sexta-feira, 5 de julho de 2019

As peles (Conto), de Brito Camacho




As peles
Uma coisa horrível!
Produzira-se um pequeno abalo de terra à hora matinal em que a cidade acorda, já começando a movimentar-se a rua.
Todas as tabernas estavam abertas, para a matadela do bicho, e já alguns marçanos, sob a vigilância dos patrões, iam recolhendo os taipais e escancarando as portas, no empenho de caçar o freguês adventício.
A atmosfera, ligeiramente parda, tinha o aspecto banal das horas calmas, nos dias bons de inverno, nem batida de ventos, nem carregada de nuvens. O mar, lá embaixo, sereno, muito quieto, parecia dormir ainda, já a terra, afadigada, começava a labutar, como nos outros dias.
Senão quando, ouve se um ruído de trovão seco e prolongado; a terra estremece como nas convulsões de uma catástrofe geológica, e desabam prédios em todo o circuito da cidade, formando se em pontos diversos grandes montes de escombros, saindo de alguns fumo e labaredas. Ouviam-se gritos lancinantes; gemidos que eram a tortura de quem sofre, soterrado em vida. Havia lágrimas em todos os olhos; soluços em todas as gargantas; dores cruciantes em todos os corações; farrapos de loucura em todos os espíritos.
Passada a hora do pânico, verificou-se que eram em grande número os mortos, que eram sem conta os feridos, e as perdas materiais, de que ainda não podia fazer-se um cálculo aproximado, deviam ser qualquer coisa de apavorante, gerando a miséria negra em muitas dezenas de famílias.
Logo que o telégrafo informou a Capital, do trágico sucesso, produziu-se um movimento de piedade que avassalou todas as classes, desde as mais afortunadas às mais desprotegidas.
Como sempre acontece, em casos semelhantes, foram as mulheres quem mais duramente sentiu os horrores daquele inferno, quem mais intensamente evocou os lances daquela tragédia, visionando-a nos seus mínimos detalhes, só não os exagerando por não ser isso possível.
D. Fredegundes procurou três das suas amigas mais íntimas, e as quatro assentaram em que se constituísse uma comissão que angariasse, por várias formas, donativos para acudir aquela gente mísera. Vagamente pensaram num festival no Jardim Zoológico, uma subscrição nacional, um peditório nas ruas de Lisboa, uma quermesse no Terreiro do Paço e mais tarde, já na Primavera, uma corrida no Campo Pequeno, à antiga portuguesa.
Expediram-se convites, numerosos convites, devendo efetuar-se a reunião preparatória num dos mais elegantes dancings de Lisboa.
Não compareceram todas as pessoas convidadas, naturalmente, mandando algumas das que não puderam comparecer a sua plena adesão às deliberações que fossem tomadas, e palavras de incitamento para que se fizesse obra de estrondo.
Enquanto D. Fredegundes não abria a sessão, como lhe competia-as ilustres damas presentes entretinham se a falar de coisas substanciais — teatros, animatógrafos, serões dançantes. Todas sumariamente vestidas, no rigor da moda, algumas carregadas de joias caras — ricas pulseiras, ricos anéis, colares de pérolas que deveriam ter custado alguns milhares de escudos... se fossem verdadeiras. No ponto de vista artístico, algumas vezes o adorno falso vale mais que o verdadeiro, e isso permite às madamas pouco afortunadas ombrearem, em joalheria, comas fidalgas ou burguesas de fortuna à americana.
Dizia uma, pernas cruzadas, a bola do joelho furando a meia de seda:
— Os teatros estão ingrámaveis. As peças, em geral, não prestam a não ser uma ou outra, traduzida, e os atores, quase sem exceção, mais parecem amadores, que artistas de carreira,
Acrescentava outra, acendendo um bout doré:
— Mal por mal antes o animatógrafo. Se houvesse mais cuidado e bom gosto na escolha das fitas, podiam fechar de vez os teatros, que não faziam falta.
Comenta uma terceira:
— Pois eu nem vou ao teatro nem frequento os animatógrafos. Uma chatice, tudo isso! Desforro-me quando vou ao estrangeiro, pelo menos duas vezes por ano, uma no inverno, outra no verão. E bem feitas as contas, gasta a gente menos, andando lá por fora, uma temporada, que estando aqui metida. Este ano vamos à Itália, mas de automóvel, e na volta demoramo-nos umas duas semanas na Suíça, que é, de todos os países da Europa, como Natureza, o que eu acho mais interessante.
— E uma visita à Rússia?...
— Vira! Para a maior parte dos estrangeiros aquilo é o poço da má hora, quem lá vai não torna.
— O perigo é o maior encanto de certas viagens; o êxito crescente dos aviões, como automóveis ou comboios do ar, é principalmente devido aos perigos de viajar nas alturas. Eu gostava, muito de ir à Rússia, e se lá fosse, à certa que não vinha de lá sem um fornecimento de peles para o resto da minha vida. País de gelos, de neves eternas, deve lá haver peles magnificas e lindas.
— Talvez; mas nenhuma de nós foi à Rússia, e nem por isso deixamos de usar peles como as melhores que se usam em qualquer parte do mundo.
— Nem tudo o que luz é ouro, e muitas peles que nos encantam os olhos, ricas de cores bem combinadas, são o produto de uma indústria química, de cada vez mais perfeita. Ainda ontem, no Ramiro, eu vi uma pele, que era um amor, uma pele como ainda não vi outra em Lisboa.
— Era pele de quê?
— O Ramiro disse o nome do bicho, mas não me lembra.
— Seria igual a esta minha? — perguntou D. Fúfia dos Remédios e Silva.
— Não; esta é mais bonita. Como a outra ainda não vi nenhuma em Lisboa; mas como esta não me lembro de ter visto alguma em Paris.
— Pois foi de lá que esta veio. O nome do bicho não sei; é um nome muito esquisito.
D. Brígida Fragoso Compota de Marmelada, abrindo se num riso malicioso, fingindo que examina a pele, declara secamente, como se atirasse uma bofetada:
— Eu sei, porque tenho uma igual, que não uso — é pele de Tanso.
— De Tanso! — exclamaram todas, assombradas pela revelação, porque nunca tinham ouvido falar de semelhante animal como fornecedor de peles ricas.
Nestas alturas entrou a Marquesa de Bergamota, velhita ainda fresca, muito rica, mas sempre modesta no seu trajar, nem carregada de sedas, nem salpicada de joias, temida na sociedade que frequentava, pela ironia acerada dos seus ditos.
— A senhora marquesa é que vai dizer...
Informada do objeto em controvérsia, envolvendo no mesmo olhar terno e malicioso D. Brígida e D. Fúfia, a senhora Marquesa sentenciou:
— Pois é pele de Tanso, não há dúvida.
E acrescentou:
— A grande maioria das peles que a gente por aí vê, um pouco por toda a parte, são como esta — peles de Tanso.
— Ó senhora Marquesa! É lá possível tanta variedade do mesmo animal!
— O engano das meninas está em julgarem que o Tanso é um animal.
— Então o que é, senhora Marquesa?
— É... uma Categoria.
D. Fredegundes declarou aberta a sessão, oferecendo a Presidência, por entre aplausos calorosos da Assembleia, à excelentíssima senhora Marquesa, que a assumiu jubilosamente, rindo-se lhe os olhitos maganos por detrás das lunetas de vidros curvos.



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Pesquisa, transcrição e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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