domingo, 7 de julho de 2019

O Gato Negro (Conto), de Rocha Pombo



O Gato Negro

Desolado em minha sala, estava eu na hora das obsessões, o espírito muito para além, pela região dos problemas, bem longe do mundo e bem distante do bulício humano. Todo o movimento, todo o rumor cessara e a vida imergira na profundeza do seu sono. Quanto a coisas da terra, só me apercebo de que me vem lá de fora a impressão da alta noite, calma e solitária. A rua está deserta e numa grande mudez solene, a destacar-se no meu espírito como em contraste com a vertigem de poucas horas passadas.

Ainda assim, são fortes as emoções que me sugere a vasta solidão da noite. E é por isso que não tenho a coragem de maldizer o silêncio de necrópole que me chama lá das alturas em que anda meu espírito e que logo me absorve e me vence. Não posso imprecar... porque sinto que amo aquela escuridão.

Amiga suave e carinhosa das almas – noite sonhadora e amargurada! – tu és a imagem do mundo em que vive meu espírito. Pois que tu, noite amargurada, és o mistério que envolve a vida e tens no teu seio imenso, bem sensíveis, todas as dúvidas do universo moral. Tu és como o caos informe e indefinido de que vai sair daqui a instantes o prodígio da Criação, restituída à nossa ansiedade e ao nosso espanto.

Bendita a noite que nos faz novo o universo! Bendita a noite que me fecha de todo a alma no insondável escuro, onde erra meu espírito, à busca de signos indecisos e como se estivesse à espera de palavras augustas que vão ser faladas. A natureza está para mim numa atitude e numa pompa mística de cerimônia cultual. Há pouco em torno de mim havia tumultos e eu suspirava; havia todas as manifestações ruidosas da vida, e eu inquiria o destino numa sagrada ânsia de viver. E é só agora que meu coração se apercebe de que está no mundo onde se criou e em cujos paramos silenciosos tem vivido – mundo feito de sombras, de luares inefáveis, de horizontes sem limites como as voragens; mundo de seres intangíveis, de existências sem formas, de vultos sem contorno; mundo do vago extenso, da cor indefinida; mundo da nevoa, da solidão e do assombro – ideal paragem das almas a vagar ansiosos neste oceano do tempo...

A cidade dorme, exausta das azáfamas e só se ouve, de momento a momento, muito por longe a perder-se na distancia, o ladrido de cães como aviso de sentinelas que a vida postasse neste amplo solar simbólico do além, para impedir que seja tranquilo o sono dos que dormem... Ouve-se ainda o cantar de galos, cantar que anuncia ressurreições, que alarma todo o instinto heroico, mesmo nas criaturas vencidas... Dir-se-ia que no meio daquele sono trabalha uma dolorosa obsessão de vigília... e que aqueles ladridos e aqueles cantos destacam ainda mais o silêncio temeroso que impera sobre as almas como angustia desconhecida.

E imagino então que estou no meio de uma grande noite polar... Em torno de mim há uma natureza morta, ruínas desoladas de um mundo que passou, desertos infinitos eternamente sepultados na escuridão e na erma quietude que ficou de tudo que foi...

Mas é naquelas mesmas estâncias solitárias que a alma readquire o vigor antigo, e em vez de sentir a morte e o nada, vou procurando na imensidade gelada os vestígios da vida.

E como seria bela e grandiosa aquela noite sem fim! Que mistérios não desvendaria eu na mudez daquele escuro! Que problemas, que dramas, que heroísmos estranhos me segredaria aquele silêncio de noite polar!

Eu ia absorto nas profundezas do meu pensamento, quando sobre o peitoril da janela aberta ergue-se o vulto sinistro de um gato negro, enorme, imóvel, a fitar-me, como um duende vindo do mistério. Tive ímpetos de fugir, de buscar alguém que me falasse, alguma voz humana que me restituísse a minha consciência. Depois, estaquei. Veio-me à lembrança o corvo do poeta – a ave da desilusão, ave que sabe de todas as línguas apenas aquelas duas palavras que gelam as almas: – o nunca mais! apavorante e desesperador.

– Mas tu, gato negro, tu andas na superstição das pobres criaturas envolto sempre na ideia dos demônios. Dos animais que convivem com os homens, és tu aquele que mais os espanta, porque tu amas o escuro e o silêncio, tu és o animal da noite, e como animal da noite és o emblema do pecado e do crime. Se as almas piedosas te vissem pousar esse vulto cor da treva no alto de um sepulcro – as almas obumbradas se afastariam, porque tu não te cevas de cadáveres como as hienas, mas de almas como o remorso.

Quem sabe se tu não és mesmo a encarnação de gênios maus, de espíritos malditos, de agouros errantes, e se não andas de mundo em mundo como exilado impenitente, a perseguir almas, na insânia do teu castigo... E se esse fulgor que tens nos olhos é ainda um resto do antigo brilho que te ficou da bem-aventurança perdida – tu és mais do que as aves, porque mais do que as aves já amaste e hoje odeias mais do que as aves.

Vem, pois, dizer-me o que sabes da vida. Não te inquiro sobre as Leonoras que se foram; nem desejo saber o que as almas amam no céu: dize-me apenas se o inferno de onde vieste é mais horrível do que a terra. Dize-me se lá também há crimes e se os crimes lá chegam a ser monstruosos como aqui... Se os entes lá também detestam Deus e aborrecem os homens... Se tanto como aqui a perfídia, a soberba e a impiedade estão no seu império... Dize-me se as almas lá vivem também de perseguir as almas...

Imóvel, o monstro parecia ruminar a minha aflição.

– Mas ouve-me, gato negro. Nas lendas deste mundo, tu figuras como o disfarce preferido no inferno e sem duvida, esse conspeto e essa cor escondem alguma coisa da cidade do pranto e do ranger de dentes... Vem dizer-me se lá nas entranhas do Orco há também Neros e Denys; se há juízes que condenam inocentes e absolvem culpados; se há lá consciências capazes de criar Lesurques e Dreifus; se há lá Marats e Herbets e se a liberdade é horrenda como os feros Moloques daqui. Vem dizer-me, tu que vieste do inferno, se lá os bons também padecem e se o premio da virtude é também lá o martírio eterno...

Uma palavra tua é bastante, animal sinistro, êxul da danação. Conta-me se os demônios do inferno são piores que os demônios da terra... Se há lá maldade que chegue a profanar o sagrado e abusar da inocência... Dize-me se há lá monstros que sem tremer vão até... envenenar a esmola com que matam a fome... Ou então, se perdeste a lembrança dos horrores do inferno ao ver os horrores da terra – fala-me ao menos por gestos e dize-me como são os castigos do inferno... Dize-me se lá também se conhece um castigo chamado sonho... este castigo que põe as almas, sob o silêncio das noites, num grande estatelamento em face do céu, sem saber por que vieram, sem saber como vivem, sem saber por que suspiram...

Ante a imobilidade do bruto, fico mais aterrado e cada vez mais exausto. Um medo supersticioso começa a invadir-me o coração e sem me aperceber me vou erguendo. O animal, como se houvesse crescido, levanta mais a cabeça e me fita firme e quase hostil. Num supremo esforço, grito para o vulto, cuja silhueta se destaca enorme e monstruosa à luz do gás da rua:

– Mas então, se no teu mundo não é como aqui; se lá não se extingue nas almas a doce e triste piedade, dize-me ao menos se lá também se ama e se adora...

Um longo miau formidável me faz tremer e o bruto, dum salto, desaparece no infinito da noite.




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José Francisco da Rocha Pombo (1857—1933)
Pesquisa, transcrição e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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