terça-feira, 16 de julho de 2019

A Outra (Conto), de Cláudio Basto


A Outra

Lá fora, uma chuva miudinha escurecia a tarde melancolicamente, parecendo encher a atmosfera, por igual, de uma fumarada espessa. Entreviam-se apenas, embaciados, os tufosos cimos de algumas árvores, com os ramos pendentes, imóveis, como dorsos que se curvassem, encolhidos, para resistir melhor à chuva fria. Através dos vidros, onde brilhavam raras pérolas de chuva, passava a tristeza e a sombra da tarde que penumbravam dolorosamente a mornez do quarto. E Guiomar, alva na alvura do leito, num convicto pressentimento de morte, recordava... recordava... lentamente, como saboreando a vida.

Fora também no inverno, mas num dia cheio de luz, radiante, ao aroma de acácias todas em flor, orvalhadas de oiro, que o primeiro beijo tão sonhado, tão apetecido — e tão retardado —, se trocara entre ela e Eduardo, num inexplicável momento heroicamente ousado, fundindo por uma outra, mal-prevista maneira aquelas duas almas que, havia muito, os olhares, as palavras, os silêncios, os contatos longos e ingênuos, tinham docemente fundido já... Lembrava-se bem, sempre se lembraria bem: uma perfumada aragem, de mansinho, como se fora tocada por um anjo, traspassava num murmúrio alegre as louras copas rendilhadas, e uma lenta e rara chuva de oiro caíra, numa enternecida bênção do céu, quando os seus lábios se uniram. O sol aquecia palidamente a beleza da tarde...

Depois, mal ficara absorta naquela perturbação, Eduardo beijara-lhe ardentemente a garganta com um beijo súbito, devorador, — e ela, que nunca havia pensado em um beijo assim, muito agitada por aquela imprevista e estonteante revelação, sentiu-se logo resvalar para um torpor estranho, e deixou-se cair, desfalecendo-se, de encontro ao peito dele, de encontro ao seu peito forte, como haste débil que se ampara, flexuosa, a um tronco robusto. E entre a indecisão nevoenta do seu novo sonhar, ela pressentia que as suas almas se aproximavam intimamente e se confundiam numa só. E quando se arrancara de junto dele, da pressão dos seus braços cariciosos, parecera-lhe que nele deixara toda a sua alma e que, no vazio que em si ficara, vagueava inebriante, indelével, o perfume da alma de Eduardo...

E recordava... recordava..., lentamente...

Ao encontrar-se, depois, sozinha a cismar, afigurava-se-lhe que era outra. E sim, era outra! A sensação daqueles beijos, sob o conchego carinhoso e discreto das árvores, que aromatizavam vivamente a solidão mais terna do jardim, refizera-lhe sem dúvida todo o ser, dando-lhe anseios indefiníveis, desejos sem forma, obscuros, uma diversa atração da sua alma e da sua carne para ele. Havia nela um vago prazer aflito que procurava com avidez, com desespero, uma satisfação ignorada, penosamente inapreensível.

Começou então a sentir-se mais dele, mais para ele, e na sua presença, às vezes, contrariando os anelos que a endoidavam, queria resistir à tentação de o beijar... Mas, ao primeiro beijo quente de Eduardo, ela apertava-o muito e muito, esmagando com sofreguidão a tenrura dos seios contra o peito forte dele, e desejando que ele a cingisse bem, a estreitasse com vigor, a magoasse contra a sua carne em abraços cada vez mais intensos, e lhe sorvesse demoradamente os beijos mordendo-lhe os lábios... E ficava por fim sem ideias, abstrata, mole, sustida nos braços de Eduardo... — e insatisfeita. Que enigma torturante vivia no seu corpo?

Quando estava longe de Eduardo tinha longos sonhos, ora deslizantes, ora inconexos, que muitas vezes a imobilizavam em êxtases sem fim. E pensava em muitas coisas que lhe havia de contar, mil preguntas, mil dúvidas, mil receios, mil promessas... e, mal chegava ao pé dele, sentia-se fascinada, com a cabeça vazia, sem que nela relampejasse uma ideia, e um zumbido misterioso lhe fazia vibrar todos os nervos... Então, só queria ver Eduardo, os seus olhos, os seus gestos, a sua boca... Acabava por lhe fixar os lábios, finos, palpitantes, esperando com ânsia medrosa que ele a beijasse, — e as duas bocas, úmidas, suspirantes, sugavam-se num frenesi de beijos...

E, lentamente, recordava... recordava...

Recordava toda a sua ventura inquieta, sobressaltada, do tempo de solteira. Revivia por miúdo, sem ordem, instantes da sua vida, ainda os mais fúteis, como quem esfolheia um livro amado e conhecido, para trás, para diante, lendo aqui, lendo acolá...

Ele brincava também. Era quando parecia voltarem ao tempo de crianças, e um ruidoso contentamento os unia, obscurecendo-lhe, a ela, venturosamente, os anseios enigmáticos, que a torturavam, com delícia embora.

 E como Eduardo porfiava em troçar dos temores supersticiosos que ela tinha amiúde! Como ele se rira, num dia de novembro, quando lhe oferecera um fino punhal de cabo de marfim, e ela, quase chorosa, se tomara de apreensões assustadas, pensando logo em mortes sinistras! E Eduardo, rindo sempre, apontara uma densa moita de flores em cachos rubros, dizendo que já lhe parecia haver sido uma onda de sangue fumegante que roçara por aquelas florescências e as tingira assim tragicamente. E brandia ao sol a lâmina luzente, arrepiante, delgada como um estilete, onde bailavam reflexos de gelar. Como ela se lembrava bem!

E, ao cabo, fora-se acostumando àquele punhalzito, e ei-lo ali estava perto, na mesa do seu quarto, morando honradamente entre livros, para os abrir.

Talvez fossem tolarias as crenças dela, talvez! Intrigas entre os dois, porém, só as houve quando Eduardo lhe dera um ramo de formosas dálias! E que formosas! — Seriam tolarias, seriam. Coincidências talvez. Aquilo, no entanto, vinha-lhe lá de dentro, galgando todos os raciocínios.

Certo era que se habituara àquele punhal; o tempo lhe havia delido pouco a pouco o ar terrível, e o tornara por fim em um bom companheiro inofensivo e útil — e até querido, pois que fora para aquele quarto no dia do seu casamento.

O seu casamento, a sua vida de casada! Primeiro, ficara aturdida com aquela ventura excessiva, inédita, que, pelo deslumbramento, a não deixava discernir, apreciar a felicidade, — qual pupila muito dilatada que não vê por excesso de luz. Fora como se na concha pequenina das suas mãos, subitamente, de um jato impetuoso, caíra um sem-número de preciosidades maravilhosas, — indistinguíveis na sua estonteadora confusão.

Depois, gradualmente, conseguira deliciar-se, analisando atenta a sua felicidade, sentindo-a com sabor, ardorosa ou tranquila, em todos os seus aspectos, sempre queridos, — e o seu viver tornara-se em um delírio de amor.

E recordava... recordava...

Tão gratas revivescências, quando, lograda a máxima ventura, ia morrer, encheram-na de uma tristeza infinita, e aos seus olhos subiu amargamente o calor de lágrimas comovidas...

— Anoitecia. Começava a soprar o vento do norte que fremia pelo jardim, em sussurros lastimosos.

Eduardo entrou com luz, e a chama lanceolada, oscilante com preguiça, iluminou maciamente o quarto, povoando-o de sombras e reflexos.

E as lágrimas de Guiomar, trementes por segundos na luminosidade dos seus olhos, como estrelas no luar, — como estrelas se lhe desfiaram pelas faces, deixando rastros cintilantes...

Eduardo olhou-a doridamente.

O fulgor daquelas amarguradas lágrimas, cheias de luz suave e triste, penetrou a alma de Eduardo como um poente de inverno sangrando comoção, e inundou-lha de mágoa inefável.

Sentou-se junto dela, na beira da cama, e entre as suas mãos a desfazerem-se em carinhos serenou-se o rosto de Guiomar, diluindo-se-lhe a dor na leveza sedutora daquelas mãos, em que a mais sentida e amável ternura corria, cautelosamente.

Dentro em pouco, porém, os presságios de morte quebraram em Guiomar o seu breve sossego, e dos seus olhos tristes recomeçou a volatilizar-se uma ilimitável tristeza que, em ondas iluminadamente travorosas, asfixiava a sensibilidade de Eduardo.

E ela falou, com voz esmaecida, vagarosamente, da sua morte; falou de que ele a esqueceria depressa e que outra mulher não tardaria a ser amada por ele. E o seu ciúme, o seu fogoso ciúme, que tão recalcado latia no mais íntimo da sua alma, veio-lhe todo, com amargor, aos lábios nervosos. — Morria com aquela pena, a sua maior pena, invejosa da “outra” que a viria substituir. Quem amaria, contudo, a Eduardo como ela? quem? Oh, que não acreditasse ele em mais ninguém! A “outra”, quem quer que fosse, enganá-lo-ia, nunca poderia experimentar a adoração que ela por ele doidamente experimentava. Só ela o amava, só ela! ninguém mais saberia amá-lo! E chorava com raiva e com desalento, chamando-o para si, como no almejo febril de lhe deixar bem gravadas para sempre, inapagáveis, aquelas certezas.

Eduardo falou-lhe muito, num murmúrio doce. E, para a aquietar de todo, acabou por lhe sorver num vibrante e longo beijo as dúvidas, as apreensões, os receios, os ciúmes, e quedou-se com ela, já confiada, já serena, entre os braços, — e entre os seus braços a susteve demoradamente, como se ali tivesse a Virgem do Céu, a Virgem Dolorosa, num singular momento de fugaz sossego.

Deixou-a por último, com um afago edulçorado de mimo, ficar num amorrinhamente calmo, — e, prostrado pelas vigílias atentas, deitou-se no sofá, e logo adormeceu profundamente, ao choro embalador das ramagens, que o vento remexia sem cessar.

Ela continuou, por largo tempo, esquecida naquela modorra acariciante, como inerciada pela recordação da voz meiga de Eduardo, mas, pobre dela! acordou desse bom sonho, para outra vez, horrivelmente, lhe atormentarem a alma os pressentimentos de morte, as mil aflições que dentro do peito se tinham acalmado para com mais sanha irromperem, tiranizantes, indomáveis.

Guiomar, numa obstinada ânsia de distrair a sua angústia, procurou fixar a atenção no seu quarto amado, que a luz brandamente iluminava. Olhou à direita a janela, sobre o jardim, e quis só lembrar-se da última vez que a ela esteve: Eduardo abrira-a, e uma onda viva de frescura se precipitara na tepidez do quarto, e ela deixara-se envolver deleitadamente por aquele ar sadio, gozando-o na pele, aspirando-o, deixando-se penetrar por ele até lhe avivar a alma, que se revigorou... e, voluptuosamente, avançara para o parapeito com os olhos postos no azul veludoso do céu, deixando-os resvalar depois pelo jardim, até caírem, longe, nas braçadas mais altas das acácias...

A seguir, mais para lá da janela, a mesa com os livros prediletos; — e queria absorver-se na lembrança das horas felizes que ali passara, antes de encamar de vez...

A tormenta da sua alma, porém, aflorava sempre, debandando as consolações que Guiomar buscava desesperadamente.

Ela porfiava contudo... — E porfiava por embeber-se na contemplação do retrato que, na sua frente, pendia da parede; era um retrato grande, magnífico, tirado no dia do casamento, e em que ela e Eduardo, muito juntos, se olhavam com os olhos a refulgir felicidade.

E procurava recordações, umas após outras, com frenesi, para abafar os suplícios que se chocavam dentro do seu coração.

Para a esquerda, estava o seu único Amor, o seu Eduardo, negligentemente deitado no sofá; dormia como um justo, com o rosto sereno. Guiomar deixou os seus olhos, cheios de mágoa e de enlevo, na serenidade daquele rosto amigo, e a sua paixão imensa pelo companheiro que a tornara tão ditosa, fez calar os desvarios do seu espírito doente, — e permaneceu como encantada, olhando, olhando o seu único Amor...

Esta sua adoração consoladora tropeçou, afinal, com o seu grande sofrer. Eduardo seria de outra... — e recomeçaram as atribulações da sua alma desgraçada, e recomeçou Guiomar aflitivamente a correr a vista por tudo quanto se aconchegava naquele ninho, quase perdido, para que revivescências e saudades viessem entorpecer as suas angústias doidas...

— Um sino começou a bater a meia-noite

A primeira badalada, súbita, áspera, rouca, lacerando a noite com a crueza de um berro de pavão, sobressaltou violentamente Guiomar. O vento, fora, levantava das árvores um lamento soturno.

E outra... e outra badalada... caíram lúgubres, sinistras, numa lentidão funesta, deixando no ar um rastro de som vibrando funebremente...

Meia-noite? — Guiomar soergueu-se, numa aflição terrível, apertada a voz num cerrado nó que a estrangulava; — ergueu-se coberta de suor nevado, abrindo muito a boca e as narinas, olhando em redor desvairadamente... Quis gritar, gritar muito, chamar Eduardo... E a garganta retraía-se-lhe dolorosamente, afogando-a.

As badaladas tombavam vagarosissimamente, em vagar de agonia, — com uma regularidade imperturbável, inexoráveis.

Meia-noite? A ânsia mudou-se-lhe, de pronto, em convicção. Adivinhou a hora tremenda, negra de agoiro; a hora infernal dos sortilégios.

Meia-noite! Ia morrer. Não ultrapassaria esta hora fatídica. Sentia-o, sentia-o desta vez com uma certeza absoluta, empolgada pelo desvairamento da superstição.

E da nebulosidade, que lhe confundia tudo ali dentro, sobressaiu, nítido, o retrato grande que pendia magnificamente da parede. Aquele retrato crescia, dançava, animava-se ante os seus olhos atraídos. — Mas era ela? era ela que estava ali?

Não! oh, não! Era outra, a “outra” que se encostava a Eduardo, que lho roubava...

Ergueu-se mais, e mais, estendendo a cabeça louca para o retrato que a fascinava, mirando-o com uns grandes olhos fulgurantes, fixamente, arquejando e fria...

E outra... e outra badalada... soaram moribundas, vagamente, desfazendo-se no rumor do vento...

Ela ia morrer! e a imagem daquel’outra mulher, na hora da sua morte, vinha insultá-la! E Eduardo, ali perto, a dormir num descanso infame, porventura a sonhar já com a “outra”! — Guiomar alargava uma das mãos nervosas, em atormentada ameaça, para ele e para o retrato, enquanto com a outra apertava freneticamente a garganta como para desatar o nó que lhe sumia os gritos.

Saiu da cama, levantou-se num repelão, e, ourada, logo caiu, quebradas as pernas frouxas. A luz da lâmpada oscilou indolentemente. — Ergueu-se outra vez, amparando-se ao leito, e, firmando-se aqui, ali, deu algumas passadas mal seguras, cambaleante; endireitou-se depois, muito direita, como um fantasma de dor, com o roupão branco descendo em pregas amplas, — e os cabe-los, escorregando-lhe da cabeça em ondas negras, caíam revoltos nos ombros e escorriam desalinhados para o peito nu e para as costas nuas.

E outra badalada, surda, entreouviu-a ao longe, como um eco, num gemido abafado...

Deu mais um passo, amparando-se, tresvariada, sentindo a tortura da agonia, pungida pela visão de Eduardo com a “outra”, a beijá-la como a ela, a abraçá-la como a ela, em tétanos de volúpia... Caminhou, Senhora dos Martírios, Senhora dos Ciúmes, ofegosa, respirando estridulamente, e segurou-se alquebrada ao reposteiro da janela. Fora, na trágica negrura da noite, soluçavam estrelas, e ramos de árvores se mexiam pesadamente, como negras asas de avejões macabros.

E outra badalada ressoou, metálica, vibrante, como trazida numa lufada de ar contra a janela.

Recuou espavorida, — e avançou, convulsionada de terror e ciúme, para a mesa. E apoiando-se aí, os seus dedos frágeis tocaram, arrepiados, a lâmina acerosa do punhal, e logo a sua mão, num ímpeto, o agarrou crispadamente.

Prosseguiu, apavorada, agora sob o retrato, quase tropeçando já com o sofá, onde sempre tranquilamente dormia Eduardo. — Por cima da sua cabeça, a “outra” abria os lábios, triunfal, petulante, com sorrir de escárnio... — e a mão de Guiomar encontrava no contato do punhal energia crescente para o apertar, e na lâmina fina relampagueavam centelhas que riam, sarcasticamente alegres, como brilhos dos dentes da “outra” a sorrir...

E, boiando no cantochão fúnebre do ramalhar das árvores, mais uma badalada se fez ouvir, cavamente...

A penúltima? a última? Era o instante do seu fim? — Um frio de neve a amortalhava já; asfixiava, a garganta contraía-se-lhe num espasmo atroz, esmagavam-lhe o peito as garras da morte... Queria raciocinar um momento, gritar que lhe acudissem, salvar-se... e percebeu, através do seu delírio e do seu pavor, Eduardo, ali defronte, num sono profundo, calmo, provocante, a sorrir, a sonhar com a “outra”... A “outra”! E, num impulso rápido e louco, cravou a lâmina no peito de Eduardo, e, como se a vida se lhe esgotasse naquele relâmpago de energia feroz, foi já o seu cadáver, tombando, que lhe acabou de enterrar o punhal no coração.

Lisboa, dezembro de 1915.


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Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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