domingo, 7 de julho de 2019

A Vitória (Conto), de Nestor Victor


A Vitória

E a obsessão não o deixava.

– Sim, como as mais!

Ah! ele vinha suficientemente batido dessas plagas! Nenhum amor tal qual o que se desejava, nenhuma mulher absolutamente leal. E nisso nada havia de estranho. O que apenas nos cumpria fazer era conservar-mo-nos sempre livres, para do alto da nossa serenidade as podermos perdoar.

Ela, no entanto, enlaçava-o no seu corpo de virgem, queimava-o com a boca de apaixonada, de tal modo que, fosse ao próprio mármore que abraçasse, no mármore intumescer-se-iam veias, nas veias correria sangue, e a pedra ficaria animada.

– Ah! por que não me amas? dizia com soluços na voz.

– Mas se eu te amo tanto!

– Não! ela sabia que não. Este movimento instintivo de repulsa, por mais que se queira aderência, quando a alma não nos acompanha na ação, ela instintivamente o percebia.

No entanto, que maldade era aquela? Que outro sacrifício ele pudera pedir além desses a que ela se entregara, tudo por aquele amor louco, que decidira para sempre de sua sorte? Os sacrifícios cessaram quando ele os achou suficientes. Ela vivia ainda porque ele não lhe pedira a vida, mas se no seu coração não existia amor, se nunca poderia existir, porque ele não lhe dera a felicidade de exigir-lhe aquela prova suprema antes que ela reconhecesse o medonho real?!

Contudo, meu Deus, ela o sabia tão honesto e fidalgo! Pois uma alma como a dele, alevantada e grande, uma alma como ela ainda não vira outra sobre a terra, acharia justo acordar da paz o pobre espírito de uma virgem, e arrastá-la consigo friamente, pelo simples capricho de vê-la prostrada a seus pés?!

Mas que loucura era essa? Condená-lo! Ele não arrastara a ninguém. Fora ela que o chamara e se interpusera no seu caminho sereno. E o que mais desejava? Pois não estava a seu lado, não podia agora ser para sempre sua escrava, feliz em sofrer todas as humilhações que dele viessem, porventura?

E aquele corpo de virgem tremia no ardor daquela loucura que lhe ia pelo sangue todo!

– Dize, por que não me amas?!

– Eu te amo tanto!

Sim, como as mais, refletia. Pois era possível que ele, ele! caísse ainda no abismo que lhe criasse uma mulher?!

Não tinham sido os seus amargos sofrimentos apenas. Há que tempos se lhe haviam esclarecido os olhos. E então que infinita imbecilidade ele achara nos homens! Quantas vezes não sorrira do ar tranquilo de um venturoso amante, a que ele próprio fizera a traição! E agora voltaria para essa ridícula fileira dos que creem, e viria a ser o brinco, o objeto de lástima ou de irrisão dos poucos sensatos que existem no mundo?!

Verdade era que desde que insensivelmente ele fora entrando por essa vida fútil das conquistas, a qual acabara por amortecer-lhe inteiramente a fé, nunca mais sentira um legítimo prazer por todo aquele caminho. Remorso e tédio!

Agora, por exemplo, ali tinha, junto a si, aquela criatura que, na necessidade de dar curso à paixão que lhe nascia do sangue moço, prendia-se a ele, exigindo por força um tributo, querendo a todo transe escravizá-lo. Relutasse ele pela liberdade e ali estava aquela mulher amanhã odiando-o mais do que hoje dizia amá-lo, sem nunca poder compreendê-lo. E não era só isso: aí estava ela perdida para essa sociedade hipócrita e má. Ele fizera de sedutor ignóbil.

O quanto, pois, lhe custavam aqueles beijos, que lhe pareciam, não obstante, de uma frialdade de beijos de morto, porque não acendiam o seu sangue, não lhe traziam a loucura e a cegueira, que o deixassem adormecer de amor!

Ah!... que raiva contra si próprio!... Como era fútil ainda aquele seu espírito? Não há duvida que ele era o culpado. Reconhecer o vácuo que havia naquilo, querer ser livre, e, no entanto, não se poder ainda furtar a esse vício baixo das estúpidas conquistas, ele, o eunuco psíquico, o impotente pelo coração, parecendo-se com esses velhos libidinosos, de olhar acendido quando a força já está extinta!

Ele não devia conhecer a vida, porque não nascera para as lutas deste mundo. Que bom se fosse como todos esses outros!

Não, concedia, não é que houvesse neles menos perspicácia. Mas é que não sentiam tão imperiosa esta necessidade de infinito, de absoluto, – infinito no amor, infinito na bondade, virtudes infinitas –, que ele sentia consigo. Esta era a sua enfermidade.

Enfermidade, sem! Eles é que eram os sadios. Tomavam a vida pelo seu lado melhor. "Mulheres, sois fracas? Temos pena de vós. Vos cercamos dos nossos cuidados, vos protegemos, nós os amantes com uma solicitude e uma vigilância paternais. Ah! nós sabemos que si não formos nós mesmos a desviar-vos do abismo, caireis, inevitavelmente. Ou já caístes nele porventura? Mas essa não é razão para vos abandonarmos com um injurioso desprezo para sempre. A vossa fraqueza orna-se de tantas virtudes! Entes pequenos, como sois grandes diante de nós! Sem o vosso amparo, de vós, as amparadas, o que havíamos de ser nós, os vossos protetores?" Pensavam assim. Não os condenava, porque eles é que estavam com a razão.

Mas por que essa ideia? Já não era aquele um sinal da vitória dela, – de mais esta! – sobre ele?

– Ama-me! Ama-me! Por que não me amas?

– Mas que maior amor tu queres?

– Ama-me! O que te falta? Eu sou tão moça! Tu não sabes? Ah! sabes muito bem, eu nunca fui de outro. Acordei da infância, fiz-me mulher para te amar. Eu nada sou, bem sei, diante de ti, mas ao menos tenho um coração muito bom. Desde criança eu fui tão feroz nas minhas paixões de menina, queria tão seriamente minha pobre mãe, que é morta, meus irmãos, que eram quase meus filhos, as flores que eu plantava, tudo a que eu dava um carinho e que me estava em redor, que muitas vezes vi minha mãe chorando, a beijar-me, com pena de mim. Pois bem, tudo isso lá se foi, meu coração cresceu, e agora só a ti pertence. Não sabes? eu sou moça, sou formosa, e estou nos teus braços! Ama-me! ama-me!

E os seus beijos tão fundos faziam círculos de fogo pelo corpo do amado.

Mas – nunca! nunca! – ele pensava. Beijos tais lhe pareciam de morto, porque, ele o estava vendo, não acendiam o seu sangue, não lhe traziam loucura nem cegueira para adormecê-lo no amor.

Contudo, não era bem assim como se esforçava por ver. O orgulhoso estoico tremia, querendo fazer calma por todo o seu ser. E, como ondas que andam sob outras ondas, debaixo daqueles pensamentos frios tumultuava um mundo de outros pensamentos de ordem diversa. O bom, o moço, o humano também falava.

– Mas por que, – ouvia-se lá no fundo, – por que excluir-me assim, a todo transe, dos prazeres da vida? Pois o que está na ordem natural nós podemos torcer? Onde se viu mocidade sem amor, e onde se viu um amor que não seja igual aos outros amores? Depois, esta não é como as mais, acrescentava embriagado e cego. E este não será como os outros! Ah! o nosso amor será infinito! O nosso amor, porque, – para que eu hei de negá-lo? Eu amo-a! amo-a!

E era verdade. Ele não representava o tipo cético e árido que acreditava ser. Ele era bom e nobre. Se andara em busca de conquistas fora por necessidade de afeto, e si arrastava essa moça àquele amor é que, sem saber, primeiro fora arrastado por ele.

No entanto, ia pensando:

– Nunca! nunca!

Mas se ouvia, ao mesmo tempo, lá no fundo:

– Ah! eu não me iludi! Acompanhei seus passos desde a infância. O que ela diz verdade. Eu vi aquele coração ir crescendo no seu lar honesto como uma arvore de saborosos pomos, sob um clima fino e propício, em terreno limpo e cuidado. E agora que os frutos pendem numa cheirosa sazão, a mim é que se oferecem, implorando-me para que os colha!

E uma vez que ela murmurava com um irresistível choro na voz:

– Ama-me! ama-me!

– Pois bem, ele soluçou com a boca na sua boca, eu amo-te, amo-te muito! Foi quando ela reconheceu, numa delícia celeste, que ele lhe tinha amor!

Aquele beijo era diferente dos outros. E vinha com um aperto no sabor tão particular que trouxe à memória dela um fato remoto. Ela recordou-se de outro beijo com este gosto que uma vez aquele rapaz a que ela criou tanta raiva lhe havia dado no caminho, apertando-a num abraço de estrangular.

E, cheia de uma delícia celeste, pensando sem querer naquele beijo ruim que recebera do outro, a quem, ignorava por que, há tanto tempo não via, ela adormeceu aos poucos nos braços do seu amor.

Ele, no entanto, agora, apertava aquele corpinho nos braços, perdido o orgulho, renascendo-lhe toda a fé, bêbedo e cego, no estado de um homem perfeitamente feliz...


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Nestor Victor dos Santos (1868-1932)
Pesquisa, transcrição e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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