terça-feira, 16 de julho de 2019

Enigma (Conto), de Cláudio Basto



Enigma

Havia pouco tempo que namorava com Ricardina.

Elegante, de uma esbelteza patrícia, de rosto gentilíssimo que um olhar, meigo e simples como nenhum, mais alindava, — a cada momento lhe descobria perfeições que me enamoravam crescentemente, variadamente, cativando-me por cem laços, sempre novos e mais fortes, que deixavam supor outros que, por serem misteriosos, mais ainda me cativavam...

Conhecia-a apenas de alguns dias, quase só de a adorar na varanda da sua casa antiga, pela noite morta, — graciosamente banhada, como se fosse uma deusa, na luz viva de um candeeiro: era ele — se me não havia de lembrar! — o nº 1.485...

Ricardina falava ainda pouco, muito pouco, — mas, nas linhas instáveis do seu rosto, adivinhava-se já a nobreza da sua alma vibrátil, cheia de inocência e poesia. A minha ideação juvenil supria o silêncio dela: completava-a no seu pensar e no seu sentir, espiritualizando-a, — como um artista completa o esboço fugaz de um quadro, subtilizando-o com o vago do sonho. — E há lá artista mais artista do que o namorado?!

O namorado vai buscar à imaginação a costela de que forma o seu ídolo, a mulher que o apaixona. O sopro divinal que lhe dá vida, a ela, é a paixão que o gera e constantemente inflama. A mulher adorada vive mais na idealidade nossa — do que na realidade.

Assim, Ricardina, o meu ídolo, brotava do meu pensamento e do meu sentimento, brotava do meu sonho, inigualável de harmonia, de perfeição, de beleza, entre os mirtos e as rosas da minha fantasia, — qual Vênus pura e branca, da espuma branca e pura das ondas...

Ricardina era afinal uma realização do meu desejo, da minha vontade, do meu ideal; era uma criação do meu espírito. A minha alma, entusiástica, pulsava em Ricardina, envolvendo-a numa fotosfera de lindeza que não era também mais do que expansão da minha própria alma...

Falava pouco, muito pouco... — Mais eu sonhava, porque a minha ignorância de Ricardina mais asas me dava à imaginação, — e mais a adorava ainda porque destarte mais ela era como eu sonhava e desejava que fosse...

Tagarelava eu, no voar daquelas horas deliciosas que sob a sua varanda passava, escandecendo as frases com todo o calor da minha sensibilidade febril, para animar aquela formosura discreta e recatada a condensar em palavras de anjo a candidez, a virtude, o talento que lhe vagueavam na expressão do rosto.

Eu só podia, no entanto, sonhar, enleado na transparência da sua alma divina. Por seus lábios quase lhe não deslizava mais que o indefinível encanto do sorrir... E como era bom sonhar!

Uma noite, disse-me ela — que enternecedora timidez! — que o enlevo daquelas horas noturnas, já docemente habitual, ia ser interrompido na sequente noite. Não estaria em casa.

—Talvez! sublinhava com voz um pouco menos tímida, — e no seu olhar mais úmido a luz do gás convertia-se em feixes de luar...

Roguei então, descorçoado, que se não esquecesse de na grade, — onde o peito se lhe agitava num ritmo curto —, deixar qualquer sinal que me avisasse da sua ausência.

Sonhava ao aproximar-me da varanda preciosa, onde os seios de Ricardina, sempre disfarçados em corpete castamente farto, se premiam tantas vezes sem que o ferro, ao experimentar-lhes a resistência, jamais lhes pudesse trair a curva... Sonhava com o sinal, que infantilidade! — sonhava na graça que lhe dariam aquelas mãos, delicadamente pequenas, leves, como percorridas por angélicos nervos... Eu adoro o mistério... Quem o não adora? — e o mimo daquele sinal, que na significação me faria sofrer e na sua arte me faria gozar, era um mistério — a um tempo agro e doce como a saborosa pena de ver chorar por nós a mulher a quem amamos.
Cheguei alvoroçado, a sufocar de ansiedade.

Na varanda, caída de um espigão, vi à luz intensa do bico incandescente n.º 1.485, uma peúga branca do pai de Ricardina.

Viana - do - Castelo, outubro de 1911.

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Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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