domingo, 7 de julho de 2019

A Tia Martinha (Conto), de Lima Campos



A Tia Martinha

A lâmpada abria um halo largo de luz; grilavam insetos, fora, na fenda dos muros, pela quietude estrelada da noite enquanto, da sala perto, vinha o rumor abalante, apressado e trépido da máquina a costurar linhos brancos – que era a Amanda, coitada, a tisicar sobre as costuras.

Nós, em camisolos, já prontos para o deitar, grupávamo-nos no corredor para o mate – um corredor extenso de grossas paredes e largas janelas. Ao centro sentava-se a tia Martinha, em um bancozinho baixo, com os seus óculos de aros de aço e o livro de orações nas mãos. Contava-nos, então, os seus lindos contos: o martirológio dos príncipes andantes, a história das fadas benfazejas, e nos dava, por vezes, à curiosidade dos olhos o gozo de estampas coloridas de um Velho Testamento – um grande livro largo que abríamos no chão, nós ao redor, a folheá-lo, página por página.

Ai! Doces estampas que eram, onde anoitecia o negror cetinoso dos cabelos fartos de Rute e andava, pela messe dourada das lavouras, a mancha clara das barbas longas de Abraão!...

Apoteoses de prazer, com estrídulos de chilreio alegre, aquele suceder de figuras e cores, de trigais e montanhas, de homens em túnica e mulheres sobraçando púcaros!... De repente eram os de Israel, por entre muralhas d´água, atravessando o solo areento de um mar talhado ao meio, guiados pelo vulto do velho profeta com os seus raios geniais à fronte, pasmando-nos, provocando dúvidas de que fossem chifres aquelas irradiações do seu espírito de previsão e de sabedoria! E mais adiante era, na vasta desolação de um deserto, a figura sofredora de Agar, a quem a Dulce, a caçula de todos nós, apontava logo com o dedinho gordo, a chamá-la Ari, que vinha a ser na algaravia silábica dos seus dois anos, a Maria Rita, a ama que a criara, a negra, em cujo seio amoroso e farto sugara, por meses, gulosa e linda, com a mãozinha sobre a teta e o botão da boca apinhado em beijo, toda a vida que ora corria-lhe escaldante nas veias.

Por um cerrar de noite – havia uivos lúgubres de vento nas casuarinas da chácara – a tia Martinha começara: – Era uma vez... E, de repente, quedou-se – os olhos abertos e a boca incerta... Sentados no chão, à sua frente, em semicírculo, olhavá-mo-la surpresos, esperando continuasse – as mãozinhas caídas ao colo e os nossos olhos pasmos nos seus olhinhos quietos...

A Dulce, para animá-la, sentindo-a tardar, tatibitou: – Ela u´a vez... Mas, a tia Martinha... Deus nosso!... Dali, de onde nos falava, ali se ficou como uma santa...

No dia seguinte levaram-na, no dia seguinte – ai! Que tristeza que foi!... em uma caixa negra, estreita, com galões dourados... Puseram-lhe flores por cima e, nós, beijos, no pano preto dos seus sapatos sem salto.

E de todos, a quem mais pungiu aquela ausência, em quem mais ficou a amargura daquele deixar, foi à Dulce – ela, então... para quem as bonitas histórias da tia Martinha não contentavam com uma só narração!... Queria que as contasse – e indicava o número, exigente, numa careta grácil de amuo, com os dedozinhos minúsculos abertos em ângulo: – Duza vez... Duza vez...

Por fim... foi-se também, a Dulce, um dia, na garra adunca da angina e na seda branca de um caixão pequeno... uma tarde triste, fria, de Ave-Maria triste – atrás, quem sabe? das bonitas histórias que a tia Martinha tinha levado... A querer ouvi-las ainda, a querer ainda, talvez, que lhas contasse, lá em cima: duza vez, a Dulce, duza vez...

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César Câmara de Lima Campos (1872-1929)
Pesquisa, transcrição e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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