terça-feira, 9 de julho de 2019

A Maria Trolha (Conto), de Raul Brandão


A Maria Trolha

Sentou-se à janela. Tinha uma vontade grande de chorar sem saber bem porquê. Uma angústia vaga, um pesar imenso tomara-a pela garganta ao cair da noite; sentia com violência a necessidade de alguém que a acariciasse honestamente: — um beijo paternal na fronte. Ia a chorar ao lembrar-se do pai que se lhe desenhou nitidamente – ia a chorar, mas para afugentar as mágoas, traçou a perna e cantou:

Se vires a mulher perdida
Não a trates com desdém...

Na viela estreita, outras vielas vinham romper ainda, murmurantes de gente, negras, vermelhejando de longe em longe à luz dos candeeiros. Uma cantiga perdia-se na noite: vozes roucas saíam duma tenda: e em cafurnas terríveis, movendo-se à luz vermelha, vultos tinham a aparência extravagante de visões. Assim com um céu de tinta em cima, os casarões muito altos perdiam-se na escuridão. Ouvia-se frigir peixe. Mulheres em saias brancas apareciam à soleira chamando avidamente:

— Anda cá! olha! ó filho!...

Um piteireiro andava aos encontrões, berrando: — Suas croias! Suas croias! Dum canto partiram risadas; depois uma barregã alta, medonha, mãos à cinta, veio despejando injúrias, cheia de chibança – e gente correu na viela rindo: outras vieram ver o que era, cheias de piedade, murmurando consolações. – Foi o amante... – disse uma. Mas a Joaquina informou: — Uns gajos que lhe partiram o espelho... – Foi bem feito! – Coitada da pobre! Mas mais gente passava, e elas, esquecendo a outra, chamavam avidamente: — Olha, ó filho! Pst!... E um pedreiro piscando o olho, tonante: Não pega! Depois um momento tudo caiu em silêncio. À beira duma janela dois homens iam conversando. Ouviam-se distintamente fragmentos de palestra.

— Ai, Lisboa! Lisboa!

— Como aquilo, menino! Como aquilo!...

E de repente uma malta rompeu pela viela acima, aos pinchos, cantando, dizendo insolências às raparigas...

...O som do bronze que nos causa horror...

E uma guitarra tristemente começou a gemer ao longe as amarguras do fado...

E no entanto, como era domingo, aquele labirinto medonho de ruelas rumorejava, borbulhando gente... As vielas cruzavam-se, despenhavam-se descendo sobre o cais, íngremes, terrivelmente negras: só de quando em quando, destacando cruamente na escuridão de tinta, uma fachada iluminada a vermelho pelo candeeiro parecia escorrer lentamente sangue – ou uma janela, fendas por onde rompiam fieiras de luz e descobriam vagamente antros terríveis onde rasteja ignóbil o vício e o crime. Sentia-se a alma opressa. As muralhas suavam a miséria de muito tempo... No alto da Sé o vento soprava. Duma banda a cidade adivinhava-se na escuridão profunda, na escuridão repelente: da outra banda o rio – um rio de tinta – e para o longe, montões de treva, de lama, o céu sem uma estrela luzindo, impenetrável, imenso – tão negro que oprimia a alma. Montões de casaria, pintados a nanquim, com clarões vermelhos de lampiões: bandas de paredes iluminadas: uma poeira de luz, suspensa no céu, mais para o longe, no meio da cidade...

...Não diz quando nem a quem!

Parou de cantar. Esquecia-se de chamar gente. Nunca sentira como naquela noite de Verão um sofrimento tão grande. Entre os beirais um formigueiro de estrelas cintilava naquela banda de céu. Tristemente viu bem naquele instante a sua vida inteira...

Criada de servir numa casa à Esperança, um casarão velho onde habitava muita gente. Em baixo o pai, na loja de sapateiro; no terceiro andar dois recém-casados, ele comerciante; em cima, na espelunca, uma hortaliceira – a senhora Aninhas do Bacalhau, com o homem e o filho – um ferreiro.

Ela servia os dois casados de há pouco – e lembrava-se bem, cheia de saudade, da alegria daquele casal, dos patrões, tão boas pessoas ambos.

A senhora, Maria da Conceição, loura, branca, gostava de ter a casa muito limpa. A Ana, a cozinheira, uma picada das bexigas e cheia, dizia com uma risadinha ao vê-la mourejando:

— Estás nas verduras! Estás nas verduras!... Isso lá para diante, passa-te! Muito econômica, tanto que a da cozinha afiançava mostrando o punho:

— É assim! Uma esganada por aí além, mulheres!...

O senhor vinha à tarde jantar – e ela arrumando a louça, enchendo os jarrões de camélias rajadas, na sala cheia de sol que dava sobre o cais, ouvia-os conversando. A senhora queria viver na aldeia. Faziam projetos. Assim que ele tivesse vinte contos comprariam uma quinta...
Ainda se a casa tivesse quintal...

— O pior é o pequeno. Está aqui um homem. Precisa de ir à aula e na aldeia não sei...

— É verdade, o pequeno... – murmurava ela.

Pelas janelas abertas via-se o rio azul, a verdura da outra banda, as fábricas, casas aos montões, pintadas de amarelo, de branco: os paquetes de costado vermelho-escuro, as mastreações erguidas no azul inefável – toda a alegria cantante do cais...

Ela era nesse tempo uma rapariga magnífica, ruiva e alta, cheia de alegria e risadas. Um dia estupidamente, caiu com o ferreiro na espelunca do terceiro andar. Ficou surpreendida. A prenhez veio depois. Quis escondê-la. Batia murros selvagens no ventre, tomou mesmo a beberagem que uma velha lhe deu. Depois a prenhez avançou e numa fúria grande ela combinara matar a criança, atirá-la ao saguão, na imundícia da cloaca; mas o pai um dia desconfiou e ela teve de fugir perante a cólera terrível do sapateiro que era cheio de austeridade.

Um ano depois, estando ela na viela, encontrou o seu antigo patrão. Passava um homem, chamou-o:

— Ó filho, olha!...

E ele atarantado reconhecendo-a, murmurou dum sobressalto:

— Ah, és tu, rapariga!...

E entrou. Parecia borracho ou sonhando vagamente, muito palerma. Com alguma vergonha, cheia de acanhamento de repente, perguntou-lhe:

— Como ia o menino:

E ele com tristeza, errante o olhar:

— O menino morreu...

“Perdera tudo, tudo... estabelecera-se, mas fora cedo de mais. Foi cedo de mais. Uma asneira! acabou-se!... veio uma letra, não pagou o seu antigo patrão, que ficara sempre com zanga por ele o deixar, protestou-lha... Pois porque se zangara o patrão? Pois um homem não pode trabalhar, um homem que tem uma família? Ainda se ele tivesse saído para empregar na casa doutro... Mas não senhor! – fora estabelecer-se. O seu antigo patrão não tivera razão – não é verdade?... Perdera tudo, tudo... Mas estava novo, havia de se arranjar”.

— Estou ainda novo.

E parecia que tinha fome, muito pálido, os olhos cheios de bondade brilhando docemente. Via-se que tinha contado longamente aquela história a toda a gente e que ninguém o ouvia já... E repetia, querendo convencer-se:

Havia de se arranjar. A senhora lá estava. Andava adoentada – uma tossesita.

Ela escutava cheia de pena, invadida por um desalento muito grande – mas o Carvalheira, que tinha vindo com outros, perguntou da janela:

— Olha que gajo! Quem é o galinhaço, ó Maria?

E ele, de repente, como acordando dum sonho, viu o lugar onde estava, e compondo as joelheiras das calças, saiu rapidamente dizendo atrapalhado com a sua voz doce, penetrada de meiguice:

— Adeus, menina!...

Tudo a torturava então: a vida maldita da viela, dormindo num leito à beira da cloaca, sentindo em cima obscenidades – a Antônia a berrar com uns gajos: a patroa ávida de ganhos, cheia de ralhos e de injúrias, quando elas não sofriam de boa vontade os homens: o envenenamento com fósforos da Joaquina, quando o amante a deixou... E essa era a única boa rapariga! Lembrava-se bem a ter visto estrebuchando, cair de repente, sem uma queixa, o olhar cheio de resignação e de tristeza... Depois morrera – e a patroa berrava, vendo-se já às voltas com a polícia:

— Ora o coirão! Nunca me aconteceu uma assim... Raio d'entaladela!... Hospital! Vão rebentar para o hospital, suas bêbadas!... Olha agora a polícia – e então o Mendes que anda de ponta comigo! O coirão!... É preciso dar aguardente à patrulha!...

E o que principalmente a deixara sem uma esperança, cheia de desalento, fora a história da Emília que elas contavam umas às outras, poetizando-a. Ao vê-la passar, tossindo, tísica, a Antônia narrara-lhe uma vez... Uma paixão por um estudante. Ele amava-a, quisera fugir com ela para o Brasil, mas o pai tinha vindo e levara-o para Freamunde – onde ele morrera pouco e pouco de saudade. E ela na viela sempre, nunca mais tivera um instante de alegria – ia morrendo também, sem pena – sustentada pela caridade das companheiras... Falava com saudade do campo, nas vindimas, quando o sol inunda intensamente os parreirais de luz... As uvas rebentam de maduras, cheias de transparência, exuberantes de vinho. Vai uma alegria vibrante, colossal, na aldeia inteira. Nas colinas verdes, onde as vides se torcem ao sol pelas ribanceiras abaixo, há risadas: um velhote piteireiro, de calça azul, esmaga entre as mãos um cacho – e fica cheio de sangue, os dedos tingidos de vermelho, como se tivesse cometido um crime. Nos tonéis homens vigorosos, as pernas nuas, com vinho até a garganta, esmagam, pisam, numa raiva, as uvas. Os lagares são do tamanho de tanques – e dir-se-ia que uma torrente de vinho espumante corre impetuosamente pelo vale fecundo. Os homens beijam as raparigas, que se abandonam como cadelas, com um desplante muito grande. São ranchos que descem por esse tempo do norte, cantando, trigueiros das mordidelas do sol, cheios de mocidade, rindo, numa despreocupação de boêmios. Vivem juntos, amando-se sob festões de vides, trabalhando onde há trabalho, vivendo onde calha. As infusas de vinho novo correm de mão em mão. Nos carreiros, carregadores possantes levam, gritando cantigas que retinem no azul, os grandes cestos de vindima...

Pouco e pouco deixou de ganhar dinheiro. Quando começou, foi procurada. A princípio só os fregueses, pessoas respeitáveis, pagando bem – um padre, um velhote menineiro, outra gente ainda que a patroa recebia com muita consideração e respeito – é que a possuíam num gabinete oculto. Depois, como as mais, veio para baixo, expondo-se aos desejos do mundo inteiro. Por fim, como nunca pudera acostumar-se à brutalidade das outras, disputando com avidez os homens – pouco dinheiro ganhava...

Um dia um homem disse que queria não sei quê de repugnante, de relesmente nojento. Ela disse-lhe que não:

— Sai-te daqui. Não, já te disse!...

Mas ele, afogueado, teimou. Fazia tinir o dinheiro no bolso, pedia:

— Vá! Que te custa? Olha dou-te seis tostões... seis, hein? Queres?

Havia dois dias que não comia, sem dinheiro, escorraçada como uma cadela sarnenta que vai parir. Teve vontade de chorar, de morrer, de pedir piedosamente que a deixassem... Num instante avaliou bem o abismo profundo a que caíra; cheia de angústia, dolorosamente, viu a imagem do pai.

E o homem pedia:

— Então? Então?

E ela de repente, decidida:

— Anda!...

Depois no fim viu, quase com espanto, que sentia como dantes a mesma rapariga – e daí em diante nunca mais lhe custou, acedia prontamente, sem se fazer de rogada.

Teve freguesia. Gabavam-na altamente. Havia discussões renhidas:

— Como aquilo! A Lola! A Lola como aquilo! Não me digas isso, menino!... Olha quem!... A Lola! Olha a porca da Lola!

As outras companheiras odiavam-na. Diziam-lhe chufas, batiam-lhe cheias de raiva, porque todos os homens a procuravam unicamente a ela – e foi preciso que a patroa – uma gorducha, de olhar vesgo, pusesse de alto, bem de alto a sua respeitabilidade, contente pelo ganho que a rapariga lhe dava, para que as outras a não matassem uma noite com pancadaria.

Havia cinco dias que a torturava um pesar imenso. As lágrimas muito tempo represadas iam-lhe rebentando em borbotões nos olhos. Expulsa de toda a parte, corrida a pau, coberta de lama e de injúrias – sentiu um desalento, uma mágoa infinita que a matava. Teve fome e saudades – e foi nesse tempo que a vida passada lhe surgiu poetizada, torturando-a. Era um almejar, uma ânsia de viver singelamente como dantes à beira do pai, amando-o.

Um dia, cheia de esperança, procurou-o. Foi encontrá-lo na loja de sapateiro, mais velho, mais curvado. Ele ergueu-se ao vê-la – e a sua figura rude era cheia de austeridade.

— Sai-te, puta!...

Ela então ajoelhou e erguendo as mãos pediu:

Meu pai, peço-lhe que me perdoe, meu pai. Pelo Senhor que está no céu... Tenho fome, meu pai! Oh meu pai!...

Arrastava-se humilhantemente, de joelhos, procurando abraçar-lhe as pernas. E ele, apontando-lhe a porta:

— Rua!

— Por quem é, meu pai, lhe peço que me perdoe... pela memória de minha mãe...

E ambos sentiram borbulhantes de lágrimas os olhos ao lembrarem-se da boa mulher. Naquele instante viram-na ambos perdoando, cheia de ternura – , uma santa. E ele chorando, impiedosamente:

— Vai-te. Foste tu que a mataste. Vai-te!... Sai da minha vista! Vai!

Ela tinha conseguido agarrar-lhe os joelhos. Desgrenhada, chorando – as palavras saíram-lhe sentidas, do fundo da alma.

Meu pai, meu pai! Eu prometo-lhe que viverei como dantes! Perdoe-me! perdoe-me! Olhe: não sabe o que eu tenho sofrido! Não calcula a minha vida! Pela memória de minha mãe!... oh meu deus!...

E ele sentindo que ia ceder, desprendeu-se num arranco e gritou, chorando:

— Sai-te! Rua! Eu vou chamar um polícia! Espera!...

Ela então viu bem que nunca lhe perdoaria. Ergueu-se e saiu cambaleante...

Foi descendo, descendo mais, descendo sempre. Vivia numa cocheira. Tinha engordado, andava suja e à noite saía, rondando, atrás da marinhagem, sujeitando-se a tudo para ganhar aqueles tristes seis vinténs.

Tinha um medo muito grande da polícia. Embrutecia lentamente com um vício terrível que adquirira: — a aguardente. No dia dezesseis de cada mês e no primeiro, espreitava os quartéis, perseguindo os soldados, que ultimamente, cheios de nojo, sentindo-a repugnante e velha, lhe batiam.

— Ó filho! Ó trinta! Tu não me conheces, ó trinta?

Não pensava quase e só de longe em longe, fulgurando um instante, a imagem do pai lhe aparecia, trechos da sua vida singela de virgem...

Começou então para ela uma vida maldita e errante. A marinhagem brutal escalavrou-a a pontapés – quando ela, na ronda terrível da noite, gania piedosamente obscenidades, para que lhe matassem a fome. Havia noites sobretudo, noites temíveis em que o sofrimento, as aflições que lhe rasgavam a alma, eram tão grandes – que nunca Jesus assim padeceu. Cabriolava na lama, o traseiro para o céu; sujeitava-se prontamente às mais horrendas infâmias que os ladrões conheciam; esfomeada, uivando como uma loba, corria numa ânsia os antros medonhos, as cafurnas onde os assassinos se acoitam. E de repente, cheia de sofrimento e de fome, fugia na noite, escalavrada a pontapés, perseguida pela polícia. Estava ignóbil, pelada, farsante. Era a imagem do vício terrível – de corcunda; o vício que faz mal e cocegueia ao mesmo tempo na barriga da gente.

Nessa noite nem uma côdea de pão arranjou. Ninguém a queria comprar. Oferecia-se humildemente de rojos – e batiam-lhe. Chorou suplicante. – e era visível, patusca, assim feia, vermelha e gorducha. Tinha muita fome! Pediu – e teve de galgar, fugindo na escuridão, ofegante, tropeçando e caindo cheia de lama e de feridas. Esgravatou nos montões dos cantos e nem um talo de couve encontrou. Vadiou pelas ruelas da Sé, errante, encostando-se às muralhas, rebentando de fome, gemendo de fome, gemendo, o olhar estupidamente vagabundo, sem um pensamento sequer. Dizia sempre, repetindo:

— Ó filho! Olha!...

E a sua voz era um grito de angústia e de raiva: havia súplicas e lágrimas, maldições e humildade.

Por fim arrastou-se até o pardieiro – uma cocheira abandonada, onde dormia ela, um ladrão e a mulher.

Piedosamente os dois deram-lhe uma côdea. Quis trincá-la e não pôde. Deitaram-na na palha e ela gemia:

— Ó filho! Olha!...

— Está piteira, o raio!...

Só eles tiveram compaixão dela – os ladrões. Ele era medonho – ela era horrível. Ambos tinham cometido crimes, crivado gente de facadas na escuridão terrível das vielas. As crianças fugiam deles – e a noite, a noite profunda, era a boa amiga de ambos...

Uma cadela gania parindo... Ao longe alguém, na noite ia tocando tristemente o fado. Sentiu-se morrer. Num instante, de repente, cintilou-lhe na alma verde de rameira – a sua vida inteira. Num momento viu o pai, cheio de austeridade, a mãe, a sua santa mãe, a boa velhinha, chorando – e sofreu tanto como durante todo o seu tempo de barregã; ia-lhe rompendo um clarão de luz no crânio – e sentia um sofrimento tão grande que o arrependimento nasceu-lhe... Depois morreu. O corpo que a marinhagem brutal comprara – o seu corpo vendido, coberto de escárnio e de lama, de sofrimento e de injúrias – o seu corpo que fora belo, cheio de mocidade e de vida, caiu por fim inerte junto à cadela que paria, junto dos ladrões que dormiam. Morreu. – E morta, inchada de pança, envolta em farrapos, com manchas verdes já de podridão nas faces, era imunda – mais imunda e mais nojenta ainda, que a cadela que gania parindo...


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Raul Germano Brandão (1867-1930)
Pesquisa: Iba Mendes (2019)

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