraçado não reparou que a felicidade na vida estava exatamente no que ele tinha desdenhado!

Ama, ama a teus irmãos e vê-lo-ás transformados e cheios de beleza: mesmo nos mais secos irás encontrar coisas inesperadas; ama a natureza, os montes, as pedras – e verás que espetáculo sublime; ama, que sentirás a mão de Deus pousar sobre a tua cabeça.

Torna a vida simples e serás feliz. A tua vida não custará gritos; o teu pão não será furtado a bocas famintas. Por cada homem que amontoa ouro, há cem criaturas morrendo no desespero e na aflição.

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