domingo, 7 de julho de 2019

Gavita (Conto), de Nestor Victor


Gavita

Gavita!

Extraordinária criança!

Seus quinze anos são como os quinze degraus de ouro de um pedestal que ela levou a subir sorrindo – visão estranha, – adelgaçando-se melhor, definindo-se melhor, absurdamente, quanto mais subia. Foi como um encanto que, ansiando em si mesmo, forçasse e se fosse corporificando num encanto maior. Sorriso que se fizesse luz. Anjo, cujas vestes curtas, como ele ia subindo, desdobrassem-se em delgada túnica, e cujo perfil, afilando, afinando, se fizesse um perfil de mulher, para ser o de um anjo mais sedutor e mais meigo.

Quinze anos!

Graça melindrosa, que se vê e se teme, cheio de superstição, que é para os olhos o que é para a alma o seu nome tangível que parece um sonho, realidade que sacia de ideal.

Gavita!

Tê-la em casa, ser pai dessa criança, viver acompanhando-a com orgulho e com afeto, sorrindo, cheio de cuidados, que felicidade e que encanto!

Não!... Os dedos delgados de sua mãosinha aristocrática nem músicas difíceis vencem ao piano, que ela é descuidosa, adoravelmente irrequieta, incapaz dos graves e longos trabalhos que a Arte severa requer. Árias e barcarolas ligeiras, valsas vaporosas, apenas, é o que às vezes ela vai tirando meio ao de leve nas teclas, como um pássaro tira ardentias nas ondas com a ponta das asas, noctambulando pelo mar.

Nada lhe peçam de fatigante, nada que seja de algum modo grave, que requeira constância ou assento.

Ela sabe unicamente fazer encanto em redor. Roupas brancas, cobertas de rendas, cabelos louros em cachos frouxos e negligentes, perfil delicioso, grandes olhos azuis com raios de ouro, e um passo alado, de ave meio selvagem à beira de um rio.

A casa inteira ela é que a anima, é que a povoa, é que lhe dá alma, é que lhe imprime um modo de ser. Portas brancas com frisos de ouro, claros salões, tapeçarias vivas, moveis caros, ornatos, tudo, parece que tudo dela é que depende, que é a sua moldara, que tudo faz conjunto porque a tem como o seu centro essencial.

Ouvi-la falar! Garganta de ouro, acento de voz feminina, de uma seriedade encantadora, mas traindo-se, impagável, ainda com uns restos longínquos de tom infantil.

As ideias, ah! as ideias que ela emite, às vezes com ares meio graves, batendo levemente o leque fechado no braço de uma causeuse! Que ideias?! Se ela nada viu! nada viveu!... Passa-lhe o mundo através de finos stores, todo azul, como uma canção que se ouve de noite, ao longe, adivinhando-se que lá fora, tudo adormece sob os filtros do luar! Ideias... Modos de seu ser harmonioso e angélico, simplesmente, para que os ouvidos se encantem, como o perfume é um modo de ser da flor, dessa essência de delicadeza e frescura, para fazer a delícia do olfato.

Ela falar, ou ela rir... Músicas, músicas somente... Apenas, uma se deu ao luxo da letra, que, no entanto, nem se ouve, ficando-nos adormecida a razão, como a de um chim opiado, a imaginativa batendo asas para um mundo de vaporosos coloridos, em sonho.

Gavita!

No entanto, de um dia para outro, houve uma transfiguração nesta criança.

Um baby, muito louro, carnes que parecem rosas, forte e sadio, menino de que ela é titia, que levou a batizar, muito séria em seu papel de madrinha, o baby enfermou.

Toda a casa emudeceu agora. Assim deve ficar o céu, quando os anjos estejam em rezas mentais.

Os passos alados dela são hoje, de tão leves, de tão cautos, sombras apenas de seus passos, vívidos e musicais ainda ontem.

Ela tem nas faces as rosas pálidas da vigília, como uma doce enfermeira.

Porque passou em vigília, insistente, toda a noite, em verdade.

A doença veio abruptamente, assustadora e dominante. Nem pôde emagrecer, o baby! Parece que a morte quer arrebatá-lo, quer atirar-lhe o pequenino cadáver à sepultura assim mesmo, de carnes viçosas, como se a terra lhe houvesse pedido um grande punhado de pétalas vivamente fragrantes.

Mas, à violência do mal, ela, a descuidosa menina de há pouco, começou a opor, na mesma hora, a fragilidade da sua imprevista dedicação, confiada, com uma serenidade estranha, de entes que conversam com o além.

Vai a moléstia sem curso, ora causando desfalecimentos em torno, ora permitindo vago bruxulear de esperanças, para serem maiores os desesperos daí a pouco, como se aquela pobre criaturinha estivesse fazendo uma viajem absurda, puxada por árdida e desorientada parelha, sobre despenhadeiros, olhos ansiosos a acompanharem-lhe o impossível trajeto.

A enfermeira persiste. Todos vêm agora. Não foi um modo de ser da sua volubilidade costumada aquele novo aspeto sob que ela se apresentou de improviso.

Ela espera a saúde do pequeno enfermo, serena, silenciosa e séria, à cabeceira do berço rendado, com a confiança de quem aguarda um outro que lhe prometeu voltar.

Todos olham-se entre si, emocionados. Sobre a cabeça da menina de há tão pouco parece que fulge o resplendor de uma santa. Na serenidade que lhe inunda o semblante já não se lê a feliz despreocupação de seus dias risonhos, lê-se a fé, essa rosa mística que só viceja nos corações fecundados pela dor. Desta, como do casulo sai a borboleta, saíra mais aquela mulher. No anjo, em que a adolescência ainda não marcara bem firme os seus traços, havia agora revérberos de maternidade.

Gavita!

Ela fazia hoje pensar nos processos estranhos do poema da vida. Seres aéreos aí vêm dançando, pouco a pouco visíveis, como quem vem de outros mundos, aproximando-se lentos, ao som de bandolins e cítaras, – figuras vaporosas em paisagens de fundas perspectivas risonhas. Parece que todo o mundo é uma festa, que a vida é uma simples e deliciosa canção. No entanto, muitas vezes estas baiadeiras, tão graciosas nos vórtices, são também as que sabem ter mais graça, profundamente emocionantes, o receber de mãos ignotas, com um leve inclinar de cabeça, daí a momentos, quando de súbito o cenário se transforma, viçosas e pesadas coroas de mártires.

Entre os da família, porem, às vezes aparecia um rapaz e desaparecia momentos depois. Quando todos, alternativamente, olhavam o doente, transidos, e a enfermeira heroína, cheios de respeito, ele vagueava os olhos distraidamente e esgueirava-se, com aparência fria, caminhando nervoso para longe do quarto.

Conversas a meia voz pelos outros compartimentos da casa, misturadas de condolência pelo pequenino enfermo, de enternecimento e adoração pelo anjo que o estava conquistando à morte. E ele as ouvia com o íntimo sorriso de um desdenhoso, a língua presa, como se tivesse o coração gelado.

Quando, no entanto, a doce enfermeira, atarefada com os seus misteres, passando, por acaso o vislumbrava, tinha para ele um sorriso familiar, como de alma desprevenida e simples. Eles eram primos; certamente que deviam ser amigos.

Mas como que o rapaz divergia deste parecer. Aquela meiga criatura parecia cansar-lhe ódios; dir-se-ia que a santidade, então, deste devotamento agora, por uma criança quase moribunda, o enfurecia por extremo.

Não. No pensar dele tudo aquilo era dissimulação simplesmente, para poder tratá-lo, como estava tratando, com indiferença ainda maior. Pequenino coração de bronze é o que ela tinha... Pois se podia sustentar na sua presença o mais completo desembaraço, rir-se franca, ser tão livre nas suas ações, quando ele quase morria, fremente, silencioso, se estava a seu lado!...

Ingenuidade, despreocupação infantil? Não era. Havia um outro que lhe impressionava o espírito. Em verdade, também não parecia alimentar por este uma paixão profunda. Quem ama fortemente, ele raciocinava, não tem aquele ar aéreo e descuidoso, não anda como um pássaro a gorjear todo o dia.

Mas ao menos por esse outro, pensava, não tinha tamanho desdém. Valsavam juntos duas valsas seguidas, ela não o perdia de vista se ele andava em volteios com outro par, às vezes o esperava à sacada, de tarde, eram em tudo muito diferentes as aparências.

E por quê?

Parente, amado por outras, digno em todos os pontos, moço, decerto que menos feio do que tantos, do que esse próprio que era o predileto, por que merecer tanto desdém?

Ah! é que ela o sabia apaixonado à séria. Um ano de decepções e martírios!...

Vaidosa tontinha, sem coração humano no peito... Comédia, simples comédia isso com que ela andava agora deixando embasbacada a casa inteira!...

Não! Ele estava resolvido! Ia abandoná-la de uma vez!...

No entanto, alguns dias depois ao desse protesto voltou.

Malgrado seu, sob esse novo aspeto, no íntimo ela o seduzia ainda mais. Era agora aos seus olhos um tipo definido das companheiras com que os homens andam a sonhar na vida. Embora ele desdenhasse, amargo, daquela devotação imprevista, acreditava nela mais do que ninguém, em luta consigo mesmo, na inconsequência dos corações onde a paixão, como uma tempestade, domina.

– Mas não está aí, nesse sacrifício por uma criança, a prova tão clara da sua natureza afetiva? ele interrogava, para dar-se a si mesmo uma esperança qualquer.

Nesse dia em que voltou entregou-lhe tremulo uma carta coberta de queixas.

– Quem sabe? agora que ela é toda emoção, talvez compreenda a crueldade que tem tido até hoje, ele pensou.

Aquela carta era a terceira que o desespero lhe dera coragem de arrancar a um livro feito de inúmeras outras, pois ele vivia a escrever, enchendo o tempo inteiro com aquele amor. Que palpitações de coração, porém, que negras conjecturas, que tão grandes acanhamentos infantis, que covardia horrível, quando ele se propunha a entregar-lhe-ás! Por fim, soluçantes, elas iam enchendo-lhe a pasta, na melancolia contristadora das coisas cujo destino falhou.

O baby, afinal, estava livre do maior perigo. Instada pela casa inteira, Gavita pela primeira vez recolheu-se essa noite ao seu aposento para um repouso normal. Deitou-se; mas, antes de fechar os olhos, veio-lhe à memória a carta do primo. Ainda não tivera ocasião de a ler. Sorriu-se, fazendo nas faces duas adoráveis covinhas.

– Ora o primo!... ela disse baixinho.

Veio-lhe vontade de levantar-se para apanhar o papel... Mas o sono era tanto!...

– Está bem, resolveu, amanhã cedo hei de ler.

E, um meio sorriso nos lábios, como se estivesse conversando com os anjos, daí a momentos adormeceu, num sono profundo e tranquilo.

De manhã realizou o prometido... Mas, quantas cartas viessem, tudo seria completamente inútil. Essa por quem o rapaz andava tão perdido de amores sorria ao recebê-las, lendo-as sorria, e continuava a sorrir todo o dia, como se aquelas linhas não lhe dissessem respeito.

Ela, na sua ingenuidade, achava o primo tão esquisito, tão diferente dos outros rapazes! Ele nunca lhe falara com efusão, não a encarava de frente, andava sempre pelos cantos, como se fosse um maníaco... As cartas... ela nem as entendia direito... Eram tão cheias de ideias! Por que será que ele não escreve mais claro? perguntava. Recebia-as... nem sabia porque... ora!... qualquer dia o primo se resolvia a esquecê-la, assentava afinal, atirando a cabecinha loura para traz, e com este gracioso gesto dava um curso diferente às ideias...

Gavita!

Mas, em vez de esquecer, o rapaz foi caindo num desespero maior, tanto que duas novas cartas já tinham vindo, e agora chegava a terceira, entregue por alguém que fugira antes da menina ter tempo de devolver o papel.

Se as outras jamais a haviam preocupado seriamente, muito menos esta, naquele dia extraordinário em que estavam. Já se restabelecera, e hoje fazia anos, o baby.

Gavita radiava. Voltara-lhe toda aquela graça de pássaro meio selvagem. A casa inteira acordara com a sua ruidosa alegria, como de madrugada, com o passaredo, a floresta.

Enchiam-se os compartimentos de parentes e de amigos. Ninguém das relações quereria estar ausente a esta festa. Uma exceção apenas quem atentasse, notaria que faltava, para tomar um lugar à mesa, aquele primo enamorado que ainda de manhã escrevera.

Gavita não parecia dar por tal. Era pouco impressionável, felizmente. Ao contrario, talvez não tivesse o coração em completo repouso, porque, nessas últimas linhas, por modos indiretos, – a tinta toda diluída por lágrimas, – ele dizia uma espécie de adeus, falava numa desgraça iminente.

Gavita!



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Nestor Víctor dos Santos (1868-1932) 
Pesquisa, transcrição e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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